sexta-feira, 27 de maio de 2016

Como validar terminologia específica?


Hoje vou falar um pouco sobre a validação terminológica. Quando traduzimos textos técnicos é comum depararmos com terminologia especializada e neologismos que dificultam bastante nosso trabalho, principalmente quando não temos conhecimento na área em questão.

É possível traduzir um texto de uma área com a qual não temos familiaridade?

Hoje em dia, acredito que sim, porque há muitas fontes de consulta confiáveis e de fácil acesso. No entanto, se você recebeu um texto técnico de uma área sobre a qual não tem conhecimento, antes de aceitar o pedido, procure fazer uma pesquisa prévia para saber se há informação suficiente disponível na rede. Se for um assunto excessivamente novo e específico, e você não se sente seguro para realizar o trabalho, é preferível recusar o pedido. Isso não é motivo de vergonha, pois reconhecer nossas limitações é uma atitude profissional.

O que significa validar um termo? Ao traduzir um termo específico, devemos autenticá-lo, certificando-nos da conformidade de uso, do contrário, a informação será aleatória e a qualidade da tradução ficará comprometida.

Vou dar aqui um exemplo de validação para uma expressão específica: consciência situacional. Em primeiro lugar, precisamos saber de que se trata. Para isso, fazemos uma pesquisa e verificamos que consiste numa representação mental e entendimento de todos os fatores que podem afetar as tarefas humanas num determinado evento, em outras palavras, aquilo que é preciso saber para não ser surpreendido.

É um conceito relativamente novo utilizado no controle de situações complexas, altamente dinâmicas e de grande risco, tais como investigação policial, controle de tráfego aéreo, gestão de emergência, etc.

Ao buscar um correspondente na língua-alvo, em nosso caso o espanhol, língua que compartilha muitas semelhanças com o português, o procedimento mais básico é fazer uma tradução literal, “conciencia situacional”, e jogá-la no google.es para verificar os resultados. Aparecem 20.700 resultados.

Logo no primeiro resultado no topo da lista, encontramos a definição na página es.wikipedia.org e verificamos algumas inconsistências, por exemplo, no link da página aparece o termo “consciencia” com ‘s’ e no texto aparece “conciencia”, sem ‘s’. Em espanhol, existem as duas formas "conciencia" e "consciencia". Veja a explicação sobre o uso das duas formas aqui.

Como Wikipédia não é um site totalmente confiável, segundo uma declaração do próprio fundador (http://www1.folha.uol.com.br/folha/informatica/ult124u21947.shtml), precisamos buscar mais.

Podemos recorrer a um corpus, como por exemplo, o Corpus do Espanhol, de Mark Davies, que conta com mais de 100 milhões de palavras procedentes de mais de 20 mil textos do espanhol dos séculos XIII a XX. Infelizmente não aparece nenhuma ocorrência, provavelmente devido à novidade do termo.

Realizamos uma nova busca no Google, desta vez mais específica, restringindo os resultados. Para isso, usamos, por exemplo, a extensão ‘gob.es’ para procurar somente em sites do governo espanhol. Para isso, inserimos no campo de busca “conciencia situacional” site: gob.es. Aparecem 4.870 resultados. Entre os resultados exibidos na primeira página, encontramos informação na página do Ministério do Desenvolvimento, em outra página sobre segurança aérea, tecnologia, defesa, emprego, enfim, tudo em páginas oficiais.

Agora, fazemos uma nova busca, desta vez no Ngram Viewer do Google, ferramenta que permite comparar num gráfico a curva da evolução de um ou mais termos, nos dois últimos séculos, entre os livros disponíveis no banco de dados Google. Para isso, abrimos a página https://books.google.com/ngrams , digitamos, no campo de busca, ‘consciencia situacional, conciencia situacional’, selecionamos o idioma espanhol na caixa de seleção e clicamos no botão ‘Search lots of books”. Aparece o seguinte resultado, que mostra zero ocorrências para ‘consciencia situacional’.


Se ainda temos nossas dúvidas, podemos consultar uma base de dados terminológica multilíngue como, por exemplo, a Iate, base terminológica da União Europeia iate.europa.eu.  Ao inserir o termo em português, não aparecem ocorrências, por isso, optamos pelo termo em inglês “situational awareness”, e então aparece o seguinte resultado:


Este é apenas um exemplo de algumas fontes para validação terminológica, mas há muitos outros recursos, tais como publicações científicas, dicionários e glossários especializados, profissionais da área, etc.

Para saber mais sobre o assunto, leia o texto Validación terminológica: todo está en las fuentes, do professor Fernando Contreras Blanco, publicado na revista multilíngue da Asetrad, La linterna del traductor: http://www.lalinternadeltraductor.org/n5/fuentes-terminologicas.html

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Armadilhas do espanhol: 'conciencia' ou 'consciencia'?


Eis mais uma armadilha da língua espanhola: os parônimos ‘consciencia’ e ‘conciencia’, que em alguns contextos são sinônimos perfeitos; e em outros, não.

Com o sentido geral de percepção ou conhecimento, as formas conciencia e consciencia são permutáveis, embora geralmente se prefira a forma mais simples, sem o ‘s’: “Tenemos conciencia/consciencia de nuestras limitaciones”. No entanto, com o sentido moral, como capacidade de distinguir entre o bem e o mal, somente é correto o emprego da forma conciencia: “Conciencia moral es ser uno mismo para el outro” (Jean Paul Sartre em entrevista  a Benny Lévy para o Nouvel Observateur, publicada no jornal El País http://elpais.com/diario/1980/04/19/cultura/324943207_850215.html).

Com esse sentido, faz parte de várias locuções como: conciencia limpia/tranquila, tener mala conciencia, remorderle la conciencia, no tener conciencia (não ter escrúpulos), tener cargo de conciencia, etc.

O adjetivo correspondente, em todos os casos, é consciente; e seu antônimo, inconsciente. São erradas as formas conciente e inconciente. Emprega-se com o verbo estar com o sentido de manter o conhecimento: “A pesar del grave accidente y de la medicación, está consciente”; e se emprega com o verbo ser com o sentido de saber algo o ter consciência disso: “El traductor es consciente de que no siempre es posible encontrar correspondientes en la lengua meta”, neste caso, deve-se empregar a preposição ‘de’ antes da conjunção ‘que’ para introduzir o complemento desse adjetivo.



O verbo correspondente é concienciar (fazer que alguém seja consciente de algo) “Es esencial concienciar a los niños de la necesidad de conservar el medio ambiente»; na América Hispânica, é comum o uso da forma concientizar: “El Papa dio a conocer “Ludato si”, un documento que apunta a concientizar a la comunidad internacional sobre problemas ambientales” (www.perfil.com).
Os respectivos substantivos são concienciación e concientización.

Fonte:

Artigo traduzido e adaptado a partir do Diccionario panhispánico de dudas, 2005. Real Academia Española.

terça-feira, 24 de maio de 2016

Curiosidades da língua espanhola "en blanco y negro"


Você sabia que em espanhol a locução consagrada é "en blanco y negro" ao contrário do português em que dizemos "em preto e branco"?

Veja como o dicionário da RAE registra esta locução:

fonte: dle.rae.es/?id=5eNsBBo


Exemplos:

La fotografía en blanco y negro, en ocasiones abreviado como B / N o en inglés B/W (de black y white), es una frase adjetiva utilizada sobre todo en cine y fotografía para describir varias formas de tecnología visual. La fotografía en blanco y negro se caracteriza por la ausencia de colorido, debido a su naturaleza química, que se compone de haluros de plata. (Wikipedia)


"Cuanto me alegro
de que pintes conmigo en blanco y negro
graffitis en los muros del planeta
y si falta un color en mi paleta
regálamelo tú." 
(Primeira estrofe da música "En blanco y negro", letra de Joaquín Sabina, interpretada por Pablo Milanés e Victor Manuel)

Outra expressão consolidada em espanhol com essas duas cores é "negro sobre blanco", que significa "por escrito", e por extensão, claramente, de forma que não restem dúvidas.

Exemplo:

Vale, tu juras y perjuras que me devolverás el dinero que te voy a prestar, pero prefiero que la promesa la hagas por escrito, negro sobre blanco, para que luego no haya equívocos. (Diccionario de dichos y frases hechas, de Alberto Buitrago)



segunda-feira, 23 de maio de 2016

O prazer da releitura


Neste fim de semana terminei de reler O Sol é Para Todos, obra que rendeu o prêmio Pullitzer em 1961 à autora norte-americana já falecida, Harper Lee.

Não vou falar aqui sobre o enredo, mas sobre o exercício da releitura, isto é o ato de voltar a ler uma obra após um período de afastamento. Aproveitando o gancho, falarei também da releitura no sentido de dar uma nova interpretação a uma obra de arte. 

A primeira vez que li este livro foi no início dos anos 80, quando eu tinha uns 11 ou 12 anos. Escolhi o livro na biblioteca municipal, porque gostei do título e da capa. Com a morte da autora em fevereiro deste ano (2016), às memorias do livro vieram à tona e fiquei com vontade de relê-lo.

Você já deve ter sentido alguma vez vontade de voltar no tempo, não? Acho que todos sentimos isso de vez em quando: nostalgia do passado. Pois a releitura é um exercício que nos permite chegar perto disso. Ao ler o livro pela segunda vez, mais de 30 anos depois, tive a sensação de viajar no tempo, de retornar a um velho lugar, a velhos conhecidos. É como se eu tivesse atravessado um portal onde é possível reviver uma aventura.

Além da redescoberta de personagens, detalhes e sensações, acho que relembrei um pouco de mim mesma, de minhas emoções e inquietações ao ler o livro pela primeira vez. A leitura tem esse poder de realizar conexões: é o que chamamos de intertextualidade. Você conecta o texto a um momento de sua vida, a outros textos, à realidade e a outras informações.

Ao terminar de ler o livro (esta vez na versão digital), resolvi assistir ao filme homônimo de 1962, em preto e branco, com Gregory Peck. Outra releitura, desta vez em imagens e sons, aguçando outros sentidos. 

Na faculdade, cursei uma disciplina optativa sobre cinema e literatura e a principal lição que aprendi foi fugir do lugar-comum: “qual é melhor: o livro ou o filme?”. É uma comparação superficial e ingênua, já que se trata de duas linguagens completamente diferentes. A literatura dispõe de recursos que o cinema não tem e vice-versa. A literatura conta com efeitos narrativos e o cinema explora a visão e a audição: a perspectiva, o enquadramento, a sonoplastia, etc. São perspectivas diferentes que se complementam, não há razões para engrandecer uma em detrimento da outra.

O filme é uma releitura da obra, no sentido de recriação que surge de uma nova interpretação: não é plágio, cópia ou reprodução. Trata-se de uma obra inspirada em outra, de uma interpretação pessoal motivada geralmente por admiração.

Releitura da obra Monalisa (https://coresematizes.wordpress.com)

Assisti à versão dublada, o que me levou a outra conexão: uma entrevista que li há poucos dias com o dublador José Santana no blog Traduzindo a Dublagem, de Paulo Noriega. Fiquei curiosa para saber quem era o dublador de Gregory Peck. Como hoje é fácil encontrar o que buscamos com apenas alguns cliques, fiquei sabendo que quem dublou o protagonista do filme foi Luiz Feier Motta, dublador de muitos atores conhecidos como Silvester Stallone, Steven Segall, Pierce Brosnan, também é dublador da personagem Wolverine e do adorável narrador das Meninas Superpoderosas.  

Vejam só, a literatura e suas reveladoras conexões: Harper Lee que escreveu sobre o advogado Atticus Finch, representado no cinema por Gregory Peck, dublado na versão brasileira por Luiz Feier Motta. E no outro extremo dessa rede de conexões, esta que vos fala e que pôde conhecer a criatividade de Harper Lee, a obstinação e a retidão do advogado Atticus Finch, a belíssima interpretação de Gregory Peck (que lhe rendeu o Oscar de melhora ator em 1963); e a primorosa dublagem carregada de emoção de Luiz Feier Motta.

O trem segue em frente e a próxima parada será Vá, Coloque um Vigia, segunda e última obra de Harper Lee publicada em 2015 e que já é best-seller e está cercada de polêmica e curiosidade, pois no segundo livro, o protagonista Atticus Finch — que virou herói nacional, batizou uma geração de bebês e serviu de mote para escritórios de advocacia —, sofre uma reviravolta e se revela um sujeito racista. Realmente surpreendente...

Enfim, a releitura é uma experiência muito prazerosa. Em tempos de crise, é uma alternativa de viagem altamente recomendável. Fica aí a dica.

https://coresematizes.wordpress.com/2009/07/16/o-que-e-releitura/

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Infinitivo: flexionar ou não flexionar, eis a questão


Um dos assuntos mais espinhosos da gramática da língua portuguesa refere-se à flexão do infinitivo. Aliás, você sabia que o infinitivo pessoal ou flexionado é um idiomatismo da língua portuguesa, isto é, uma característica própria de nossa língua? Ou melhor, do português e do galego.

Por ser uma característica tão especial, devemos zelar pelo uso correto!

O infinitivo será flexionado:

1) Para enfatizar quem realizou a ação.

Foi proibido aos funcionários fazerem comentários.

2) Para dar ênfase a um sujeito que não está expresso.

É aconselhável aguardarmos o resultado.

3) Para indeterminar o sujeito da frase (utilizado na terceira pessoa do plural).

Faço isso para não me acharem inútil. 

Ela não sai sozinha à noite a fim de não falarem mal da sua conduta.

4) Quando o sujeito do infinitivo e o verbo principal forem diferentes:

Acreditamos serem os funcionários muito competentes.
Pedi para não fazerem barulho.

5) Quando o infinitivo for regido de preposição em oração adverbial anteposta à oração principal:

Ao saírem de casa, deixaram a janela aberta.

Para sermos felizes, devemos valorizar o que temos.

6) Quando o infinitivo estiver na voz passiva, quando for verbo pronominal ou verbo reflexivo, o infinitivo será flexionado.

Os fugitivos fizeram o possível para não serem recapturados (voz passiva).

Sigam as recomendações para não se queixarem depois (verbo pronominal).

Foram embora sem se despedirem (verbo reflexivo).

7) Quando o infinitivo for verbo de oração subordinante, desde que o sujeito esteja assinalado.

É bom eles prestarem atenção às normas.

Eles serem brasileiros natos é um requisito. 

8) Quando o infinitivo for verbo de subordinada substantiva posposta.

Creio sermos capazes de alcançar a meta proposta.

Julgamos serem pessoas honestas.



O infinitivo não será flexionado quando:

1) O sujeito for o mesmo:

Declararam estar prontos.

2) Não se referir a nenhum sujeito.

E preciso defender o direito do consumidor.

Navegar é preciso.

3) Tiver valor de imperativo

Passar bem, senhores.

Cessar fogo!

4) For empregado em locuções verbais (quando há apenas um sujeito).

Os pais tendem a ser condescendentes com os filhos.

5) Funcionar como complemento de adjetivo, precedido geralmente das preposições “de” ou “a”. 

Foi uma tarefa difícil de resolver

Estamos dispostos a mudar de atitude.

6) Quando o sujeito do infinitivo de verbo causativo “deixar”, “fazer”, “mandar” ou de verbo sensitivo “ver”, “ouvir” e “sentir” (mesmo havendo mais de um sujeito na frase) há duas situações: 

a) Se o sujeito do infinitivo for representado por um substantivo, o infinitivo tenderá a ser flexionado:

O professor deixou os alunos saírem mais cedo.

A veterinária ouviu os cachorros rosnarem.

b) Se o sujeito do infinitivo for representado por pronome átono, o infinitivo não será flexionado:

O professor deixou-os sair mais cedo.

A veterinária ouviu-os rosnar.

CASO NOTÁVEL

O verbo PARECER: em locuções verbais no plural com o segundo verbo no infinitivo é o único verbo que permite a flexão do infinitivo, desde que o verbo parecer não seja flexionado:

Os pacientes parecem estar cada vez mais dispostos.

Os pacientes parece estarem cada vez mais dispostos (ambas as formas são adequadas).

OBSERVAÇÃO: EM ESPANHOL NÃO EXISTE INFINITIVO PESSOAL. NÃO EXISTE HACEREN, LLEGARMOS, TENEREN, ESTUDIARMOS, HABLARMOS, HABLAREN, ETC. 

Para saber como traduzir o infinitivo pessoal ao espanhol, clique aqui.

Para ver usos idiomáticos do infinitivo no espanhol, clique aqui.

Para ver uma análise contrastiva do uso dos verbos em espanhol e português, clique aqui.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Falso amigo: desenvolver


Embora o dicionário da RAE apresente desarrollar como uma das acepções do termo desenvolver, na Espanha, não se costuma usar este termo com aquele sentido. Na Espanha, o termo desenvolver é usado principalmente como antônimo de envolver, assim, refere-se ao ato de retirar o envoltório que cobre um objeto. Portanto, desenvolver um regalo significa desembrulhar um presente.

Exemplo:

Al igual que sucede con los regalos, el empaque plegado (die-fold) permite a los consumidores desenvolver los dulces, de modo que el empaque se convierte en una parte esencial de la experiencia global de la marca. (Texto: Tecnología del Empaque, de Martial Menoud) 


Também é usado metaforicamente com o sentido de revelar, decifrar:

Exemplo:

Empezó don Judas a desenvolver el plan ante su ilustre discípulo, pero el lector tendrá a bien que dejemos en libertad a tan digna pareja para que sin estorbo ni empacho trace y combine sus humanísimos proyectos [...] (Jaime el Barbudo, o sea, La sierra de Crevillente, de Ramón López Soler)

Na Espanha, para referir-se à ação de criar, aprimorar, melhorar, crescer, usa-se o verbo desarrollar; bem como os substantivos: desarrollo e desarrollador.

Exemplos:

Las plantas xerófilas han desarrollado mecanismos de adaptación que tienden a repetirse por convergencia evolutiva en todos los desiertos del mundo pese a que, frecuentemente, las especies que los habitan no guardan ninguna relación entre sí.

Expertos desarrollan estrategias de adaptación a los cambios climáticos.

Para llevar a cabo este proyecto, la empresa ha contratado a un equipo de desarrolladores de programas informáticos.

Esta obra aborda el desarrollo  infantil durante los primeros años de vida.

Los estudiantes de programación desarrollaron un videojuego en que los niños tienen que desenvolver regalos sin romper el papel.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Palabras con acepciones dispares


La relación entre la palabra y su significado tiene razones que nuestra razón desconoce, en algunos casos, es totalmente arbitraria, o sea, no tiene un motivo, es puramente convencional, e incluso puede suceder que una misma palabra abarque acepciones parcial o totalmente contradictorias, o más bien, dispares.

Sin contar con el lenguaje literario, en que para lograr expresividad  las palabras sobrepasan su sentido ordinario y cobran sentidos figurados. Incluso se puede afirmar algo con la intención de expresar justamente lo contrario, mediante el recurso de la ironía.
Por eso, traducir palabras aisladas es una tarea prácticamente imposible y muy propensa a confusiones, ya que el significado se extrae del contexto.

La lengua está viva y las palabras sufren cambios semánticos a lo largo del tiempo y según el contexto en que se utilizan. Las principales causas de estos cambios son las siguientes:

1) históricas, muchos objetos y costumbres cambian de uso a lo largo del tiempo, por ejemplo, la palabra satélite, que proviene del latín satelles, vocablo que significaba ‘lo que estaba en torno o alrededor de alguien’ y antiguamente se utilizaba para designar a los soldados o guardias encargados de proteger a los reyes y soberanos. La moderna pluma de escribir mantiene ese nombre en referencia a las plumas de ave utilizadas antiguamente para escribir, aunque el objeto haya cambiado a lo largo del tiempo, se mantuvo el mismo nombre.

2) Sociales, una palabra que en el lenguaje ordinario tiene un significado general, puede tener un significado más específico  según el área en que se aplica. Por ejemplo, la palabra faena, significa trabajo; pero en el lenguaje taurino designa la manera de torear en un momento dado.

3) Psicológicas, la causa psicológica más notable es el tabú, es decir, cuando por motivos como superstición temor, política o pudor, las palabras son “prohibidas" y sustituidas por otras, consideradas más adecuadas. Así sucedió, por ejemplo, con la palabra retrete, que al asociarse con palabras malsonantes, se ha sustituido por eufemismos como cuarto de baño, lavabo, servicio, baño. Por motivos supersticiosos se utiliza bicha por culebra o serpiente y por razones sociopolíticas se utiliza productor por obrero o reajuste por subida de precios.

4) Literarias, por motivos de expresividad, el lenguaje literario utiliza los cambios semánticos con asiduidad, dando lugar a la metáfora (Los luceros de tu cara. Luceros = ojos) y a la metonimia (El espada actuó bien. Espada = torero).

Dejando a un lado las razones de los cambios semánticos, veamos algunas palabras que abarcan significados dispares o contradictorios:

Sancionar: esta palabra por una parte significa autorizar o aprobar un acto, uso o costumbre; y por otra parte aplicar un castigo o una pena a alguien o a algo que infringe la ley.

Ejemplos:

La Ley Sáenz Peña, sancionada por el Congreso de la Nación Argentina el 10 de febrero de 1912, estableció el voto universal secreto y obligatorio para los ciudadanos argentinos varones, nativos o naturalizados, mayores de 18 años de edad, habitantes de la nación y que estuvieran inscriptos en el padrón electoral (con el sentido de aprobar)

Hamilton recibirá una sanción de 5 posiciones en la parrilla del GP de China (con el sentido de castigo).

Oler: El verbo oler, en español, se refiere tanto a la acción de percibir un olor por el sentido del olfato como a la acción de exhalar una fragancia que deleita o un hedor que molesta.

Ejemplos:

Policías dicen que el autor del doble crimen "olía a alcohol pero no estaba borracho" (con el sentido de exhalar hedor)

Los perros huelen mil veces mejor que los humanos. Para un perro, oler el suelo es la mejor manera de saber las últimas novedades de la banda. Impedir que un perro huela el mundo al su rededor es como impedirlo de conocer las características del local donde vive (con el sentido de captar fragancias por medio del olfato)

Alquilar: El verbo alquilar se refiere tanto a la acción de cobrar dinero para ceder un bien temporalmente como a la acción de pagar un precio acordado para usar algo temporalmente.

Ejemplos:

Para conocer bien los alrededores, lo mejor es alquilar un coche (con el sentido de pagar para usar)

Con esta crisis, no nos queda más remedio que alquilar nuestra casa de playa (con el sentido de cobrar para ceder)