quarta-feira, 3 de maio de 2017

Vírgula diante de que


Uma dúvida frequente de pontuação é a que diz respeito ao uso da vírgula diante da palavra que.

Primeiro, vale lembrar que esta palavra pode exercer diversas funções, entre elas: pronome interrogativo (Que pensas sobre o assunto?); pronome relativo (Comprei o livro que você me recomendou); advérbio de intensidade, quando equivale a quão (Que perversos eram os vikings!); preposição, quando liga dois verbos e equivale a “de” (Temos que estudar muito), alguns gramáticos consideram esse uso incorreto e, por tanto, não aceitam o “que” como preposição; conjunção coordenativa (Precisamos descansar, que o dia vai ser longo); conjunção subordinativa (Rogo que você me ouça); partícula de realce ou expletiva (Eles é que são os culpados); ou ainda, substantivo (Ele tem um quê repulsivo). 

A utilização ou não de vírgula diante da palavra “que” depende não somente de sua natureza morfológica como também de sua função sintática.

Em geral, devemos empregar a vírgula diante de que, quando:

1.    Como pronome relativo, inicia orações explicativas (Ela, que tem mania de cuidar da vida alheia, não enxerga os próprios defeitos).  
2.    Como conjunção explicativa ou causal, é sempre precedido de vírgula (Não fale ao telefone enquanto dirige, que você pode sofrer um acidente). 
3.    Como conjunção consecutiva, também é precedido de vírgula (Ela falou tanto, que ficou com a garganta seca). 

Nos demais casos, geralmente não é precedido de vírgula. Sobretudo se exerce a função de conjunção subordinativa integrante, quando nunca deve ser precedido de vírgula, já que a oração que inicia é parte integrante da anterior (Espero que você volte logo. Não diga que não lhe avisei). 

 
Naturalmente que, na situação anterior, se houver um inciso explicativo ou circunstancial entre a conjunção integrante e a oração subordinada, essa intervenção será assinalada com vírgulas (Espero que, aconteça o que acontecer, você volte logo. É necessário que, qualquer que seja sua decisão, o apoiemos). Perceba também que, neste último exemplo, iniciamos a oração subordinada por pronome oblíquo átono. Isso porque a conjunção que
atrai o pronome para si, ainda que haja intercalação entre eles.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Como usar o CORPES (Corpus do Espanhol do Século XXI)

Um corpus é um conjunto formado por milhares de textos (novelas, obras de teatro, roteiros de cinema, notícias de imprensa, ensaios, transcrições de noticiários radiofônicos ou televisivos, transcrições de conversas, discursos, etc.) e centenas de milhões de formas. A principal vantagem que os corpus oferecem é a possibilidade de analisar usos reais. Dado o tamanho que possuem, os corpus devem estar em formato eletrônico, de modo que possam ser processados por computador.

Um corpus geral permite obter as características que uma língua apresenta num determinado momento de sua história. No caso do espanhol atual, o corpus deve conter textos de todos os tipos e também de todos os países que constituem o mundo hispânico.

Hoje vamos falar do Corpus do Espanhol do Século XXI (CORPES XXI), formado por textos escritos e orais procedentes de Espanha, América, Filipinas y Guiné Equatorial com uma distribuição de 25 milhões de formas por cada um dos anos compreendidos no período 2001 a 2012.

A versão disponível atualmente ainda é provisória, uma versão beta, e o objetivo final deste grande projeto é reunir, em 2018, um conjunto textual constituído de 400 milhões de formas e palavras da língua comum de quase 500 milhões de hispanófonos. 



Neste pequeno artigo vou apresentar dois recursos muito úteis aos tradutores, e que eu utilizo com frequência: estadística e concordância.

A estadística é um recurso muito útil, no caso do espanhol, porque permite visualizar a distribuição geográfica de um termo, isto é, sua frequência por país. Assim, caso eu tenha dúvidas, sobre a preferência na América Latina entre dois adjetivos que são sinônimos perfeitos, como, por exemplo, “sustentable” e “sostenible”, realizo uma busca de estatísticas para cada termo, separadamente e obtenho os seguintes resultados, que mostram a preferência pela primeira forma entre os hispano-americanos:

sustentable
(Clique nas figuras para ampliá-las)

sostenible

Agora, vamos ver qual é o substantivo de uso mais frequente na Espanha para computador: “ordenador” ou “computadora”.


ordenador
computadora
Por último, o recurso concordância é uma lista que permite visualizar as ocorrências de um determinado termo num corpus. Cada ocorrência aparece contextualizada, o que é muito útil para o tradutor, já que permite conhecer como se utiliza um termo num determinado contexto, sua combinação com substantivos, adjetivos, preposições, complementos, etc. o que nos permite, também, compreender melhor seu significado para utilizá-lo no contexto adequado.

A busca por concordância do verbo “reconciliar”, por exemplo, permite ver as diferentes regências que esse verbo admite. Além disso, o recurso concordância conta ainda com filtros que permitem ordenar os resultados por ano, país, etc. E ao posicionar o ponteiro do mouse sobre uma linha, aparece a fonte de onde foi extraído o termo.
  
Fonte de onde foi extraído o termo
Concordância do termo "reconciliar"


REAL ACADEMIA ESPAÑOLA: Banco de datos (CORPES XXI) [en línea]. Corpus del Español del Siglo XXI (CORPES). <http://www.rae.es> 


segunda-feira, 3 de abril de 2017

Regionalismos hispano-americanos para o apelativo “brother”

Clique na figura para aumentá-la

Se somente no Brasil temos uma infinidade de apelativos para referir-nos a alguém de forma amigável, “cara”, “camarada”, “parceiro”, “mano”, “chapa”, “véio”, “cumpadi” ou “bróder”, quem dirá em espanhol, com tantas variedades linguísticas?

Vale deixar claro que muitos apelativos têm variações regionais e de cunho social, além disso, também convém reservar esse tipo de tratamento somente aos amigos, já que essa é exatamente a função do apelativo: denotar intimidade, confiança. 

Vejamos uma lista dos apelativos mais frequentes para os amigos em diversos países hispanófonos:

Espanha: colega, tío
Argentina: queridopibecompinche, boludo (apelativo controverso, reservado somente a amigos muito íntimos, já que, por ser uma palavra malsoante, pode resultar ofensivo).
Uruguai: pibe, gurí
Paraguai: kape, chera’a, chamigo
Chile: weon, broder
Peru: pana, causa
Equador: men, pana, compadre, chamo
Colômbia: parce, socio, pana, compi
Venezuela: pana, men, convive
Cuba: sociohermano, aceres
Panamá: fren, cholo, parciero
Costa Rica: mae, pae
Nicarágua: prix
Honduras: maje, alero
El Salvador: cerote
Guatemala: patojo
México: wey, cuate, compa

http://www.yorokobu.es/haceramigos/
http://paislatino.com/17-maneras-de-decir-bro-en-america-latina/

quinta-feira, 30 de março de 2017

Glossário de gerenciamento de projetos de tradução


Antes de aceitar um projeto de tradução, é muito importante entender bem o conteúdo da mensagem. A área de gerenciamento de projetos de tradução, assim como qualquer outra, tem sua própria terminologia especializada, cujo objetivo é padronizar e agilizar a comunicação entre gerentes de projetos e prestadores de serviços. Como não poderia deixar de ser, o inglês predomina nesse contexto. Por isso, ainda que você não fale o idioma, precisa conhecer ao menos algumas expressões e palavras-chave. Para ajudar nessa tarefa, apresentamos um pequeno glossário que todo profissional da área de tradução deveria conhecer.

Quero expressar um agradecimento especial a duas feras da área: Mitsue Siqueira e Bruno Fontes, que contribuíram com toda sua expertise e sem os quais este artigo não seria possível. Valeu!!!

ASAP (As Soon As Possible) = tão logo quanto possível, o quanto antes.
Blacklist = a lista negra é uma relação de palavras que nunca devem ser usadas em um texto.
CAT Tool / CAT (Computer Assisted Translation) = ferramentas de auxílio à tradução (ou tradução assistida por computador), como memoQ, Trados, Wordfast, OmegaT, Déjà Vu e outras.
CEO (Chief Executive Officer) = diretor executivo.
Cleanup = o processo de cleanup apaga o texto original e as tags da visualização, deixando a tradução “limpa”. O termo ficou famoso quando grande parte das traduções eram feitas no Word, com os textos de origem e destino separados por tags, como {0>Source<}0{>Target<0}. Atualmente, o cleanup se assemelha a um processo de conversão, em que a CAT Tool substitui o texto original pelo traduzido, gerando o arquivo final.
Coaching = treinamento direcionado, orientação profissional especializada.
Cotejo = comparação de segmentos dos textos original e traduzido que visa identificar as semelhanças e diferenças.
Deadline = prazo final, dia/hora de entrega da tradução.
Deliverable = consiste em todo o conteúdo a ser entregue no fim de um projeto. Por exemplo, o deliverable de projetos de tradução nas agências costuma ser o arquivo bilíngue na CAT Tool. Relatórios de ferramentas de QA, como o Xbench, também podem ser considerados deliverables de um projeto.
DNT list (Do Not Translate) = palavras que devem continuar no idioma de origem.
DTP (Desktop Publishing) = a editoração eletrônica consiste em editar textos e publicações por meio de software específico para edição avançada de imagens. Em tradução, programas comuns de DTP são o InDesign e o FrameMaker.
DTPer (Desktop Publisher) = profissional que trabalha com editoração eletrônica.
Editing = revisão minuciosa que envolve o cotejo do texto nos idiomas original e traduzido.
ENU = inglês dos Estados Unidos.
ENG = inglês da Inglaterra.
EOB (End of Business Day) = fim do expediente (18h).
EOD (End of Day) = fim do dia (23h59).
ESL = espanhol latino-americano.
ETA (Estimated Time of Arrival) = hora aproximada de chegada (de um arquivo, projeto etc.).
Expertise = habilidades e conhecimento adquiridos em determinada área por meio de estudo, experiência e prática.
TBC (To Be Confirmed) = a ser confirmado, confirmação em aberto, confirmação pendente.
Feedback = processo pelo qual um texto é analisado para determinar não apenas os pontos passíveis de melhoria, mas também destacar os pontos positivos.
Freela/Frila = gíria para freelancer, profissional autônomo.
FTP (File Transfer Protocol) = local de armazenamento online compartilhado onde é possível enviar ou receber arquivos.
Fuzzy match = frases com aproveitamento de palavras em relação à TM.
FYI = For You Information, para sua informação, para seu conhecimento.
G11N (Globalization) = abreviatura de globalização. Abrevia-se dessa forma porque há 11 letras entre as letras G e N.
Gestor de terminologia = software usado para carregar e gerenciar glossários e termbases em geral, como o Multiterm.
Hand-back = devolução do serviço, entrega da tradução.
High fuzzy = frases com aproveitamento de palavras muito alto em relação à TM.
I18n (Internationalization) = abreviatura de internacionalização. Abrevia-se dessa forma porque há 18 letras entre as letras I e N.
Insight = ideia não convencional, solução inovadora para um problema.
Invoice = fatura, nota fiscal.
Internacionalização = processo de criação de um software ou aplicativo que visa disponibilizar o design do recurso e de seus códigos em vários idiomas. A internacionalização está relacionada ao desenvolvimento de aplicativos (codificação de caracteres, flexibilidade de formatação, símbolos, adaptabilidade do layout, etc.), simplificando a criação de várias edições linguísticas de um programa.
IT (Information Tecnology) = Tecnologia da Informação.
Job = trabalho, projeto, tarefa.
k = milhares. Exemplo, 20k é o mesmo que 20 mil palavras.
Know-how = conjunto de habilidades e conhecimentos aprendidos na prática.
L10N (Localization) = abreviatura de localização. Abrevia-se dessa forma porque há 10 letras entre as letras L e N.
Language skills = competências linguísticas, habilidades relacionadas ao idioma.
Layout = disposição de texto, gráficos e imagens em determinado espaço.
Localização = processo que, além da tradução, consiste na adaptação do conteúdo ao público-alvo. Envolve cultura, regionalismos, conversão de moedas e medidas, adoção de formas diferentes de escrita, adaptação de aspectos políticos, econômicos, legais e culturais do país. Em suma, localizar um produto significa adaptá-lo ao mercado de destino.
Low fuzzy = frases com aproveitamento de palavras muito baixo em relação à TM.
 (Linguistic Sign-Off) = verificação final de um texto que já passou pelas etapas de TEP. O foco do LSO está em acertar questões visuais (tabulações, quebras de linha, paginação etc.). Finda a etapa de LSO, supõe-se que o texto segue o formato adequado.
LSP (Language Services Provider) = prestador de serviços linguísticos. Os mais conhecidos no mercado são as agências de tradução, embora todo tradutor ou revisor possa se considerar um LSP.
Match/Matches = correspondências de um texto em relação à TM.
MT (Machine Translation) = mecanismo de tradução por máquina, como o Google Tradutor.
Networking = rede de contatos e conexões que promovem interação e comunicação no ambiente profissional.
No match/0% match = segmento sem correspondência em relação à TM.
100% match = segmento exatamente igual a um segmento já traduzido na TM.
PE (Post-Editing) = tarefa de pós-edição de textos processados por um mecanismo de tradução por máquina.
PM (Project Manager) = gerente de projetos, profissional responsável por administrar as questões organizacionais de um projeto, como prazos e alocação de fornecedores.
PO (Purchase Order) = ordem de compra, ordem de serviço.
Post Mortem = tarefas desempenhadas após a conclusão do projeto para fins de preparação e atualização de versões futuras.
Proofing = leitura final apenas do texto traduzido para fins de verificação dos últimos detalhes, como questões de fluência.
PTB = português brasileiro.
Público-alvo = público ao qual se destina a tradução.
QA (Quality Assurance) = verificação da qualidade de um documento traduzido com base em critérios linguísticos predefinidos.
QAer = profissional responsável pelo processo de avaliação de textos.
QA Report = relatório que lista os problemas identificados por ferramentas especializadas na verificação final dos textos traduzidos, como o Xbench. Tais ferramentas detectam automaticamente vários erros, como falta de pontuação, numeração trocada e inconsistências entre os textos de origem e destino.
QQ (Quick Question) = pergunta rápida.
Query = consulta feita ao cliente ou ao revisor sobre a tradução de um projeto.
Query Sheet = planilha de dúvidas, pendências ou comentários feitos ao cliente ou ao revisor durante a tradução de um projeto.
Repetition = quantidade de trechos ou frases que se repetem em um texto.
Segmento/String = forma como as CAT Tools particionam a tradução. Em geral, a divisão é feita considerando os pontos-finais das frases, embora algumas permitam personalizar a divisão.
Skill = habilidades ou competências de um profissional.
Source = texto de origem.
Success Stories/Case = histórias de relações profissionais de sucesso, exemplos de resultados práticos positivos.
T9N (Translation) = abreviatura de tradução. Abrevia-se dessa forma porque há 9 letras entre as letras T e N. A tradução consiste na transposição de um texto a outro idioma.
Tag = nas CAT Tools, as tags são marcas de formatação do texto (negrito, itálico, sobrescrito, cor, tamanho etc.). Inverter a ordem das tags ou excluir alguma delas pode causar problemas de formatação ao converter e gerar o arquivo final.
Tagline = pequena frase, semelhante a um slogan, que resume e comunica o propósito da marca de forma autêntica e inspiradora (Ex.: Nestlé faz bem).
Target = texto de destino.
TB (Term Base) = repositório de palavras com terminologia aprovada usado para fins de economia do tempo de pesquisa e digitação.
TEP (Translation, Editing, Proofing) = em linhas gerais, são os processos de tradução, revisão e leitura final de um texto.
TM (Translation Memory) = a memória de tradução é um repositório de todas as traduções feitas em um projeto. Programas como o Olifant são usados especificamente para gerenciar o conteúdo das memórias de tradução.
tmx = extensão mais popular das memórias de tradução exportadas. O formato tmx costuma funcionar em todas as CAT Tools.
VIP = Very Important Person.
Whitelist = ao contrário da lista negra, a lista branca (lista de permissões) é uma relação de palavras recomendadas e preferenciais.
WC (Word Count) = contagem das palavras de um projeto de tradução.
WWC (Weighted Word Count) = contagem das palavras de um projeto levando em conta a porcentagem de correspondência com o conteúdo da TM. O cálculo de WWC considera os diferentes tipos de “peso” (repetitions, 100% matches, no matches) para gerar um volume total do esforço de tradução.
Workshop = oficina ou curso intensivo de pouca duração.

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Com a colaboração de:

elartedetraducir.wordpress.com
www.traduwiki.net.br

terça-feira, 28 de março de 2017

Millôr tradutor

Por ocasião dos cinco anos sem Millôr Fernandes, vamos celebrar sua criatividade, autenticidade e bom humor, apreciando um pequeno fragmento seu sobre a arte de traduzir, de uma entrevista para a Revista Senhor, em 1962.

«Com a experiência que tenho, hoje, em vários ramos de atividade cultural, considero a tradução a mais difícil das empreitadas intelectuais. É mais difícil mesmo do que criar originais, embora, claro, não tão importante. E tanto isso é verdade que, no que me diz respeito, continuo a achar aceitáveis alguns contos e outros trabalhos meus de vinte anos atrás; mas não teria coragem de assinar nenhuma das minhas traduções da mesma época. Só hoje sou, do ponto de vista cultural e profissional, suficientemente amadurecido para traduzir. As traduções quase sem exceção (e não falo só do Brasil), têm tanto a ver com o original quanto uma filha tem a ver com o pai ou um filho a ver com a mãe. Lembram, no todo, de onde saíram, mas, pra começo de conversa, adquirem como que um outro sexo. No Brasil, especialmente (o problema econômico é básico), entre o ir e o vir da tradução perde-se o humor, a graça, o talento, a poesia, o pensamento, e, mais que tudo, o estilo do autor.

Fica dito – não se pode traduzir sem ter uma filosofia a respeito do assunto. Não se pode traduzir sem ter o mais absoluto respeito pelo original e, paradoxalmente, sem o atrevimento ocasional de desrespeitar a letra do original exatamente para lhe captar melhor o espírito. Não se pode traduzir sem o mais amplo conhecimento da língua traduzida mas, acima de tudo, sem o fácil domínio da língua para a qual se traduz. Não se pode traduzir sem cultura e, também, contraditoriamente, não se pode traduzir quando se é um erudito, profissional utilíssimo pelas informações que nos presta – o que seria de nós sem os eruditos em Shakespeare? – mas cuja tendência fatal é empalhar a borboleta. Não se pode traduzir sem intuição. Não se pode traduzir sem ser escritor, com estilo próprio, originalidade sua, senso profissional. Não se pode traduzir sem dignidade.»


Escritor, desenhista, dramaturgo, humorista, considerado um dos maiores frasistas brasileiros, colaborou em diversos veículos com suas observações críticas e irreverentes sobre a vida, relacionamentos, política e sociedade. Como não podia ser diferente, como tradutor, Millôr também defendia algumas convicções polêmicas “Ao traduzir, é preciso ter todo rigor e nenhum respeito pelo original”. Claro que não devemos interpretar essa declaração ao pé da letra, o que ele defendia era que traduzir bem é obter o melhor resultado possível na língua de chegada, o resultado mais inteligível e inteligente, encarando o idioma de partida como de fato é: idioma de partida.

Outra questão polêmica é que Millôr era autodidata e tinha a convicção de que, para realizar uma boa tradução, não era necessário dominar plenamente o idioma de partida nem conhecer com profundidade o contexto em que o autor havia escrito. Para ele, o essencial era conhecer bem o próprio idioma e elaborar em português uma versão pessoal e interpretativa do texto estrangeiro, negando, a existência de “expressões intraduzíveis”.

Confesso que me sinto “quadrada” diante de tanta ousadia. Em se tratando de tradução literária, sou bem mais “careta”, acho que o texto original e o idioma de partida são a baliza que não devemos perder de vista, e encaro nossa missão de uma forma mais “serviçal” no sentido de que nosso papel é permitir que o autor chegue até os leitores que não leem em sua língua. Esse é meu lado racional falando, mas como boa geminiana, meu lado emocional se encanta com imagem da borboleta voando livremente... εïз

Polêmicas à parte, não deixo de admirar e de me inspirar na coragem e perspicácia de Millôr, mas convenhamos que ele não era nenhum inconsequente, apesar de suas frases polêmicas, observamos no trecho da entrevista que ele acredita, sim, no respeito ao original, no amplo conhecimento da cultura e da língua traduzida e no domínio da língua para a qual se traduz, enfim, é um "rebelde ajuizado" ;-)

Para saber mais, leia “Millôr tradutor”, texto de Gabriel Perissê, publicado na 79ª edição da Revista Língua Portuguesa e disponível em Camaleó, plataforma colaborativa de publicação e disponibilização de conteúdos. 

quinta-feira, 16 de março de 2017

Por que aprender espanhol

Quando pensei em escrever este texto, procurei inspiração num texto de Ítalo Calvino chamado Por que ler os clássicos, no qual o autor habilmente consegue despertar a atenção do leitor com a simples justificativa de que ler os clássicos é melhor do que não ler...

Seguindo essa linha, eu podia simplesmente dizer que falar duas línguas é melhor que falar uma só, mas por quê?

Quando aprendi o português, não aprendi somente um código, um conjunto de palavras e combinações, aprendi a ver o mundo a partir dos olhos de um brasileiro, conheci um mundo novo repleto de aventuras e desventuras: navegações, desbravamentos, miscigenações, revoltas que culminaram num povo autêntico e único. Aprendi a viver, a pensar, a sonhar como um brasileiro. Conheci um universo de músicas, ritmos, textos, sabores, sotaques, folclore, paisagens, arte. Enfim: só ganhei! (veja também: Como aprendi o português).

E o mais incrível foi que, aprendendo sobre a língua portuguesa, aprendi mais sobre a língua espanhola; aprendendo sobre o Brasil, aprendi mais sobre a Espanha; e aprendendo sobre os brasileiros, aprendi mais sobre os espanhóis, tudo isso porque só conhecemos a nós mesmos através dos outros, é a relação com o outro que nos define.

Mas não é minha intenção fazer filosofia, minha intenção é convidá-los a ampliarem seus mundos. O Brasil está rodeado de países hispano-falantes dos quais sabemos muito pouco; fazemos fronteira com dez países e vivemos isolados em nosso mundinho. Como podemos almejar uma liderança regional ignorando nossos vizinhos? Uma das principais habilidades do líder é ser um bom comunicador, mas como ter uma boa comunicação com nossos vizinhos se não estamos interessados em aprender sua língua?

Não é a lei da educação que tem que mudar, é a nossa atitude.

Quando cheguei ao Brasil tive medo, saí de minha zona de conforto. Fui “jogada” na quinta série sem saber falar português. Eu tinha somente nove anos e me senti mais perdida que cachorro quando cai do caminhão de mudança, mas aos poucos fui me arriscando, estabelecendo contato, vencendo meus preconceitos, fui me integrando, fui me envolvendo e quando vi... Pronto! Eu queria ser brasileira! E o tempo foi passando, e o meu sonho de ser zoóloga e de poder me comunicar com os animais acabou substituído pela profissão de tradutora e pelo desafio de me comunicar com os homens ;-)

A propósito, sabe aquela expressão de “perdido como cachorro que cai do caminhão de mudança”? Pois na Espanha se diz “perdido como un turco en la neblina?” a origem dessa expressão é na verdade uma deturpação. Na Espanha, durante muito tempo, a bebedeira foi vinculada aos turcos, acusados de infiéis e de não serem tocados pela água benta, daí que o vinho sem adição de água fosse chamado de vino turco. Com o tempo, a expressão  tener una turca passou a ser sinônimo de estar bêbado; e por extensão, turca, passou a significar bebedeira. Então, imagine um bêbado perdido na neblina...

Você sabia disso? Não? E sabia que o Brasil pertenceu durante sessenta anos (1580-1640) à Coroa espanhola, unida à de Portugal no reinado do rei Felipe II? Pois é, a presença do hispano no Brasil é bem maior do que podemos imaginar...

Vivemos num mundo globalizado onde língua é cultura, cultura é conhecimento, conhecimento é poder, e poder é liberdade.

Mas se meus argumentos não são bons o suficiente, vamos às cifras:

  • Em 2015, quase 470 milhões de pessoas tinham o espanhol como língua materna. Por sua vez, o grupo de usuários potenciais de espanhol no mundo (grupo de domínio nativo, grupo de competência limitada e o grupo de aprendizes de língua estrangeira) chegava a quase 559 milhões.
  • O espanhol é o segundo idioma de comunicação internacional.
  • É a segunda língua materna do mundo por número de falantes, atrás do chinês mandarim.
  • Mais de 21 milhões de alunos estudam espanhol como língua estrangeira.
  • Nos Estados Unidos, 41 milhões de pessoas falam espanhol de forma nativa e 11,6 milhões são bilíngues.
  • Em países como o Brasil, onde não há muitos profissionais que falam mais de um idioma, o domínio de outra língua pode aumentar consideravelmente as chances de emprego e até mesmo o salário.

Isso sem falar no acesso ao vasto e inestimável acervo artístico e cultural hispano-americano.

Então, respondendo à pergunta que abriu este texto: Por que aprender espanhol?

“Por que não encontro nenhuma boa razão para não aprender!”




quarta-feira, 15 de março de 2017

Palabra rara: «galimatías»

Parodia del lenguaje caballeresco que oscurecía el mensaje

¿Qué significa galimatías?

Galimatías es un término actualmente poco usado para referirse a un discurso o escrito que, debido a la confusión de las ideas, resulta muy embrollado. También se usa como sinónimo de lío, desorden, jaleo.

Originariamente, recibimos esta palabra de la lengua francesa, que a su vez la tomó del griego κατ Ματθαον (kata Mathaion), cuyo significado es «según Mateo».

De ahí no es difícil deducir que la expresión hace referencia a la forma de expresarse de un hombre llamado Mateo, pero ¿qué Mateo?

Mateo Levi fue uno de los doce apóstoles que acompañaron a Jesucristo, pero también es famoso su evangelio, donde describe de forma confusa la genealogía de modo que, si el lector pierde el hilo, puede liarse y no entender situaciones y personajes. De ahí el origen de la expresión ‘galimatías’ para describir ese tipo de sinsentidos.

Ejemplo (biblegateway):

2 Abraham fue el padre de Isaac;
Isaac, padre de Jacob;
Jacob, padre de Judá y de sus hermanos;
3 Judá, padre de Fares y de Zera, cuya madre fue Tamar;
Fares, padre de Jezrón;
Jezrón, padre de Aram;
4 Aram, padre de Aminadab;
Aminadab, padre de Naasón;
Naasón, padre de Salmón;
5 Salmón, padre de Booz, cuya madre fue Rajab;
Booz, padre de Obed, cuya madre fue Rut;
Obed, padre de Isaí;
6 e Isaí, padre del rey David.
David fue el padre de Salomón, cuya madre había sido la esposa de Urías;
7 Salomón, padre de Roboán;
Roboán, padre de Abías;
Abías, padre de Asá;

Aunque según la Wikipedia hay otras explicaciones posibles para el origen de este término, lo cierto es que se usa cuando alguien se expresa de forma complicada o como sinónimo de desorden.

Los traductores, como mediadores culturales, debemos repeler galimatías, ya que nuestro objetivo es promover la comunicación de forma clara y precisa. Siempre y cuando esta no sea proposital, sobre todo en el texto literario, en que la escritura intrincada y rebuscada muchas veces refleja el estilo del autor, en esos casos, debemos respetar la manera particular como el escritor se expresa. (¡Muchas gracias al amable lector Marcos Mendes por recordármelo!).