Mostrando postagens com marcador Livros em espanhol. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Livros em espanhol. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Resenha do livro A rebelião das massas, de Ortega y Gasset


Há poucos dias terminei de ler La rebelión de las masas (A rebelião das massas), do filósofo espanhol José Ortega y Gasset (1883-1955). Mesmo tendo sido escrita por volta de 1930, é uma obra muito atual, que descreve um fenômeno visível e predominante nos dias atuais: o homem-massa. Aproveito enquanto as impressões ainda estão frescas em minha mente para escrever esta resenha.

Primeiramente, o autor deixa bem claro que essa definição não se refere a uma camada social, não se trata de uma classe específica, mas sim de uma forma de ser, de agir, de encarar a vida. Uma postura diante da realidade.

Para o autor, o homem-massa é resultado da combinação de vários fatores: o salto populacional na Europa, que em doze séculos (do século VI ao ano 1800) não conseguia superar os 180 milhões e que, em menos de um século, de 1800 a 1914, pula de 180 milhões a 460 milhões, isto é, mais do que duplica. Esse extraordinário crescimento populacional dá lugar às aglomerações, as cidades se enchem de pessoas. O que, aliado à democracia liberal, à industrialização e à ciência resulta no surgimento do homem-massa.

Mas o que seria esse homem-massa? Como dissemos anteriormente, não se trata de uma categoria social, mas sim de um modo de ser. O homem-massa corresponde ao homem médio, que se contenta em seguir a corrente, que despreza a tradição, não tem senso histórico, não tem grandes aspirações além de ser como os outros. Comporta-se como uma criança mimada e ingrata que só sabe exigir e choramingar, e que espera que o Estado resolva todos seu problemas. Está sempre esperneando, berrando por direitos, mas não tem senso de dever, de responsabilidade. Tende à violência, acredita que o progresso atual caiu do céu, não o reconhece como fruto do sacrifício e trabalho das gerações anteriores.

Sua responsabilidade se limita a exigir, preocupa-se em resolver os problemas estruturais da sociedade, em perseguir utopias em lugar de concentrar-se em resolver problemas pontuais. Age de forma superficial e preguiçosa, não busca um conhecimento profundo de causas e consequências, contenta-se com um conhecimento parcial e superficial daquilo que possa usar a seu favor, ainda que de forma distorcida, o que deriva na desonestidade intelectual, no relativismo moral e ético, em que o julgamento moral varia conforme seus interesses. Age como um bárbaro porque recusa normas, hábitos e a razão.

Como oposto ao homem-massa, o autor menciona o homem nobre. Novamente não no sentido de classe social, de posses ou títulos, mas sim de postura, de forma de ser. O homem nobre é o oposto do homem-massa porque ele tem senso histórico, respeita a tradição, as conquistas de seus antepassados. Ele tem senso de dever, de responsabilidade. Não espera que o Estado resolva seus problemas, não entrega seu destino nas mãos do Estado. Ele é dono do seu destino e busca o aperfeiçoamento mediante o esforço e o compromisso. Não pretende resolver os problemas estruturais, mas sim os pontuais, não quer mudar o mundo, mas melhorá-lo. Valorizam os valores e a moral civilizatórios, a disciplina, a ordem e a lei.

Partindo dessa comparação entre homem-massa e homem nobre, o autor analisa outras questões mais profundas, como o declínio da Europa. Por declínio, se refere ao fato de a Europa ter perdido seu poder de mando. O autor enfatiza que toda sociedade é hierárquica, há sempre uma minoria dominante e uma massa média e, se assim não for, não há organização, não há sociedade. Esclareça-se que essa minoria não é dominante ao acaso, mas sim devido a sua excelência e autenticidade, ao seu senso de dever para com os outros. A sociedade sem mando é como uma turma de alunos que, quando se fica sem professor, fica sem rumo e se entrega à confusão e à balbúrdia. Voltando à Europa, Ortega y Gasset defende sua união e sua diversidade, mas reconhece a falta de uma estrutura estatal comum para isso. A falta de mando resulta no enfraquecimento da Europa, o que dá lugar a nacionalismos e governos totalitários como o fascismo e o comunismo, que repetem os erros do passado.

O homem-massa carece de projetos, aspirações, premissas, não reconhece a autoridade da minoria dominante, pelo contrário, deseja mandar e tomar-lhe o lugar em benefício próprio. Enquanto o homem humilde reconhece suas limitações, mas aspira ao aperfeiçoamento, o homem-massa exalta sua vulgaridade, seu direito a ignorar, vangloria-se de ser como todos, não cumpre sua vocação, não é autêntico, o que supõe uma desmoralização.  

Certamente deixei escapar muitos aspectos importantes da obra, mas o que mais me marcou foi seu caráter atual, como o homem-massa continua predominando em nossa sociedade, mesmo tendo passado quase um século da publicação desta obra. Acredito que este fenômeno é perceptível em todos os campos de conhecimento. Na língua, por exemplo, observamos a desvalorização da norma, a ojeriza ao estudo formal, ao mesmo tempo que se exalta a vulgaridade, quando pululam nas vitrines das livrarias os livros de autoajuda com palavrões no título: é 'F*da' para todo lado.

O empobrecimento do vocabulário, a desvalorização da leitura, a tentativa de taxar a gramática, a norma-padrão e a língua culta como instrumentos de opressão. A busca pelo conhecimento fácil e supérfluo, através de macetes. O desdém pelos clássicos da literatura nacional e universal, a degradação da hierarquia na relação professor-aluno e o reflexo das reivindicações políticas na língua com a imposição da linguagem não sexista, e o discurso do politicamente correto. Atualmente, são esses, em minha opinião, alguns sinais da massificação e a manipulação da linguagem e do pensamento.

Para quem tiver interesse em saber mais sobre este livro, indico dois excelentes vídeos no YouTube:

Este é em espanhol, do canal POLIZONYNAUFRAGO


E este outro é em português, do canal Socran:


terça-feira, 30 de junho de 2020

Referências literárias em O Cemitérios dos Livros Esquecidos

Quem acompanha meu blog sabe do carinho especial que tenho pelo livro A Sombra do Vento, o primeiro da série O Cemitério dos Livros Esquecidos, do escritor Carlos Ruiz Zafón. Por ocasião da morte do autor há poucos dias, decidi lê-lo novamente, pela terceira vez, e escrever sobre um dos aspectos que mais contribui para tornar este livro tão especial — seu caráter metaliterário —, quando uma obra tematiza a própria literatura.

A Sombra do Vento faz referência a livros, livreiros, autores malditos, bibliotecas, faz referência à leitura, à escrita, à tradução, enfim, a esse fascinante universo literário que nos rodeia. 

Há menções implícitas, como a de Conan Doyle na investigação levada a cabo por Daniel Sempere e Fermín Romero de Torres, que, de certa forma, seguem as pautas de Sherlock Holmes e Watson. Não pude deixar de notar certa conexão com conto fantástico O homem de areia, do alemão E.T.A Hoffman, que é considerado por Ítalo Calvino como uma das produções mais características da narrativa do século XIX. O personagem Laín Coubert, ninguém menos que o diabo, lembra a figura mefistofélica de Copellius, em O Homem da Areia, que, por sua vez, refere-se à lenda de um homem perverso que, quando as crianças não iam para a cama, jogava areia nos olhos delas, fazendo-os saltar para fora. Ele então colocava os olhos num saco e os levava para alimentar seus filhos na lua. Essa fixação com os olhos reaparece no livro fictício A casa vermelha do escritor fictício Julián Carax, obra que relatava a atormentada vida de um misterioso indivíduo que assaltava lojas de brinquedos e fantoches para posteriormente arrancar-lhes os olhos e levá-los para sua fantasmagórica casa.

Outra coincidência é que o nome do primeiro amor de Daniel Sampere é Clara, assim como a noiva de Natanael, protagonista de O Homem de Areia.

Também não pude deixar de estabelecer uma relação entre o misterioso Cemitério dos livros esquecidos e a labiríntica biblioteca do conto A biblioteca de Babel, do escritor argentino Jorge Luis Borges. 

Além dessas referências implícitas, há menções explícitas a autores e obras como Grandes Esperanças de Charles Dickens e A ilha do tesouro, de Robert Louis Stevenson, Os irmãos Karamazov, de Fiódor Dostoiévski, Balzac, Zola, Pablo Neruda, entre outros.

O professor de literatura Monsieur Roquerfort que descobre o romance A casa vermelha, em uma de suas viagens a Paris para enriquecer seu acervo cultural com as últimas novidades literárias, visita uma nínfula a quem chama de "Madame Bobary", em referência à célebre personagem do romance homônimo de Gustave Flaubert, embora a moça se chamasse Hortense e tivesse certa propensão ao pelo facial.

Outra referência, quando Julián Carax, que muito cedo descobre o prazer da leitura, decepciona o pai chapeleiro ao anunciar-lhe, antes de completar os treze anos, que queria ser alguém chamado Robert Louis Stevenson, o autor de clássicos, como O médico e o monstro e A ilha do tesouro. Em outro trecho do livro, quando lhe perguntam se gosta de livros, o menino responde que sim, e quando lhe perguntam se já leu O coração das Trevas (de Josef Conrad), ele responde: "— Três vezes".

Quando Daniel Sempere vai passear com o pai e não sossega até que este o leve para contemplar seu objeto de desejo: uma caneta Montblanc Meisterstück, de série numerada que teria pertencido, segundo o vendedor, a ninguém menos que Victor Hugo. Um delírio barroco em prata, ouro e milhares de pequeninos traços, que brilhava como o farol da Alexandria, e do qual nascido o manuscrito de Os Miseráveis. Secretamente, Daniel estava convencido de que com aquela maravilha seria possível escrever qualquer coisa, de romances a enciclopédias e que o que ele escrevesse com aquela caneta poderia chegar a qualquer lugar, inclusive àquele lugar misterioso para onde sua mãe tinha ido e do qual nunca mais voltaria.

A relação entre o livreiro Dom Barceló e sua empregada, Bernarda, quando este a encontra vendendo verduras no mercado do Borne, e, seguindo sua intuição, oferece-lhe emprego dizendo: "— Nossa história será como o Pigmaleão (obra de George Bernard Shaw), a senhora será minha Elisa, e eu, seu professor Higgins.", ao que Bernarda responde ofendida: "— Escute aqui, nós podemos ser pobres e ignorantes, mas somos decentes". Uma vez empregada na residência de Barceló, Bernarda costuma rezar pelo alma do patrão, "que tem bom coração, mas que de tanto ler teve os miolos apodrecidos como Dom Quixote". Sem falar que Fermín, que lembra muito Sancho Pança com seus refrães espirituosos e sua admirável fidelidade a Daniel Sempere.

Em outro parte do livro, Barceló diz "— É o que eu digo, como pode haver trabalho? Se em nosso país as pessoas não se aposentam nem depois da morte. Veja o Cid. Não há solução.", uma referência à legendária herói espanhol da Reconquista, que passou para a posteridade em El cantar de mio Cid, poema épico anônimo escrito por volta de 1200.  

Em O Jogo do Anjo, a segunda entrega da série O Cemitério dos Livros Esquecidos, o protagonista-narrador David Martín, é um escritor maldito, desiludido no amor e na vida profissional e gravemente doente que encontra o misterioso Andreas Corelli, um estrangeiro que se diz editor de livros, o qual lhe propõe um trato: a cura de sua doença em troca de um livro para fundar uma nova religião. Tal trato remete a Fausto, do alemão Goethe, que no afã de viver sem envelhecer faz um pacto com o diabo. Por sua vez, a fuga da cadeia de David Martín, fingindo-se de morto, remete ao protagonista de O conde de Monte Cristo, do romancista francês Alexandre Dumas.

No quarto e último livro da série, O Labirinto dos Espíritos, o autor faz referência a Alice no País das Maravilhas, do escritor britânico Lewis Carroll, e traça um paralelo entre o País das Maravilhas e Barcelona: " — Meu nome é Alicia. — Sabia que o personagem central da série O labirinto dos espíritos, Ariadna, é uma homenagem a outra Alicia, a de Lewis Carroll e seu País, neste caso Barcelona, das Maravilhas? Alicia fingiu surpresa, negando suavemente com a cabeça. — No primeiro volume da série, Ariadna encontra um livro de encantamentos no sótão do casarão em Vallvidrera onde mora com seus pais até eles desaparecerem misteriosamente em uma noite de temporal. Pensando que se conjurasse um espírito das sombras talvez pudesse encontrá-los, Ariadna abre sem querer um portal entre a Barcelona real e o seu reverso, um reflexo maldito da cidade. A Cidade dos Espelhos... No chão, uma fenda se abre aos seus pés, e Ariadna cai por uma interminável escada em caracol nas trevas até chegar a essa outra Barcelona, o labirinto dos espíritos, onde é condenada a ficar vagando pelos círculos do inferno que o Príncipe Escarlate construiu [...]".

Zafón também faz referência ao processo da escrita, mais precisamente aos conceitos de mimese, que se refere à faculdade do homem de reproduzir e imitar a realidade quando diz: "Os livros são espelhos: neles só se vê o que possuímos dentro" e, ainda, à teoria dos espelhos e à das bonecas russas, que se referem ao dialogismo e a intertextualidade, a capacidade de os textos dialogarem com outros textos, as várias histórias dentro da história ou uma narrativa dentro de outra narrativa, quando diz: "À medida que avançava a estrutura do relato, fez-me lembrar daquelas bonecas russas que contêm em si mesmas inúmeras miniaturas. Passo a passo, a narrativa se estilhaçava em mil histórias, como se o relato penetrasse numa galeria de espelhos e sua identidade produzisse dezenas de reflexos díspares e ao mesmo tempo um só.". Por fim, para puxar a sardinha para o nosso lado, destaco a menção ao nosso inestimável ofício na figura da tradutora Nuria Monfort, que traduz do francês e do alemão para o espanhol.

É assim que Carlos Zafón rende homenagem a todos os gêneros de literatura, fazendo referências explícitas ou implícitas que serão percebidas conforme a bagagem literária do leitor. É como um jogo, em que ele vai deixando pistas para o leitor desvendar ao mesmo tempo que lhe desperta a curiosidade para aqueles livros que ainda não leu.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Por que ler romances históricos?

Primeiramente é importante estabelecer a diferença entre romance histórico e romance de época. O primeiro consiste em uma ficção que tem como pano de fundo algum acontecimento histórico real, como, por exemplo, as guerras napoleônicas no romance Guerra e Paz, de Liev Tolstói, nesse tipo de romance há um compromisso com os fatos históricos. O segundo, por sua vez, não tem compromisso algum com a realidade, seu foco são os costumes da sociedade de uma época, como, por exemplo a sociedade carioca do século XIX em Dom Casmurro, de Machado de Assis.

Para quem tem vontade de conhecer mais a fundo alguns acontecimentos que marcaram época, os romances históricos são um prato cheio. Particularmente gosto muito desse tipo de romance porque é como uma viagem no tempo que nos permite conhecer fatos históricos, sociais e culturais. Diferentemente dos sisudos livros didáticos, os romances históricos estão carregados de uma boa dose de emoção e fantasia e por isso são mais fáceis de assimilar.

El sueño del celta

Do escritor peruano Mario Vargas Llosa, é um romance publicado em 2010, que narra a vida do legendário irlandês Roger Casement, o primeiro dos europeus a denunciar os horrores do colonialismo no Congo Belga e, posteriormente, na Amazônia peruana. Duas viagens memoráveis que mudariam Casement para sempre e que resultariam nos relatórios que abririam os olhos da sociedade europeia para as atrocidades cometidas contra os nativos congoleses e os índios peruanos. Ambos foram explorados como mão escrava para a extração do látex, no auge do comércio da borracha. Ao denunciar os horrores do colonialismo, Casement se torna simpatizante e ativista da causa irlandesa contra o domínio inglês, o que lhe rende a acusação de traição, afinal ele trabalhava como diplomata para a coroa inglesa.

A saga começa no Congo em 1903 e termina em uma prisão de Londres, numa manhã de 1916. Ao ser preso, acusado de traição contra a Inglaterra, sua vida pessoal é esculhambada com a publicação de uns diários íntimos, que revelam supostas aventuras homossexuais de veracidade duvidosa, o que lhe valeu o desprezo de muitos compatriotas, visto que naquela época a homossexualidade era considerada um crime. Difamado pela opinião pública, corre o risco de ser executado na forca.




El hereje

Do escritor espanhol Miguel Delibes, é um romance publicado em 1998, ambientado na Espanha da primeira metade do século XVI, e que narra a vida de um comerciante de peles, Cipriano Salcedo, cujo nascimento, além de causar a morte da mãe, coincide com a data em que Martinho Lutero fixou suas 95 teses na porta da igreja de Wittenber, 31 de outubro de 1517. Essa coincidência de datas marcaria tragicamente seu destino.

O autor traça um vivo retrato da cidade de Valladolid da época do rei Carlos I (imperador Carlos V do Sacro Império Romano Germânico), de uma Espanha que atravessa um período de convulsões políticas e religiosas. Em termos políticos, aborda a revolta dos comuneros, episódio em que as comunidades de Castilha se sublevaram contra o rei, porque não aceitavam que Castilha fosse governada por um estrangeiro, uma vez que Carlos nascera em Flandres, na Bélgica. Os comuneros queriam que Juana — mãe de Carlos e filha dos reis católicos Isabel e Fernando —, conhecida como Juana la loca, assumisse o trono. Ela se encontrava presa no castelo de Tordesillas desde que fora declarada louca. Mas, quando o levantamento comunero a libertou e exigiu que ela encabeçasse a revolta, Juana se negou a ir contra o filho Carlos. Este derrotou os revoltosos e voltou a enclausurar a mãe no castelo.

Por outro lado, em termos religiosos, havia um conflito entre a igreja católica e as correntes protestantes e reformistas defendidas por Lutero e Erasmo de Roterdã, que começavam a se introduzir na península de forma clandestina. Esta obra também fala do Concílio de Trento, mediante o qual Carlos I tenta conciliar as diferenças entre católicos e protestantes, a fim de se engajar na guerra contra os turcos. A Dieta Worms, também mencionada no livro, foi uma tentativa malograda de resolver a disputa. Martinho Lutero acusou Roma de exercer tirania e acabou excomungado pelo papa Leão X.

Mas voltemos ao nosso protagonista Cipriano Salcedo. Acusado de parricida pelo pai, Cipriano vivia atormentado pela culpa e não conseguia apaziguar suas inquietudes espirituais na religião católica, até que acaba encontrando conforto numa fraternidade secreta de protestantes, na qual se torna ativista e propagador e, como consequência, acaba perseguido pela implacável Inquisição. Além da questão da turbulência política e religiosa, merece destaque também o caráter empreendedor de Cipriano que, de comerciante de peles, acaba se tornando um empresário no mundo da “moda”, ao transformar um rudimentar casaco de pele e lã usado pelos camponeses em uma peça cobiçada pela alta sociedade.

Largo pétalo de mar

O mais recente romance da escritora chilena Isabel Allende é uma viagem através da história do século XX. Narra a proeza dos imigrantes espanhóis republicanos que, em 1939, após a derrota na Guerra Civil e a vitória do general Franco, travam uma arriscada fuga de Barcelona rumo à França e, depois de sofrer uma série de privações nos campos de refugiados, vislumbram uma oportunidade de iniciar uma nova vida no Chile. Isso graças ao poeta chileno Pablo Neruda que, comovido com a situação dos exilados, se mobiliza para obter do governo chileno o compromisso de acolher a mais de 2 mil refugiados espanhóis. Assim, a bordo do navio Winnipeg, fretado pelo poeta, atravessam o oceano Atlântico rumo ao Chile, “esse largo pétalo de mar y nieve”, nas palavras de Neruda.

Este foi meu primeiro contato com a literatura de Isabel Allende e, sem dúvida, pretendo ler mais obras dela em breve, pois foi uma leitura muito envolvente. Tal como no filme “A casa dos espíritos”, baseado no seu romance homônimo, a autora revela grande destreza na arte de contar histórias. Com muita habilidade nos apresenta a vida de duas famílias ao longo de várias gerações, a maneira como os acontecimentos políticos afetam as vidas de milhares de pessoas, e as reações individuais diante das adversidades. 

Neste caso, aborda precisamente o período que vai de 1938 a 1994, que abrange a Guerra Civil espanhola, a Segunda Guerra Mundial e, por fim, o golpe militar no Chile, em 11 de setembro de 1973. Quando, sob as ordens de Augusto Pinochet, os militares chilenos derrubaram o governo Salvador Allende. O presidente foi morto em circunstâncias não esclarecidas e Pinochet instaurou uma ditadura militar truculenta que se estendeu até 1990.

Embora a obra seja um reflexo de suas próprias experiências familiares, uma vez que Isabel é sobrinha do presidente chileno deposto pelo golpe, Salvador Allende, e tendo sido ela mesma uma exilada na Venezuela, como autora consegue manter certo distanciamento, abstendo-se de emitir juízos categóricos. Ao menos foi essa minha impressão. 

Para finalizar, quando busco uma boa razão para ler os romances históricos, vem-me à mente o argumento de Ítalo Calvino em Por que ler os clássicos?, isto é, por que não lê-los? Além disso, para exercer o ofício com alguma propriedade, o tradutor deve contar com um conhecimento mínimo da história, cultura, costumes e tradições tanto do país da língua de partida como do país da língua de chegada, assim como uma ampla cultura geral sobre conflitos, geografía, arte, religiões, história, entretenimento, ciências naturais, esportes, etc. 

Tal como disse Miguel de Cervantes "Quem lê muito e anda muito, vê muito e sabe muito".