quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

O que é material de referência e qual a sua importância?


No texto anterior falamos do controle de qualidade de textos traduzidos ou vertidos, e hoje vamos falar de um requisito fundamental para garantir a qualidade da tradução: o material de referência.

Mas em que consiste esse material?

Basicamente o material de referência consiste em um glossário, uma memória de tradução, um guia de estilo e informação contextual.

Este tipo de material, embora nem sempre seja disponibilizado pelo cliente, é fundamental para garantir a qualidade, uma vez que contribui para uma tradução consistente e para a construção da identidade e da comunicação organizacional. A linguagem reflete a filosofia, os valores e a personalidade da empresa, razão pela qual não deve ser negligenciada.

O material de referência inclui basicamente:

Um glossário validado pelo cliente. É importante que esse glossário tenha sido validado pelo cliente, uma vez que as empresas têm suas preferências terminológicas, que nem sempre coincidem com os termos usados no mercado. É fundamental respeitar as preferências do cliente, o que não significa que o tradutor não possa contribuir com sugestões quando considerar pertinente, desde que tenha um bom embasamento para tal.

Um exemplo de uma boa justificativa:

“Observei que o Comitê Espanhol Representante de Pessoas com Deficiência (CERMI), em seu manual de estilo, recomenda usar o termo “personas con discapacidad” em lugar de “personas con diversidad funcional”, uma vez que, segundo eles, a imensa maioria das pessoas com deficiência e do seu movimento social rejeitam tal expressão por não se sentirem identificadas com um léxico sem legitimidade nem amplo respaldo social. Além disso, argumentam que não descreve a realidade e que é confuso”.

Uma memória de tradução. Isto é, um recurso das Cat Tools que serve para armazenar segmentos ou partes textuais de traduções anteriores, é como um histórico que serve para manter a consistência terminológica e agilizar o trabalho. Se você não usa Cat Tool, poderá usar as traduções anteriores do mesmo cliente como referência.

Um guia de estilo. Consite em um documento elaborado pela agência de tradução e validado pelo cliente, que contém uma série de parâmetros destinados a unificar a modalidade de escrita. Este manual estipula as convenções tipográficas quanto ao uso de maiúsculas, aspas, itálico, negrito, define a grafia de nomes de produtos, topônimos, endereços, moedas, o tratamento reservado aos usuários, o estilo de linguagem, etc. O uso deste documento não é opcional, mas sim obrigatório. É extremamente útil, principalmente em projetos de grande porte, que envolvem o trabalho de vários tradutores.

Material contextual. Refere-se a toda informação adicional à meramente linguística, como, por exemplo, página web da empresa, boletins informativos, catálogos de produtos, publicações, blog, relatórios anuais, políticas corporativas, etc.

Garanta a qualidade da tradução com um ótimo material de referência!

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

Controle de qualidade de textos traduzidos ou vertidos

Embora a tradução seja uma atividade subjetiva, isso não implica que ela não possa ser avaliada de maneira objetiva. 

Quando falamos de qualidade de uma tradução, referimo-nos à aplicação de um conjunto de parâmetros que permita entregar um texto livre de erros. Em se tratando de tradução, levam-se em conta critérios como precisão (correspondência biunívoca entre o vocábulos e o conceito que se deseja expressar), correção gramatical (observância das normas gramaticais da língua para a qual se traduz), estilo (em matéria de tradução, refere-se geralmente à observância da padronização prescrita por um guia de estilo), terminologia (uso de terminologia especializada na área de conhecimento, uso de fontes consagradas, consistência e uniformidade), entre outros.

Para garantir a qualidade de uma tradução, as agências de tradução contam com procedimentos de controle de qualidade, em que o texto traduzido passa por uma revisão que avalia aspectos como a correção gramatical, a adequação vocabular, a coesão e a coerência, a padronização de estilo e terminológica, formatação, na verdade o controle de qualidade deve começar já no recebimento do texto original.

Para dar uma ideia mais precisa dos parâmetros adotados ao avaliar a qualidade de uma tradução, compilei aqui os critérios adotados por órgãos públicos como o Conselho da Justiça Federal, o Tribunal de Contas da União, entre outros, para o credenciamento de tradutores ou ainda para a contratação de serviços de tradução/versão por empresas públicas mediante pregão ou licitação.  

Cada  texto  traduzido  recebe  o  conceito  “satisfatório”  ou  “não satisfatório”. 

É considerado "não satisfatório" quando inclui, em qualquer de suas laudas: 

  1. Quatro ou mais erros básicos; ou 
  2. Dois erros básicos e mais de cinco erros complementares; ou 
  3. Nenhum básico e oito ou mais erros complementares. 


É  considerado  "satisfatório"  quando  o  número  de  erros  é  inferior  aos  limites acima. 

São considerados erros básicos

  • Erro de conjugação verbal; 
  • Erro de regência verbal
  • Erro de concordância verbal; 
  • Erro no uso de pronomes; 
  • Uso de falsos cognatos (falsos amigos); 
  • Uso de palavra e/ou expressão e/ou estrutura gramatical inexistente  na  norma culta  de  acordo  com  a  literatura  especializada  (isto é,  dicionários,  gramáticas  e obras de uso de língua  reconhecidas pelas  instituições  pertinentes,  como:  Real  Academia  Espanhola,  Academia  Brasileira de Letras, Oxford English Dictionary); 
  • Erro de ortografia; 
  • Falta  de  clareza  na  frase  ou ambiguidade  (se  o sentido estiver  claro  no  texto original, mas ambíguo na tradução ou versão, isso constituirá  um erro); 
  • Tradução excessivamente literal  (palavra por palavra) ou aquela que  não respeite a estrutura gramatical; 
  • Tradução ou versão comprovadamente retirada de alguma ferramenta  de tradução da internet (exemplo:  fragmento de texto com tradução  do  Google Translator); 
  • Uso  de  palavra  e/ou  frase  de  sentido  diferente  da  usada  no  texto  original; 
  • Erro de sintaxe (a ordem das palavras e outros elementos de uma frase  devem respeitar  as  regras  gramaticais  da  língua  para  a  qual  se  está  traduzindo); 
  • Falta  de  tradução  ou  versão  de  parte  substancial  do  texto  original,  títulos, frases; 
  • Escolha incorreta de conjunções. 


São considerados erros complementares

  • Erro de pontuação; 
  • Erro de combinação de palavras (erro de “colocações”); 
  • Erro no uso de preposições ou omissão de preposição; 
  • Erro no uso de artigos ou omissão de artigo; 
  • Escolha de classe morfológica incorreta entre um grupo de palavras de  mesma raiz  (a  raiz  da  palavra está correta, mas  a  classe morfológica  escolhida  está errada, isto é, “safe” no lugar de “safety” ou “economy”  no lugar de “economic”); 
  • Erro no uso de maiúsculas e/ou minúsculas; 
  • Adição de  texto  e/ou  palavras  não  claramente  incluídos  no  original  nos  casos em que isso não seja necessário para transmissão da ideia  original; 
  • Uso de termo inadequado no contexto, de acordo com as convenções da língua alvo. 

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

5 canais sobre tradução no YouTube

Hoje vou apresentar cinco canais sobre tradução que eu sigo no YouTube e que vale a pena conferir! 

Estes canais têm em comum o fato de terem sido criados por tradutores, e não por agências de tradução ou editoras, o que lhes dá um toque mais pessoal.

Se você tiver outras sugestões, deixe seu comentário.


Com 132 vídeos, este é um canal pessoal da tradutora Laila Rezende Compan, utilizado para complementar as dicas do blog Tradutor Iniciante para ajudar os tradutores que estão começando a carreira, e também para ajudar quem pretende ser um tradutor profissional, além de dicas para mulheres e alguns vídeos extras sobre diversos temas.




Com 44 vídeos, este é o canal da experiente tradutora Natalie Gerhardt, com dicas sobre tradução literária, mercado editorial, resenhas, etc.




Com 107 vídeos, este é o canal do tradutor Juliano Timbó Martins, onde ele compartilha dicas sobre o interessantíssimo mercado da tradução. Descubra mais sobre esta profissão e este mercado em constante crescimento.




Com 15 vídeos, este é o canal da experiente tradutora Ivone Benedetti, que atuou como tradutora durante 30 anos para grandes editoras brasileiras. Nele, Ivone dá valiosas dicas sobre a profissão. Ela também é autora do site www.editra.com.br,  dedicado a cursos e recursos para tradutores e aprendizes de tradutores.




Com 13 vídeos, este é o canal onde a tradutora Marisa Nagayama oferece coaching para tradutores.


segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Por que ler romances históricos?

Primeiramente é importante estabelecer a diferença entre romance histórico e romance de época. O primeiro consiste em uma ficção que tem como pano de fundo algum acontecimento histórico real, como, por exemplo, as guerras napoleônicas no romance Guerra e Paz, de Liev Tolstói, nesse tipo de romance há um compromisso com os fatos históricos. O segundo, por sua vez, não tem compromisso algum com a realidade, seu foco são os costumes da sociedade de uma época, como, por exemplo a sociedade carioca do século XIX em Dom Casmurro, de Machado de Assis.

Para quem tem vontade de conhecer mais a fundo alguns acontecimentos que marcaram época, os romances históricos são um prato cheio. Particularmente gosto muito desse tipo de romance porque é como uma viagem no tempo que nos permite conhecer fatos históricos, sociais e culturais. Diferentemente dos sisudos livros didáticos, os romances históricos estão carregados de uma boa dose de emoção e fantasia e por isso são mais fáceis de assimilar.

El sueño del celta

Do escritor peruano Mario Vargas Llosa, é um romance publicado em 2010, que narra a vida do legendário irlandês Roger Casement, o primeiro dos europeus a denunciar os horrores do colonialismo no Congo Belga e, posteriormente, na Amazônia peruana. Duas viagens memoráveis que mudariam Casement para sempre e que resultariam nos relatórios que abririam os olhos da sociedade europeia para as atrocidades cometidas contra os nativos congoleses e os índios peruanos. Ambos foram explorados como mão escrava para a extração do látex, no auge do comércio da borracha. Ao denunciar os horrores do colonialismo, Casement se torna simpatizante e ativista da causa irlandesa contra o domínio inglês, o que lhe rende a acusação de traição, afinal ele trabalhava como diplomata para a coroa inglesa.

A saga começa no Congo em 1903 e termina em uma prisão de Londres, numa manhã de 1916. Ao ser preso, acusado de traição contra a Inglaterra, sua vida pessoal é esculhambada com a publicação de uns diários íntimos, que revelam supostas aventuras homossexuais de veracidade duvidosa, o que lhe valeu o desprezo de muitos compatriotas, visto que naquela época a homossexualidade era considerada um crime. Difamado pela opinião pública, corre o risco de ser executado na forca.




El hereje

Do escritor espanhol Miguel Delibes, é um romance publicado em 1998, ambientado na Espanha da primeira metade do século XVI, e que narra a vida de um comerciante de peles, Cipriano Salcedo, cujo nascimento, além de causar a morte da mãe, coincide com a data em que Martinho Lutero fixou suas 95 teses na porta da igreja de Wittenber, 31 de outubro de 1517. Essa coincidência de datas marcaria tragicamente seu destino.

O autor traça um vivo retrato da cidade de Valladolid da época do rei Carlos I (imperador Carlos V do Sacro Império Romano Germânico), de uma Espanha que atravessa um período de convulsões políticas e religiosas. Em termos políticos, aborda a revolta dos comuneros, episódio em que as comunidades de Castilha se sublevaram contra o rei, porque não aceitavam que Castilha fosse governada por um estrangeiro, uma vez que Carlos nascera em Flandres, na Bélgica. Os comuneros queriam que Juana — mãe de Carlos e filha dos reis católicos Isabel e Fernando —, conhecida como Juana la loca, assumisse o trono. Ela se encontrava presa no castelo de Tordesillas desde que fora declarada louca. Mas, quando o levantamento comunero a libertou e exigiu que ela encabeçasse a revolta, Juana se negou a ir contra o filho Carlos. Este derrotou os revoltosos e voltou a enclausurar a mãe no castelo.

Por outro lado, em termos religiosos, havia um conflito entre a igreja católica e as correntes protestantes e reformistas defendidas por Lutero e Erasmo de Roterdã, que começavam a se introduzir na península de forma clandestina. Esta obra também fala do Concílio de Trento, mediante o qual Carlos I tenta conciliar as diferenças entre católicos e protestantes, a fim de se engajar na guerra contra os turcos. A Dieta Worms, também mencionada no livro, foi uma tentativa malograda de resolver a disputa. Martinho Lutero acusou Roma de exercer tirania e acabou excomungado pelo papa Leão X.

Mas voltemos ao nosso protagonista Cipriano Salcedo. Acusado de parricida pelo pai, Cipriano vivia atormentado pela culpa e não conseguia apaziguar suas inquietudes espirituais na religião católica, até que acaba encontrando conforto numa fraternidade secreta de protestantes, na qual se torna ativista e propagador e, como consequência, acaba perseguido pela implacável Inquisição. Além da questão da turbulência política e religiosa, merece destaque também o caráter empreendedor de Cipriano que, de comerciante de peles, acaba se tornando um empresário no mundo da “moda”, ao transformar um rudimentar casaco de pele e lã usado pelos camponeses em uma peça cobiçada pela alta sociedade.

Largo pétalo de mar

O mais recente romance da escritora chilena Isabel Allende é uma viagem através da história do século XX. Narra a proeza dos imigrantes espanhóis republicanos que, em 1939, após a derrota na Guerra Civil e a vitória do general Franco, travam uma arriscada fuga de Barcelona rumo à França e, depois de sofrer uma série de privações nos campos de refugiados, vislumbram uma oportunidade de iniciar uma nova vida no Chile. Isso graças ao poeta chileno Pablo Neruda que, comovido com a situação dos exilados, se mobiliza para obter do governo chileno o compromisso de acolher a mais de 2 mil refugiados espanhóis. Assim, a bordo do navio Winnipeg, fretado pelo poeta, atravessam o oceano Atlântico rumo ao Chile, “esse largo pétalo de mar y nieve”, nas palavras de Neruda.

Este foi meu primeiro contato com a literatura de Isabel Allende e, sem dúvida, pretendo ler mais obras dela em breve, pois foi uma leitura muito envolvente. Tal como no filme “A casa dos espíritos”, baseado no seu romance homônimo, a autora revela grande destreza na arte de contar histórias. Com muita habilidade nos apresenta a vida de duas famílias ao longo de várias gerações, a maneira como os acontecimentos políticos afetam as vidas de milhares de pessoas, e as reações individuais diante das adversidades. 

Neste caso, aborda precisamente o período que vai de 1938 a 1994, que abrange a Guerra Civil espanhola, a Segunda Guerra Mundial e, por fim, o golpe militar no Chile, em 11 de setembro de 1973. Quando, sob as ordens de Augusto Pinochet, os militares chilenos derrubaram o governo Salvador Allende. O presidente foi morto em circunstâncias não esclarecidas e Pinochet instaurou uma ditadura militar truculenta que se estendeu até 1990.

Embora a obra seja um reflexo de suas próprias experiências familiares, uma vez que Isabel é sobrinha do presidente chileno deposto pelo golpe, Salvador Allende, e tendo sido ela mesma uma exilada na Venezuela, como autora consegue manter certo distanciamento, abstendo-se de emitir juízos categóricos. Ao menos foi essa minha impressão. 

Para finalizar, quando busco uma boa razão para ler os romances históricos, vem-me à mente o argumento de Ítalo Calvino em Por que ler os clássicos?, isto é, por que não lê-los? Além disso, para exercer o ofício com alguma propriedade, o tradutor deve contar com um conhecimento mínimo da história, cultura, costumes e tradições tanto do país da língua de partida como do país da língua de chegada, assim como uma ampla cultura geral sobre conflitos, geografía, arte, religiões, história, entretenimento, ciências naturais, esportes, etc. 

Tal como disse Miguel de Cervantes "Quem lê muito e anda muito, vê muito e sabe muito".


terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Como receber as novidades pelo Outlook

Se você segue o blog para receber as novidades por e-mail e usa Outlook, talvez você não esteja recebendo os feeds RSS.

Vou mostrar o passo a passo para adicionar manualmente o RSS feed do blog Tradutora de Espanhol ao Outlook.
  1. Copie este endereço http://feeds.feedburner.com/TradutoraDeEspanhol
  2. No Outlook, painel de navegação email, clique com o botão direito do mouse em RSS feeds (Outlook 2013) ou em assinaturas RSS (Outlook 2016) e, em seguida, clique em Adicionar um novo RSS feed, como mostra a figura abaixo.
  3. Cole o endereço que você copiou anteriormente na caixa exibida e clique em Adicionar e em Sim.








A palavra de hoje é...

bichanar





"Esta manhã, no refeitório, meu vizinho da esquerda bichanou-me ao ouvido com voz amedrontada. Anda, come! Estão todos a olhar para ti!" (Yevgeny Zamiatin, Nós)

verbo intransitivo
1 dizer em voz baixa; falar soprando de leve as palavras
Ex.: jamais a ouvi gritar, só bichanava 
 transitivo direto e bitransitivo
2 contar segredo ou mexerico em voz baixa

Ex.: adora b. (aos colegas) as reuniões privadas do comitê 

Fonte: Dicionário eletrônico Houaiss

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

A importância das colocações na tradução


O que seria uma colocação? Uma colocação é uma combinação de palavras cristalizada pelo uso, isto é, internalizada no subconsciente dos falantes pela frequência de uso. Trata-se de uma convenção, um uso endossado pela comunidade linguística. São exemplos de colocações com substantivo + adjetivo, desejo ardente, amor cego, ódio mortal. Embora haja colocações com vários tipos de classes gramaticais (substantivo + adjetivo; verbo + substantivo; verbo + advérbio; adjetivo + advérbio, etc.), vamos focar nas colocações com verbo + substantivo, tais como ministrar um curso, agendar uma consulta, cometer um erro, causar uma impressão, conciliar o sono, formular uma pergunta, etc.

Qual é a importância de conhecer as colocações para a tradução? Como dissemos, as colocações são combinações de palavras consagradas pelo uso, portanto, conferem naturalidade e fluidez ao texto/discurso. É um conhecimento refinado, que não passa despercebido pelo leitor/ouvinte e que denota domínio linguístico.

Suponhamos que, ao ler um texto, deparemos com algo do tipo “ele fez um erro ao aceitar o cargo” ou “ela fez uma opinião sobre o fim da parceria”. Provavelmente nos causaria estranhamento, já que algo não encaixa, não soa bem. Isso porque o verbo fazer não é o mais adequado nessas construções, o verbo fazer é um verbo genérico, abrangente, utilizado como um curinga, devemos fugir de verbos clichê, de sentido vago. Vejamos os exemplos anteriores, desta vez com os verbos adequados: “ele cometeu um erro ao aceitar o cargo” e “ela emitiu uma opinião sobre o fim da parceria”. Eis outros verbos curinga que devemos evitar: dar, dizer, ter e pôr.

Em lugar de um verbo genérico como dar, por exemplo, devemos optar por sinônimos mais precisos, tais como atribuir, conferir, outorgar, oferecer, legar, etc., que expressem de forma mais específica a ideia que desejamos transmitir.

Uma das qualidades do bom texto é a precisão, portanto aí reside a importância de conhecer as colocações, para produzir traduções de boa qualidade; precisas, fluidas e convincentes.

Vejamos abaixo algumas colocações frequentes em espanhol e suas respectivas traduções:

Sentar las bases = Estabelecer as bases

Librar una guerra = Travar uma guerra

Celebrar una reunión = Realizar uma reunião

Impartir un taller = Ministrar uma oficina

Concertar una cita = Agendar ou marcar uma hora/consulta

Propinar una paliza = Dar uma surra

Entablar um diálogo = Iniciar um diálogo

Plantear una idea = Levantar/apresentar/propor uma ideia 

Asestar una puñalada = Desferir uma punhalada

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Impressões tradutórias e literárias

Bom dia, queridos leitores! Espero que tenham desfrutado das festas de fim de ano ao lado — ou ainda, em pensamento — de pessoas queridas e que comecem o ano com o pé direito e com muita esperança.

De minha parte, para começar bem o novo ano, nada como um post sobre literatura e tradução... minhas fraquezas, uma vez que não posso resistir a elas. Quem acompanha minhas publicações conhece minha fascinação pelo mundo dos livros. No entanto, como tradutora e amante das letras, quando leio um livro não posso abster-me de prestar atenção ao trabalho com o texto. E quando se trata de uma tradução, concentro-me na naturalidade, na fluidez, nos idiomatismos, nas referências culturais, etc. Para mim, a leitura, antes de mera distração, é também um exercício e um instrumento de reflexão.

Em se tratando de tradução literária, sou partidária das teorias que defendem que o bom tradutor é aquele que aparece o mínimo possível, que modestamente se apaga em nome do original, isto é, que tenta reproduzir para o leitor, da maneira mais fiel possível, a experiência que este teria se pudesse ler o original. Não é esta, por si só, uma tarefa suficientemente louvável? Discordo da ideia de que a diferença entre o original e a tradução seja mero preconceito. Existe, sim, uma relação de subordinação da tradução para com o original, por tanto, traduzir é uma tarefa servil, subserviente. Não vejo problema nenhum nisso, pelo contrário, aí reside sua grandeza.

Discordo das teorias que defendem uma intervenção direta do tradutor, introduzindo nos textos alguma passagem destoante, como um anacronismo, uma gíria atual em um romance de outra época, por exemplo, de forma deliberada, para que o leitor perceba que está lendo uma tradução. Em minha opinião, essa é uma forma espúria de fazer-se visível.

Recentemente, ao ler o livro Misto-quente, de Charles Bukowski, tradução de Pedro Gonzaga, observei duas formas positivas e lícitas, a meu ver, de o tradutor fazer-se visível: por meio da apresetanção do livro e das notas do tradutor.

É claro que para isso é necessário o aval da editora. Merece reconhecimento a atitude da LP&M que abriu para o tradutor um espaço geralmente reservado ao próprio autor, a outro escritor ou a um crítico literário: a apresentação. Parece-me uma decisão inteligente, já que o tradutor tem uma visão ampla, mas ao mesmo tempo singular da obra, resultado do contato íntimo e intenso com esta. De fato, a apresentação do livro em questão ficou muito boa: reveladora na medida certa sem estragar a surpresa ou, como se diz por aí, sem spoiler. Essa sim é uma forma legítima de o tradutor aparecer.

Outra participação louvável foi a inclusão de notas do tradutor (n.t.). Embora alguns as vejam como um sinal da incapacidade de lidar com os problemas de tradução no próprio texto, ou ainda, como um recurso invasivo ou condescendente com o leitor, acredito que, em algumas situações, não só são admissíveis como também necessárias. No livro em questão, o tradutor incluiu diversas notas sobre o futebol americano, personagens e fatos históricos ou culturais, todas muito pertinentes. Neste caso, considero um recurso válido, uma vez que enriquece a leitura e sacia a curiosidade do leitor.

Já no campo literário, em uma época em que impera a hipocrisia do politicamente correto, é libertador ler um desabafo honesto, despido de escrúpulos, de alguém que se sente desajustado e que expressa sua insatisfação com uma crueza que, embora possa incomodar em alguns momentos, também é capaz de despertar empatia e compaixão. Misto-quente é um romance de formação que questiona a influência do meio sobre o indivíduo. Relata a infância, a puberdade e o início da vida adulta de Henry Chinaski, um garoto alemão que aos três anos de idade se muda com a família para os bairros pobres de Los Angeles.

Por meio da ligação de lembranças e impressões, o narrador-protagonista reconstrói seu trágico desenvolvimento relatando os momentos que mais o marcaram: a sensação de ter sido adotado, a indiferença da mãe e o sadismo do pai, que o surrava pela mínima razão; as dificuldades financeiras e familiares por ocasião da grande depressão; o tormento e o sofrimento físico devido a um caso extremo de espinhas; a dificuldade de relacionar-se com ou outros e o bullying. Tudo isso vai matando a esperança do garoto, que mergulha cada vez mais no pessimismo e na degradação, buscando refúgio na bebida e extravasando sua frustração contra poucos que ainda o procuram.

A linguagem soez reflete as misérias das lembranças. O estilo direto e impudico do autor, livre de subertfúgios, rendeu-lhe o estigma de escritor de segunda linha, malgrado seu talento criativo. Alguns dizem que há muito de Bukowski em suas histórias e personagens. Pedro Gonzaga, o tradutor, em sua apresentação, contesta essa afirmação dizendo que "O forte caráter autobiográfico que pode, com certeza, ser encontrado ao longo de toda obra é somente o meio e nunca o fim.".

Nietzsche disse uma vez "Quem tem um porque pode suportar qualquer como". Mas e quem não o tem? Para este, a existência se torna insuportável, restando somente a desolação. A atitude de Chinaski desperta sentimentos antagônicos, se por um lado seu sofrimento invoca piedade; por outro lado, sua impassividade e indiferença causam repulsa.