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terça-feira, 30 de junho de 2020

Referências literárias em O Cemitérios dos Livros Esquecidos

Quem acompanha meu blog sabe do carinho especial que tenho pelo livro A Sombra do Vento, o primeiro da série O Cemitério dos Livros Esquecidos, do escritor Carlos Ruiz Zafón. Por ocasião da morte do autor há poucos dias, decidi lê-lo novamente, pela terceira vez, e escrever sobre um dos aspectos que mais contribui para tornar este livro tão especial — seu caráter metaliterário —, quando uma obra tematiza a própria literatura.

A Sombra do Vento faz referência a livros, livreiros, autores malditos, bibliotecas, faz referência à leitura, à escrita, à tradução, enfim, a esse fascinante universo literário que nos rodeia. 

Há menções implícitas, como a de Conan Doyle na investigação levada a cabo por Daniel Sempere e Fermín Romero de Torres, que, de certa forma, seguem as pautas de Sherlock Holmes e Watson. Não pude deixar de notar certa conexão com conto fantástico O homem de areia, do alemão E.T.A Hoffman, que é considerado por Ítalo Calvino como uma das produções mais características da narrativa do século XIX. O personagem Laín Coubert, ninguém menos que o diabo, lembra a figura mefistofélica de Copellius, em O Homem da Areia, que, por sua vez, refere-se à lenda de um homem perverso que, quando as crianças não iam para a cama, jogava areia nos olhos delas, fazendo-os saltar para fora. Ele então colocava os olhos num saco e os levava para alimentar seus filhos na lua. Essa fixação com os olhos reaparece no livro fictício A casa vermelha do escritor fictício Julián Carax, obra que relatava a atormentada vida de um misterioso indivíduo que assaltava lojas de brinquedos e fantoches para posteriormente arrancar-lhes os olhos e levá-los para sua fantasmagórica casa.

Outra coincidência é que o nome do primeiro amor de Daniel Sampere é Clara, assim como a noiva de Natanael, protagonista de O Homem de Areia.

Também não pude deixar de estabelecer uma relação entre o misterioso Cemitério dos livros esquecidos e a labiríntica biblioteca do conto A biblioteca de Babel, do escritor argentino Jorge Luis Borges

Além dessas referências implícitas, há menções explícitas a autores e obras como Grandes Esperanças de Charles Dickens e A ilha do tesouro, de Robert Louis Stevenson, Os irmãos Karamazov, de Fiódor Dostoiévski, Balzac, Zola, Pablo Neruda, entre outros.

O professor de literatura Monsieur Roquerfort que descobre o romance A casa vermelha, em uma de suas viagens a Paris para enriquecer seu acervo cultural com as últimas novidades literárias, visita uma nínfula a quem chama de "Madame Bobary", em referência à célebre personagem do romance homônimo de Gustave Flaubert, embora a moça se chamasse Hortense e tivesse certa propensão ao pelo facial.

Outra referência, quando Julián Carax, que muito cedo descobre o prazer da leitura, decepciona o pai chapeleiro ao anunciar-lhe, antes de completar os treze anos, que queria ser alguém chamado Robert Louis Stevenson, o autor de clássicos, como O médico e o monstro e A ilha do tesouro. Em outro trecho do livro, quando lhe perguntam se gosta de livros, o menino responde que sim, e quando lhe perguntam se já leu O coração das Trevas (de Josef Conrad), ele responde: "— Três vezes".

Quando Daniel Sempere vai passear com o pai e não sossega até que este o leve para contemplar seu objeto de desejo: uma caneta Montblanc Meisterstück, de série numerada que teria pertencido, segundo o vendedor, a ninguém menos que Victor Hugo. Um delírio barroco em prata, ouro e milhares de pequeninos traços, que brilhava como o farol da Alexandria, e do qual nascido o manuscrito de Os Miseráveis. Secretamente, Daniel estava convencido de que com aquela maravilha seria possível escrever qualquer coisa, de romances a enciclopédias e que o que ele escrevesse com aquela caneta poderia chegar a qualquer lugar, inclusive àquele lugar misterioso para onde sua mãe tinha ido e do qual nunca mais voltaria.

A relação entre o livreiro Dom Barceló e sua empregada, Bernarda, quando este a encontra vendendo verduras no mercado do Borne, e, seguindo sua intuição, oferece-lhe emprego dizendo: "— Nossa história será como o Pigmaleão (obra de George Bernard Shaw), a senhora será minha Elisa, e eu, seu professor Higgins.", ao que Bernarda responde ofendida: "— Escute aqui, nós podemos ser pobres e ignorantes, mas somos decentes". Uma vez empregada na residência de Barceló, Bernarda costuma rezar pelo alma do patrão, "que tem bom coração, mas que de tanto ler teve os miolos apodrecidos como Dom Quixote". Sem falar que Fermín, que lembra muito Sancho Pança com seus refrães espirituosos e sua admirável fidelidade a Daniel Sempere.

Em outro parte do livro, Barceló diz "— É o que eu digo, como pode haver trabalho? Se em nosso país as pessoas não se aposentam nem depois da morte. Veja o Cid. Não há solução.", uma referência à legendária herói espanhol da Reconquista, que passou para a posteridade em El cantar de mio Cid, poema épico anônimo escrito por volta de 1200.  

Em O Jogo do Anjo, a segunda entrega da série O Cemitério dos Livros Esquecidos, o protagonista-narrador David Martín, é um escritor maldito, desiludido no amor e na vida profissional e gravemente doente que encontra o misterioso Andreas Corelli, um estrangeiro que se diz editor de livros, o qual lhe propõe um trato: a cura de sua doença em troca de um livro para fundar uma nova religião. Tal trato remete a Fausto, do alemão Goethe, que no afã de viver sem envelhecer faz um pacto com o diabo. Por sua vez, a fuga da cadeia de David Martín, fingindo-se de morto, remete ao protagonista de O conde de Monte Cristo, do romancista francês Alexandre Dumas.

No quarto e último livro da série, O Labirinto dos Espíritos, o autor faz referência a Alice no País das Maravilhas, do escritor britânico Lewis Carroll, e traça um paralelo entre o País das Maravilhas e Barcelona: " — Meu nome é Alicia. — Sabia que o personagem central da série O labirinto dos espíritos, Ariadna, é uma homenagem a outra Alicia, a de Lewis Carroll e seu País, neste caso Barcelona, das Maravilhas? Alicia fingiu surpresa, negando suavemente com a cabeça. — No primeiro volume da série, Ariadna encontra um livro de encantamentos no sótão do casarão em Vallvidrera onde mora com seus pais até eles desaparecerem misteriosamente em uma noite de temporal. Pensando que se conjurasse um espírito das sombras talvez pudesse encontrá-los, Ariadna abre sem querer um portal entre a Barcelona real e o seu reverso, um reflexo maldito da cidade. A Cidade dos Espelhos... No chão, uma fenda se abre aos seus pés, e Ariadna cai por uma interminável escada em caracol nas trevas até chegar a essa outra Barcelona, o labirinto dos espíritos, onde é condenada a ficar vagando pelos círculos do inferno que o Príncipe Escarlate construiu [...]".

Zafón também faz referência ao processo da escrita, mais precisamente aos conceitos de mimese, que se refere à faculdade do homem de reproduzir e imitar a realidade quando diz: "Os livros são espelhos: neles só se vê o que possuímos dentro" e, ainda, à teoria dos espelhos e à das bonecas russas, que se referem ao dialogismo e a intertextualidade, a capacidade de os textos dialogarem com outros textos, as várias histórias dentro da história ou uma narrativa dentro de outra narrativa, quando diz: "À medida que avançava a estrutura do relato, fez-me lembrar daquelas bonecas russas que contêm em si mesmas inúmeras miniaturas. Passo a passo, a narrativa se estilhaçava em mil histórias, como se o relato penetrasse numa galeria de espelhos e sua identidade produzisse dezenas de reflexos díspares e ao mesmo tempo um só.". Por fim, para puxar a sardinha para o nosso lado, destaco a menção ao nosso inestimável ofício na figura da tradutora Nuria Monfort, que traduz do francês e do alemão para o espanhol.

É assim que Carlos Zafón rende homenagem a todos os gêneros de literatura, fazendo referências explícitas ou implícitas que serão percebidas conforme a bagagem literária do leitor. É como um jogo, em que ele vai deixando pistas para o leitor desvendar ao mesmo tempo que lhe desperta a curiosidade para aqueles livros que ainda não leu.

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Meus 10 livros favoritos

Hoje vou falar dos meus dez livros da vida... Primeiramente devo dizer que foi uma tarefa muito difícil escolher apenas dez entre tantos livros incríveis que já li, então escolhi aqueles que me afetaram de forma mais pessoal e que ilustram bem meus gostos literários. Salvo as capas de O sol é para todos e El príncipe feliz y otros cuentos, as demais são ilustrativas, pois já não lembro quais edições li. Algumas leituras foram em papel; e outras, em leitor digital. Falarei um pouco de cada uma delas:

    1.    Don Quijote de la Mancha, de Miguel de Cervantes
Se eu tivesse de escolher somente um livro entre todos, escolheria Dom Quixote, porque é uma obra tão abrangente que abarca praticamente todas as questões literárias e filosófico-existenciais. Em termos literários, é considerado o pai do romance moderno porque implementou a fórmula do realismo, a crítica social, além disso criou o romance polifônico, que interpreta a realidade a partir de várias perspectivas sobrepostas, combina vários gêneros, como o dramático, o conto, a fábula, a lenda, etc.; e, em termos existenciais, aborda questões, como a liberdade, a justiça e o amor. Além disso, é uma obra que reverbera em toda a produção literária universal. Cervantes conseguiu dominar o imaginário, aliar erudito e popular, realidade e ficção e condensar os ideais de justiça e liberdade na figura de um louco incauto, e é por isso que o livro é tão comovente, porque o protagonista acredita piamente em sua capacidade de mudar o mundo, ainda que tudo não passe de ilusão. 
E, como se tudo isso fosse pouco, é diversão garantida!



2.    El príncipe feliz y otros cuentos, de Oscar Wilde (tradução de Flora Casas)
Este livro é muito especial para mim, pois ele me introduziu na literatura adulta. Ganhei-o quando eu tinha cerca de dez anos como presente de minha mãe. Acostumada aos contos infantis de Christian Andersen e dos irmãos Grimm, quando li Oscar Wilde, experimentei sensações totalmente diferentes. Os contos de Wilde não tinham finais felizes, eles eram melancólicos e tristes, mas extremamente belos. Foi assim que nasceu meu fascínio pelo universo literário.
Assim como os contos de Oscar Wilde, O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry, foi outro livro adulto disfarçado de literatura infantil, que marcou minha infância devido ao seu teor filosófico e poético. Desculpem meu deslize, admito que houve certa trapaça de minha parte ao enfiar mais um livro aqui... Mas convenhamos que ambos os príncipes são adoráveis...

     3.    O sol nasce para todos, de Harper Lee (tradução de Maria Aparecida Moraes Rego)
Peguei este livro emprestado na biblioteca pública de Foz do Iguaçu quando eu tinha uns 12 anos. Escolhi-o pela capa e pelo título, não fazia ideia de estar levando para casa um clássico da literatura mundial. Acho que o que mais me cativou nele foi o fato de a história ser narrada desde a perspectiva de uma criança. Este livro me fez refletir sobre algo que até então me era estranho, o racismo e a injustiça.


4.    Dom Casmurro, de Machado de Assis
Dom Casmurro é aquele livro que me conquistou pelo estilo irônico, crítico e pessimista do autor. Depois de ter lido algumas obras do ultrarromantismo brasileiro em que o amor é idealizado, como Senhora, de José de Alencar, ou A Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo, deleitei-me com a perspicácia de Machado, seu humor ácido, sua crítica social e as novidades estilísticas: o diálogo com o leitor, a descrição psicológica das personagens, a linguagem enxuta e a interpretação aberta que permite diversas interpretações, sem falar na imagem da mulher, livre do estereótipo da mocinha angelical e romântica.
5.    As Meninas, de Lygia Fagundes Telles
Este livro eu peguei emprestado na biblioteca de Itaituba, uma cidade do interior do Pará, onde vivemos durante dois anos. Peguei sem pretensão alguma, sem conhecer a autora, sem saber nada a respeito. Mal sabia eu que estava levando um cânone da literatura feminina brasileira para casa. E hoje me pergunto por que esta autora é relegada das faculdades de letras? Sem dúvida, uma grande injustiça. Merece destaque neste livro a forma como a narrativa é construída, a partir da perspectiva de três amigas, isto é, três focos narrativos que se alternam ao longo do livro e que nos ajudam a construir uma visão multifacetada da relação entre as personagens. Recurso semelhante, em minha opinião, ao utilizado por Mario Vargas Llosa em La ciudad y los perros, livro que também faz parte desta lista.  


6.    A Metamorfose, de Franz Kafka (tradução de Modesto Carone)
Este livro eu li na faculdade, durante o curso de letras. Apresentamos um trabalho sobre ele na disciplina de Literatura Ocidental. Fiquei obcecada pelo autor e acabei lendo outras obras suas, como O castelo, O Processo, O veredicto, Na colônia penal e Carta ao pai. Foi então que aprendi a analisar a obra de uma forma mais abrangente, a literatura como arte, os aspectos estéticos, culturais e sociais. A influência do momento histórico, a intertextualidade, a crítica literária, enfim, foi um divisor de águas entre a leitura meramente recreativa e a reflexiva. Não que a primeira seja inútil, mas a segunda nos permite ver além do senso comum.
Quanto à história em si, a transformação de um ser humano em inseto representa o absurdo e pressagia, ainda que inconscientemente, o horror que estava por vir, pouco tempo depois, nos campos de concentração, a desumanização do homem, o extermínio de seres humanos como se insetos fossem.


     7.    Los santos inocentes, de Miguel Delibes
Esta também foi uma leitura de faculdade, como parte do currículo de Literatura Hispânica. É uma obra contundente sobre a desigualdade social da Espanha rural da época franquista, pós-guerra civil. O autor denuncia de uma forma lírica a exploração e o abuso de poder dos proprietários das terras para com seus empregados, cujas vidas também lhes pertencem. O protagonista é um empregado com deficiência mental, extremamente simples e inocente, que nutre um sentimento de devoção pela ave de rapina da qual cuida, e que o acompanha nas caçadas de pombos com o patrão. O nome do livro se refere aos santos inocentes, os meninos assassinados a mando do rei Herodes, que pretendia matar Jesus entre eles. Assim são as personagens deste livro, inocentes sem livre arbítrio, até o momento em que se produz uma trágica reviravolta.

 8.    La ciudad y los perros, de Mario Vargas Llosa
Foi graças a este livro que me tornei fã do autor. Esta é mais uma dessas obras que conquista prêmios, ultrapassa fronteiras e se torna conhecida mundialmente e acaba sendo adaptada para o cinema. Quantos jovens já não fizeram parte ou desejaram fazer parte de um grupo para adquirir uma identidade, integrar-se e enfrentar juntos uma realidade adversa? Este livro conta a história de um grupo de alunos novatos de um colégio interno militar que se une para enfrentar as humilhações e castigos impostos pelos alunos veteranos. Assim como no livro As meninas, de Lygia Fagundes Telles, a narrativa é um ponto alto. Ela se dá através da alternância de monólogos interiores e de saltos abruptos entre o passado e o presente, o que torna a leitura mais desafiadora. Além disso, aborda questões que assolam não somente a sociedade peruana, mas grande parte dos países latino-americanos: a desigualdade social, o machismo e o preconceito racial para com os mestiços de índios e negros. Sem dúvida, é um ícone da literatura hispano-americana e mundial. Para saber mais, leia a resenha que publiquei aqui no blog http://www.tradutoradeespanhol.com.br/2015/11/bueno-como-hacetiempo-que-no-publico.html
      9.    As vinhas da ira, de John Steinbeck (tradução de Ernesto Vinhaes e Herbert Caro)
Esta é outra daquelas obras que deixam marcas... Também premiada, relata as dificuldades de uma família que, durante a grande depressão, se vê obrigada a abandonar a região do Oklahoma, castigada pela seca e que sofre com uma terrível tempestade de areia, para dirigir-se à Califórnia seduzidos pela promessa de trabalhos e bons salários. A obra relata a pobreza extrema das famílias de imigrantes, que além da miséria, sofrem discriminação por onde passam e que, para sobreviver, são obrigadas a submeter-se a todo tipo de humilhação e exploração. O final do livro é um dos mais comoventes que já li.


10. Los que vivimos, de Ayn Rand (tradução de Luis Kofman)
E para fechar com chave de ouro, esta lista que não se encerra aqui, pois ainda tenho muito que ler, um livro que infelizmente ainda não foi traduzido ao português, Los que vivimos, de Ayn Rand (em inglês, We the living). Li este livro no momento em que vivíamos a pré-eleição aqui no Brasil, em 2018. A história deste livro está ambientada na Rússia comunista, logo após a revolução proletária. Apesar de não ser uma obra autobiográfica, a autora sofreu na pele as amarguras do comunismo e conseguiu naturalizar-se americana após uma arriscada fuga da União Soviética. Minha família também sofreu na pele essas amarguras, meu pai fugiu da Alemanha Oriental; e minha mãe, de Cuba, junto com sua família. Assim, esta obra só veio confirmar minha convicção de que se trata de um regime nefasto, empenhado em eliminar todo individualismo em nome da coletividade, ou seja, sufocar todas as paixões e ilusões pessoais, em nome do Estado. Nas palavras da autora, “Viver para o Estado é um princípio mau e não pode levar a nada que não seja mau”. A protagonista é Kira, uma jovem determinada, ousada e apaixonada, capaz de trair seus princípios em nome do amor e da liberdade. Também dediquei uma postagem a este livro aqui no blog. http://www.tradutoradeespanhol.com.br/2018/01/acerca-del-libro-los-que-vivimos-de-ayn.html

Como a vida segue seu curso e eu continuo lendo, esta lista deve aumentar e, em algum dado momento, devo publicar uma nova lista com outros dez livros.

E você, caro leitor, gostou dessa lista? Gostaria de deixar alguma indicação ou de apresentar sua própria lista? Fique à vontade para deixar seus comentários, que os lerei com muito prazer.