terça-feira, 9 de maio de 2023

Desabafo!

 

De bafo, do Latim BAFFA, “hálito, ar que sai pela boca”, de uma onomatopeia BAF, com sentido de escárnio.

Des + abafar = S.M. Ação ou efeito de desabafar. Desafogo, alívio, expansão. Exteriorização de sentimentos penosos e reprimidos.

Hoje acordei com vontade de exteriorizar meus pensamentos sobre um episódio do qual participei, ontem, num grupo de tradutores iniciantes.

Resumindo a história: Uma moça lançou uma pergunta para os mais experientes “Como sair da CLT em pouco tempo dedicando-se à tradução?” Ela disse que gostaria de fazer disto uma renda, ainda que não fosse altíssima, apenas para poder trabalhar em home-office.

Como tradutora que conjuga há mais de 15 anos o trabalho CLT com o freelance — e há quase 10 anos em home-office —, senti-me na obrigação de orientá-la a não largar o emprego CLT, alegando que um contrato desse tipo oferece muitos benefícios, entre os quais um salário fixo, férias remuneradas, 13.º salário, vale-alimentação e, muitas vezes, plano de saúde. Aconselhei-a a manter o emprego CLT até conseguir se estabelecer na carreira de tradutora.

Além disso, eu disse que o trabalho em home-office ou como autônomo não é sinônimo de liberdade, falo por minha própria experiência. Antes o contrário, o trabalho como autônomo é sinônimo de pressão, uma vez que você assume a total responsabilidade por seu desempenho e rendimento financeiro. Muitas vezes não pode se dar o luxo de recusar um trabalho e precisa acordar cedo, trabalhar até tarde, nos fins de semana e feriados. Falo por mim, preciso cumprir horários, não posso sair à hora que quero. Preciso manter a disciplina e a produtividade. Já aconteceu de ter de interromper as férias com a família e ficar no hotel para fazer um teste de tradução, aliás, foi assim que consegui minha primeira oportunidade na tradução literária.

Até aí tudo bem. O que me deixou chateada ou surpresa, não sei dizer bem ao certo... foi que um outro membro do grupo se manifestou dizendo que, para quem está tentando começar na área, ver minhas mensagens foi muito desanimador, que parece que há mais frustrações do que realizações, que faz repensar se vale a pena começar nessa área ou tentar outra coisa, que parece um alerta para a pessoa não arriscar em algo que pode ser pior...

Em nenhum momento foi minha intenção desalentar alguém, tampouco fui rude ou irônica, só falei a verdade.

Após várias manifestações de outros membros do grupo apoiando o amigo ou concordando com as dificuldades da profissão, o moderador do grupo se manifestou e disse que é normal falar das dificuldades, pois é isso que gera dúvidas e aflige os profissionais, que dificilmente alguém iria ao grupo para dizer que a semana foi maravilhosa e que traduziu não sei quantos milhares de palavras e faturou não sei quantos milhares de dinheiros (não exatamente com essas palavras, é claro).

Nesse momento, sim, fui debochada e disse que se alguém fizesse esse tipo de comentário seria cancelado por “ostentação”.

Depois apareceram comentários dizendo que essa precariedade toda se deve à falta de regulamentação. Fiquei quieta, não disse mais nada.

Talvez esperassem que eu dissesse: “É isso aí, amiga! Larga tudo e se joga de cabeça! Vai na fé! Tamo junto!”.

Acho que o grupo foi bloqueado para mensagens, pois há uma nota que diz que não é possível fazer nenhum comentário.

Por isso venho aqui fazer meu desabafo:

Se trabalho não exigisse esforço e sacrifício, não se chamaria “trabalho”.

Como diz Ortega y Gasset:

“É imoral pretender que uma coisa desejada se realize magicamente, simplesmente porque a desejamos. Só é moral o desejo acompanhado da severa vontade de prover os meios da sua execução.”

Muitos culpam a precarização da profissão ao fato de não ser regulamentada, mas se esquecem de que regulamentação não serve apenas para garantir direitos ou reconhecimento. O principal papel da regulamentação é controlar e fiscalizar, estabelecer normas, exigir qualificação profissional, diplomas, certificações, afiliações e contribuições sindicais, registro e emissão de notas fiscais, normas ISO, códigos de ética, etc.

Na prática, é o mercado que dita as regras do jogo, e ele feroz e competitivo, para profissões regulamentadas ou não. E quanto à qualidade do trabalho, também, é o mercado que separa o joio do trigo, o eficiente do ineficiente. Há espaço para todos, no entanto, para conquistar tarifas mais altas, precisamos acrescentar valor ao nosso trabalho, investir em formação e ferramentas, e fazer, sim, sacrifícios.

”Romantizar” ou “idealizar” não torna as coisas mais fáceis, só aumenta a frustração ao depararmos com a realidade. Ser realista não significa ser pessimista.

Para finalizar, quero deixar bem claro que não trocaria minha profissão por outra, sinto-me satisfeita e realizada traduzindo. E, para mostrar que não sou uma pessoa pessimista, falarei também dos aspectos positivos de trabalhar como tradutor autônomo (freelance) em home-office. Você tem mais liberdade, controle, flexibilidade e autonomia sobre sua rotina de trabalho; não precisa perder horas no trânsito; tem mais privacidade para trabalhar com sua roupa favorita, ouvindo sua música favorita; pode encaixar algumas tarefas domésticas nas horas vagas; estar perto dos filhos e pets, entre outras.

sexta-feira, 5 de maio de 2023

Uma reflexão sintática

Bom dia, meus queridos leitores! Se é que sobrou algum depois de tanto tempo da última publicação... Bom, também não faz tanto tempo assim. A última publicação foi no dia 3 de fevereiro deste ano, três meses, até que não é tanto para quem não tem tempo nem de se coçar, hiperbolicamente falando.

Mas vamos ao que interessa. Hoje não vou começar com aquele lengalenga de que eu tive um insight (mas que eu tive, isso eu tive). Estava revisando a tradução que fiz de um artigo acadêmico, quando observei pela enésima vez um fenômeno sintático que chama muito minha atenção. Trata-se de uma mudança de colocação que ocorre no espanhol em relação ao português.

Vamos por partes:

— Todo mundo sabe o que é uma oração subordinada adjetiva restritiva? 


Refrescando a memória... uma oração subordinada adjetiva restritiva é aquela que traz uma informação específica sobre o substantivo ao qual se refere. Na prática, exerce o papel de adjunto adnominal porque acompanha, qualifica e especifica o substantivo ao qual se refere.

Exemplo: Os livros que falam de amor são pouco realistas.

Estou afirmando que todos os livros são pouco realistas? Não, estou especificando. Somente os livros que falam de amor. Por isso é restritiva, porque restringe essa qualificação a um elemento ou a um grupo.

Esse tipo de orações são introduzidas por pronomes relativos (que, quem, onde, qual, quanto, cujo, etc.). Neste caso, vamos falar das introduzidas pelo pronome relativo “que”. Mais especificamente daquelas que indicam uma ação praticada por um sujeito sobre o objeto ao qual se refere.

Calma, gente. Vamos ver na prática.

O bolo que o confeiteiro fez ficou muito bom.

O brinquedo que o pai comprou fez muito sucesso.

O documento que o funcionário assinou é sua contratação.

O gol que o Ronaldo marcou decidiu o jogo.

 

Assim não parece tão complicado, não é mesmo? A oração subordinada adjetiva restritiva está formada por um sujeito que pratica uma ação que recai sobre o objeto ao qual se refere. Até aí tudo bem?

Agora vamos ver essas mesmas frases em espanhol:

El pastel que hizo el pastelero ha quedado muy rico.

El juguete que compró el padre tuvo mucho éxito.

El documento que firmó el empleado es su contratación.

El gol que marcó Messi decidió el partido. (tradução domesticadora, trocou Ronaldo por Messi... hehehe)

Essa é a forma habitual de construir tais frases em espanhol. Perceberam a diferença? Na construção em espanhol o verbo antecede o sujeito que o pratica.

Vejamos uma construção na voz passiva:

O muro que foi construído pelo pedreiro caiu.

El muro que construyó el albañil se cayó.

 

Em espanhol, ao menos no espanhol europeu, é preferível o uso da voz ativa, soa mais natural.

Mas a questão não é essa, a questão é que, como não estamos habituados a ver o verbo antes do sujeito nesse tipo de construção, podemos errar na interpretação e traduzir de forma errada para o português.

Agora, sim, chegamos ao ponto:

“El oso que mató el cazador”

Se analisarmos essa construção de forma isolada, sem contexto, fica difícil identificar o assassino. Quem matou quem? Não é mesmo?

Foi o urso que matou o caçador ou o caçador que matou o urso?

Resposta: Foi o caçador que matou o urso.

Como sei disso?

Porque do contrário a construção correta seria:

El oso que mato al cazador

Lembram que no espanhol é obrigatório o uso da preposição “a” antes de objeto direto de pessoa? (“al” é a contração da preposição “a” com o artigo “el”).

Logo, se o caçador é o objeto, é ele quem sofre a ação. Neste caso, quem se deu bem foi o urso.

Em português não teríamos essa ambiguidade porque diríamos de outra forma, provavelmente usando a voz passiva. “O caçador que foi morto pelo urso”. Uma construção bem mais clara, diga-se de passagem.

Claro que geralmente o contexto desfaz a ambiguidade, se eu dissesse “El oso que mató el cazador es un animal en extinción”, o problema estaria resolvido. A questão é que num momento de distração, após muitas horas de trabalho, podemos cometer um deslize, por isso devemos ficar atentos a esse tipo de construção.

Vejamos outro exemplo:

El león que mató la gacela.

 

Embora nossa intuição nos diga que foi o leão que matou a gazela, porque ela é mais fraca, não temos como fazer essa afirmação com 100% de certeza.

E se a frase fosse:

El león que mató el tigre.

 

E agora? Os dois são fortões...

Nesse caso, em espanhol, usamos a preposição “a” diante do objeto direto (ainda que não seja de pessoa) para desfazer a ambiguidade:

El león que mató al tigre.

 

Novamente, no português não teríamos esse tipo de problema porque certamente usaríamos uma construção passiva do tipo “O tigre que foi morto pelo leão”.

Interessante, não é mesmo?