quarta-feira, 19 de julho de 2017

Meu perfil literário

Hoje eu gostaria de compartilhar com vocês meu perfil literário, se é que se podem chamar assim os gêneros e tipos de livros que fazem minha cabeça e meu <3. Acho que para desfrutar de uma boa leitura, como de tudo na vida, é preciso um equilíbrio entre razão e emoção. Se racionalizamos demais, perdemos a poesia; por outro lado, se nos deixamos levar somente pela emoção, corremos o risco de cair na pieguice, em impressões superficiais que não passam de “gostei” ou “não gostei”.

É claro que não há como evitar a empatia, que segundo o Houaiss é a “capacidade de projetar a personalidade de alguém num objeto, de forma que este pareça como que impregnado dela”, ou seja, é inevitável que procuremos identificar-nos na obra que lemos, que nos coloquemos no lugar do narrador e das personagens, isso é ótimo, mas acho que ganhamos mais quando conseguimos extrapolar essa intimidade e acompanhá-la de uma leitura crítica, procurando conexões com a realidade, com outras obras, analisar a parte estética, a forma como se desenvolve a narrativa, a perspectiva, o ritmo... enfim, há muito que apreciar num bom livro.

Sou uma leitora meticulosa, chata até, gosto de ler tudo: a capa, a contracapa, as orelhas, as informações sobre a edição e impressão, quem traduziu, quem editou, quem fez a capa, eu gosto de saber mais sobre os bastidores por trás da publicação de um livro. Gosto de ler o prefácio, as notas de rodapé, tim-tim por tim-tim... E quando o livro me envolve, vou além, procuro as resenhas críticas, as conexões com outras obras, a biografia do autor, informações do tradutor, eu gosto disso tudo!

Comecei a ler quando era ainda muito pequena e, sem dúvida alguma, minha mãe foi a grande responsável por essa paixão. Ela me alfabetizou. Comecei lendo os clássicos contos de fadas dos irmãos Grimm e Hans Christian Andersen, também adorava gibis: Tio Patinhas, Pato Donald, Turma da Mônica, Mortadelo y Filemón, Condorito, etc. Mas o livro que mais mexeu comigo foi um livro de Oscar Wilde, que minha mãe me deu de presente quando eu tinha uns nove anos, e que reunia contos como “O príncipe feliz”, “O gigante egoísta”, “O rouxinol e a rosa”, “O aniversário da infanta”, são alguns dos que me lembro. Quando eu lia esses contos eu sentia uma inquietação, porque eram histórias tão bonitas, mas profundamente tristes, bem diferentes daquelas histórias de contos de fadas em que todos viviam felizes para sempre. Reli esses contos dezenas de vezes, e gostava de lê-los para minha irmã menor, porque tinham um tom sombrio e tenebroso que eu adorava.

Bem mais tarde, já na faculdade, ao ler o prefácio de Cromwell, de Vitor Hugo, Do grotesco e do sublime, pude entender melhor esse fascínio da fusão entre o belo e o feio.

Para não estender-me demais, deixarei que minhas leituras falem por mim.

Tenho uma queda por...

... clássicos!

Adoro clássicos simplesmente porque são a cereja do bolo, nada é clássico por acaso, as coisas se tornam clássicas porque marcam época, revolucionam, quebram paradigmas, sobressaem...

Meus clássicos preferidos

Em primeiro lugar, sem dúvida, Dom Quixote. Acho que se há uma obra que abrange a literatura universal é essa, porque além de despertar a reflexão para os valores humanos essenciais como a liberdade e a justiça, é pai e mãe do romance moderno, ali estão reunidos muitos tópicos de teoria literária como a intertextualidade, o diálogo com o leitor, Cervantes se move com muita destreza pelo terreno da metaliteratura, ele faz literatura sobre a literatura, ele deixa a ficção escancarada ao leitor, o que é muito interessante. Além de ser um livro carregado de ironia, sarcasmo, reflexão, e muitas aventuras.

Outros clássicos que estão entre meus preferidos: A Metamorfose, de Kafka; Madame Bovary, de Flaubert; O Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson; As Flores do Mal, de Baudelaire; O Apanhador no Campo de Centeio, de J. D. Salinger; as obras de Machado de Assis e de Jorge Luis Borges.

Livros que me emocionaram

O Sol Nasce para Todos, de Harper Lee; O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint´Exupéry; O Retrato de Doryan Gray, de Oscar Wilde, e seus contos, como comentei acima; La Ciudad y los Perros, de Mario Vargas Llosa; As Meninas, de Lígia Fagundes Telles; Los Santos Inocentes e El camino, de Miguel Delibes; A Legião Estrangeira, de Clarice Lispector; Lavoura Arcaica, de Raduam Nassar.

Livros que me fisgaram

Travesuras de la niña mala, de Mario Vargas Llosa; La sombra del viento, de Carlos Ruiz Zafón; Os Mentirosos, de Emilie Lockhart; La chica del tren, de Paula Hawkings, de Quando finalmente voltará a ser como nunca foi, de Joachim Meyerhoff.

Livros que me intrigaram

Frankestein, de Mary Shelley; A ilha do Dr. Moureau, de H.G. Wells; La invención de Morel, de Adolfo Bioy Casares; Laranja Mecânica, de Anthony Burgess.

Contos que me fascinaram

Todos os de Edgar Allan Poe; os de Oscar Wilde; de Julio Cortázar; de Machado de Assis; de Moacir Sclyar; de Clarice Lispector; de Jorge Luis Borges; O homem de areia, de E.T.A. Hoffman; La muñeca reina, de Carlos Fuentes; El ahogado más hermoso del mundo, de Gabriel García Marques.

Leituras que me decepcionaram

Algumas obras, apesar de toda a fama e do prestígio que carregam, não corresponderam às minhas expectativas. Macunaíma, de Carlos Drummond de Andrade, li-o duas vezes; da primeira, até que gostei, porque foi no ensino médio e encarei de uma forma mais lúdica; da segunda, achei muito enfadonho e não gostei da imagem que faz do brasileiro como herói sem nenhum caráter; O Coração das Trevas, de Joseph Conrad, deixou-me frustrada pois não senti a mínima empatia pelo protagonista, talvez algum dia eu tente lê-lo novamente; Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Marques, achei muito maçante as eternas repetições de geração para geração, tem muitas passagens bonitas e poéticas, mas não fluiu, não foi uma leitura prazerosa; e finalmente Vá, coloque um vigia, de Harper Lee, que seria a continuação de O Sol Nasce para Todos e que como um balde de água fria transforma a esperança e o ideal de justiça do primeiro livro em cinismo e hipocrisia.

Quanto ao meu hábito de leitura

Ultimamente prefiro ler livros em formato digital a lê-los em papel, habituei-me ao Kindle, é leve, coloco uma fonte bem grande, porque como trabalho o dia inteiro no computador, tenho a vista cansada. O livro eletrônico também economiza espaço físico, fico pensando no espaço que ocupariam os mais de cem livros que tenho no dispositivo... O recurso que mais me agrada na leitura digital é a facilidade de colocar o dedo sobre uma palavra e poder ver seu significado no dicionário. Esse recurso é perfeito para mim, porque me incomoda profundamente seguir adiante sem saber o significado de alguma palavra, então nada mais prático que isso. O único “defeito” é que despertou um pouco meu lado consumista, tenho de me segurar para não sair comprando livros feito doida, porque é muito fácil, é só clicar no botãozinho “comprar com 1 click” e, em alguns segundos, já está lá no dispositivo. O resultado disso é um montão de livros e a indecisão sobre qual será a próxima leitura.

Leio praticamente o dia inteiro, mas não livros, textos na internet, um link leva a outro, que leva a outro, fico pesquisando assuntos da área de tradução, visitando os blogs de colegas da área, pesquisando terminologia, mas quanto aos livros mesmo, leio quando posso, geralmente à noite, após o trabalho, ou após o almoço, bem menos do que eu gostaria, é verdade, mas nem só de leitura vive o homem.

Minha leitura atual?

Por quem dobram os sinos, de Ernest Hemingway.

Qual será a próxima?

E agora? Essa pergunta é muito difícil, passo. Deu vontade de ler novamente aquele livro de contos de Oscar Wilde, ou talvez, Um copo de cólera, de Raduam Nassar; ou 1984, de George Orwel; ou La guerra del fin del mundo, de Mario Vargas Llosa; ou El hombre en el castillo, de Philip K. Dick; ou...  

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Minha primeira experiência com tradução literária - 2ª parte

Há praticamente um mês, publiquei a primeira parte da série “Minha primeira experiência com tradução literária” — experiência essa que eu pretendia descrever da forma mais profissional e objetiva possível; mas, como não poderia deixar de ser, o resultado foi o oposto, o mais subjetivo, descontrolado e sincero possível. Recapitulando: junho de 2016 > férias com a família > parque aquático > tobogã “Insano” > proposta para fazer um teste de tradução literária > realização do teste > ataque de nervos > aprovação no teste!

Quando soube que traduziria literatura infantojuvenil, confesso que pensei “ah, que bom, literatura infantojuvenil deve ser mais fácil que literatura adulta”. Ledo engano! Logo vi como havia sido ingênua. Já no teste, pude sentir o gostinho do que estava por vir. Logo nas primeiras páginas, surgiram as primeiras dúvidas, “e agora, como traduzo ‘mamá’?”. Por minha própria experiência como mãe de dois adolescentes meninos não costumo ouvir “ma-mãe”. No norte do país, sim, ouve-se muito “mamãe”, “vovó” e “titia” e na música do Titãs, mas fora isso, é uma forma regional ou infantil, por isso, optei por “mãe”. Somente para ilustrar, essa foi uma das dúvidas mais simplórias, logo vieram outras mais tensas que comentarei mais adiante.

Uma vez superada a adrenalina inicial do teste e a estupefação de ver um sonho tornar-se realidade, veio a parte prática: a parte em que arregaçamos as mangas e colocamos as mãos na massa.

O primeiro livro que traduzi do espanhol para o português para a Editora Edebê foi La nueva vida del señor Rutin (A nova vida do senhor Rutin). 

Minha primeira atitude foi procurar informação a respeito de David Nel.lo, o autor. Soube que é um escritor e músico catalão, de Barcelona, que já conquistou vários prêmios como autor de obras infantojuvenis. 

O livro em questão recebeu o Prêmio Edebé de Literatura Infantil. A seguir fui saber do senhor Rutin... o senhor Rutin é sueco, nasceu em Visby, na ilha de Gotland, é claro que eu fui procurar imagens e informação sobre Visby e constatei que é uma cidade com aspecto medieval, cercada de muralhas de pedra e repleta de chalés e canteiros de flores, um encanto de cidade! E então fiquei sabendo que o escritor passou uma temporada no Centro de Escritores e Tradutores de Visby e, a seguir, uma temporada no Centro Internacional de Escritores e Tradutores na ilha de Rodas, na Grécia. Assim, nas palavras dele, a Suécia foi a fonte de inspiração do livro e a Grécia o laboratório onde foi escrito.
Visby, na ilha de Gotland (Suécia)

Essa pesquisa serviu para ambientar-me no livro, mergulhar em sua atmosfera e estabelecer conexões. Realizada essa primeira pesquisa, senti-me mais preparada para encarar o desafio.

Acho que todo o mundo se pergunta se o tradutor lê o livro antes de traduzi-lo, no mundo ideal seria legal poder fazer isso; porém, no mundo real, precisamos cumprir prazos e não há tempo para fazer uma leitura prévia à tradução. Assim, fui lendo e traduzindo, e sentindo o prazer de acompanhar a história paralelamente à tradução, sem spoilers, o que é muito prazeroso, você se envolve com a história e vai dormir desejando saber o que vai acontecer no próximo capítulo.

Mas vamos aos aspectos linguísticos e tradutórios... uma coisa que tirava meu sono no início era a dicotomia entre coloquialismo e língua formal. Como profissionais da área de línguas e comunicação, acho que devemos zelar sempre pela norma, por outro lado, para que a comunicação seja eficiente, precisamos considerar o público alvo e o a função do texto com o qual estamos lidando. No texto literário prevalece a função poética, isto é, a ênfase recai no próprio texto, na forma como se dizem as coisas, o texto literário é um objeto estético. Vieram à tona algumas questões vistas na faculdade sobre estrangeirização e domesticação, fidelidade, correspondências, etc. Nesse sentido, ajudou-me bastante o livro de Paulo Henriques Britto, A Tradução Literária, com cuja ideologia me identifico, uma frase dele que representa bem seu pensamento é a seguinte:

“Quando leio um romance de Dostoievski em português, quero encontrar no texto uma série de marcas que a assinalem como uma obra russa —  as distâncias expressas em verstas, as quantias expressas em rublos e copeques, os personagens tratando-se por primeiro nome e patrônimo ou por diminutivos de segundo ou terceiro grau —  e como uma obra de Dostoievski —  com a pluralidade de vozes, a intensidade emocional, até mesmos os excessos de veemência que alguns críticos apontam na obra do autor. Mas quero, ao mesmo tempo, que o texto em português seja de algum modo uma apresentação, uma versão de Dostoievski, e não um comentário, uma paródia, uma glosa do romance original. Em suma: uma tradução que respeite o que há de estrangeiro, e de estranho, no original, proporcionando-me a ilusão de que estou lendo uma obra de Dostoievski, mas que seja também um romance em português, e não uma peça metalinguística — e portanto um não-romance — construída sobre o texto de Dostoievski.”

Outro tradutor em quem me inspiro e com cujos pensamentos me identifico é Carlos Nougué, ele foi meu professor, e não me esqueço de suas palavras quando dizia que o tradutor deve ter uma fidelidade canina para com o original. 

Mas voltando à questão entre a norma e a coloquialidade, compreendi que, em se tratando de literatura, não há uma luta entre o bem e o mal, os dois conceitos são complementares e essenciais. Para uma tradução bem-sucedida de diálogos e de texto narrativo, é fundamental o conceito da verossimilhança, ou seja, a sensação de que aquilo que estamos lendo é real e de que os personagens de fato estão “falando”. Para conseguir esse efeito, precisamos reproduzir a distância entre a língua escrita e a língua falada, com todos os desvios e vícios que esta última carrega, precisamos sair da nossa zona de conforto e usar a criatividade, num esforço constante para encontrar a medida certa, somos obrigados o tempo todo a tomar decisões e a fazer escolhas. A tal visibilidade do tradutor, em minha opinião, resume-se a isso: suas escolhas.

Deixando a paranoia teórica um pouco de lado, como complexidade pouca é bobagem, tinha de haver uma dificuldade extra para a empresa ficar mais desafiante, foi então que o senhor Rutin decidiu que sua rotina metódica e regrada estava tornando-se monótona e resolveu se autoimpor um desafio de ordem linguística que revolucionaria seu modo de falar. O que mais poderia ser? Nada de mais, só para zoar um pouco com a pobre da tradutora...

Ai, que saudades dessa história querida! Pois é, nem só de dificuldades vivem os tradutores, esse foi sem dúvida o trabalho mais gratificante que já realizei, se é que pode chamar-se trabalho. Além do prazer de traduzir, pude sentir o gostinho de voltar a esse lugar lindo e inspirador chamado infância.

Espero vocês na terceira parte da saga, até lá!

terça-feira, 4 de julho de 2017

Falso amigo: "enrolarse"


Enrolarse”, em espanhol, é um verbo composto pelo prefixo “en-” do latim “in”, do substantivo “rol” (lista) e do sufixo “-ar” dos verbos da primeira conjugação e literalmente significa entrar numa lista, ou seja, alistar-se a uma corporação, às tropas do exército ou a um partido político.

Vejamos alguns exemplos de uso:

“La crisis económica y el aumento del paro hacen aumentar el número de solicitudes para enrolarse en el ejército.”

“El Circo del Sol busca gimnastas, pero no todos pueden enrolarse en esta compañía circense.”

“El futbolista se mostró encantado de enrolarse en un club español.”

Por sua vez, em português, a forma pronominal “enrolar-se” no sentido literal se refere ao ato de envolver o corpo com alguma coisa, por exemplo, enrolar-se com um cobertor, ou ainda, ao ato de tomar a forma de um espiral “a lagarta enrolou-se” ou de fazer voltas em torno de algo “o gato enrolou-se em sua perna”. Também significa embaraçar-se, “enrolou-se nos fios do parapente” e ainda, no sentido figurado, a forma pronominal significa atrapalhar-se “o candidato enrolou-se ao responder às perguntas da plateia”.


Como transitivo direto, no sentido figurado, significa levar alguém ao engano, ludibriar “enrolou a noiva por dez anos”. Na gíria, a locução "estar enrolado" significa estar num relacionamento sem compromisso. 

sexta-feira, 30 de junho de 2017

O portunhol na tradução do português ao espanhol

Primeiramente, quero deixar claro que não tenho nada contra o “portunhol” como tentativa amigável de estabelecer comunicação com nossos “hermanos”, seja na praia, no comércio ou num bar, nesses casos, considero louvável todo esforço para interagir e relacionar-se.

Já nas traduções do português ao espanhol, devemos evitar a todo custo a interferência de nossa língua materna. Nas traduções do português ao espanhol abundam os empréstimos léxicos e gramaticais, os falsos amigos e as interpretações e traduções erradas ou imprecisas que comprometem a qualidade do trabalho e a imagem de empresas que utilizam traduções com esse tipo de problemas.

Hoje vamos nos ater aos empréstimos lexicais. Como o português e o espanhol são muito parecidos, há uma tendência à generalização das regras de formação de palavras, o que resulta em vocábulos aparentemente corretos, mas que na verdade não o são, ou ao menos, não com o sentido que lhes atribuímos.

Acompañamiento = usa-se no sentido de acompanhar, estar junto a algo, como, por exemplo, “acompañamiento musical”, ou um “acompañamiento” para uma comida. No sentido de supervisão ou monitoramento é preferível a forma “seguimiento”. O termo “acompañamiento” também é usado em alguns contextos específicos, como, por exemplo, na educação. O “acompañamiento pedagógico”, por exemplo, refere-se ao processo em que um docente experiente acompanha um docente principiante para orientá-lo e apoiá-lo.

Atendimiento = consta no dicionário, mas é uma forma em desuso. A forma predominante é "atención". Do mesmo modo, não existe o adjetivo "atendiente" em espanhol, a pessoa que atende no balcão de uma loja é o "encargado" ou "vendedor", e a que trabalha num serviço de atendimento telefônico é chamada de "agente".

Fornecimiento = não se usa no sentido de prover algo, nesse sentido, usa-se “suministro”, “provisión” ou “aprovisionamiento”. A palavra “fornecimiento” existe em espanhol, mas não com o mesmo sentido que em português, é uma forma arcaica que fazia referência ao reparo de um castelo ou fortificação.

Desenvolvimiento = no sentido de progresso, evolução, realização ou crescimento, diz-se “desarrollo”. Assim, Banco Interamericano de Desenvolvimento em espanhol é “Banco Interamericano de Desarrollo”. Em espanhol, o termo “desenvolver” se emprega predominantemente no sentido de desembrulhar, esclarecer, ou ainda, no sentido de agir com desembaraço.

Agendamiento = embora se admita o verbo “agendar” no sentido de marcar uma data com antecedência, não existe o termo “agendamiento”, o equivalente seria “programación”.

Investimiento = “investir” em espanhol significa conferir uma dignidade ou cargo importante “Lo invistieron con/de los honores del cargo”, mas não se usa no sentido de aplicar dinheiro, com esse sentido, usam-se o verbo “invertir” e o substantivo “inversión”.

Credenciamiento = outro vocábulo que não existe, o correto é “acreditación”.

Aprimoramiento = também não existe este termo, os equivalentes em espanhol são o verbo “perfeccionar” e o substantivo” perfeccionamiento”.

Amador = não se usa como antônimo de profissional. “Amador” em espanhol equivale a “que ama”, “amante”, por exemplo “un hombre ávaro es un amador del dinero”. Para referir-se a uma pessoa que se dedica a uma arte ou ofício por gosto ou curiosidade, usa-se “aficionado”.

Efecto estufa = a forma predominante é “efecto invernadero”.

Experiente = para referir-se a alguém com muita prática em alguma coisa, usa-se “experto”, “con amplia experiencia” ou “experimentado”.

Cansativo = no sentido de extenuante, diz-se “cansado”, por exemplo, “Ir de São Paulo a Fortaleza en coche es un viaje muy cansado”. Já na Argentina não se diz "cansado", mas sim "cansador".

Envolvido = não existe este termo em español. O participio de “envolver” é “envuelto” e equivale a “embrulhado”. No sentido de estar ligado ou de participar de uma situação, usa-se “implicado” ou “involucrado”.

Senso común ou senso de humor = em espanhol se diz “sentido común” e “sentido del humor”.

Cartón de crédito = a forma correta é “tarjeta de crédito”.

Sacar dinero en la caja electrónica = “realizar un retiro en el cajero automático”.

Hacer un saque = “realizar un retiro”. Na Argentina, a operação de saque se chama "extracción de dinero o fondos" e em linguagem coloquial, simplesmente, "sacar plata".

Pagamiento = a forma correta é “pago”.

Estagiario = em espanhol se diz "pasante" ou “profesional en prácticas”. Prefira não usar “practicante” com esse sentido, porque esse termo é de uso restrito a alguns países como Colombia e Peru, em outros países, como Espanha, o termo practicante se refere à pessoa que pratica uma religião ou à pessoa que aplica injeções ou medicamentos numa farmácia ou posto de saúde. Para estágio, escolha entre "prácticas" ou "pasantías".

Trabajar con cartera firmada = tradução literal sem sentido, em espanhol se diz “trabajar en plantilla”, ou seja, como contratado. Um profissional “de plantilla” é aquele que trabalha com carteira assinada, com contrato.

De brinde = em espanhol não se diz “de brinde”, mas sim “de regalo”.

También no = não existe essa forma, o correto é “tampoco”.

Ganar una bolsa de estudios = a forma correta é “obtener una beca”.

Ser demitido = em espanhol o verbo “dimitir” é intransitivo, ou seja, ninguém “dimite” ninguém, “dimitir” equivale a renunciar, pedir a conta. Assim, podemos dizer “el fiscal dimitió” se foi ele que renunciou ou “el fiscal fue despedido” se ele foi demitido.

Estoy con hambre = em espanhol não se diz “estar con hambre” ou “estar con sed”, diz-se “tener hambre” e “tener sed”. Assim, a forma correta é “tengo hambre”.

Ser casado = a forma correta é “estar casado”.

Atenciosamente = atentamente.

Estoy torciendo por ti = não faz sentido em espanhol, a não ser que você esteja literalmente torcendo alguma coisa para alguém. No sentido de desejar o bem de alguém, podemos dizer “Te deseo lo mejor/suerte/éxito”.

Tiene demostrado = em espanhol a forma composta do pretérito perfeito constrói-se com o verbo auxiliar “haber”. Assim, o correto seria “ha demostrado”.

No va más a exigir =a construção correta em espanhol é “ya no va a exigir” ou “ya no exigirá”.

Cuidado também ao empregar vocábulos que já estão dicionarizados em português, mas que ainda não se assentaram no espanhol, como, por exemplo “viabilizar” e “disponibilizar”, prefira “hacer viable” e “poner a disposición, facilitar, suministrar, ofrecer”, respectivamente.

Garantir = esta forma não é portunhol, existe, mas se restringe a alguns países como Argentina e Uruguai, onde se usa em todos os tempos e pessoas da conjugação (le garanto que sí), nos demais países hispanófonos predomina a forma “garantizar”.


segunda-feira, 26 de junho de 2017

Píldoras de español: gerundio partitivo, uso incorrecto


Antes de todo, vamos a dejar claro que el gerundio no es ninguna plaga que hay que combatir, esta forma no personal del verbo, cuya terminación es –ndo puede formar perífrasis verbales para indicar algo que aún no ha terminado, como, por ejemplo está lloviendo; puede indicar simultaneidad, estudió escuchando música y también puede adquirir carácter adverbial de modo en determinados contextos, como saludó sonriendo. Así que el gerundio es un recurso muy útil y expresivo, cuando bien empleado.

Vamos a mostrar ejemplos de un caso bastante frecuente de empleo incorrecto del gerundio y las formas de evitarlo.

Gerundio con valor partitivo, para modificar una parte de un todo:

Hay una veintena de países hispanohablantes, siendo México el más poblado.
Hay una veintena de países hispanohablantes, entre ellos/de los cuales México es el más poblado

Había veintidós personas en la patera, siendo seis bebés.
Había veintidós personas en la patera, seis de ellas bebés.
Había veintidós personas en la patera,  y seis de ellas eran bebés.

España es un país con un clima cálido, teniendo Andalucía las temperaturas más altas.
España es un país con un clima cálido, y Andalucía la comunidad con las temperaturas más altas.

Londres tiene muchos museos, siendo el Británico el más visitado.

Londres tiene muchos museos, de los cuales el Británico es el más visitado.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Palavras raras: estraperlo

Nada mais certo do que afirmar que a língua está viva, ela é a maior manifestação cultural de um povo, pois registra todas as transformações e inovações da sociedade. Nosso léxico reflete nossa forma pensar e nossa forma de ver o mundo.

Hoje vamos conhecer a curiosa origem do termo espanhol estraperlo, um conceito que faz referência a uma situação contextual muito concreta. Este termo surgiu na Espanha, durante o período da segunda república, devido a um escândalo de corrupção relacionado a um jogo fraudulento.

O termo straperlo, surgiu da fusão do nome de seus dois inventores: Strauss e Perlo. Era um jogo de azar adulterado, semelhante a uma roleta. A bola e o cilindro dos números eram acionados através de um botão controlado por um mecanismo de relojoaria, que permitia que o banqueiro ganhasse sempre.

Entre maio e agosto de 1934, seus artífices tentaram introduzi-lo na Espanha e, para isso, precisaram resolver tramitações que deveriam autorizar seu uso legalmente, mas isso não ocorreu.
  
O jogo, proibido na Espanha de 1935, poderia ter sido introduzido graças á propina recebida por certas personalidades para que facilitassem seu estabelecimento.
O “escándalo del estraperlo” veio à luz em outubro de 1935, devido à denúncia apresentada por Daniel Strauss mediante a qual exigia uma “indenização” pelo prejuízo resultante da instalação do jogo e pelos subornos que ele afirmava ter pagado a políticos do Partido Republicano Radical. 

O escândalo envolveu o presidente do governo, Lerroux, que acabou sendo obrigado a renunciar.

A partir desse escândalo, a palavra estraperlo se tornou sinônimo de trapaça, tramoia ou negócio fraudulento. Assim, por extensão, o termo serviu para referir-se ao comércio ilegal (mercado negro), no período de pós-guerra civil, dos artigos controlados pelo Estado sujeitos a racionamento (decretado pelo regime de Franco de 1936 a 1952) e que tiveram seus preços superfaturados no comércio clandestino.

Atualmente o termo aparece registrado no dicionário da RAE, da seguinte forma.

Estraperlo

De Straperlo, nombre de una especie de ruleta fraudulenta que se intentó implantar en España en 1935, y este acrón. de D. Strauss y J. Perlowitz, sus creadores.

1. m. coloq. Comercio ilegal de artículos intervenidos por el Estado o sujetos atasa.
2. m. coloq. Conjunto de artículos que son objeto del estraperlo.
3. m. coloq. Chanchullo, intriga.

de estraperlo
1. loc. adj. Comprado o vendido en el estraperlo.
2. loc. adv. Dicho de comerciar: Ilegalmente, de manera clandestina.


Exemplo de uso atual:

Es el mismo aparato del Estado el que suministra el mercado negro, la candonga, como llaman aquí al estraperlo. No hay comerciantes, sino candongueiros, que cargan con generosidad en sus ventas el riesgo y el peligro de su actividad.”  Terres, J. Z. (9 de diciembre de 1984). Hambre, sequía y guerra en Mozambique. El país. Recuperado de http://elpais.com/diario/1984/12/09/internacional/471394806_850215.html


es.wikipedia.org
www.eumed.net
etmologias.dechile.net

terça-feira, 20 de junho de 2017

Como organizar seus arquivos

Hoje vamos falar de um assunto que pode parecer óbvio, mas que é muito importante, sobretudo para o tradutor iniciante que ainda não tem muita experiência: a importância de organizar adequadamente sua estrutura de arquivos e pastas.

Imaginemos um tradutor que tenha uma média de cinco clientes assíduos que enviem uns dez documentos por mês cada. Num mês teremos 50 documentos; num ano, 600; em dois, 1.200; e assim por diante. Agora imagine que nesse meio tempo você conquiste novos clientes, novos pedidos, e num belo dia alguém lhe peça a tradução de um contrato de prestação de serviços muito semelhante àquela que você fez no início do ano passado, mas que você não faz a mínima ideia de onde salvou, se é que ainda conserva esse documento.

Nessas horas a organização dos trabalhos em estrutura de arquivos e pastas é fundamental. Existem inúmeras maneiras de organizar e nomear seus arquivos, o principal é seguir um padrão que permita localizar seus documentos da maneira mais ágil possível e habituar-se a seguir o mesmo procedimento em cada novo trabalho.

Vou mostrar como exemplo a estrutura que uso, organizada basicamente em Empresas > Anos > Meses > Ordens de serviço (Projetos). É claro que cada tradutor pode e deve montar sua própria estrutura da forma que melhor lhe convenha, mas para quem não sabe como começar, este modelo pode ajudar:

Clique na figura para ampliá-la
No meu caso, tenho uma pasta chamada “Tradução”, subdividida em “Empresas”; onde cada pasta se subdivide em “Anos”; cada ano, em “Meses”; cada mês em “Ordens de Serviço”, e finalmente, cada ordem de serviço em “Original” e “Tradução” e, em ocasiões, a pasta “Material de apoio”, em que guardo instruções, modelos, etc.

Na pasta de cada empresa também tenho algumas subpastas, como, por exemplo, “Notas Fiscais”, que, por sua vez, é organizada em anos > meses, e a pasta “Documentos”, em que guardo, por exemplo, o contrato de confidencialidade, as tabelas de controle de pagamentos, o teste de admissão, etc. Os glossários, eu salvo à parte, numa pasta chamada “Glossários” e organizada por temas ou clientes, conforme a conveniência.

Quando recebo um documento, sigo sempre o mesmo procedimento:

  1. Baixo o arquivo, abro-o e verifico o número de palavras.
  2. Confirmo o recebimento respondendo no mesmo e-mail.
  3. Salvo o documento em sua respectiva pasta (Traduções > Empresa > Ano > Mês > OS > Original).
  4. Uma vez que salvei o original, seleciono todo o texto (Ctrl+T) e aplico o idioma de revisão, por exemplo, “Espanhol internacional”, e salvo o documento na respectiva pasta (Traduções > Empresa > Ano > Mês > OS > Tradução).
  5. Aplico um zoom confortável, 140%, por exemplo, e começo a traduzir sobrescrevendo o texto, assim não corro o risco de deixar nada para trás.
  6. Passo o revisor automático e releio minuciosamente a tradução.
  7. Envio o documento traduzido e peço a confirmação do recebimento.
  8. Anoto os detalhes do trabalho (nome do documento, data de entrega, número de palavras, valor) em minhas tabelas de controle, tenho uma para cada empresa.

Cinco regras de ouro para organizar seus arquivos:

1. Conserve sempre a versão original intacta do documento.

Pode ocorrer, por exemplo, que o original tenha passado por várias revisões ou alterações antes de chegar a suas mãos, e que você tenha recebido a versão errada. Suponhamos que alguém lhe cobre “está faltando a tabela do slide 32”, você poderá provar que o documento que você recebeu (e salvou intacto) não tinha essa tabela. Além disso, você precisará das duas versões (original e tradução) para criar seus glossários e também como fonte de consulta futura.

2. Não renomeie os documentos, a menos que você receba instrução em sentido contrário.

Imagine que o cliente não entende a língua para a qual você traduz, nesse caso, a única referência dele será o nome do arquivo no idioma original. Então, se o projeto tem 10 arquivos e você traduziu o nome de todos, ele perderá esse referencial.

3. Padronize sua estrutura e siga-a rigorosamente, faça disso um hábito.

Não faz diferença se o texto tem somente 200 palavras, siga o mesmo padrão para todos os projetos, habitue-se a aplicar sempre o mesmo procedimento, a organização e a rotina são fundamentais em nosso trabalho.

4. Utilize nomes autoexplicativos.

É muito importante usar nomes autoexplicativos para as pastas que contém os arquivos, para que você possa localizá-los facilmente no futuro. Imaginemos que você tenha que localizar o contrato de prestação de serviços ao qual nos referimos no início. O número da ordem de serviço, OS-2027, certamente não ajudará a localizar o arquivo, mas sim OS_2027_contrato_de_prestacao_de_servico (evite usar caracteres especiais e separe as palavras com sublinhado para evitar incompatibilidades com outras plataformas). Lembre-se de que estamos referindo-nos aos nomes das pastas, pois o nome dos arquivos deve ser mantido tal como no original.

5. Crie cópias de segurança.

De nada adianta organizar seus arquivos religiosamente durante dez anos se você não criar cópias de segurança. Faça disso também um hábito.