quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Meus dez livros favoritos

Hoje vou falar dos meus dez livros da vida... Primeiramente devo dizer que foi uma tarefa muito difícil escolher apenas dez entre tantos livros incríveis que já li, então escolhi aqueles que me afetaram de forma mais pessoal e que ilustram bem meus gostos literários. Salvo as capas de O sol é para todos e El príncipe feliz y otros cuentos, as demais são ilustrativas, pois já não lembro quais edições li. Algumas leituras foram em papel; e outras, em leitor digital. Falarei um pouco de cada uma delas:

    1.    Don Quijote de la Mancha, de Miguel de Cervantes
Se eu tivesse de escolher somente um livro entre todos, escolheria Dom Quixote, porque é uma obra tão abrangente que abarca praticamente todas as questões literárias e filosófico-existenciais. Em termos literários, é considerado o pai do romance moderno porque implementou a fórmula do realismo, a crítica social, além disso criou o romance polifônico, que interpreta a realidade a partir de várias perspectivas sobrepostas, combina vários gêneros, como o dramático, o conto, a fábula, a lenda, etc.; e, em termos existenciais, aborda questões, como a liberdade, a justiça e o amor. Além disso, é uma obra que reverbera em toda a produção literária universal. Cervantes conseguiu dominar o imaginário, aliar erudito e popular, realidade e ficção e condensar os ideais de justiça e liberdade na figura de um louco incauto, e é por isso que o livro é tão comovente, porque o protagonista acredita piamente em sua capacidade de mudar o mundo, ainda que tudo não passe de ilusão. 
E, como se tudo isso fosse pouco, é diversão garantida!


2.    El príncipe feliz y otros cuentos, de Oscar Wilde (tradução de Flora Casas)
Este livro é muito especial para mim, pois ele me introduziu na literatura adulta. Ganhei-o quando eu tinha cerca de dez anos como presente de minha mãe. Acostumada aos contos infantis de Christian Andersen e dos irmãos Grimm, quando li Oscar Wilde, experimentei sensações totalmente diferentes. Os contos de Wilde não tinham finais felizes, eles eram melancólicos e tristes, mas extremamente belos. Foi assim que nasceu meu fascínio pelo universo literário.
Assim como os contos de Oscar Wilde, O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry, foi outro livro adulto disfarçado de literatura infantil, que marcou minha infância devido ao seu teor filosófico e poético. Desculpem meu deslize, admito que houve certa trapaça de minha parte ao enfiar mais um livro aqui... Mas convenhamos que ambos os príncipes são adoráveis...

     3.    O sol nasce para todos, de Harper Lee (tradução de Maria Aparecida Moraes Rego)
Peguei este livro emprestado na biblioteca pública de Foz do Iguaçu quando eu tinha uns 12 anos. Escolhi-o pela capa e pelo título, não fazia ideia de estar levando para casa um clássico da literatura mundial. Acho que o que mais me cativou nele foi o fato de a história ser narrada desde a perspectiva de uma criança. Este livro me fez refletir sobre algo que até então me era estranho, o racismo e a injustiça.


4.    Dom Casmurro, de Machado de Assis
Dom Casmurro é aquele livro que me conquistou pelo estilo irônico, crítico e pessimista do autor. Depois de ter lido algumas obras do ultrarromantismo brasileiro em que o amor é idealizado, como Senhora, de José de Alencar, ou A Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo, deleitei-me com a perspicácia de Machado, seu humor ácido, sua crítica social e as novidades estilísticas: o diálogo com o leitor, a descrição psicológica das personagens, a linguagem enxuta e a interpretação aberta que permite diversas interpretações, sem falar na imagem da mulher, livre do estereótipo da mocinha angelical e romântica.
5.    As Meninas, de Lygia Fagundes Telles
Este livro eu peguei emprestado na biblioteca de Itaituba, uma cidade do interior do Pará, onde vivemos durante dois anos. Peguei sem pretensão alguma, sem conhecer a autora, sem saber nada a respeito. Mal sabia eu que estava levando um cânone da literatura feminina brasileira para casa. E hoje me pergunto por que esta autora é relegada das faculdades de letras? Sem dúvida, uma grande injustiça. Merece destaque neste livro a forma como a narrativa é construída, a partir da perspectiva de três amigas, isto é, três focos narrativos que se alternam ao longo do livro e que nos ajudam a construir uma visão multifacetada da relação entre as personagens. Recurso semelhante, em minha opinião, ao utilizado por Mario Vargas Llosa em La ciudad y los perros, livro que também faz parte desta lista.  


6.    A Metamorfose, de Franz Kafka (tradução de Modesto Carone)
Este livro eu li na faculdade, durante o curso de letras. Apresentamos um trabalho sobre ele na disciplina de Literatura Ocidental. Fiquei obcecada pelo autor e acabei lendo outras obras suas, como O castelo, O Processo, O veredicto, Na colônia penal e Carta ao pai. Foi então que aprendi a analisar a obra de uma forma mais abrangente, a literatura como arte, os aspectos estéticos, culturais e sociais. A influência do momento histórico, a intertextualidade, a crítica literária, enfim, foi um divisor de águas entre a leitura meramente recreativa e a reflexiva. Não que a primeira seja inútil, mas a segunda nos permite ver além do senso comum.
Quanto à história em si, a transformação de um ser humano em inseto representa o absurdo e pressagia, ainda que inconscientemente, o horror que estava por vir, pouco tempo depois, nos campos de concentração, a desumanização do homem, o extermínio de seres humanos como se insetos fossem.


     7.    Los santos inocentes, de Miguel Delibes
Esta também foi uma leitura de faculdade, como parte do currículo de Literatura Hispânica. É uma obra contundente sobre a desigualdade social da Espanha rural da época franquista, pós-guerra civil. O autor denuncia de uma forma lírica a exploração e o abuso de poder dos proprietários das terras para com seus empregados, cujas vidas também lhes pertencem. O protagonista é um empregado com deficiência mental, extremamente simples e inocente, que nutre um sentimento de devoção pela ave de rapina da qual cuida, e que o acompanha nas caçadas de pombos com o patrão. O nome do livro se refere aos santos inocentes, os meninos assassinados a mando do rei Herodes, que pretendia matar Jesus entre eles. Assim são as personagens deste livro, inocentes sem livre arbítrio, até o momento em que se produz uma trágica reviravolta.

 8.    La ciudad y los perros, de Mario Vargas Llosa
Foi graças a este livro que me tornei fã do autor. Esta é mais uma dessas obras que conquista prêmios, ultrapassa fronteiras e se torna conhecida mundialmente e acaba sendo adaptada para o cinema. Quantos jovens já não fizeram parte ou desejaram fazer parte de um grupo para adquirir uma identidade, integrar-se e enfrentar juntos uma realidade adversa? Este livro conta a história de um grupo de alunos novatos de um colégio interno militar que se une para enfrentar as humilhações e castigos impostos pelos alunos veteranos. Assim como no livro As meninas, de Lygia Fagundes Telles, a narrativa é um ponto alto. Ela se dá através da alternância de monólogos interiores e de saltos abruptos entre o passado e o presente, o que torna a leitura mais desafiadora. Além disso, aborda questões que assolam não somente a sociedade peruana, mas grande parte dos países latino-americanos: a desigualdade social, o machismo e o preconceito racial para com os mestiços de índios e negros. Sem dúvida, é um ícone da literatura hispano-americana e mundial. Para saber mais, leia a resenha que publiquei aqui no blog http://www.tradutoradeespanhol.com.br/2015/11/bueno-como-hacetiempo-que-no-publico.html
      9.    As vinhas da ira, de John Steinbeck (tradução de Ernesto Vinhaes e Herbert Caro)
Esta é outra daquelas obras que deixam marcas... Também premiada, relata as dificuldades de uma família que, durante a grande depressão, se vê obrigada a abandonar a região do Oklahoma, castigada pela seca e que sofre com uma terrível tempestade de areia, para dirigir-se à Califórnia seduzidos pela promessa de trabalhos e bons salários. A obra relata a pobreza extrema das famílias de imigrantes, que além da miséria, sofrem discriminação por onde passam e que, para sobreviver, são obrigadas a submeter-se a todo tipo de humilhação e exploração. O final do livro é um dos mais comoventes que já li.


10. Los que vivimos, de Ayn Rand (tradução de Luis Kofman)
E para fechar com chave de ouro, esta lista que não se encerra aqui, pois ainda tenho muito que ler, um livro que infelizmente ainda não foi traduzido ao português, Los que vivimos, de Ayn Rand (em inglês, We the living). Li este livro no momento em que vivíamos a pré-eleição aqui no Brasil, em 2018. A história deste livro está ambientada na Rússia comunista, logo após a revolução proletária. Apesar de não ser uma obra autobiográfica, a autora sofreu na pele as amarguras do comunismo e conseguiu naturalizar-se americana após uma arriscada fuga da União Soviética. Minha família também sofreu na pele essas amarguras, meu pai fugiu da Alemanha Oriental; e minha mãe, de Cuba, junto com sua família. Assim, esta obra só veio confirmar minha convicção de que se trata de um regime nefasto, empenhado em eliminar todo individualismo em nome da coletividade, ou seja, sufocar todas as paixões e ilusões pessoais, em nome do Estado. Nas palavras da autora, “Viver para o Estado é um princípio mau e não pode levar a nada que não seja mau”. A protagonista é Kira, uma jovem determinada, ousada e apaixonada, capaz de trair seus princípios em nome do amor e da liberdade. Também dediquei uma postagem a este livro aqui no blog. http://www.tradutoradeespanhol.com.br/2018/01/acerca-del-libro-los-que-vivimos-de-ayn.html

Como a vida segue seu curso e eu continuo lendo, esta lista deve aumentar e, em algum dado momento, devo publicar uma nova lista com outros dez livros.

E você, caro leitor, gostou dessa lista? Gostaria de deixar alguma indicação ou de apresentar sua própria lista? Fique à vontade para deixar seus comentários, que os lerei com muito prazer.

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Relato de viagem


Como promessa é dívida, e não gosto de ficar devendo, aqui estou para tentar compensar a última postagem que ficou bastante chumbrega ou, como dizem os espanhóis, bastante “chunga”... Para aqueles que não perderam seu tempo lendo-a, eis o resumo da ópera: após um longo tempo sem postar, eu pretendia escrever um agradável relato sobre minha recente viagem à Espanha, mas o resultado foi um texto estapafúrdio, sem pés nem cabeça.

Acho que estou um pouco fora de forma, já que escrever é um exercício que requer assiduidade, principalmente quando não se tem o dom.

Tentarei ser menos prolixa desta vez.

Saí de Brasília no dia 28/07, um sábado. Chegando a Guarulhos, eu teria de encarar oito horas de espera em conexão, o que não me preocupava, uma vez que estava preparada, munida do meu Kindle. Naquela ocasião eu lia Caninos brancos, de Jack London, e estava bastante envolvida pela narrativa, assim, minha preocupação maior era distrair-me e perder a conexão. Primeiramente fui até o balcão da Air China, a empresa que me levaria até Madri, para despachar logo as malas. No entanto, o check-in só começaria quatro horas antes do voo. Sendo assim, não me restou outra opção senão ficar com as malas até lá.

Após oito horas de espera, consegui terminar Caninos brancos e praticamente li mais um livro inteiro, Senhor das Moscas, de Willian Golding, indicação do meu filho mais velho. Os dois livros são muito bons e ambos abordam a temática da luta pela sobrevivência. O primeiro ressalta a forma como a luta pela sobrevivência condiciona o caráter; o segundo, a forma com tal luta influencia na coletividade e se reflete na disputa pelo poder e pela liderança.

Minha nossa, desculpem, senhores passageiros, eu disse que seria menos prolixa desta vez...

Vonn... Pronto, cheguei a Madri!

Uma das partes mais tensas é pegar as malas e passar pela alfândega, principalmente se você leva duas malas grandes repletas de itens preciosos supostamente passíveis de confisco: paçoquinhas, pipoca doce, pé de moleque, melado, goiabada, castanha-de-caju, castanha-do-pará, doce de cupuaçu, biscoito de polvilho, sagu, requeijão, carne seca, linguiça calabresa, ingredientes para feijoada, feijão, farofa, três garrafas de cachaça, limão... Fora isso, mais de uma dúzia de havaianas!

Ufa, passei pela alfândega! Agora a pior parte: formar a fila para passar pela migração. Como me naturalizei brasileira, vou para a fila “minhocão” destinada a todos aqueles que não têm passaporte europeu... Meus pensamentos obsessivos se voltam para o ípsilon intruso no nome da minha mãe (ver postagem anterior). Beleza! Meu passaporte é carimbado e agora bem a melhor parte: o encontro com minha irmã e sobrinhos, que já estão me esperando no saguão! Beijos, abraços e selfies!




Do aeroporto nos dirigimos para a casa da minha irmã, em Soto del Real, município da província e Comunidade de Madri, situado na face sul da Serra de Guadarrama. Ficamos por lá dois dias para encontrar-nos com a minha tia e família que moram próximo dali, em Las Rozas. A seguir, partimos rumo a San Juan, uma cidade litorânea que faz parte da Comunidade de Valencia, província de Alicante, na costa mediterrânea do sudeste da Espanha. Vamos para a casa da nossa avó, onde nos encontramos com nossa querida vozinha, nossa outra tia, primas e suas respectivas famílias. A turma é grande, mas minha tia já tem tudo organizado e sob controle.

Os dias são longos, durante o verão a luz solar só se apaga perto das dez da noite. Assim desfrutamos das férias dividindo-nos entre praia, piscina, comidas, siesta, sorvetes, passeios, anedotas e recordações. Momentos aprazíveis em companhia de seres queridos, quem precisa de mais?

Mas vamos aos destaques...

Em termos de comidas, cabe destacar o arroz com polvo, preparado por minha tia e o “arroz a la cubana”, outra de suas especialidades. Os mexilhões ao vapor e a chipa paraguaia, preparados por minha irmã. Os cogumelos e aspargos grelhados e o churrasco, preparados por meu cunhado. O kebab turco, que eu adoro. Os jantares fora de casa, um deles num restaurante mexicano, e o outro, num oriental. Fora as típicas “tapas” espanholas e as “jarras” de cerveja gelada. Sem falar na minha feijoada e caipirinhas, que, modéstia à parte, não deixaram a desejar. Também aproveitei para me empanturrar de aspargos em conserva, que eu adoro, e que são muito mais baratos por lá. Ah, sim! Já ia me esquecendo dos prestigiados sorvetes da Antiu Xixona, cuja cremosidade e variedades de sabores, cada um mais gostoso que o outro, trouxeram-me à memória os sorvetes da Cairu, sorveteria famosa do Pará. Destaque para o delicioso sorvete de “turrón”.

Quanto aos passeios, vale a pena mencionar o que fizemos a Altea, uma encantadora cidade vizinha, localizada no alto de uma colina, conhecida por seus sobrados brancos e ruas empedradas. O ambiente era muito acolhedor, o ar fresco, a vista cinematográfica do alto da cidade, as ruas repletas de famílias, barracas de artesanato e barzinhos. Passamos um final de tarde muito agradável, passeamos pela praça central da cidade, tomamos algo por aí e, finalmente, antes de retornar para San Juan, jantamos muito bem no restaurante de um norueguês.
Fonte:campingarenablanca.com


Fonte: 525tours.com

Fonte: media-cdn.tripadvisor.com

Outro passeio maravilhoso foi o que fizemos a Cuenca, na viagem de volta para Madri. Essa brilhante ideia foi mérito da minha irmã. Confesso que deu certa preguiça ter de desviar uns 60 km do caminho, já que fazia um calor infernal. Mas quando chegamos a Cuenca, fiquei boquiaberta com o que vi... 

Que lugar incrível! Trata-se de uma pitoresca cidade situada no alto de uma colina cercada por um profundo desfiladeiro formado pelos rios Júcar e Huenca. Destaca a parte antiga da cidade com suas ruas estreitas de pedra, a catedral em estilo gótico primitivo, o Convento das Descalças, o Museu, mas, principalmente, as famosas “casas colgantes” uns sobrados suspensos à beira do precipício. Sem dúvida, valeu muitíssimo a pena!


Acervo pessoal

Acervo pessoal
Uma coisa que chamou minha atenção, de maneira negativa, nesta viagem foi a falta de paciência de alguns comerciantes para com os clientes. Claro que não podemos generalizar, mas duas cenas contribuíram particularmente para deixar essa impressão. A primeira, num restaurante à beira da estrada, no qual os clientes escolhem um prato do dia, pagam e se dirigem para as mesas, diferente do procedimento adotado no Brasil, onde geralmente se paga ao deixar o local. Como eu não sabia disso, passei distraída pelo caixa e fui em direção às mesas. O cara do caixa vociferou: “Ei, moça, tem que passar aqui!”, e eu: “Desculpe, não sabia como funciona”, ao que ele respondeu com toda sua simpatia: “Pois funciona pagando!”... “Ah, é mesmo? Que pena, porque eu pretendia fugir correndo com o prato na mão” (PENSEI). Fala sério? Precisava de tanta grosseria?

A outra cena grotesca: o repositor do supermercado empurrava um carrinho de carga cheio de caixas quando deparou com uma senhora de idade avançada, que obstruía seu caminho. A senhora estava distraída escolhendo uns melões na banca e não o ouviu pedir licença. Após alguns instantes, ela finalmente se dá conta de que está obstruindo a passagem e diz: “Ah, me desculpe! Estava falando comigo?”, ao que ele responde: “Não, senhora. Desde pequeno tenho o costume de falar com os melões”. Dá para acreditar em semelhante azedume?

Enfim, gente azeda tem por todo lugar. Nem vou comentar do tratamento que recebemos em certa divisão de estrangeiros, porque o mau-humor é algo meio que inerente ao serviço público, principalmente quando o público-alvo é o estrangeiro. A verdade é essa: tanto no Brasil como na Espanha, salvo poucas exceções, o que se testemunha é muita má-vontade e falta de educação nessas repartições. Pronto. Está feito o desabafo.

No último dia, para fechar com chave de ouro, meu cunhado fez uma barbacoa (churrasco) no quintal para comemorar o aniversário da minha irmã, que seria no dia seguinte. Estiveram presentes minha tia e tio que moram em Las Rozas, com a filha e o filho, o qual há pouco mais de um ano se mudou para Paris e que também é tradutor. E, ainda, o tio e a irmã do meu cunhado. A conversa foi muito agradável e interessante, e boa parte dela girou em torno de curiosidades culturais e linguísticas. A comida também estava ótima e a sobremesa foi um "exótico" sagu de vinho feito por mim.

No dia 11/08 embarquei de volta para o Brasil. A viagem de volta para casa foi muito boa, repleta de boas recordações, eu estava feliz e muito ansiosa para chegar a casa e abraçar meu marido, filhos, e minha sogra que havia chegado há poucos dias para nos visitar, e nossos cachorros, que são como crianças. Nem preciso dizer que houve certo déjà-vu na viagem de volta no que se refere à passagem pela alfândega. Desta vez as malas estavam repletas de jamón, chorizo, Nutella, queso de tetilla, pipas, gominolas, regaliz, mexilhões em escabeche, vinhos, licor, leques, chocolate, presentinhos... e as famosas balinhas de Madrid — as violetas —, que, por incrível que pareça, custei a encontrar.


E para aumentar minha biblioteca profissional, minha tia-patrocinadora me presenteou com duas belíssimas obras: Hablamos la misma lengua, de Santiago Muñoz Machado, um livro que aborda a história política do espanhol na América desde conquista até as independências, e Los enemigos del traductor, da tradutora Amelia Pérez de Villar, autora do blog De libro y de hojas. O livro reúne uma série de reflexões sobre a profissão, elogios e críticas do ofício.

Além dessas joias, trouxe ainda uma figura muito representativa para colocar em minha mesa de trabalho, para dar-me inspiração e coragem nas horas de desânimo ou cansaço: quem melhor que o inexpugnável e destemido Dom Quixote?

Essa foi uma aquisição de última hora. Estava eu já na fila de embarque quando vi centenas de Dom Quixotes me encarando, pedindo para virem comigo para o Brasil. Mas, desse exército de nobres cavalheiros, contentei-me com escolher apenas um! 

Ei-lo aqui, em minha escrivaninha, meu herói enderezador de tuertos y deshacedor de agravios y sinrazones, Don Quijote, ¡el loco más cuerdo! (desfazedor de agravos e consertador de injustiças, Dom Quixote, o louco mais sensato!).


quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Sim, estou viva!


Bom dia, meus queridos seguidores... se é que ainda me resta algum!

Peço desculpas logo de início por ter ficado tanto tempo ausente. Vontade de escrever não me falta, mas a correria do trabalho me deixa tão esgotada que acaba afetando minha inspiração e criatividade.

Antes de tudo, quero frisar novamente a questão de cuidarmos do corpo e da mente, e de combinarmos o trabalho com atividade física e lazer. Devemos reservar sempre tempo para nossos seres queridos, família e amigos, pois eles são nossa razão de ser. A rotina não pode ser tão alucinante a ponto de esgotar nossa energia. Digo isso por experiência própria...

Ultimamente venho tentando incorporar hábitos saudáveis à minha rotina. Estou cuidando mais da alimentação, caminhando uma hora por dia antes de começar a trabalhar, tirando uma sonequinha de 30 minutos no horário de almoço e, principalmente e acima de tudo, reservando tempo para o lazer, isto é, para ler, assistir séries e filmes, sair só com meu marido — ou todos juntos, marido, filhos e cachorros. Vocês não imaginam quão poderosos são esse pequenos, mas inestimáveis, prazeres.

Mas voltando ao ponto de partida, há tempo que quero publicar alguma coisa e retomar o hábito de escrever no blog. Então, cá estou!

Começarei contando sobre a minha recente viagem à Espanha, minha segunda terrinha. Mesmo tendo nascido lá, é aqui que estão meu coração e minhas raízes. Eu amo muito o Brasil, e é aqui que realmente me sinto em casa.

Desta vez fui sozinha, pois meu marido teve a oportunidade de viajar a trabalho nessa mesma época para o norte da Espanha, León. E nossos filhos estão trabalhando e estudando. Então fui sozinha para ficar 15 dias com a família.

Como sempre, o fato de viajar sozinha me deixa um pouco mal, primeiro porque, querendo ou não, sempre me dá certa angústia deixar para trás meu marido e filhos, ainda que por poucos dias; segundo porque sempre fico imaginando que vou ter algum problema no aeroporto, é algo que não posso evitar, é mais forte que eu. Afinal de contas sempre tive muitos problemas com documentação. Agora sou brasileira naturalizada (com passaporte brasileiro), mas sou filha de pai alemão e mãe cubana. Nasci na Espanha, não obstante nunca tive nacionalidade espanhola, mas sim alemã... Isto é, uma combinação bastante esdrúxula que não poderia deixar de se traduzir em muitos percances burocráticos.

Só para ter uma ideia do que estou falando, recentemente precisei corrigir três documentos: a carteira de trabalho, a identidade e o CPF. 

Para corrigir a carteira de trabalho, precisei ir quatro vezes à Secretaria do Trabalho, pois toda hora erravam algum dado, ora o local de nascimento, ora o nome de minha mãe... Enfim, algo que deveria ser simples se transforma numa enorme perda de tempo. 

Para corrigir a identidade até que foi fácil, só precisei levar minha certidão de naturalização e mais alguns documentos e não houve contratempos. 

Já a correção do CPF, não consegui fazer pelo site, porque não havia a opção de cidade de nascimento e UF, além disso, o meu nome tem um “Y” aí perdido que só serve para atrapalhar, porque o sistema da Receita não aceita consoantes avulsas. Lá fui eu para o Correio, fiz o procedimento de alteração, paguei a taxa e, eis que o funcionário vira para mim e me diz: “A senhora vai ter que ir na Receita para finalizar o procedimento”, e eu, “Ah, que bom, filhinho porque eu não tenho nada melhor para fazer mesmo, além disso, já estou com saudade dos funcionários receptivos e amigáveis da Receita”... (PENSEI!) Hehehe... Não sou tão ignorante, mas, que dá vontade de soltar uma dessas, dá.   

Lá fui eu, no meu horário de almoço, peguei um Uber para ir até à Receita. Não é que o cara me erra o caminho e eu chego cinco minutos atrasada? Aí, lá vou eu com a minha cara de ovelha a caminho do abate... “Moça, eu tinha horário agendado, mas cheguei com cinco minutos de atraso porque o Uber que peguei errou o caminho... será que ainda posso ser atendida?”. Ela responde “Só um momento, por favor”, liga para alguém e me diz: “Infelizmente, blá, blá, blá”, e eu: “Tudo bem, eu não queria mesmo. Prefiro ter que agendar novamente e fazer outro passeio de Uber, porque eu não tenho nada melhor para fazer nesta vida”... (PENSEI).

AFFFF... Para minha surpresa, na segunda vez deu certo.

Agora imaginem... Se para resolver essas questões domésticas já é um parto, quem dirá para fazer uma viagem internacional? Não é à toa que eu fico sofrendo por antecipação, gato escaldado tem medo de água fria!

Desculpem mais uma vez! Eu estava prevendo que isso ia acontecer... Após um período de abstinência blogueira, foi impossível driblar a bendita tagarelice. O que era para ser um agradável diário de viagem, transformou-se numa versão medíocre de um pesadelo kafkiano...

Lamento, mas a parte interessante terá de esperar a próxima postagem.

Não me abandonem, que tentarei compensar.

Abraço e um ótimo dia a todos os corajosos e misericordiosos que aguentaram chegar até aqui. Certamente há um lugar reservado para vocês, lá em cima, na área VIP!

É óbvio que não vou pedir um joinha... só faltava essa!

sexta-feira, 29 de março de 2019

5 bons motivos para recusar um trabalho


Embora o mar não esteja para peixes, há ocasiões em que não só podemos como devemos recusar trabalhos.

Deixando de lado tarifas ou prazos incompatíveis, que por si só já justificariam um "não", eis outras boas razões para recusar um trabalho:

1)    Por inaptidão: quando a complexidade do objeto extrapola a nossa capacidade, seja por não dominarmos a área de especialidade, a variante linguística, ou ainda, a ferramenta de auxílio à tradução, é preferível renunciar a oferecer uma tradução aquém das expectativas. Não é motivo de vergonha admitir nossas limitações, pelo contrário, é sinal de profissionalismo e sensatez.

2)    Por princípios morais: em princípio não deveríamos recusar trabalhos somente por não concordarmos com o conteúdo, isso seria uma atitude preconceituosa. No entanto, há casos em que o conflito com nossas crenças, ideologia ou sensibilidade é tal que o melhor é rechaçar o serviço.

3)    Por deficiência do original: em ocasiões deparamos com textos deficientes, com problemas de redação ou de tradução. Por vezes a adequação (quando for possível mexer no texto) requer tamanho esforço que não vale a pena, além do possível comprometimento da qualidade do resultado.

4)    Por falta de informação: somente aceite um trabalho depois de conhecer todos os detalhes que podem impactar no custo, prazo e qualidade, isto é, formato do arquivo, número de palavras, par de idiomas, área de especialidade. Ainda que pareça óbvio, nunca é demais destacar. O ideal seria que você pudesse dar uma olhada no original antes de aceitar o pedido, embora isso nem sempre seja possível devido à questão da confidencialidade, daí a importância de conhecer os detalhes.

Para saber o que levar em conta antes de aceitar um projeto, clique aqui.

5)    Por último, mas não por isso menos importante, antes o contrário: por motivos de esgotamento mental e físico. Se você acaba de sair de um trabalho extenuante, pense duas vezes antes de aceitar o próximo pedido, principalmente se já estiver sentindo dores nos tendões, articulações, etc., ou sintomas de estresse, como dificuldade para dormir, palpitações, ou outros. Não sacrifique sua saúde em nome do trabalho, pois uma hora a fatura chega.

Aceitar tudo sem questionar é sinal de imaturidade, o profissional experiente é capaz de estabelecer critérios para preservar-se.

Independentemente do motivo que o levou a recusar um trabalho, nunca se esqueça de expor suas razões, desculpar-se e de agradecer a oportunidade.  

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

A tradução de obras regionalistas



Como é muito difícil encontrar oficinas on-line de tradução literária, especialmente de espanhol, de vez em quando eu leio um livro nas duas línguas — espanhol e português — como exercício, para aprender com o trabalho de outros tradutores, observando suas escolhas, estratégias e soluções.

Desta vez escolhi um romance que tem como pano de fundo o sertão, a escolha foi proposital, pois meu objetivo era observar como traduzir para outra língua elementos típicos da cultura e do bioma sertanejos, tais como fauna, flora, culinária, indumentária, tipos sociais, costumes e falares do sertanejo, etc.

A dificuldade de traduzir um romance regional reside na falta de correspondentes no outro idioma porque o referente — seja ele concreto ou abstrato — inexiste na cultura de chegada.

Como levar ao leitor estrangeiro uma realidade totalmente diferente da sua?
Como traduzir, por exemplo, termos como caatinga, cangaço, jagunço, alpercatas, coiteiro, coronel, mandacaru, cabra da peste, cerrado, mau-olhado, corpo fechado e tantos outros? E, ainda, como reproduzir em outro idioma um sotaque ou um falar típico?

Ao traduzir uma obra regionalista há duas estratégias: a domesticadora, que consiste em criar um texto fluente que não pareça uma tradução, eliminando ao máximo a estranheza sintática, as marcas regionais e culturais, substituindo-as por referências locais, familiares ao leitor; ou a estrangeirizante, que consiste em levar o leitor ao lugar, conservando todas as referencias do original e deixando transparecer a estranheza.

Essa dicotomia foi defendida por Schleiermacher, o qual tinha uma preferência clara pela segunda estratégia, a estrangeirizante, em oposição a uma tendência dominante na época, imposta, sobretudo, pelos franceses de fazer traduções tão domesticadoras que poderiam ser consideradas adaptações e que lhes valia a alcunha de “belas infiéis”, pois modificavam os textos estrangeiros a tal ponto que pareciam originalmente escritos em francês.

Em seu livro A tradução literária, Paulo Henriques Britto afirma que essas duas estratégias representam mais um par de ideais absolutos inatingíveis e que, na prática, o que fazemos é adotar posições intermediárias entre os dois extremos, evitando uma tradução radicalmente estrangeirizante a ponto de resultar em um texto ilegível ou, no outro extremo, uma tradução que leve a domesticação às últimas consequências de maneira que o resultado seja outra obra, uma adaptação.

Pessoalmente, quando leio um romance de uma cultura exótica, busco sentir o estranhamento que sentimos quando fazemos uma viagem ao deparar com outra cultura, outra história e outra visão de mundo. Em minha opinião é esse contato com o outro que enriquece a experiência de ler um romance estrangeiro.

Voltando à experiência em questão, o livro que escolhi, Entre Irmãs, embora seja ambientado no sertão, foi escrito originalmente em inglês por Frances de Pontes Peebles, escritora brasileira nascida no Recife e criada em Miami, na Flórida. Lançado no mercado americano, em 2009, com o nome The seamstress (A costureira), só chegou ao Brasil no ano seguinte, publicado pela Nova Fronteira, então como A costureira e o cangaceiro. O romance foi traduzido a nove idiomas e adaptado para o cinema pela Conspiração Filmes e para a TV pela Rede Globo, em formato de minissérie com o nome Entre Irmãs.

O livro que eu li em português foi Entre Irmãs, reedição da Editora Arqueiro, que reproduz o nome do filme, tradução de Maria Helena Rouanet. E a versão em espanhol foi La costurera, publicado pela editora Debolsillo, tradução de Julio Sierra e Jeannine Emery.

Uma vez que o tradutor tem em mãos o original, começam as dificuldades e as inevitáveis escolhas:

Regionalismos intraduzíveis

Ao deparar com um termo que não tem correspondente na cultura de chegada, uma opção é criar um neologismo ou adaptação, tal como ocorreu, por exemplo, com a palavra sertón, neologismo que acabou enriquecendo o acervo da língua espanhola após a tradução da obra Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. Outra opção é manter o termo tal qual no original. A segunda opção foi a escolhida pelo tradutor de, La Costurera, que manteve a grafia original, sertão.
Uma alternativa é parafrasear o termo intraduzível, como foi feito com a palavra “tapioca” traduzida como “panqueque de mandioca”. Ou ainda, manter o termo original seguido de uma breve explicação: “Dicen que el doctor es um coiteiro, un cómplice de los malechores”.

Nomes de pessoas

Geralmente os nomes de pessoas não se traduzem, mantêm-se os acentos e os caracteres do original, essa foi a opção adotada pelo tradutor, que manteve as grafias originais: Emília, Luzia, Doña Conceição, Antônio Teixeira, los Coelho, etc. Já no caso dos apelidos dos cangaceiros, faltou certa uniformidade: traduziu alguns e manteve a grafia original de outros que poderiam ter sido traduzidos: Orejita, Inteligente, Canjica, Ponta Fina, Chico Ataúd (Chico Caixão), Medialuna, Seguridad (Alfinete de Fralda), Jurema, Sabiá, Zalamero (Fala Mansa), Baiano, etc.  Quando um nome é escrito em um alfabeto muito diferente, como, por exemplo, o árabe ou o russo, é possível fazer a transliteração, que consiste em representar os caracteres da escrita da língua de partida pelos caracteres da língua de chegada, Por causa disso, vemos nomes como "Ajmed", "Yibrán" e "Jaled", quando estamos acostumados a escrever "Ahmed", "Gibran" e "Khaled".

No livro em questão, o apelido Neném virou Bebé na versão em espanhol, e o apelido do chefe do bando dos cangaceiros, Carcará, em espanhol foi traduzido como Halcón (falcão) seguindo o original em inglês, “Hawk”. Certamente a falta de uniformidade entre as escolas das versões em espanhol e português se deve ao fato de as duas traduções terem sido realizadas a partir de uma terceira língua, o inglês.

Chamou minha atenção, na versão em espanhol, a presença de duas grafias para um único nome: Luzia e Lucía, mas percebi que a razão disso é que a primeira se referia ao nome de uma das protagonistas, enquanto que a segunda se referia a santa Lucía, a protetora da visão. Assim, a primeira manteve a grafia utilizada no Brasil, e a segunda a grafia do espanhol.

Topônimos e acidentes geográficos

Geralmente também não se traduzem nomes de localidades ou acidentes geográficos, salvo quando estes já têm sua tradução assentada, como, por exemplo, Río de Janeiro ou Bahía de Todos los Santos. O rio San Francisco teve seu apelido afetuoso traduzido como Viejo Chico.

Cultura e costumes

A versão em espanhol manteve a grafia em português de praticamente todos os papéis desempenhados pelo sertanejo: cangaceiro, jagunço, coiteiro, etc., inclusive daqueles tinham correspondentes em espanhol, como, por exemplo, “vaqueiro”.
Em outras ocasiões, estes apareciam acompanhados da respectiva explicação “Finalmente, para los coroneles, los grandes terratenientes del campo”.

Achei curioso o adjetivo “encanadeira”, utilizado para referir-se à pessoa que fazia as vezes de ortopedista no interior. Em espanhol, o tradutor empregou o termo ensalmador, acompanhado do aposto explicativo “el curandero que colocaba los huesos dislocados”.

Alguns termos típicos de crenças e costumes foram traduzidos, como, por exemplo, “mau-olhado” (mal de ojo), e outros foram mantidos em português, como “corpo fechado”: “¿Creía ella que pronunciando la oración del corpo fechado protegia su cuerpo del mal?”.

Acredito que a intenção tenha sido realçar o sabor local, conforme as palavras da própria escritora que utilizou esse recurso no original em inglês: “Não existe tradução para alpercatas, cangaço ou jagunço. Não são sandálias de couro, bandidos nem vaqueiros, têm outro significado. Então, pus notas explicativas e deixei tudo como se fala aqui, até porque pretendia reproduzir um pouco da musicalidade do palavreado polissilábico português”.

Falares ou dialetos

Os diálogos não apresentam marcas dialetais em português, nem em espanhol. Os diferentes sotaques são descritos na narração, mas não são reproduzidos nos diálogos:

Sabía leer y escribir y hablaba con un deje de São Paulo que no guardaba ningún parecido con su acento del noreste. No cortaba los finales de las palabras, permitía  que la  ‘o’ y la ‘s’ se quedaran sobre la lengua, saboreándolas antes de lanzarlas al mundo”.

En presencia de Lindalva, la joven esposa de tierra adentro temía decir demasiado, caer en sus viejos hábitos o hablar con su acento provinciano”.

Ahora sé que eso es falso. Su acento de Río era fuerte y exagerado”.

Outras observações

Um fato curioso que chamou minha atenção foi que, na versão em português, menciona-se o nome de um personagem histórico, o então candidato e posteriormente presidente Getúlio Vargas, com seu nome real, enquanto que na versão em espanhol e no original em inglês, utilizou-se um nome fictício, “Celestino Gomes”. Não entendi o motivo dessa discrepância.

Outro detalhe que merece destaque na tradução é a terminologia especializada em outros âmbitos além do cangaço e do sertão, como, por exemplo, o do mundo da costura, mencionam-se nomes de tecidos, peças de vestuário, indumentárias da moda, e ainda, pontos de bordado e tipos de costura.

Ou ainda, quando faz referência à “frenologia”, pseudociência em voga no início do século XX, que consistia no estudo da estrutura do crânio de modo a determinar o carácter das pessoas e a sua capacidade mental. São temas muito específicos que requerem uma precisa pesquisa terminológica por parte do tradutor.

Além de considerar a variante da língua-fonte, ao traduzir um romance regionalista, também é preciso considerar as variantes da língua-alvo. O espanhol é falado em mais de 20 países pelo mundo, por esse motivo, o mercado editorial costuma recomendar uma espécie de “espanhol neutro” para conseguir a maior abrangência territorial possível, essa meta, no entanto, é bastante utópica, pois o que viria a ser um espanhol padrão? Uma variedade intermediária entre o espanhol hispano-americano e o espanhol peninsular?  

Por fim, cabe lembrar que a versão ao espanhol foi fruto do trabalho de dois tradutores. Fica a dúvida: De quem terá partido a iniciativa da parceria, dos próprios tradutores com o objetivo de aprimorar a pesquisa histórica e terminológica ou da editora para acelerar a publicação da tradução?

É isso aí, espero que estes apontamentos possam ser úteis àqueles que se interessam pela tradução literária!



terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Literatura e gramática




Ao pensar na relação gramática-literatura, a primeira coisa que me vem à mente é a minha própria experiência: quando adolescente, eu amava a literatura, mas detestava a gramática. Lembro-me bem de uma ocasião em que a professora tentava explicar a diferença entre as subordinadas causais e as coordenadas explicativas, e tudo o que eu mais queria naquela hora era transformar-me em um pastor de ovelhas, em um ermitão ou em coisa que o valha. Em outras palavras, o que eu mais queria era fugir de tudo aquilo. Minha postura era totalmente arrogante em relação à gramática e à redação, eu gostava de frases de efeito do tipo “metamos o martelo nas teorias...”, do escritor francês Vitor Hugo. Mal sabia eu que o caráter revolucionário do Romantismo defendia a liberdade de criação e de expressão, o fim dos padrões estéticos e não o fim da gramática!

Eu só conseguia me concentrar no martelo quebrando tudo, não prestava atenção ao restante da frase: “Metamos o martelo nas teorias, nas poéticas e nos sistemas. Abaixo este velho reboco que mascara a fachada da arte! Não há regras nem modelos além das leis da natureza, que planam sobre toda a arte, e das leis especiais que, para cada composição, derivam das condições próprias de cada assunto". Eu não conseguia enxergar a precisão gramatical  por tras daquela frase, que permitia que o autor se expressasse com clareza e perfeição.

Por outro lado, um dos meus passatempos favoritos era ler e reler os contos do escritor britânico Oscar Wilde, que se destaca pelo extremo gosto pela beleza. O autor da época vitoriana pertenceu ao realismo e se identificou especificamente com o esteticismo inglês, movimento artístico baseado na doutrina de que a arte existe para benefício de sua exclusiva beleza e que esta deve ser elevada acima da moral e dos temas sociais na literatura.

Parece contraditório, não?

Anos mais tarde, após estudar letras e ter a oportunidade de trabalhar como professora de língua portuguesa e literatura, pude entender que a escrita, principalmente a literária, não é um dom inato, uma dádiva que o autor invoca como um xamã. Entendi que a estética literária é fruto, sim — em parte —, da criatividade e da inspiração, mas também de muito trabalho e reflexão e, que, ao contrário do que eu imaginava, a gramatica não é um instrumento de opressão e tortura, mas um meio que nos permite acessar e manifestar o belo.

Hoje, passados mais de dez anos de dedicação exclusiva à tradução, a minha relação com a gramática é de gratidão e admiração. Quando falo de gramática, não me refiro a uma visão meramente prescritiva e normativa, mas às associações conceituais, à estilística e às funções exercidas por cada elemento que compõe esse sistema vivo e pulsante chamado língua. Uma boa estratégia para ensinar gramática é ensiná-la contextualizada por meio da literatura, para mostrar que aquela não é um reboco que engessa e tolhe a arte, mas sim o contrário: o acabamento que enfatiza sua beleza e forma.

Em certa ocasião, já na faculdade, na aula de Teoria da Literatura, o professor falava sobre o movimento literário do Romantismo, e eu fiz um comentário sobre a sua relação com a Revolução Francesa. O professor me constrangeu diante da turma dizendo que assim eu estava "matando" a literatura, que se eu me interessava por História deveria procurar outro curso... Como se os escritores fossem seres alheios à realidade e à sociedade... Por que tratar a literatura como algo sagrado acima do bem e do mal, acima do próprio homem? "A literatura é. E ponto" essa era a definição de literatura defendida pelo tal professor. Desculpem o desabafo.


educador.brasilescola.uol.com.br

  



quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Tradução de conto ao espanhol


Edmundo el escéptico 
Texto de Cecília Meireles
Tradução de Diana Margarita Sorgato

En aquel tiempo, no sabíamos qué era el escepticismo. Pero Edmundo era escéptico. La gente se enfadaba y lo llamaba terco. Era una gran injusticia y una definición equivocada.
Él quería partir con los dientes los huesos de la ciruela para chupar la mielecilla que hay dentro. Todo el mundo le decía que los huesos eran más duros que sus dientes. Se rompió los dientes para comprobarlo, pero lo comprobó. Y todos nosotros aprendimos a su costa. (¡El escepticismo también tiene su valor!).
Le dijeron que si se sumergía de cabeza en el tonel de agua del patio, podría morir ahogado. No se asustó con la idea de la muerte: lo que quería saber era si le decían la verdad. Y no se ahogó solo porque el jardinero andaba por allí.
En la lección del catecismo, cuando le dijeron que los sabios desprecian los bienes de este mundo, preguntó desde el fondo de la clase: «¿Y el rey Salomón?». Fue necesario que la profesora le diera una conferencia sobre el tema, y no salió convencido. Decía: «Tan solo si lo veo». Y en ciertas ocasiones, después de que le mostraran todo lo que quería ver, aún dudaba: «Tal vez no lo haya visto bien. Ellos siempre estorban». (Ellos eran los adultos).
Edmundo fue un alumno muy difícil. Incluso sus compañeros perdían la paciencia con sus dudas. Alguien debió de tratar de engañarlo un día, para que él desconfiara de todo y de todos. Pero por sí mismo, no, pues fue la primera persona que me dijo estar a punto de inventar el móvil perpetuo, invención que en aquel tiempo andaba muy de moda, más o menos como hoy las aventuras espaciales.
Edmundo estaba siempre en guardia contra los adultos: eran nuestros permanentes adversarios. Solo decían mentiras. Tenían la fuerza a su disposición (representada por varias formas de agresión, desde la palmada hasta la habitación oscura, pasando por estadios etapas muy variados). Edmundo reconocía la inutilidad de luchar, pero tenía el brío para no dejarse vencer fácilmente.
En una fiesta de cumpleaños, entre números de piano y canto (¡ah, qué deleite los saraos de antañoantiguamente!), apareció un mago con su sombrero de copa, su pañuelo, los bigotes retorcidos y una flor en la solapa. A ninguno de nosotros le importaba mucho la verdad: era tan gracioso ver cincuenta cintas que salían del sombrero unidas en una sola…, y el vaso de agua que se llenaba de vino…
Edmundo se resistió un poco. Después le pareció que nos estábamos volviendo demasiado tontos. Dijo: «¡Yo no me lo creo!». Se fue a revolver el arsenal del mago y ya no pudimos ver más las monedas que le entraban por un oído y le salían por el otro, ni el sombrero de copa vacío del que salía una paloma volando… (Edmundo lo arruinaba todo. Edmundo no admitía la mentira. Edmundo se murió temprano. Y quién sabe, Dios mío, con qué verdades).