quinta-feira, 28 de abril de 2016

Você já se decepcionou com um livro?


Para quem gosta tanto de literatura como eu, é um sentimento muito desconfortável, como uma pedra no sapato, porque você cria toda uma expectativa em torno do livro, principalmente, quando se trata de uma obra consagrada sobre a qual você já ouviu muitos elogios. Então você vai lendo e lendo, esperando pelo ápice, esperando algo mais, esperando encontrar a resposta para o enigma da esfinge, esperando Godot... quando o livro acaba você pensa: o que há de errado comigo?  

Sim, porque se você é amante da literatura, não colocará a culpa no livro, a culpa é sua: você é um insensível, um energúmeno, um abominável homem das neves, uma criatura que deveria fazer companhia ao monstro do lago Ness, que deveria sumir no Coração das Trevas!

Pronto, falei! Agora já era...

Condenem-me, mas eu não senti algo mágico ou místico ao ler esse livro, na verdade eu senti algo mais próximo do tédio. Devo estar sendo injusta, mas estou sendo sincera e acreditem: dói mais a mim dizer isso que a vocês ouvi-lo.

A trama é simples: Marlow é capitão de um pequeno vapor de uma companhia europeia, e recebe a missão de adentrar na selva africana para resgatar Kurtz, um agente comercial de marfim que está doente, correndo risco de vida (antes que alguém me repreenda, ele está correndo o risco de “perder” a vida, tudo bem?).

O tal Kurtz é o último biscoito do pacote: o bam-bam-bam do marfim, é um grande explorador que obteve muito sucesso em sua atividade e que desenvolveu uma imagem mitificada e ambígua: despertando admiração e inveja. Sua ambição por alcançar o poder o leva a cometer excessos e atrocidades, subjugando os nativos, que o temem e adoram como uma divindade.  Ao lutar contra as limitações impostas pela natureza, Kurtz se distancia cada vez mais dos valores da civilização e da sociedade.

A narrativa adquire um caráter simbólico e psicológico, em que Marlow se sente na obrigação de cumprir sua missão, e principalmente, de testemunhar a existência de Kurtz.

Acho que o que me incomodou neste livro foi que não senti empatia pelo narrador-personagem Marlow. Ele me pareceu asséptico, não emite julgamentos de valor, não demonstra seus sentimentos, não é idealista, parece estar sempre em cima do muro, ele quer apenas cumprir sua missão e deixar tudo para trás o mais rápido possível. Não senti uma compaixão legítima de sua parte pelos nativos subjugados, não reage diante da barbárie, pareceu-me uma personagem ambígua e apática.

Concordo com alguns comentários que li que acreditam que a viagem é uma espécie de simbologia e que a verdadeira ambição de Marlow seria conhecer a si mesmo, pois parece que ele se encontra num estado letárgico, numa espécie de bruma que não lhe permite ver as coisas com clareza, nesse sentido, a simbologia das trevas cairia como uma luva.

Acho que assim como Kurtz, o livro superou sua materialidade e se transformou numa espécie de mito em que os diálogos, análises e reflexões que se desenvolveram a partir dele superam a trama original. Ainda não assisti o filme Apocalipse Now, inspirado no livro. Pretendo fazê-lo. Quem sabe assim eu mude meus conceitos?

P.S.: quando estava revisando o texto, percebi que havia escrito que Kurtz era “o último pacote do biscoito” ;-)

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