Tradução de espanhol. Diana Margarita. Blog sobre tradução, tradução de espanhol, gramática, literatura, cultura e entretenimento.
domingo, 19 de outubro de 2014
II Encontro de Tradução de Espanhol do Rio de Janeiro
Clique aqui para acessar a página no Facebook
06/11/2014, das 8h30min às 17h, na
Universidade Federal Fluminense,
Campus Gragoatá, Blocos B e C,
Niterói, RJ.
Inscrições abertas!
Envie seu nome completo e data de nascimento para
o e-mail:
encontrodetraducao.espanholrj@gmail
Destaque para a palestra de abertura com o
professor e tradutor, Carlos Nougué.
Outras participações confirmadas:
Minicurso "Estratégias de tradução: estrangeirizar
e/ou domesticar?" oferecido pela Carolina Paganine
Larissa Magalhães Costa também falará um pouco
mais sobre a Audiodescrição.
Não percam!!!
quinta-feira, 16 de outubro de 2014
O que fazer ao deparar com um texto "cabeludo"
Você já deve, em algum momento, ter deparado
com um texto “cabeludo” ao estilo garoto-propaganda da Friboi… Quando digo “texto
cabeludo”, refiro-me àquele tipo de texto intrincado, confuso e embaraçado, cujo significado é impossível “descriptografar”. E não venham me dizer que o bom tradutor tem a obrigação de
desvendar as intenções do autor, porque há textos cabeludos que nem Nostradamus
conseguiria decifrar. Tradutor tem bola de cristal?
Afinal, é melhor rechaçar um texto cabeludo que correr o risco de, ao tentar traduzi-lo, perder os cabelos.
Para começar, a interpretação é
apenas um dos aspectos textuais, porque o texto é como nossa pele: composto de
várias camadas. Seguindo a analogia da pele, a camada mais superficial, ou seja a "epiderme" do texto
corresponderia à forma, à letra; isto é, aos elementos
mais evidentes, tais como: ortografia, pontuação, concordância, regência, sintaxe,
terminologia, etc. O tradutor deve cuidar bem da “epiderme” do texto, eliminando
as “células mortas”, os indesejáveis “pelos” (que falta faz aqui o acento
diacrítico!) e outras impurezas que comprometam a aparência textual.
A seguir, encontra-se a derme, que
por sua vez, subdivide-se em duas camadas: a camada papilar e a camada
reticular. A camada papilar, camada logo abaixo da epiderme, possui
projeções que se encaixam na epiderme. Seguindo a analogia, a “camada papilar”
do texto corresponderia à estruturação textual: a divisão dos parágrafos e a forma
como eles se encadeiam, os mecanismos de coesão, as referências (dêixis), etc.
A
camada reticular é a camada mais espessa da pele e é constituída por tecido
conjuntivo mais denso; logo, mais difícil de penetrar. A “camada reticular” do
texto corresponderia à significação e à intertextualidade. Não vou discorrer aqui
sobre como se dá o processo de interpretação. Evidentemente, a tradução envolve
interpretação. Entretanto, apesar de esta ser uma atividade subjetiva, há um
limite. Há quem afirme inclusive que as possibilidades de interpretação são
infinitas. Mas isso significa que qualquer interpretação é válida?
O tradutor não pode entrar na cabeça
do autor para descobrir suas intenções, por isso ele deve ter como parâmetro a
literalidade do texto. Estou falando aqui de textos informativos, em que
predomina a linguagem denotativa. Nos textos literários, a questão é bem mais
complexa devido à própria natureza do texto literário, onde a linguagem
extrapola o sentido comum.
Quando digo que o tradutor deve
ater-se à literalidade do texto, refiro-me a que ele deve traduzir, por
exemplo, “paloma blanca” ou “white dove” ao português como “pomba branca” e não
por “paz”, porque aí ele já estaria entrando no terreno arriscado e movediço da
metáfora. Uma sobreinterpretação é
aquela que não respeita os princípios de economia textual. Um exemplo,
fornecido por Umberto Eco, seria a tentativa de se atribuir ao termo “gay” na
frase de Wordsworth, “A poet could not but be gay”, uma conotação
sexual. Agir assim seria desrespeitar o mundo possível da obra e o sistema lexical
de seu tempo.
Por último, abaixo da derme,
encontramos o tecido subcutâneo, conhecido também como tecido adiposo. Em
outras palavras, o “tecido adiposo”, ou seja, a gordura do texto, corresponderia a tudo
aquilo que sobra no texto e obscurece seu significado. Devemos cuidar para que
o texto final seja enxuto.
Mas
voltando à questão inicial “O que fazer ao deparar com um texto cabeludo”? Eu
diria que se os problemas se restringirem às camadas mais externas do texto, ainda será possível realizar a tradução, desde que se obtenha a autorização prévia do autor
ou gerente do projeto para “depilar” o texto “cabeludo”, acordando antecipadamente o valor deste serviço, é claro.
Porém se o problema se encontrar na camada da significação, aí o problema é mais grave: é “pelo encravado”. Eu
recomendaria negar o trabalho, já que o texto final será atribuído ao tradutor. Afinal, é melhor rechaçar um texto cabeludo que correr o risco de, ao tentar traduzi-lo, perder os cabelos.
terça-feira, 14 de outubro de 2014
Mais de um / Um dos que
Eis duas expressões que costumam dar muita dor de cabeça na
hora de fazer a concordância verbal.
Embora denote pluralidade, “mais de um” exige, de regra, o verbo no singular:
Mais de um
político não se reelegeu.
Se, porém, a expressão vier repetida, usar-se-á o verbo no plural:
Mais de um
deputado e mais de um senador não se reelegeram.
No plural também concordará o verbo que exprimir
reciprocidade:
Mais de um dos
circunstantes se entreolharam com
espanto.
Mais de um sobrevivente
se abraçaram chorando.
E se houver um numeral acompanhando a expressão mais de um?
Mais de um milhão assistiu
ou assistiram ao show?
Na frase apresentada, o numeral que acompanha a expressão mais
de é um, que, obviamente, é singular. O verbo deverá, portanto,
ficar no singular:
Mais de um milhão assistiu ao show.
Observe:
Mais de um milhão e meio de votos rendeu ou renderam novo mandato ao candidato?
Primeiramente, qual é o sujeito da frase?
Mais de um milhão e meio de votos
Neste caso, há duas concordâncias possíveis:
- Ou o verbo concorda com o núcleo do sujeito “um milhão e meio”, e nesse caso o verbo fica no singular por o numeral não chega a “dois milhões”. Mais de um milhão e meio de votos rendeu novo mandato ao candidato.
- Ou o verbo concorda por atração com o adjunto adnominal “de votos”, e nesse caso o verbo vai para o plural. Mais de um milhão e meio de votos renderam novo mandato ao candidato
Cada construção atribui um diferente matiz de significação.
Quando se utiliza o verbo no singular, salienta-se o conjunto, o coletivo, o
todo (que é o sujeito “um milhão e meio”); quando no plural, evidenciam-se os
elementos que constituem o todo (que é o adjunto adnominal “de votos”).
Agora, preste
atenção à seguinte construção:
Mandato limpo e humor rendem mais de um milhão de votos para Tiririca.
Veja que no exemplo acima a expressão mais
de um milhão não é sujeito da oração, mas objeto direto. O verbo está no
plural porque concorda com o sujeito composto “Mandato limpo e humor”
Um dos que
A sequência um dos
que pede concordância do verbo no plural:
O economista cidadão de Bangladesh foi um dos que ganharam o prêmio
Nobel da Paz de
2006 com seu empenho em dar microcréditos aos necessitados.
Por que o verbo deve concordar no plural? Porque o sujeito é
“os que”. Da mesma forma que dizemos
“Os que ganharam o prêmio Nobel…”, devemos
dizer “Um dos que ganharam o prêmio
Nobel…”.
Deixa-se, contudo o verbo no singular quando este se aplica
apenas ao ser de que se fala:
Santos Dumont foi um
dos brasileiros que inventou o
aeroplano.
O Amazonas é um dos
rios de maior volume de água.
Entretanto, condenando o artificialismo de tal construção,
Salomão Serebrenick, em seu livro 70 segredos da língua portuguesa, observa,
com razão, que esses e outros exemplos similares devem ser redigidos de outra
forma:
O brasileiro Santos Dumont inventou o aeroplano.
O Amazonas é o rio de maior volume de água.
O mais acertado é, portanto, usar no plural o verbo da
oração adjetiva restritiva:
Aquele país é um dos
que mais investem em educação.
Ronaldinho foi um dos
jogadores que ficaram no banco de reservas.
quarta-feira, 8 de outubro de 2014
Pérolas reflexivas
É isso aí, meus queridos leitores,
estava faltando inspiração para a coluna pérolas reflexivas, mas basta
uma sinapse, ou seja, basta com que a
atividade elétrica de um neurônio, distribuída por seu axônio, se espalhe
diretamente a neurônios vizinhos para que uma lampadinha se acenda! Já dizia o velho poeta que a inspiração é como uma espinha que aparece nos momentos mais inesperados...
E nesse momento é preciso correr
atrás de um papel e lápis, quer dizer, é preciso abrir um documento novo e
teclar rapidinho tudo aquilo que os bichinhos elétricos estão produzindo antes
que a lâmpada queime.
Pois então, não sei como nem por que, comecei a
pensar em perspectivas, relatividade, e na diferença que uma simples letrinha
pode fazer na comunicação. Você duvida?
Proponho o seguinte teste: envie um e-mail
a todos seus contatos convidando-os para um “jantar requintado” em sua casa, e peça
para eles confirmarem a presença. Aguarde alguns minutos e verifique sua caixa
de entrada… A seguir envie o mesmo convite, mudando apenas uma letra e convide-os
para um “jantar requentado”… espere alguns minutos e verifique sua caixa de
entrada…
Outra coisa, você é daqueles que não
sente o mínimo remorso em comer os acentos das palavras? Observe o seguinte
título de um respeitável estudo acadêmico “Evolução biológica dos cágados na
Ilha dos Galápagos”. Agora experimente tirar o acento do quelônio para ver o
que acontece… Onde iria parar a reputação desse distraído pesquisador?
E se você é daqueles que acha que
tanto faz usar voz passiva ou voz ativa, saiba que não é a mesma coisa “possuir”
que “ser possuído”, pergunte-o a um exorcista!
Por hoje é só, pois a luz já está ficando
fraquinha…
terça-feira, 7 de outubro de 2014
Particularidades do uso das porcentagens em espanhol
Enquanto que no português não se usa artigo diante de porcentagens, em espanhol, é correto usar artigo definido ou indefinido diante de porcentagens. Veja o exemplo abaixo, extraído de um artigo da publicação on-line do jornal El país. O texto fala do resultado da votação presidencial no Brasil:
“Rousseff, con el 93,5% de los votos contabilizados, obtiene un 41,08% de las papeletas. Neves, en una remontada inesperada y chocante, consigue un 34,2%. Silva, que se hunde paralelamente al ascenso de su rival, queda eliminada con un 21,14%. La abstención fue del 19%. A principios de septiembre, Aécio Neves, dado por descartado por casi todo el mundo, se arrastraba con un 14%.”
Segundo a Nueva gramática de la lengua española, das Academias da Língua, o emprego dos artigos el ou un é indiferente na maioria dos contextos, embora o primeiro seja o único possível quando se apresenta o resultado de um cálculo, como em: “El veinte por ciento de diez es dos” (e não “Un veinte por cierto de diez es dos”).
Portanto as duas formas: un 20% e el 20% são corretas e significam a mesma coisa, embora a primeira forma seja mais empregada em relação à economia “La inflación anual fue de un 4%”, e a segunda forma seja mais usada nos demais contextos “El 23 % de los alumnos há obtenido la nota máxima”.
Enquanto na Espanha costuma usar-se o artigo diante das porcentagens, na América Hispânica é comum o uso sem o artículo: “Quince por ciento de la población”.
Segundo o Diccionario Panhispánico de Dudas (o
DPD), quando as porcentagens estão seguidas de um nome que designa uma
pluralidade de seres, normalmente esse nome ficará no plural; “da el ejemplo el
diez por ciento de los votantes”. Quando não indica pluralidade de seres,
usa-se o nome no singular: “el 10% del agua embalsada”.
Se o substantivo estiver no plural, o verbo pode
ficar no singular ou no plural, podendo concordar com a porcentagem ou com o
substantivo, normalmente concorda com o plural: “El 7% de la población
declaró/declararon estar de acuerdo con la medida”. Se o substantivo estiver no
singular, o verbo ficará no singular: “En las últimas elecciones votó el 90% de
la población”. Com verbos como ser, emprega-se o plural: “Aproximadamente un 78%
de las palabras españolas son de origen latina”.
Para expressar porcentagens até dez é comum alternar
o emprego de cifras ou palavras na indicação das porcentagens: “El 3% (ou tres
por ciento) de los entrevistados estaba de acuerdo con la medida adoptada”. O
símbolo % deve ser lido sempre como “por ciento”, salvo no caso de 100%, que pode
expressar-se de três formas: cien por cien, cien por ciento ou ciento por
ciento. As porcentagens superiores a dez devem expressar-se por cifras: “En las
últimas elecciones votó el 84% de la población”.
Não se deve deixar espaço
entre o número e o símbolo % e não se deve usar o símbolo quando a porcentagem
é expressa com palavras (el tres %).
sexta-feira, 3 de outubro de 2014
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