quarta-feira, 19 de julho de 2017

Meu perfil literário

Hoje eu gostaria de compartilhar com vocês meu perfil literário, se é que se podem chamar assim os gêneros e tipos de livros que fazem minha cabeça e meu <3. Acho que para desfrutar de uma boa leitura, como de tudo na vida, é preciso um equilíbrio entre razão e emoção. Se racionalizamos demais, perdemos a poesia; por outro lado, se nos deixamos levar somente pela emoção, corremos o risco de cair na pieguice, em impressões superficiais que não passam de “gostei” ou “não gostei”.

É claro que não há como evitar a empatia, que segundo o Houaiss é a “capacidade de projetar a personalidade de alguém num objeto, de forma que este pareça como que impregnado dela”, ou seja, é inevitável que procuremos identificar-nos na obra que lemos, que nos coloquemos no lugar do narrador e das personagens, isso é ótimo, mas acho que ganhamos mais quando conseguimos extrapolar essa intimidade e acompanhá-la de uma leitura crítica, procurando conexões com a realidade, com outras obras, analisar a parte estética, a forma como se desenvolve a narrativa, a perspectiva, o ritmo... enfim, há muito que apreciar num bom livro.

Sou uma leitora meticulosa, chata até, gosto de ler tudo: a capa, a contracapa, as orelhas, as informações sobre a edição e impressão, quem traduziu, quem editou, quem fez a capa, eu gosto de saber mais sobre os bastidores por trás da publicação de um livro. Gosto de ler o prefácio, as notas de rodapé, tim-tim por tim-tim... E quando o livro me envolve, vou além, procuro as resenhas críticas, as conexões com outras obras, a biografia do autor, informações do tradutor, eu gosto disso tudo!

Comecei a ler quando era ainda muito pequena e, sem dúvida alguma, minha mãe foi a grande responsável por essa paixão. Ela me alfabetizou. Comecei lendo os clássicos contos de fadas dos irmãos Grimm e Hans Christian Andersen, também adorava gibis: Tio Patinhas, Pato Donald, Turma da Mônica, Mortadelo y Filemón, Condorito, etc. Mas o livro que mais mexeu comigo foi um livro de Oscar Wilde, que minha mãe me deu de presente quando eu tinha uns nove anos, e que reunia contos como “O príncipe feliz”, “O gigante egoísta”, “O rouxinol e a rosa”, “O aniversário da infanta”, são alguns dos que me lembro. Quando eu lia esses contos eu sentia uma inquietação, porque eram histórias tão bonitas, mas profundamente tristes, bem diferentes daquelas histórias de contos de fadas em que todos viviam felizes para sempre. Reli esses contos dezenas de vezes, e gostava de lê-los para minha irmã menor, porque tinham um tom sombrio e tenebroso que eu adorava.

Bem mais tarde, já na faculdade, ao ler o prefácio de Cromwell, de Vitor Hugo, Do grotesco e do sublime, pude entender melhor esse fascínio da fusão entre o belo e o feio.

Para não estender-me demais, deixarei que minhas leituras falem por mim.

Tenho uma queda por...

... clássicos!

Adoro clássicos simplesmente porque são a cereja do bolo, nada é clássico por acaso, as coisas se tornam clássicas porque marcam época, revolucionam, quebram paradigmas, sobressaem...

Meus clássicos preferidos

Em primeiro lugar, sem dúvida, Dom Quixote. Acho que se há uma obra que abrange a literatura universal é essa, porque além de despertar a reflexão para os valores humanos essenciais como a liberdade e a justiça, é pai e mãe do romance moderno, ali estão reunidos muitos tópicos de teoria literária como a intertextualidade, o diálogo com o leitor, Cervantes se move com muita destreza pelo terreno da metaliteratura, ele faz literatura sobre a literatura, ele deixa a ficção escancarada ao leitor, o que é muito interessante. Além de ser um livro carregado de ironia, sarcasmo, reflexão, e muitas aventuras.

Outros clássicos que estão entre meus preferidos: A Metamorfose, de Kafka; Madame Bovary, de Flaubert; O Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson; As Flores do Mal, de Baudelaire; O Apanhador no Campo de Centeio, de J. D. Salinger; as obras de Machado de Assis e de Jorge Luis Borges.

Livros que me emocionaram

O Sol Nasce para Todos, de Harper Lee; O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint´Exupéry; O Retrato de Doryan Gray, de Oscar Wilde, e seus contos, como comentei acima; La Ciudad y los Perros, de Mario Vargas Llosa; As Meninas, de Lígia Fagundes Telles; Los Santos Inocentes e El camino, de Miguel Delibes; A Legião Estrangeira, de Clarice Lispector; Lavoura Arcaica, de Raduam Nassar.

Livros que me fisgaram

Travesuras de la niña mala, de Mario Vargas Llosa; La sombra del viento, de Carlos Ruiz Zafón; Os Mentirosos, de Emilie Lockhart; La chica del tren, de Paula Hawkings, de Quando finalmente voltará a ser como nunca foi, de Joachim Meyerhoff.

Livros que me intrigaram

Frankestein, de Mary Shelley; A ilha do Dr. Moureau, de H.G. Wells; La invención de Morel, de Adolfo Bioy Casares; Laranja Mecânica, de Anthony Burgess.

Contos que me fascinaram

Todos os de Edgar Allan Poe; os de Oscar Wilde; de Julio Cortázar; de Machado de Assis; de Moacir Sclyar; de Clarice Lispector; de Jorge Luis Borges; O homem de areia, de E.T.A. Hoffman; La muñeca reina, de Carlos Fuentes; El ahogado más hermoso del mundo, de Gabriel García Marques.

Leituras que me decepcionaram

Algumas obras, apesar de toda a fama e do prestígio que carregam, não corresponderam às minhas expectativas. Macunaíma, de Carlos Drummond de Andrade, li-o duas vezes; da primeira, até que gostei, porque foi no ensino médio e encarei de uma forma mais lúdica; da segunda, achei muito enfadonho e não gostei da imagem que faz do brasileiro como herói sem nenhum caráter; O Coração das Trevas, de Joseph Conrad, deixou-me frustrada pois não senti a mínima empatia pelo protagonista, talvez algum dia eu tente lê-lo novamente; Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Marques, achei muito maçante as eternas repetições de geração para geração, tem muitas passagens bonitas e poéticas, mas não fluiu, não foi uma leitura prazerosa; e finalmente Vá, coloque um vigia, de Harper Lee, que seria a continuação de O Sol Nasce para Todos e que como um balde de água fria transforma a esperança e o ideal de justiça do primeiro livro em cinismo e hipocrisia.

Quanto ao meu hábito de leitura

Ultimamente prefiro ler livros em formato digital a lê-los em papel, habituei-me ao Kindle, é leve, coloco uma fonte bem grande, porque como trabalho o dia inteiro no computador, tenho a vista cansada. O livro eletrônico também economiza espaço físico, fico pensando no espaço que ocupariam os mais de cem livros que tenho no dispositivo... O recurso que mais me agrada na leitura digital é a facilidade de colocar o dedo sobre uma palavra e poder ver seu significado no dicionário. Esse recurso é perfeito para mim, porque me incomoda profundamente seguir adiante sem saber o significado de alguma palavra, então nada mais prático que isso. O único “defeito” é que despertou um pouco meu lado consumista, tenho de me segurar para não sair comprando livros feito doida, porque é muito fácil, é só clicar no botãozinho “comprar com 1 click” e, em alguns segundos, já está lá no dispositivo. O resultado disso é um montão de livros e a indecisão sobre qual será a próxima leitura.

Leio praticamente o dia inteiro, mas não livros, textos na internet, um link leva a outro, que leva a outro, fico pesquisando assuntos da área de tradução, visitando os blogs de colegas da área, pesquisando terminologia, mas quanto aos livros mesmo, leio quando posso, geralmente à noite, após o trabalho, ou após o almoço, bem menos do que eu gostaria, é verdade, mas nem só de leitura vive o homem.

Minha leitura atual?

Por quem dobram os sinos, de Ernest Hemingway.

Qual será a próxima?

E agora? Essa pergunta é muito difícil, passo. Deu vontade de ler novamente aquele livro de contos de Oscar Wilde, ou talvez, Um copo de cólera, de Raduam Nassar; ou 1984, de George Orwel; ou La guerra del fin del mundo, de Mario Vargas Llosa; ou El hombre en el castillo, de Philip K. Dick; ou...  

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Minha primeira experiência com tradução literária - 2ª parte

Há praticamente um mês, publiquei a primeira parte da série “Minha primeira experiência com tradução literária” — experiência essa que eu pretendia descrever da forma mais profissional e objetiva possível; mas, como não poderia deixar de ser, o resultado foi o oposto, o mais subjetivo, descontrolado e sincero possível. Recapitulando: junho de 2016 > férias com a família > parque aquático > tobogã “Insano” > proposta para fazer um teste de tradução literária > realização do teste > ataque de nervos > aprovação no teste!

Quando soube que traduziria literatura infantojuvenil, confesso que pensei “ah, que bom, literatura infantojuvenil deve ser mais fácil que literatura adulta”. Ledo engano! Logo vi como havia sido ingênua. Já no teste, pude sentir o gostinho do que estava por vir. Logo nas primeiras páginas, surgiram as primeiras dúvidas, “e agora, como traduzo ‘mamá’?”. Por minha própria experiência como mãe de dois adolescentes meninos não costumo ouvir “ma-mãe”. No norte do país, sim, ouve-se muito “mamãe”, “vovó” e “titia” e na música do Titãs, mas fora isso, é uma forma regional ou infantil, por isso, optei por “mãe”. Somente para ilustrar, essa foi uma das dúvidas mais simplórias, logo vieram outras mais tensas que comentarei mais adiante.

Uma vez superada a adrenalina inicial do teste e a estupefação de ver um sonho tornar-se realidade, veio a parte prática: a parte em que arregaçamos as mangas e colocamos as mãos na massa.

O primeiro livro que traduzi do espanhol para o português para a Editora Edebê foi La nueva vida del señor Rutin (A nova vida do senhor Rutin). 

Minha primeira atitude foi procurar informação a respeito de David Nel.lo, o autor. Soube que é um escritor e músico catalão, de Barcelona, que já conquistou vários prêmios como autor de obras infantojuvenis. 

O livro em questão recebeu o Prêmio Edebé de Literatura Infantil. A seguir fui saber do senhor Rutin... o senhor Rutin é sueco, nasceu em Visby, na ilha de Gotland, é claro que eu fui procurar imagens e informação sobre Visby e constatei que é uma cidade com aspecto medieval, cercada de muralhas de pedra e repleta de chalés e canteiros de flores, um encanto de cidade! E então fiquei sabendo que o escritor passou uma temporada no Centro de Escritores e Tradutores de Visby e, a seguir, uma temporada no Centro Internacional de Escritores e Tradutores na ilha de Rodas, na Grécia. Assim, nas palavras dele, a Suécia foi a fonte de inspiração do livro e a Grécia o laboratório onde foi escrito.
Visby, na ilha de Gotland (Suécia)

Essa pesquisa serviu para ambientar-me no livro, mergulhar em sua atmosfera e estabelecer conexões. Realizada essa primeira pesquisa, senti-me mais preparada para encarar o desafio.

Acho que todo o mundo se pergunta se o tradutor lê o livro antes de traduzi-lo, no mundo ideal seria legal poder fazer isso; porém, no mundo real, precisamos cumprir prazos e não há tempo para fazer uma leitura prévia à tradução. Assim, fui lendo e traduzindo, e sentindo o prazer de acompanhar a história paralelamente à tradução, sem spoilers, o que é muito prazeroso, você se envolve com a história e vai dormir desejando saber o que vai acontecer no próximo capítulo.

Mas vamos aos aspectos linguísticos e tradutórios... uma coisa que tirava meu sono no início era a dicotomia entre coloquialismo e língua formal. Como profissionais da área de línguas e comunicação, acho que devemos zelar sempre pela norma, por outro lado, para que a comunicação seja eficiente, precisamos considerar o público alvo e o a função do texto com o qual estamos lidando. No texto literário prevalece a função poética, isto é, a ênfase recai no próprio texto, na forma como se dizem as coisas, o texto literário é um objeto estético. Vieram à tona algumas questões vistas na faculdade sobre estrangeirização e domesticação, fidelidade, correspondências, etc. Nesse sentido, ajudou-me bastante o livro de Paulo Henriques Britto, A Tradução Literária, com cuja ideologia me identifico, uma frase dele que representa bem seu pensamento é a seguinte:

“Quando leio um romance de Dostoievski em português, quero encontrar no texto uma série de marcas que a assinalem como uma obra russa —  as distâncias expressas em verstas, as quantias expressas em rublos e copeques, os personagens tratando-se por primeiro nome e patrônimo ou por diminutivos de segundo ou terceiro grau —  e como uma obra de Dostoievski —  com a pluralidade de vozes, a intensidade emocional, até mesmos os excessos de veemência que alguns críticos apontam na obra do autor. Mas quero, ao mesmo tempo, que o texto em português seja de algum modo uma apresentação, uma versão de Dostoievski, e não um comentário, uma paródia, uma glosa do romance original. Em suma: uma tradução que respeite o que há de estrangeiro, e de estranho, no original, proporcionando-me a ilusão de que estou lendo uma obra de Dostoievski, mas que seja também um romance em português, e não uma peça metalinguística — e portanto um não-romance — construída sobre o texto de Dostoievski.”

Outro tradutor em quem me inspiro e com cujos pensamentos me identifico é Carlos Nougué, ele foi meu professor, e não me esqueço de suas palavras quando dizia que o tradutor deve ter uma fidelidade canina para com o original. 

Mas voltando à questão entre a norma e a coloquialidade, compreendi que, em se tratando de literatura, não há uma luta entre o bem e o mal, os dois conceitos são complementares e essenciais. Para uma tradução bem-sucedida de diálogos e de texto narrativo, é fundamental o conceito da verossimilhança, ou seja, a sensação de que aquilo que estamos lendo é real e de que os personagens de fato estão “falando”. Para conseguir esse efeito, precisamos reproduzir a distância entre a língua escrita e a língua falada, com todos os desvios e vícios que esta última carrega, precisamos sair da nossa zona de conforto e usar a criatividade, num esforço constante para encontrar a medida certa, somos obrigados o tempo todo a tomar decisões e a fazer escolhas. A tal visibilidade do tradutor, em minha opinião, resume-se a isso: suas escolhas.

Deixando a paranoia teórica um pouco de lado, como complexidade pouca é bobagem, tinha de haver uma dificuldade extra para a empresa ficar mais desafiante, foi então que o senhor Rutin decidiu que sua rotina metódica e regrada estava tornando-se monótona e resolveu se autoimpor um desafio de ordem linguística que revolucionaria seu modo de falar. O que mais poderia ser? Nada de mais, só para zoar um pouco com a pobre da tradutora...

Ai, que saudades dessa história querida! Pois é, nem só de dificuldades vivem os tradutores, esse foi sem dúvida o trabalho mais gratificante que já realizei, se é que pode chamar-se trabalho. Além do prazer de traduzir, pude sentir o gostinho de voltar a esse lugar lindo e inspirador chamado infância.

Espero vocês na terceira parte da saga, até lá!

terça-feira, 4 de julho de 2017

Falso amigo: "enrolarse"


Enrolarse”, em espanhol, é um verbo composto pelo prefixo “en-” do latim “in”, do substantivo “rol” (lista) e do sufixo “-ar” dos verbos da primeira conjugação e literalmente significa entrar numa lista, ou seja, alistar-se a uma corporação, às tropas do exército ou a um partido político.

Vejamos alguns exemplos de uso:

“La crisis económica y el aumento del paro hacen aumentar el número de solicitudes para enrolarse en el ejército.”

“El Circo del Sol busca gimnastas, pero no todos pueden enrolarse en esta compañía circense.”

“El futbolista se mostró encantado de enrolarse en un club español.”

Por sua vez, em português, a forma pronominal “enrolar-se” no sentido literal se refere ao ato de envolver o corpo com alguma coisa, por exemplo, enrolar-se com um cobertor, ou ainda, ao ato de tomar a forma de um espiral “a lagarta enrolou-se” ou de fazer voltas em torno de algo “o gato enrolou-se em sua perna”. Também significa embaraçar-se, “enrolou-se nos fios do parapente” e ainda, no sentido figurado, a forma pronominal significa atrapalhar-se “o candidato enrolou-se ao responder às perguntas da plateia”.


Como transitivo direto, no sentido figurado, significa levar alguém ao engano, ludibriar “enrolou a noiva por dez anos”. Na gíria, a locução "estar enrolado" significa estar num relacionamento sem compromisso.