quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Resenha do livro A rebelião das massas, de Ortega y Gasset


Há poucos dias terminei de ler La rebelión de las masas (A rebelião das massas), do filósofo espanhol José Ortega y Gasset (1883-1955). Mesmo tendo sido escrita por volta de 1930, é uma obra muito atual, que descreve um fenômeno visível e predominante nos dias atuais: o homem-massa. Aproveito enquanto as impressões ainda estão frescas em minha mente para escrever esta resenha.

Primeiramente, o autor deixa bem claro que essa definição não se refere a uma camada social, não se trata de uma classe específica, mas sim de uma forma de ser, de agir, de encarar a vida. Uma postura diante da realidade.

Para o autor, o homem-massa é resultado da combinação de vários fatores: o salto populacional na Europa, que em doze séculos (do século VI ao ano 1800) não conseguia superar os 180 milhões e que, em menos de um século, de 1800 a 1914, pula de 180 milhões a 460 milhões, isto é, mais do que duplica. Esse extraordinário crescimento populacional dá lugar às aglomerações, as cidades se enchem de pessoas. O que, aliado à democracia liberal, à industrialização e à ciência resulta no surgimento do homem-massa.

Mas o que seria esse homem-massa? Como dissemos anteriormente, não se trata de uma categoria social, mas sim de um modo de ser. O homem-massa corresponde ao homem médio, que se contenta em seguir a corrente, que despreza a tradição, não tem senso histórico, não tem grandes aspirações além de ser como os outros. Comporta-se como uma criança mimada e ingrata que só sabe exigir e choramingar, e que espera que o Estado resolva todos seu problemas. Está sempre esperneando, berrando por direitos, mas não tem senso de dever, de responsabilidade. Tende à violência, acredita que o progresso atual caiu do céu, não o reconhece como fruto do sacrifício e trabalho das gerações anteriores.

Sua responsabilidade se limita a exigir, preocupa-se em resolver os problemas estruturais da sociedade, em perseguir utopias em lugar de concentrar-se em resolver problemas pontuais. Age de forma superficial e preguiçosa, não busca um conhecimento profundo de causas e consequências, contenta-se com um conhecimento parcial e superficial daquilo que possa usar a seu favor, ainda que de forma distorcida, o que deriva na desonestidade intelectual, no relativismo moral e ético, em que o julgamento moral varia conforme seus interesses. Age como um bárbaro porque recusa normas, hábitos e a razão.

Como oposto ao homem-massa, o autor menciona o homem nobre. Novamente não no sentido de classe social, de posses ou títulos, mas sim de postura, de forma de ser. O homem nobre é o oposto do homem-massa porque ele tem senso histórico, respeita a tradição, as conquistas de seus antepassados. Ele tem senso de dever, de responsabilidade. Não espera que o Estado resolva seus problemas, não entrega seu destino nas mãos do Estado. Ele é dono do seu destino e busca o aperfeiçoamento mediante o esforço e o compromisso. Não pretende resolver os problemas estruturais, mas sim os pontuais, não quer mudar o mundo, mas melhorá-lo. Valorizam os valores e a moral civilizatórios, a disciplina, a ordem e a lei.

Partindo dessa comparação entre homem-massa e homem nobre, o autor analisa outras questões mais profundas, como o declínio da Europa. Por declínio, se refere ao fato de a Europa ter perdido seu poder de mando. O autor enfatiza que toda sociedade é hierárquica, há sempre uma minoria dominante e uma massa média e, se assim não for, não há organização, não há sociedade. Esclareça-se que essa minoria não é dominante ao acaso, mas sim devido a sua excelência e autenticidade, ao seu senso de dever para com os outros. A sociedade sem mando é como uma turma de alunos que, quando se fica sem professor, fica sem rumo e se entrega à confusão e à balbúrdia. Voltando à Europa, Ortega y Gasset defende sua união e sua diversidade, mas reconhece a falta de uma estrutura estatal comum para isso. A falta de mando resulta no enfraquecimento da Europa, o que dá lugar a nacionalismos e governos totalitários como o fascismo e o comunismo, que repetem os erros do passado.

O homem-massa carece de projetos, aspirações, premissas, não reconhece a autoridade da minoria dominante, pelo contrário, deseja mandar e tomar-lhe o lugar em benefício próprio. Enquanto o homem humilde reconhece suas limitações, mas aspira ao aperfeiçoamento, o homem-massa exalta sua vulgaridade, seu direito a ignorar, vangloria-se de ser como todos, não cumpre sua vocação, não é autêntico, o que supõe uma desmoralização.  

Certamente deixei escapar muitos aspectos importantes da obra, mas o que mais me marcou foi seu caráter atual, como o homem-massa continua predominando em nossa sociedade, mesmo tendo passado quase um século da publicação desta obra. Acredito que este fenômeno é perceptível em todos os campos de conhecimento. Na língua, por exemplo, observamos a desvalorização da norma, a ojeriza ao estudo formal, ao mesmo tempo que se exalta a vulgaridade, quando pululam nas vitrines das livrarias os livros de autoajuda com palavrões no título: é 'F*da' para todo lado.

O empobrecimento do vocabulário, a desvalorização da leitura, a tentativa de taxar a gramática, a norma-padrão e a língua culta como instrumentos de opressão. A busca pelo conhecimento fácil e supérfluo, através de macetes. O desdém pelos clássicos da literatura nacional e universal, a degradação da hierarquia na relação professor-aluno e o reflexo das reivindicações políticas na língua com a imposição da linguagem não sexista, e o discurso do politicamente correto. Atualmente, são esses, em minha opinião, alguns sinais da massificação e a manipulação da linguagem e do pensamento.

Para quem tiver interesse em saber mais sobre este livro, indico dois excelentes vídeos no YouTube:

Este é em espanhol, do canal POLIZONYNAUFRAGO


E este outro é em português, do canal Socran:


sexta-feira, 3 de julho de 2020

Entrevista a Márcia Ribas, tradutora de A Sombra do Vento




Márcia Cavalcanti Ribas Vieira é graduada em Ciências Sociais, com mestrado em Letras pela PUC-RJ, com uma tese sobre o livro Lavoura Arcaica de Raduan Nassar. Morou durante algum tempo na Argentina e no Chile e traduziu cerca de 20 livros entre 1983 e 2008, entre os quais o fenômeno de vendas A Sombra do Vento — do escritor espanhol Carlos Ruiz Zafón, que conquistou fama internacional com esse livro — pela Editora  Objetiva em 2004. Além disso, Márcia traduziu e fez versões de alguns filmes para a TV e publicou o livro de poesias Anos 70, pela Editora 7 Letras em 2002. Afastou-se da área de tradução em 2008.

Olá, Márcia, seja muito bem-vinda! Em primeiro lugar gostaria de agradecer sua disposição em participar desta entrevista e dizer que admiro muito seu trabalho. Como fã de A Sombra do Vento (livro que já li três vezes), gostaria muito de saber mais sobre sua experiência como tradutora dessa obra do espanhol europeu para o português do Brasil.

A tradução literária é por si mesma uma tarefa muito instigadora, mas cada livro é um desafio à parte. Quais foram as principais dificuldades que você encarou quando traduziu A Sombra do Vento?

As maiores dificuldades foram, sem dúvida, as expressões idiomáticas, as expressões de um modo geral. Orientada pelo espanhol “argentino”, algumas expressões eram totalmente desconhecidas para mim, oriundas de épocas e locais precisos, em Espanha, na Barcelona, naquela época. Outras, conhecidas, sim,  no espanhol  “argentino” mas não por mim.

Cada autor tem um estilo próprio que precisa ser respeitado para que o leitor tenha a experiência mais próxima daquela que teria se pudesse ler o original. No que diz respeito a Carlos Ruiz Zafón, que dificuldades impõe seu estilo?

São as expressões, basicamente. O texto de um modo geral e muito poético, muito sentimental, com muitas descrições que relatam sonhos e impressões. É preciso seguir o que o autor quer dizer. E básico entender que o texto é poético. No entanto, nos diálogos, quando há expressões que não conhecemos, estas se tornam a maior dificuldade. Podemos trocar as palavras, mas é essencial passar o que o autor quis dizer, o sentido daquilo que está dizendo.

E a tradução dos diálogos? Quais foram suas diretrizes para conseguir um bom resultado?

Ser o mais fiel possível ao que os personagens querem dizer.

A obra em questão está impregnada de marcas culturais, referências a Barcelona, a pratos típicos, a personagens históricos, à Guerra Civil espanhola. Como lidar com toda essa informação?

É indispensável fazer uma pesquisa inicial, buscar dicionários especializados, dicionários de espanhol, outro de espanhol/português, outro português/português, dicionários que explicam, outro que dão sinônimos, antônimos, dicionários de gírias e  expressões espanhol/espanhol, dicionário espanhol/francês , de gírias em francês, e assim por diante. Quanto à época histórica, não vi tanta necessidade de ir muito além do que estava no texto, e um pouco já conhecia; a culinária, foi preciso pesquisar, e até passei lista de palavras a uma pessoa conhecida. E preciso “desvendar” o livro, esclarecer o máximo possível tudo, para depois começar a transportá-lo ao seu idioma. E bom esclarecer que falo espanhol desde muito pequena, por questões familiares. E português, fui leitora assídua da literatura nacional e estrangeira.

Nem sempre podemos nos servir das mesmas palavras que o autor usa no outro  idioma. Para isso, a leitura de um modo geral é importantíssima, ler os grandes autores, como se servem da linguagem. E ainda temos a questão da sintaxe, da gramática em português, que, se bem que o revisor vai ajudar, é uma área em que, quanto mais domínio tivermos, mais fácil será a tradução.

A intraduzibilidade é uma pedra no sapato do tradutor, no entanto não temos como fugir dela. Qual é a sua atitude diante de um termo ou expressão intraduzível?

Colocando nota de rodapé, explicando ao máximo.

Para terminar, uma curiosidade: Qual é o seu personagem favorito de A Sombra do Vento e por quê?

Acho que é o Fermín Romero de Torres, mas todos são interessantíssimos!

Agora sim, a "saideira": O que representa A Sombra do Vento em sua vida?

Bem, um trabalho que levei a cabo com muita satisfação. O livro é uma obra muito bem realizada. 

terça-feira, 30 de junho de 2020

Referências literárias em O Cemitérios dos Livros Esquecidos

Quem acompanha meu blog sabe do carinho especial que tenho pelo livro A Sombra do Vento, o primeiro da série O Cemitério dos Livros Esquecidos, do escritor Carlos Ruiz Zafón. Por ocasião da morte do autor há poucos dias, decidi lê-lo novamente, pela terceira vez, e escrever sobre um dos aspectos que mais contribui para tornar este livro tão especial — seu caráter metaliterário —, quando uma obra tematiza a própria literatura.

A Sombra do Vento faz referência a livros, livreiros, autores malditos, bibliotecas, faz referência à leitura, à escrita, à tradução, enfim, a esse fascinante universo literário que nos rodeia. 

Há menções implícitas, como a de Conan Doyle na investigação levada a cabo por Daniel Sempere e Fermín Romero de Torres, que, de certa forma, seguem as pautas de Sherlock Holmes e Watson. Não pude deixar de notar certa conexão com conto fantástico O homem de areia, do alemão E.T.A Hoffman, que é considerado por Ítalo Calvino como uma das produções mais características da narrativa do século XIX. O personagem Laín Coubert, ninguém menos que o diabo, lembra a figura mefistofélica de Copellius, em O Homem da Areia, que, por sua vez, refere-se à lenda de um homem perverso que, quando as crianças não iam para a cama, jogava areia nos olhos delas, fazendo-os saltar para fora. Ele então colocava os olhos num saco e os levava para alimentar seus filhos na lua. Essa fixação com os olhos reaparece no livro fictício A casa vermelha do escritor fictício Julián Carax, obra que relatava a atormentada vida de um misterioso indivíduo que assaltava lojas de brinquedos e fantoches para posteriormente arrancar-lhes os olhos e levá-los para sua fantasmagórica casa.

Outra coincidência é que o nome do primeiro amor de Daniel Sampere é Clara, assim como a noiva de Natanael, protagonista de O Homem de Areia.

Também não pude deixar de estabelecer uma relação entre o misterioso Cemitério dos livros esquecidos e a labiríntica biblioteca do conto A biblioteca de Babel, do escritor argentino Jorge Luis Borges

Além dessas referências implícitas, há menções explícitas a autores e obras como Grandes Esperanças de Charles Dickens e A ilha do tesouro, de Robert Louis Stevenson, Os irmãos Karamazov, de Fiódor Dostoiévski, Balzac, Zola, Pablo Neruda, entre outros.

O professor de literatura Monsieur Roquerfort que descobre o romance A casa vermelha, em uma de suas viagens a Paris para enriquecer seu acervo cultural com as últimas novidades literárias, visita uma nínfula a quem chama de "Madame Bobary", em referência à célebre personagem do romance homônimo de Gustave Flaubert, embora a moça se chamasse Hortense e tivesse certa propensão ao pelo facial.

Outra referência, quando Julián Carax, que muito cedo descobre o prazer da leitura, decepciona o pai chapeleiro ao anunciar-lhe, antes de completar os treze anos, que queria ser alguém chamado Robert Louis Stevenson, o autor de clássicos, como O médico e o monstro e A ilha do tesouro. Em outro trecho do livro, quando lhe perguntam se gosta de livros, o menino responde que sim, e quando lhe perguntam se já leu O coração das Trevas (de Josef Conrad), ele responde: "— Três vezes".

Quando Daniel Sempere vai passear com o pai e não sossega até que este o leve para contemplar seu objeto de desejo: uma caneta Montblanc Meisterstück, de série numerada que teria pertencido, segundo o vendedor, a ninguém menos que Victor Hugo. Um delírio barroco em prata, ouro e milhares de pequeninos traços, que brilhava como o farol da Alexandria, e do qual nascido o manuscrito de Os Miseráveis. Secretamente, Daniel estava convencido de que com aquela maravilha seria possível escrever qualquer coisa, de romances a enciclopédias e que o que ele escrevesse com aquela caneta poderia chegar a qualquer lugar, inclusive àquele lugar misterioso para onde sua mãe tinha ido e do qual nunca mais voltaria.

A relação entre o livreiro Dom Barceló e sua empregada, Bernarda, quando este a encontra vendendo verduras no mercado do Borne, e, seguindo sua intuição, oferece-lhe emprego dizendo: "— Nossa história será como o Pigmaleão (obra de George Bernard Shaw), a senhora será minha Elisa, e eu, seu professor Higgins.", ao que Bernarda responde ofendida: "— Escute aqui, nós podemos ser pobres e ignorantes, mas somos decentes". Uma vez empregada na residência de Barceló, Bernarda costuma rezar pelo alma do patrão, "que tem bom coração, mas que de tanto ler teve os miolos apodrecidos como Dom Quixote". Sem falar que Fermín, que lembra muito Sancho Pança com seus refrães espirituosos e sua admirável fidelidade a Daniel Sempere.

Em outro parte do livro, Barceló diz "— É o que eu digo, como pode haver trabalho? Se em nosso país as pessoas não se aposentam nem depois da morte. Veja o Cid. Não há solução.", uma referência à legendária herói espanhol da Reconquista, que passou para a posteridade em El cantar de mio Cid, poema épico anônimo escrito por volta de 1200.  

Em O Jogo do Anjo, a segunda entrega da série O Cemitério dos Livros Esquecidos, o protagonista-narrador David Martín, é um escritor maldito, desiludido no amor e na vida profissional e gravemente doente que encontra o misterioso Andreas Corelli, um estrangeiro que se diz editor de livros, o qual lhe propõe um trato: a cura de sua doença em troca de um livro para fundar uma nova religião. Tal trato remete a Fausto, do alemão Goethe, que no afã de viver sem envelhecer faz um pacto com o diabo. Por sua vez, a fuga da cadeia de David Martín, fingindo-se de morto, remete ao protagonista de O conde de Monte Cristo, do romancista francês Alexandre Dumas.

No quarto e último livro da série, O Labirinto dos Espíritos, o autor faz referência a Alice no País das Maravilhas, do escritor britânico Lewis Carroll, e traça um paralelo entre o País das Maravilhas e Barcelona: " — Meu nome é Alicia. — Sabia que o personagem central da série O labirinto dos espíritos, Ariadna, é uma homenagem a outra Alicia, a de Lewis Carroll e seu País, neste caso Barcelona, das Maravilhas? Alicia fingiu surpresa, negando suavemente com a cabeça. — No primeiro volume da série, Ariadna encontra um livro de encantamentos no sótão do casarão em Vallvidrera onde mora com seus pais até eles desaparecerem misteriosamente em uma noite de temporal. Pensando que se conjurasse um espírito das sombras talvez pudesse encontrá-los, Ariadna abre sem querer um portal entre a Barcelona real e o seu reverso, um reflexo maldito da cidade. A Cidade dos Espelhos... No chão, uma fenda se abre aos seus pés, e Ariadna cai por uma interminável escada em caracol nas trevas até chegar a essa outra Barcelona, o labirinto dos espíritos, onde é condenada a ficar vagando pelos círculos do inferno que o Príncipe Escarlate construiu [...]".

Zafón também faz referência ao processo da escrita, mais precisamente aos conceitos de mimese, que se refere à faculdade do homem de reproduzir e imitar a realidade quando diz: "Os livros são espelhos: neles só se vê o que possuímos dentro" e, ainda, à teoria dos espelhos e à das bonecas russas, que se referem ao dialogismo e a intertextualidade, a capacidade de os textos dialogarem com outros textos, as várias histórias dentro da história ou uma narrativa dentro de outra narrativa, quando diz: "À medida que avançava a estrutura do relato, fez-me lembrar daquelas bonecas russas que contêm em si mesmas inúmeras miniaturas. Passo a passo, a narrativa se estilhaçava em mil histórias, como se o relato penetrasse numa galeria de espelhos e sua identidade produzisse dezenas de reflexos díspares e ao mesmo tempo um só.". Por fim, para puxar a sardinha para o nosso lado, destaco a menção ao nosso inestimável ofício na figura da tradutora Nuria Monfort, que traduz do francês e do alemão para o espanhol.

É assim que Carlos Zafón rende homenagem a todos os gêneros de literatura, fazendo referências explícitas ou implícitas que serão percebidas conforme a bagagem literária do leitor. É como um jogo, em que ele vai deixando pistas para o leitor desvendar ao mesmo tempo que lhe desperta a curiosidade para aqueles livros que ainda não leu.

terça-feira, 23 de junho de 2020

Expressões idiomáticas com nomes de frutas em espanhol



Nesta publicação vamos conhecer o sentido figurado que algumas frutas adquirem quando usadas em expressões idiomáticas em espanhol. Essa ampliação de significado geralmente é motivada por aspectos geográficos e culturais. Assim, em contextos particulares de uso, o nome de algumas frutas remete a uma ideia no imaginário popular, é o que chamamos de sentido figurado.
Um exemplo de símbolo universalmente aceito é o da "maçã", em que o significante (a fruta maçã) representa algo abstrato (a ideia do pecado), devido a uma convenção social que tornou a maçã um símbolo do pecado ao associá-la à expulsão de Adão e Eva do paraíso.
Em El Salvador e na Guatemala o nome aguacate funciona como adjetivo no sentido de desanimado, sem graça, em frases como La fiesta estuvo aburrida porque los invitados eran muy aguacates.

Em Cuba a expressão "de carambola" funciona como uma locução adverbial que significa "por sorte, ou por casualidade" em frases como Aprobé de carambola.

A expressão "quemarse el coco" equivale ao nosso "quebrar a cabeça" no sentido de esforçar-se intelectualmente para resolver algo complicado em frases como Este examen nos ha quemado el coco. O nome dessa fruta tropical é usado para designar a cabeça das pessoas. Outra expressão muito usual com essa palavra é "comer el coco a alguien", que equivale a "fazer a cabeça de alguém", no sentido de influenciar alguém ideologicamente, falando insistentemente até incutir uma ideia em sua cabeça, em frases como Supongo que alguien le comió el coco para que presentara una denuncia.

Em México, Guatemala, Nicarágua, Costa Rica, Puerto Rico, Equador e Bolívia o nome "fresa" (morango) é usado para designar uma pessoa que age e se veste como se pertencesse a uma classe abastada, seja isso verdade ou não, em frases como La película trata de un grupo de adolescentes fresas. Por outro lado, no Peru se refere a uma pessoa inocente, sem malícia: Fue estafado tres veces por ser tan fresa; e na Espanha pode referir-se à pessoa que não consome drogas em frases como Yo me junto con puro fresa.

No Peru, na Argentina e no Uruguai, a expressão "no tener ni un mango" equivale ao nosso "estar duro", sem dinheiro, em frases como Me pidieron la limosna y no tenía ni un mango. Por outro lado, em El Salvador, México, Guatemala, Honduras, Espanha, Bolívia, Panamá, Cuba, Nicarágua e Venezuela a palavra mango designa um homem bonito em frases como Te casarás con um tremendo mango, ¡qué afortunada!.

No Peru ser piña significa ser azarado em frases como No compro boletos de lotería porque soy piña. Por sua vez, em República Dominicana, Bolívia e Argentina piña equivale a briga, confronto, em frases como Todos participaron de la piña que se armó en la fiesta.

Na Espanha, a expressão hacer piña pode ser usada no sentido positivo de congregar, unir pessoas para alcançar um objetivo (a união faz a força), em frases como Cómo lograr hacer piña entre los empleados, mas também pode ser empregada no sentido pejorativo para referir-se ao corporativismo, quando um grupo se une para defender um membro da corporação, ainda que ele tenha agido de forma errada. Um exemplo desse último uso seria: Los barones del sistema hicieron piña para proteger al rey.

Adaptado de: http://udep.edu.pe/castellanoactual

sexta-feira, 19 de junho de 2020

Por que a literatura de Carlos Ruiz Zafón é tão envolvente?


Soube agora há pouco, pelas redes sociais, da triste notícia da morte do escritor espanhol Carlos Ruiz Zafón. Há pouco tempo, para ser mais precisa em abril deste ano, terminei de ler sua célebre série composta por quatro volumes, O Cemitério dos livros esquecidos, em espanhol.

Sou uma leitora assídua, quase voraz. Ler é, para mim, uma das atividades mais prazerosas. Quando estou lendo sinto como se atravessasse um portal para outra dimensão.

Sempre fui resistente aos best-sellers, campeões de vendas, encaro-os com certa desconfiança, não sou muito chegada a unanimidades, sei que é uma postura preconceituosa e que posso estar perdendo com isso, mas prefiro ouvir minha intuição.

O primeiro livro que li de Zafón foi A Sombra do Vento, que é justamente o primeiro livro da série mencionada no início desta postagem. Chegou às minhas mãos através de minha irmã, em uma das viagens que fiz à Espanha, como um presente usado — o que eu valorizo como um gesto de desapego, você só dá algo de que você gosta para alguém de quem você gosta — e deve ter dito algo do tipo "espero que você goste", ou talvez sejam minhas impressões melancólicas adulterando minhas lembranças.

A Sombra do Vento... título curioso, meio piegas... para alguém implicante e meio cética. Ora, todo o mundo sabe que a sombra não tem vento, mas não deixa de soar poético e sombrio. Sem mais delongas, o fato é que quando comecei a ler o tal livro aconteceu aquele "match", para quem gosta de estrangeirismos da moda, ou aquela "fisgada" ou "flechada". Em outras palavras, o livro me prendeu ao ponto de fazer-me procrastinar algumas obrigações...

Mas, por quê? Por que a leitura era tão envolvente?

Meus favoritos sempre foram os clássicos, e eu torcia o nariz para os mais vendidos, um sentimento conservador, de resistência, mas porque raios aquele produto campeão de vendas me prendeu daquele jeito?!

Dizia Fernando Pessoa: "O poeta é um fingidor. Finge tão completamente, que chega a fingir que é dor, a dor que deveras sente". O escritor de ficção é basicamente um contador de histórias; mas, para que a história consiga envolver o leitor, é preciso que ela seja verossímil, que o leitor a sinta como verdadeira, para que ele entre na pele da personagem e viva sua trama. Em sua Arte Poética, Aristóteles fala do conceito de "catarse" como a purificação das almas através de uma grande descarga de sentimentos e emoções provocada pela visualização de obras teatrais, como a tragédia. Quando o público captava tais emoções e as tomava para si, era capaz de livrar-se das próprias e alcançar essa sensação de purificação, de redenção.

O que eu quero dizer é que Zafón consegue fazer isso com seus relatos, consegue colocar-nos na pele dos personagens para que experimentemos seus dramas, suas emoções nuas e cruas, para expiar as nossas, deixando a alma mais leve. Mas nada disso seria possível se o autor não transmitisse verdade em suas palavras, se ele próprio não acreditasse no que diz, se não vertesse um pouco de si mesmo nas páginas que escreve, se fosse apenas um fingidor... acho que é essa a resposta para o êxito de seus livros.

Já li duas vezes esse livro, quem sabe seja um bom momento para lê-lo uma terceira, desta vez em português. 

Então, talvez alcançar essa "comunhão de almas" seja o verdadeiro sucesso de um livro.

Vá em paz, Zafón! Sua obra é reflexo de sua alma.

quarta-feira, 17 de junho de 2020

O desafio de traduzir literatura



Por que a tradução literária é tão desafiadora?

Primeiramente, é preciso distinguir a tradução editorial da tradução literária. Enquanto a primeira se refere à tradução de livros em geral, das mais variadas áreas, como religião, arquitetura, culinária, etc.; a segunda se restringe à tradução de ficção, ou seja, de obras de literatura, tais como romances, contos, poesia, teatro, etc.

O principal desafio da tradução literária consiste na literariedade, que, embora seja difícil de definir, basicamente se refere ao conjunto de características específicas (linguísticas, semióticas e sociológicas) que permitem considerar um texto como literário. 

O texto técnico se caracteriza pela função referencial ou informativa, ou seja, têm o objetivo básico de informar, utilizando para isso a linguagem denotativa ou literal, quando as palavras são empregadas no sentido habitual encontrado no dicionário; o texto literário, por sua vez, caracteriza-se pelo emprego da função poética, ou seja, a ênfase recai sobre o próprio texto, o texto literário é um objeto estético.  

No texto literário, predomina o sentido conotativo, as palavras são empregadas com um sentido figurado, vão além do seu sentido comum, adquirem um sentido simbólico conforme o contexto. Ele é subjetivo, aberto a interpretações. Além disso, como foi dito mais acima, a ênfase recai sobre a forma e não sobre o conteúdo. Em outras palavras, não importa tanto o que se diz, mas como se diz. A mensagem é valorizada como objeto que proporciona um prazer estético. Assim, quanto maior a literariedade do texto, maior a dificuldade do tradutor, pois ele precisa reproduzir, na medida do possível, tal efeito na língua de chegada.

Afora isso, a ficção tem outras características bem desafiadoras, como a tradução de diálogos, em que é preciso atentar para a verossimilhança, ou seja, fazer que os diálogos soem naturais na cultura de chegada. Isso inclui o tratamento de expressões idiomáticas, regionalismos, dialetos, gíria, etc. É muito difícil encontrar a medida certa: fazer com que os diálogos soem naturais, sem descaracterizá-los, levando em conta o tom, se é irônico, insolente, amável, lacerante, etc. 
  
Outra dificuldade consiste no registro da linguagem, se é formal ou culto, ou ainda, informal ou coloquial. São obstáculos também as referências culturais, como, por exemplo, acontecimentos históricos, festas locais, costumes sociais. Também é preciso levar em conta a época em que o texto foi escrito para usar um vocabulário coerente e evitar anacronismos. Caso a obra aborde uma área especializada, como, por exemplo, pesca artesanal, aviação, circo, narcotráfico, criação de renas na Lapônia, ou coisa que o valha, o tradutor deverá pesquisar vocabulário, técnicas, jargões e hábitos dos envolvidos nessas atividades.

E, como se tudo isso não bastasse, terá ainda de lidar com os famigerados termos "intraduzíveis", não apenas quando falta na cultura de chegada um determinado objeto material, o problema é mais complexo, quando se refere a um conceito, a algo abstrato que faz parte do imaginário de uma comunidade linguística. Em seu livro A tradução literária, Paulo Henriques Britto menciona como exemplo a dificuldade de traduzir para um estrangeiro o sentido da palavra "desconfiômetro" usada no Brasil para criticar alguém em frases, como: "O Fulano não usa desconfiômetro".

Traduzir literatura envolve escolhas, tomar decisões, renunciar e aceitar perdas. Apesar disso, ou, quem sabe, justamente por isso, é também uma tarefa muito recompensadora.


sexta-feira, 5 de junho de 2020

Teoria x prática

Esses dias presenciei algumas discussões em grupos de tradutores a respeito da falsa dicotomia entre a teoria e a prática, desculpem o chavão, como se ambas não fossem faces de uma mesma moeda. De um lado, os que defendiam a necessidade da educação formal, inclusive alguns que assumiam sofrer da síndrome do "eterno aprendiz", acumulando diplomas de graduação e pós-graduação, mas com pouca experiência prática; do outro aqueles que enfatizavam a importância da prática em detrimento da teoria.

Desde pequenos aprendemos as coisas do mundo através de duas visões, a teórica e a prática, assimilamos pela observação e pelas explicações que recebemos. Ouvimos repetidamente que precisamos comer para crescer e ficar fortes, mas só conseguimos entender a relação entre a comida e o crescimento, mais adiante, quando aprendemos sobre nosso organismo e sua necessidade contínua de energia para funcionar adequadamente. Só então compreendemos que nosso corpo, como uma máquina, processa os alimentos e os transforma em energia. É, nossa mãe estava certa, precisamos comer para ficar fortes.

Assim, a fundamentação teórica serve para confirmar ou refutar nossas observações, e mais, para ampliar nossa perspectiva, fazendo-nos enxergar além do óbvio.

Em geral, quando decidimos ser tradutores, baseamo-nos em nosso conhecimento de ao menos um par de línguas. Achamos que isso é o suficiente para transpor uma mensagem de uma cultura para outra. Somos jovens, conhecemos mais de uma língua, mais de uma cultura, somos diferenciados. Sentimo-nos no comando, somos ousados, não temos medo de arriscar, agimos por intuição e refutamos a teoria em nome da prática. Acreditamos que temos um dom, um talento natural.

Mas aí vem a frustração quando encaramos o trabalho real e percebemos que não estamos preparados para lidar com tantas exigências. Nosso "talento natural" não dá conta de resolver os obstáculos que se apresentam... Hesitamos diante de tantas dúvidas, sentimo-nos inseguros, e é então que "a ficha cai": precisamos de algo a mais. Algo que nos permita tomar decisões firmes, que nos permita defender nossas escolhas com segurança. É aí que entra a fundamentação à qual nos referimos mais acima.  Queremos dominar nosso ofício, conhecê-lo a fundo, fazer nosso trabalho da melhor forma. Buscamos o desenvolvimento pessoal e profissional, o respaldo para construir uma carreira sólida.

Não queremos nivelar-nos por baixo, queremos a excelência. A nossa postura muda: admitimos que não conhecemos da missa um terço.

Não vou entrar em detalhes sobre minha formação, porque daria uma novela. Resumindo: levei mais de 17 anos para me formar, mas não me envergonho disso, pelo contrário, fui persistente, nadei contra a corrente. Estudei três anos completos de Letras Língua Portuguesa, não me formei. Anos mais tarde, formei-me em Letras Língua Espanhola, na UFSC. Depois disso, quando decidi dedicar-me à tradução, cursei uma pós-graduação em Tradução de Espanhol. No total, foram 9 anos de estudo. Mas não parei por aí, sempre que posso, faço algum curso, leio algum livro da área, porque sei que ainda tenho muito que aprender.

Se o estudo fez alguma diferença? Sim, fez muita diferença. Acreditem. Da água para o vinho. Falando nisso, dizem que tradutor é como o vinho, melhora com os anos, mas é bom lembrar que o vinho, quando se corrói, vira vinagre... Ou seja, envelhecer sim, mas com leveza, mantendo-nos ativos e buscando evoluir.

Quais seriam os conhecimentos teóricos necessários para o tradutor?

Acredito que o conhecimento profundo das línguas fonte e alvo é fundamental. O tradutor precisa conhecer a fundo as normas e padrões que regem as línguas com as quais trabalha, e ainda, suas idiossincrasias, conhecer a norma culta, mas também as variações, os regionalismos, as expressões idiomáticas, jargões, tecnicismos, gíria, quanto mais amplo seu conhecimento, melhor.  Afora a bagagem cultural. É importante ter algum conhecimento da história, geografia, manifestações culturais e costumes dos países em questão.  

Também é recomendável conhecer um pouco da teoria da tradução, as diferentes vertentes, os movimentos filosóficos por trás dessas vertentes, as tendências e os questionamentos. E conhecer, principalmente, as técnicas e estratégias de tradução.

Não acho que seja essencial, mas, sem dúvida, é enriquecedor conhecer um pouco da história da tradução: saber  como surgiram os primeiros tradutores, as primeiras escolas, o que traduziam, como o faziam, a evolução e a formalização do ofício e seu papel na sociedade, entre outros.

Não se trata de acumular conhecimento. É preciso saber aplicá-lo, servir-se dele no dia a dia. Para complementar a teoria, é aconselhável buscar oficinas ou estágios que nos permitam colocar as mãos na massa para avaliar nossas fortalezas e fraquezas.

Uma vez que tenhamos um conhecimento mínimo da tradução, precisaremos especializar-nos em alguma modalidade: tradução técnica, tradução editorial, tradução audiovisual, localização de softwares e jogos, interpretação, etc. Sem falar que cada uma dessas modalidades, se desdobra em outras especialidades.

Deixando de lado a teoria e a prática, há outro aspecto muito importante que não devemos negligenciar: o mercado. Precisamos entender como funciona o mercado da tradução, conhecer os envolvidos e as regras do jogo. E, num cenário competitivo como o mercado da tradução, é preciso dominar algumas tecnologias, como as ferramentas de auxílio à tradução, assim como cultivar nossa rede de relacionamentos através das redes sociais.

É de fato um processo trabalhoso, mas não existe reconhecimento sem esforço. Valendo-me do bordão maromba: no pain, no gain (literalmente, sem dor, sem ganho).

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Teclas de atalho para inserir aspas retas



Queridos leitores,

Espero que estejam enfrentando esses tempos difíceis com fé, e ainda, que possamos voltar em breve à normalidade, na medida do possível...

Peço desculpas pela ausência, realmente tenho andado muito ocupada, sem falar em minha criatividade, que tem me deixado a ver navios.

Assim, estou passando rapidamente para responder à dúvida de uma leitora, que pode ser comum a outros usuários de editores de texto.

Como inserir aspas retas usando teclas de atalho?
Use o atalho Alt+34 no início e no final da palavra ou texto que deseja destacar.

Para mudar as aspas inglesas pelas aspas retas no Word:

Na guia Arquivo, clique em Opções.

Clique em Revisão de Texto e, em seguida, em Opções de AutoCorreção.

Na caixa de diálogo Autocorreção, faça o seguinte:

Clique na guia Formatação Automática ao Digitar e, em Substituir ao Digitar, marque ou desmarque a caixa de seleção "Aspas normais" por "aspas inglesas".

Clique na guia Formatação Automática ao Digitar e, em Substituir, marque ou desmarque a caixa de seleção "Aspas normais" por "aspas inglesas".

Clique em OK.

Uma boa Páscoa a todos e até breve!


segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Los sabores y las emociones en el lenguaje


El gusto es el sentido corporal que nos permite experimentar sensaciones gracias al sabor de los alimentos. Pero el gusto no se restringe a la alimentación, sino que se extiende incluso a las relaciones personales, cuando, por ejemplo, nos referimos a sabores para cualificar el carácter de una persona.

Decimos que alguien es dulce cuando lo consideramos afable, dócil y sensible. Las personas dulces se preocupan por los demás y son capaces de tragarse una ofensa por no lastimar a quien le haya ofendido. Son personas cuya compañía resulta tan placentera como el chocolate. Pero cuidado, que demasiado azúcar puede resultar empalagoso.

En España, el adjetivo salado se aplica a aquellas personas que resultan divertidas, simpáticas e ingeniosas, que cautivan fácilmente a quienes le rodean con su buen humor. Pero ¡ojo!, en Uruguay, una persona salada es alguien repelente, insoportable, es decir, todo lo contrario que en España. Y en América Central, Antillas, Bolivia, Ecuador, Perú y Venezuela, este adjetivo se aplica a una persona desafortunada.

Por otro lado, las personas ácidas son aquellas que tienen un humor sarcástico, hiriente, ofensivo, burlón. Este tipo de persona disfruta generando polémicas, así que lo mejor es no darles cuerda. Suelen tener una inteligencia refinada, pero la usan de manera ponzoñosa. El azúcar es la mejor opción para enfrentar un limón, así como en la culinaria, en las relaciones humanas, la acidez se neutraliza con dulzura.

A su vez, el adjetivo amargo, o, mejor dicho, amargado se aplica a aquellas personas de trato áspero, que suelen estar enfadadas y mantienen una actitud negativa ante la vida. Suelen ser personas heridas emocionalmente que terminan por herir a los demás. No sé si la dulzura puede corregir la amargura, pero lo cierto es que muchos amargados tratan de aplacar sus aflicciones con golosinas.

Además, se dice que alguien es soso cuando tiene poca sal, es decir, cuando carece de gracia y viveza, que es rancio cuando piensa o actúa de forma anticuada, que es empalagoso cuando causa fastidio por su zalamería y afectación, y, por último, que es intragable cuando no se puede tolerar.

La relación entre sabores, personalidad y alimentos también se ve reflejada en varias expresiones idiomáticas, como:

«Ser más bueno que el pan», para referirse a alguien dulce, tierno.

«Ser un bombón», para referirse a alguien muy guapo.

«Estar/ser más fresco que una lechuga», se puede usar con dos sentidos: para referirse a alguien que está descansado y animado, o aun, para referirse a alguien desvergonzado, que abusa de la confianza de los demás.

«Ser un chorizo», en Argentina, significa ser un ladrón.

«Ser un churro», en Paraguay y en algunas partes de Colombia, significa ser atractivo. En Argentina se refiere a una persona atractiva, pero también designa un cigarrillo de marihuana, así como en México. En España y en algunas partes de Colombia, también se usa como sinónimo de chapuza, de un trabajo mal hecho, de mala calidad.

«Estar como un fideo», para referirse a alguien muy delgado.

«Estar de mala leche», se refiere a alguien que está de mal humor.

«Estar hasta en la sopa», para referirse a alguien que está en todas partes.

«Estar como zanahoria», se refiere a una persona que se encuentra sana.

«Estar como un queso», para referirse a alguien atractivo.

«Estar avinagrado», para referirse a alguien que tienen una actitud negativa, amargada.

«Ponerse como un tomate», se refiere al hecho de ponerse colorado de vergüenza. 

«Perder el mojo», se refiere a perder la esencia, el encanto.

«Estar en su salsa», se dice cuando uno disfruta de algo que está haciendo y se siente como pez en el agua o como Pedro por su casa, es decir, muy cómodo, muy a gusto.

«Tener miga», significa tener sustancia, tener contenido.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

O que é material de referência e qual a sua importância?


No texto anterior falamos do controle de qualidade de textos traduzidos ou vertidos, e hoje vamos falar de um requisito fundamental para garantir a qualidade da tradução: o material de referência.

Mas em que consiste esse material?

Basicamente o material de referência consiste em um glossário, uma memória de tradução, um guia de estilo e informação contextual.

Este tipo de material, embora nem sempre seja disponibilizado pelo cliente, é fundamental para garantir a qualidade, uma vez que contribui para uma tradução consistente e para a construção da identidade e da comunicação organizacional. A linguagem reflete a filosofia, os valores e a personalidade da empresa, razão pela qual não deve ser negligenciada.

O material de referência inclui basicamente:

Um glossário validado pelo cliente. É importante que esse glossário tenha sido validado pelo cliente, uma vez que as empresas têm suas preferências terminológicas, que nem sempre coincidem com os termos usados no mercado. É fundamental respeitar as preferências do cliente, o que não significa que o tradutor não possa contribuir com sugestões quando considerar pertinente, desde que tenha um bom embasamento para tal.

Um exemplo de uma boa justificativa:

“Observei que o Comitê Espanhol Representante de Pessoas com Deficiência (CERMI), em seu manual de estilo, recomenda usar o termo “personas con discapacidad” em lugar de “personas con diversidad funcional”, uma vez que, segundo eles, a imensa maioria das pessoas com deficiência e do seu movimento social rejeitam tal expressão por não se sentirem identificadas com um léxico sem legitimidade nem amplo respaldo social. Além disso, argumentam que não descreve a realidade e que é confuso”.

Uma memória de tradução. Isto é, um recurso das Cat Tools que serve para armazenar segmentos ou partes textuais de traduções anteriores, é como um histórico que serve para manter a consistência terminológica e agilizar o trabalho. Se você não usa Cat Tool, poderá usar as traduções anteriores do mesmo cliente como referência.

Um guia de estilo. Consite em um documento elaborado pela agência de tradução e validado pelo cliente, que contém uma série de parâmetros destinados a unificar a modalidade de escrita. Este manual estipula as convenções tipográficas quanto ao uso de maiúsculas, aspas, itálico, negrito, define a grafia de nomes de produtos, topônimos, endereços, moedas, o tratamento reservado aos usuários, o estilo de linguagem, etc. O uso deste documento não é opcional, mas sim obrigatório. É extremamente útil, principalmente em projetos de grande porte, que envolvem o trabalho de vários tradutores.

Material contextual. Refere-se a toda informação adicional à meramente linguística, como, por exemplo, página web da empresa, boletins informativos, catálogos de produtos, publicações, blog, relatórios anuais, políticas corporativas, etc.

Garanta a qualidade da tradução com um ótimo material de referência!

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

Controle de qualidade de textos traduzidos ou vertidos

Embora a tradução seja uma atividade subjetiva, isso não implica que ela não possa ser avaliada de maneira objetiva. 

Quando falamos de qualidade de uma tradução, referimo-nos à aplicação de um conjunto de parâmetros que permita entregar um texto livre de erros. Em se tratando de tradução, levam-se em conta critérios como precisão (correspondência biunívoca entre o vocábulos e o conceito que se deseja expressar), correção gramatical (observância das normas gramaticais da língua para a qual se traduz), estilo (em matéria de tradução, refere-se geralmente à observância da padronização prescrita por um guia de estilo), terminologia (uso de terminologia especializada na área de conhecimento, uso de fontes consagradas, consistência e uniformidade), entre outros.

Para garantir a qualidade de uma tradução, as agências de tradução contam com procedimentos de controle de qualidade, em que o texto traduzido passa por uma revisão que avalia aspectos como a correção gramatical, a adequação vocabular, a coesão e a coerência, a padronização de estilo e terminológica, formatação, na verdade o controle de qualidade deve começar já no recebimento do texto original.

Para dar uma ideia mais precisa dos parâmetros adotados ao avaliar a qualidade de uma tradução, compilei aqui os critérios adotados por órgãos públicos como o Conselho da Justiça Federal, o Tribunal de Contas da União, entre outros, para o credenciamento de tradutores ou ainda para a contratação de serviços de tradução/versão por empresas públicas mediante pregão ou licitação.  

Cada  texto  traduzido  recebe  o  conceito  “satisfatório”  ou  “não satisfatório”. 

É considerado "não satisfatório" quando inclui, em qualquer de suas laudas: 

  1. Quatro ou mais erros básicos; ou 
  2. Dois erros básicos e mais de cinco erros complementares; ou 
  3. Nenhum básico e oito ou mais erros complementares. 


É  considerado  "satisfatório"  quando  o  número  de  erros  é  inferior  aos  limites acima. 

São considerados erros básicos

  • Erro de conjugação verbal; 
  • Erro de regência verbal
  • Erro de concordância verbal; 
  • Erro no uso de pronomes; 
  • Uso de falsos cognatos (falsos amigos); 
  • Uso de palavra e/ou expressão e/ou estrutura gramatical inexistente  na  norma culta  de  acordo  com  a  literatura  especializada  (isto é,  dicionários,  gramáticas  e obras de uso de língua  reconhecidas pelas  instituições  pertinentes,  como:  Real  Academia  Espanhola,  Academia  Brasileira de Letras, Oxford English Dictionary); 
  • Erro de ortografia; 
  • Falta  de  clareza  na  frase  ou ambiguidade  (se  o sentido estiver  claro  no  texto original, mas ambíguo na tradução ou versão, isso constituirá  um erro); 
  • Tradução excessivamente literal  (palavra por palavra) ou aquela que  não respeite a estrutura gramatical; 
  • Tradução ou versão comprovadamente retirada de alguma ferramenta  de tradução da internet (exemplo:  fragmento de texto com tradução  do  Google Translator); 
  • Uso  de  palavra  e/ou  frase  de  sentido  diferente  da  usada  no  texto  original; 
  • Erro de sintaxe (a ordem das palavras e outros elementos de uma frase  devem respeitar  as  regras  gramaticais  da  língua  para  a  qual  se  está  traduzindo); 
  • Falta  de  tradução  ou  versão  de  parte  substancial  do  texto  original,  títulos, frases; 
  • Escolha incorreta de conjunções. 


São considerados erros complementares

  • Erro de pontuação; 
  • Erro de combinação de palavras (erro de “colocações”); 
  • Erro no uso de preposições ou omissão de preposição; 
  • Erro no uso de artigos ou omissão de artigo; 
  • Escolha de classe morfológica incorreta entre um grupo de palavras de  mesma raiz  (a  raiz  da  palavra está correta, mas  a  classe morfológica  escolhida  está errada, isto é, “safe” no lugar de “safety” ou “economy”  no lugar de “economic”); 
  • Erro no uso de maiúsculas e/ou minúsculas; 
  • Adição de  texto  e/ou  palavras  não  claramente  incluídos  no  original  nos  casos em que isso não seja necessário para transmissão da ideia  original; 
  • Uso de termo inadequado no contexto, de acordo com as convenções da língua alvo. 

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

5 canais sobre tradução no YouTube

Hoje vou apresentar cinco canais sobre tradução que eu sigo no YouTube e que vale a pena conferir! 

Estes canais têm em comum o fato de terem sido criados por tradutores, e não por agências de tradução ou editoras, o que lhes dá um toque mais pessoal.

Se você tiver outras sugestões, deixe seu comentário.


Com 132 vídeos, este é um canal pessoal da tradutora Laila Rezende Compan, utilizado para complementar as dicas do blog Tradutor Iniciante para ajudar os tradutores que estão começando a carreira, e também para ajudar quem pretende ser um tradutor profissional, além de dicas para mulheres e alguns vídeos extras sobre diversos temas.




Com 44 vídeos, este é o canal da experiente tradutora Natalie Gerhardt, com dicas sobre tradução literária, mercado editorial, resenhas, etc.




Com 107 vídeos, este é o canal do tradutor Juliano Timbó Martins, onde ele compartilha dicas sobre o interessantíssimo mercado da tradução. Descubra mais sobre esta profissão e este mercado em constante crescimento.




Com 15 vídeos, este é o canal da experiente tradutora Ivone Benedetti, que atuou como tradutora durante 30 anos para grandes editoras brasileiras. Nele, Ivone dá valiosas dicas sobre a profissão. Ela também é autora do site www.editra.com.br,  dedicado a cursos e recursos para tradutores e aprendizes de tradutores.




Com 13 vídeos, este é o canal onde a tradutora Marisa Nagayama oferece coaching para tradutores.


segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Por que ler romances históricos?

Primeiramente é importante estabelecer a diferença entre romance histórico e romance de época. O primeiro consiste em uma ficção que tem como pano de fundo algum acontecimento histórico real, como, por exemplo, as guerras napoleônicas no romance Guerra e Paz, de Liev Tolstói, nesse tipo de romance há um compromisso com os fatos históricos. O segundo, por sua vez, não tem compromisso algum com a realidade, seu foco são os costumes da sociedade de uma época, como, por exemplo a sociedade carioca do século XIX em Dom Casmurro, de Machado de Assis.

Para quem tem vontade de conhecer mais a fundo alguns acontecimentos que marcaram época, os romances históricos são um prato cheio. Particularmente gosto muito desse tipo de romance porque é como uma viagem no tempo que nos permite conhecer fatos históricos, sociais e culturais. Diferentemente dos sisudos livros didáticos, os romances históricos estão carregados de uma boa dose de emoção e fantasia e por isso são mais fáceis de assimilar.

El sueño del celta

Do escritor peruano Mario Vargas Llosa, é um romance publicado em 2010, que narra a vida do legendário irlandês Roger Casement, o primeiro dos europeus a denunciar os horrores do colonialismo no Congo Belga e, posteriormente, na Amazônia peruana. Duas viagens memoráveis que mudariam Casement para sempre e que resultariam nos relatórios que abririam os olhos da sociedade europeia para as atrocidades cometidas contra os nativos congoleses e os índios peruanos. Ambos foram explorados como mão escrava para a extração do látex, no auge do comércio da borracha. Ao denunciar os horrores do colonialismo, Casement se torna simpatizante e ativista da causa irlandesa contra o domínio inglês, o que lhe rende a acusação de traição, afinal ele trabalhava como diplomata para a coroa inglesa.

A saga começa no Congo em 1903 e termina em uma prisão de Londres, numa manhã de 1916. Ao ser preso, acusado de traição contra a Inglaterra, sua vida pessoal é esculhambada com a publicação de uns diários íntimos, que revelam supostas aventuras homossexuais de veracidade duvidosa, o que lhe valeu o desprezo de muitos compatriotas, visto que naquela época a homossexualidade era considerada um crime. Difamado pela opinião pública, corre o risco de ser executado na forca.




El hereje

Do escritor espanhol Miguel Delibes, é um romance publicado em 1998, ambientado na Espanha da primeira metade do século XVI, e que narra a vida de um comerciante de peles, Cipriano Salcedo, cujo nascimento, além de causar a morte da mãe, coincide com a data em que Martinho Lutero fixou suas 95 teses na porta da igreja de Wittenber, 31 de outubro de 1517. Essa coincidência de datas marcaria tragicamente seu destino.

O autor traça um vivo retrato da cidade de Valladolid da época do rei Carlos I (imperador Carlos V do Sacro Império Romano Germânico), de uma Espanha que atravessa um período de convulsões políticas e religiosas. Em termos políticos, aborda a revolta dos comuneros, episódio em que as comunidades de Castilha se sublevaram contra o rei, porque não aceitavam que Castilha fosse governada por um estrangeiro, uma vez que Carlos nascera em Flandres, na Bélgica. Os comuneros queriam que Juana — mãe de Carlos e filha dos reis católicos Isabel e Fernando —, conhecida como Juana la loca, assumisse o trono. Ela se encontrava presa no castelo de Tordesillas desde que fora declarada louca. Mas, quando o levantamento comunero a libertou e exigiu que ela encabeçasse a revolta, Juana se negou a ir contra o filho Carlos. Este derrotou os revoltosos e voltou a enclausurar a mãe no castelo.

Por outro lado, em termos religiosos, havia um conflito entre a igreja católica e as correntes protestantes e reformistas defendidas por Lutero e Erasmo de Roterdã, que começavam a se introduzir na península de forma clandestina. Esta obra também fala do Concílio de Trento, mediante o qual Carlos I tenta conciliar as diferenças entre católicos e protestantes, a fim de se engajar na guerra contra os turcos. A Dieta Worms, também mencionada no livro, foi uma tentativa malograda de resolver a disputa. Martinho Lutero acusou Roma de exercer tirania e acabou excomungado pelo papa Leão X.

Mas voltemos ao nosso protagonista Cipriano Salcedo. Acusado de parricida pelo pai, Cipriano vivia atormentado pela culpa e não conseguia apaziguar suas inquietudes espirituais na religião católica, até que acaba encontrando conforto numa fraternidade secreta de protestantes, na qual se torna ativista e propagador e, como consequência, acaba perseguido pela implacável Inquisição. Além da questão da turbulência política e religiosa, merece destaque também o caráter empreendedor de Cipriano que, de comerciante de peles, acaba se tornando um empresário no mundo da “moda”, ao transformar um rudimentar casaco de pele e lã usado pelos camponeses em uma peça cobiçada pela alta sociedade.

Largo pétalo de mar

O mais recente romance da escritora chilena Isabel Allende é uma viagem através da história do século XX. Narra a proeza dos imigrantes espanhóis republicanos que, em 1939, após a derrota na Guerra Civil e a vitória do general Franco, travam uma arriscada fuga de Barcelona rumo à França e, depois de sofrer uma série de privações nos campos de refugiados, vislumbram uma oportunidade de iniciar uma nova vida no Chile. Isso graças ao poeta chileno Pablo Neruda que, comovido com a situação dos exilados, se mobiliza para obter do governo chileno o compromisso de acolher a mais de 2 mil refugiados espanhóis. Assim, a bordo do navio Winnipeg, fretado pelo poeta, atravessam o oceano Atlântico rumo ao Chile, “esse largo pétalo de mar y nieve”, nas palavras de Neruda.

Este foi meu primeiro contato com a literatura de Isabel Allende e, sem dúvida, pretendo ler mais obras dela em breve, pois foi uma leitura muito envolvente. Tal como no filme “A casa dos espíritos”, baseado no seu romance homônimo, a autora revela grande destreza na arte de contar histórias. Com muita habilidade nos apresenta a vida de duas famílias ao longo de várias gerações, a maneira como os acontecimentos políticos afetam as vidas de milhares de pessoas, e as reações individuais diante das adversidades. 

Neste caso, aborda precisamente o período que vai de 1938 a 1994, que abrange a Guerra Civil espanhola, a Segunda Guerra Mundial e, por fim, o golpe militar no Chile, em 11 de setembro de 1973. Quando, sob as ordens de Augusto Pinochet, os militares chilenos derrubaram o governo Salvador Allende. O presidente foi morto em circunstâncias não esclarecidas e Pinochet instaurou uma ditadura militar truculenta que se estendeu até 1990.

Embora a obra seja um reflexo de suas próprias experiências familiares, uma vez que Isabel é sobrinha do presidente chileno deposto pelo golpe, Salvador Allende, e tendo sido ela mesma uma exilada na Venezuela, como autora consegue manter certo distanciamento, abstendo-se de emitir juízos categóricos. Ao menos foi essa minha impressão. 

Para finalizar, quando busco uma boa razão para ler os romances históricos, vem-me à mente o argumento de Ítalo Calvino em Por que ler os clássicos?, isto é, por que não lê-los? Além disso, para exercer o ofício com alguma propriedade, o tradutor deve contar com um conhecimento mínimo da história, cultura, costumes e tradições tanto do país da língua de partida como do país da língua de chegada, assim como uma ampla cultura geral sobre conflitos, geografía, arte, religiões, história, entretenimento, ciências naturais, esportes, etc. 

Tal como disse Miguel de Cervantes "Quem lê muito e anda muito, vê muito e sabe muito".