domingo, 28 de fevereiro de 2016

Uso do advérbio 'quizá/quizás" em espanhol


Os advérbios de dúvida “quizá” e “quizás” expressam dúvida, conjetura, hipótese, probabilidade, etc. e podem ir seguidos pelo subjuntivo que reforça essas modalidades. A procedência é latina, “qui sapit” (quem sabe), que também aparece no italiano “chissà” e em português, “quiçá”.

Segundo a Real Academia Espanhola, as duas formas são corretas, embora a academia prefira “quizá” e afirme que a forma “quizás” se usa por razões fonéticas.

Enquanto em português o uso desse advérbio é praticamente restrito ao âmbito literário; em espanhol, é um advérbio de uso corrente.

Quizá” é um advérbio de dúvida e denota a crença na possibilidade de que algo ocorra ou de que seja verdade. Pode levar o verbo para o indicativo ou subjuntivo conforme a ideia que o falante deseje transmitir. O subjuntivo pode aparecer nestas construções se o advérbio precede o verbo e não está separado dele por uma pausa. Por outro lado, se o verbo preceder o advérbio, só será possível o indicativo. Assim, Quizá “oyó/oyera” la conversación, ou “Oyó/oyeraquizá la conversación.

Quando ambos os modos são possíveis, a escolha dependerá em grande medida da maneira como se interprete a estrutura informativa da oração. “Quizá/quizás” é sinônimo de acaso, posiblemente e tal vez:

Quizá llueva mañana.
Este aceite es quizá mejor que el otro.
Quizá sea verdad lo que dice./ Es quizá verdad lo que dice.
Quizá trataron de engañarme
Quizá ni te lo imagines, pero... ¿Sabes que no sé cuándo viene?
Quizá lo llevarían a aquel cabarete cuyo striptease tanto había impresionado, dos años atrás, al flaco Pereyra.
Era eso quizá lo que siempre había buscado en su vida.
Rivera tuvo la sensación de que había logrado un avance, quizá/tal vez algo parecido a un ascenso en la Sociedad Anónima.
¿Quizá vienen los reyes hoy?
Quizá vamos con vosotros.
Juan está en casa pero, quizá, viene más tarde.



A seguir, para trabalhar em sala de aula, a letra da música “Quizás”, composta por Lester Méndez e Enrique Iglesias. É uma homenagem aos pais. Nessa letra é possível observar o uso alternado de indicativo (Quizás tú buscas un desierto y yo busco un mar) e subjuntivo (Quizás la vida nos separe cada día más) com esse advérbio.

Quizás (Enrique Iglesias)

Hola viejo dime cómo estás
Los años pasan no hemos vuelto a hablar
Y no quiero que te pienses que me he olvidado de ti

Yo por mi parte no me puedo quejar
Trabajando como siempre igual
Aunque confieso que en mi vida hay mucha soledad
En el fondo tú y yo somos casi igual
Y me vuelvo loco solo con pensar

Quizás la vida nos separe cada día más
Quizás la vida nos aleje de la realidad
Quizás tú buscas un desierto y yo busco un mar
Quizás que gracias a la vida hoy te quiero más

Hola viejo dime cómo estas
Hay tantas cosas que te quiero explicar
Porque uno nunca sabe si mañana está aquí
A veces hemos ido marcha atrás
Y la razón siempre querías llevar
Pero estoy cansado no quiero discutir
En el fondo tú y yo somos casi igual
Y me vuelvo loco solo con pensar

Quizás la vida nos separe cada día más
Quizás la vida nos aleje de la realidad
Quizás tú buscas un desierto y yo busco un mar
Quizás que gracias a la vida hoy te quiero mas

Quizás la vida nos separe cada día más
Quizás la vida nos aleje de la realidad
Quizás tú buscas un desierto y yo busco un mar
Quizás que gracias a la vida hoy te quiero más

Hola viejo dime como estas
Los años pasan no hemos vuelto a hablar
Y no quiero que te pienses que me he olvidado de ti.

Outras músicas em español com o advérbio “quizá/quizás”:
Tal vez, quizá”, escrita pelo compositor mexicano Armando Manzanero e interpretada pela cantora mexicana Paulina Rubio.
Quizás, quizás, quizás”, bolero popular escrito em 1947 pelo compositor cubano Osvaldo Farrés, essa música teve vários intérpretes, entre eles Julio Iglesias, a versão em inglês se chama “Perhaps, perhaps, perhaps” e tem entre seus intérpretes a Nat King Cole.

www.fundeu.es
www.dle.rae.es
www.etimologias.dechile.net
www.mecd.gob.es
www.letras.com

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Falso amigo: meado


Ao traduzir um documento ao espanhol ou vice-versa, devemos tomar um cuidado especial com os falsos amigos, essas palavras aparentemente inofensivas que causam muita confusão. Como o espanhol e o português são línguas muito próximas, há muitas palavras que se escrevem ou que se pronunciam exatamente igual, ou de forma muito semelhante, mas que na prática possuem significados completamente diferentes, o que resulta numa verdadeira armadilha.

Por esse motivo, devemos estar sempre atentos, especialmente àquelas palavras que além de ter um significado diferente, são malsoantes, como por exemplo, meado(s).

Em português, "meado(s)" significa que está no meio ou aproximadamente pela metade, frequentemente se usa no plural como substantivo. Usamos essa expressão para referir-nos a uma data aproximada, não exata. Em espanhol, para transmitir essa mesma ideia, usamos a locução adverbial "a mediados". 

Exemplos:

Seu mais célebre romance foi publicado no meado do século passado. = Su más celebre novela se publicó a mediados del siglo pasado.

O casamento se celebrará em meados de julho. = La boda se celebrará a mediados de julio.

Do mesmo modo que em português, usamos essa expressão somente para tempo e não para espaço. Ou seja, não dizemos "em meados do caminho" ou "a mediados del camino", mas sim "no meio/na metade do caminho" ou "a mitad/en mitad del camino".

Em espanhol, as palavras "meado(s)" e "meada(s)" significam mijo, mijado, mijada, são as formas vulgares para a palavra urina. Vejamos o que diz o dicionário da RAE:


meado

De mear.
1. m. malson. Porción de orina que se expele de una vez. U. m. en pl.


meada

De mear.
1. f. malson. Porción de orina que se expele de una vez.
2. f. malson. Sitio que moja o señal que hace una meada. Aquí hay una meada degato.

Outro falso amigo malsoante com o qual devemos tomar muito cuidado é a palavra "ano", que em português significa intervalo de doze meses, e em espanhol, "ânus".

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Adivinhações para usar em sala de aula




As adivinhações são um divertido recurso didático para as aulas de espanhol, além de despertar a curiosidade, contribuem para a aprendizagem de vocabulário. Você pode incentivar os alunos a usar a imaginação para criarem suas próprias adivinhações ilustradas em forma de verso e fazer uma exposição e um concurso, por exemplo.







Oro no es, plata no es, abre la cortina y verás que es. (el plátano)












Tengo escamas pero no soy pez, tengo corona pero no soy reina ¿quién soy? (la piña)









Blanco por dentro, verde por fuera, si quieres saber, espera. (la pera)








No son flores pero tienen planta y olores. (los pies)





Un chiquito muy chiquito pone fin a todo escrito. (el punto)










Llevo pijama a diario, sin guardarlo en el armario. (la cebra)







Orejas largas, rabo cortito, escapo y salto muy ligerito. (el conejo)








Sin mi no existe señor y vivo en medio del año. Entre niños siempre estoy y también en la punta de un castaño. (la letra ñ)








¿Cual es el juguete más egoista de todos? (el yoyo)










Todos lo pueden abrir y nadie lo puede cerrar. (el huevo)



Se você gostou desta entrada, talvez possa gostar da postagem sobre o nome de brincadeiras infantis em espanhol. Para acessá-la, clique AQUI.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Gíria estudantil na Espanha

Os estudantes espanhóis, assim como os brasileiros, têm um vocabulário próprio repleto de criatividade. Vejamos algumas expressões consagradas entre eles:

calabazas = obter nota zero. “En Inglés, calabazas”, significa “Zero em Inglês”.

cagarla = cometer um engano, pisar na bola. “La he cagado en el examen… Lo he hecho fatal, voy a suspender”.

catear =  não alcançar a nota média, ficar com nota vermelha. Esta palavra deriva de “cate”, que em caló (a língua dos ciganos) significa “pau, porrete”, isto é, semelhante a nossa expressão em português “levar pau” no sentido de reprovar. Usa-se ainda como substantivo ou como verbo na gíria estudantil: “Dos cates me han dado este trimestre”; “Mi compa es un fenómeno: no catea nunca”.

chuleta = o que chamamos de “cola” no Brasil. Isto é, a arte de escrever o conteúdo inteiro de um bimestre ou semestre no mínimo espaço possível. 

Segundo o antropólogo José Dueso, há três possíveis origens dessa acepção. A primeira se encontra no livro Un invierno en Mallorca de George Sand. No texto aparece o termo xuete, usado pelos maiorquinos para referir-se depreciativamente aos judeus, que pode se originar do francês chuette, termo que tinha o mesmo fim. Parece ser que em tempos de expulsão dos semitas, estes tentavam dissimular sua origem comendo “chuletas” suínas diante de todo o mundo; a outra possível origem está relacionada a uma espécie de cunha usada pelos carpinteiros, que a chamavam de chuleta, para dissimular fissuras na madeira. Finalmente, pode derivar da palavra chulo, que designava o indivíduo do subúrbio de Madri que se preocupava em aparentar que sabia mais que os outros sobre qualquer coisa. As três opções estão associadas à dissimulação para obter benefícios particulares, sociais ou profissionais.

estar chupado = refere-se a algo muito fácil: “¡Qué fácil! ¡Esto está chupado!”.

estar pez = Estar pez en Geografía” significa “não saber nada, não ter nem ideia de Geografia”.

hacer la pelota, ser un pelota = puxar o saco. Assim, “el pelota” é aquele aluno que pretende se dar bem adulando o professor.

hacer pellas, hacer novillos = matar aula, gazear aula para ficar à toa.

ir de culo = utiliza-se para dizer que “vai mal” em alguma matéria. “Voy de culo en química”, ou “llevo el examen de culo”.

írsele a alguien la olla = perder-se, distrair-se, esquecer-se. “Se me ha ido la olla”.
dar un palo = Quando um professor “se ha cargado a media clase”, isto é, reprovou a maioria da sala, diz-se que ele “ha dado un palo”: “¡La de mates en este examen ha dado un palo…!”.

la seño = a professora, encurtamento da palavra “señorita”.

las mates = encurtamento para referir-se à disciplina de matemática.

no pillar = significa “não entender”, assim, “no lo pillo” significa “não entendo”; ou “¿lo pillas?”,  “você está entendendo?”.

rosco = é a mesma coisa que um cate (ou seja: reprovado), mas pior, porque, por sua forma, concreta mais evidente: é um zero (0).

ser empollón, empollar = no Brasil, diz-se “ser um CDF” (ser um cabeça de ferro, apesar de que já ouvi muitos dizerem cú de ferro). Expressão depreciativa para referir-se ao estudante excessivamente dedicado, como uma “gallina cuando empolla sus huevos”. Não significa necessariamente tirar boas notas ou ser um “pitagorín” (expressão derivada de Pitágoras).

ser una maría = uma “maría” é uma disciplina de pouca importância, ou melhor, aquela que não reprova.

ser un hueso, hueso = diz-se dos professores exigentes, que não se deixam “enrolar”. “¡Menudo hueso que nos ha tocado este año en Física! ¡Qué mala pata!

sacarse algo con la gorra = diz-se de algo que é fácil. Quando alguém diz “me saqué esa asignatura con la gorra”, significa que aprovou sem muito esforço.

soplar a alguien, dar un soplo = em uma prova, sussurrar a resposta a um colega.

tocho, ser un tocho = sinônimo de muito, também de livro muito grosso. “Me tengo que estudiar un tocho de apuntes”, ou “menudo tocho de libro”.

tener un cacao (mental) = estar confuso, com muitas dúvidas, não entender algo. “Tengo un cacao con las fórmulas de matemáticas”.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

A literatura é para todos

Recentemente perdemos dois grandes nomes da literatura: Harper Lee e Umberto Eco, ambos já octogenários, deixaram um legado que os torna imortais, pois a literatura, como disse Artur Schlegel, é a imortalidade da fala. Assim, suas palavras atravessarão diferentes gerações e culturas e o mundo jamais os esquecerá.

Apesar do pouco contato que tive com as obras desses autores, duas delas marcaram diferentes etapas de minha vida.

Quando eu tinha uns doze anos, li O Sol é Para Todos (1960), obra de estreia da escritora americana Harper Lee. Peguei o livro emprestado na Biblioteca Pública porque o título me atraiu. Acho que foi um de meus primeiros livros “adultos” e lembro bem como me afetou, pois naquela época eu não tinha ideia de violência sexual nem de racismo, então foi um choque de realidade para mim, mas de uma forma delicada, já que a história é narrada através dos olhos de uma criança, que conta a história de seu pai, o advogado Atticus Finch, defensor de um inocente homem negro acusado de estupro.



Essa obra foi suficiente para colocar a escritora entre os grandes nomes da história literária dos Estados Unidos e rendeu-lhe o Prêmio Pulitzer, em 1961. O romance vendeu mais de 30 milhões de cópias e a escritora se retirou da vida pública e ficou até 2015 sem lançar um novo romance. No ano passado, foi lançado Vá, coloque um vigia, que continua a história do livro de estreia, mas com uma inesperada reviravolta na conduta do idolatrado advogado, que aparece como um sujeito racista e preconceituoso. Fato que provocou revolta nos leitores, que após a mensagem esperançosa da primeira obra, levaram um choque de realidade, ao perceber que não existem heróis e que ninguém é perfeito ou bom o tempo todo.

Só fiquei sabendo dessa polêmica após a morte da autora e é claro que esse fato despertou minha curiosidade. Essa senhorinha era mesmo uma caixinha de surpresas! Pretendo ler esse livro em breve.

Quanto a Umberto Eco, tive contato com seus textos, muitos anos mais tarde, na primeira década deste século, entre 2008 e 2011, aos trinta e poucos anos, durante minha tardia, acidentada e extremamente almejada formação superior. Cursei Letras Língua e Literatura Espanholas, na UFSC, e nas aulas de Teoria da Tradução tive contato com alguns textos seus. Não conheci a face do autor de romances como O Nome da Rosa, mas sim sua face de semiólogo e pensador através de Quase a Mesma Coisa, obra de referência para os estudos tradutológicos.

Esse livro é baseado numa série de palestras ministradas por Eco em 1998, na Universidade de Toronto.  Num tom de confidencialidade, Eco reflete sobre as transformações que um texto sofre ao ser traduzido a outra língua, mas sem ver essas mudanças como uma perda, pois ele acredita que estas são necessárias, admite até mesmo que alguns de seus textos tenham melhorado ao ser traduzidos, afirmação que suscitou muito debate entre escritores.

Através de sua experiência pessoal como tradutor e da análise de traduções de obras de sua autoria, Eco discute questões pragmáticas relacionadas à tradução e à reescritura. Sua visão é otimista, porque ele aceita os limites da tradução e admite que esta nunca será mais do que quase a mesma coisa, e o problema não seria tanto a ideia do “quase”, mas da elasticidade que deve ter esse “quase”, estabelecer a flexibilidade, a extensão desse quase, os limites dessa transformação.  Dizer quase a mesma coisa, para Eco, é a noção de tradução como negociação: traduzir implica cortar ou acrescentar alguma coisa a partir de um original, e a negociação é a tentativa de compensar esses cortes, ainda que não totalmente.




Enfim, dois grandes autores que vale a pena conhecer!

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

150 Ebooks grátis para Tradutores e Intérpretes


Para a nossa sorte, vivemos na era da informação. Basta dar alguns cliques para acessar blogs, revistas, jornais, fóruns, dicionários, comunidades, tutoriais, e-books, aplicativos, cursos, etc. E o que é melhor: há muita coisa grátis!

O blog Infotra da Universidade de Salamanca oferece uma lista de 150 Ebooks grátis para Tradutores e Intérpretes. A maioria dos arquivos estão em inglês, mas há alguns em espanhol também. A maior parte dos livros são trabalhos acadêmicos ou publicações institucionais. Para dar um exemplo:

Lira Dias, M. M. (2010). [e-Book]  Los conectores discursivos desde la retórica contrastiva: uso y contraste español-portugués. Salamanca, Universidad de Salamanca. - Trata-se de uma tese de doutorado que faz uma análises contrastiva do uso dos conectores discursivos opositivos, causais-consecutivos e aditivos em espanhol e português. 

Além dessa lista de blog, o blog oferece muitas postagens interessantes desde 2011.

Para acessar a lista de ebooks, clique aqui.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Como agregar valor a seu serviço de tradução


Com o mercado cada vez mais competitivo, não basta conseguir clientes novos, é preciso fidelizá-los, isto é, ganhar sua confiança e preferência para que voltem a nos procurar e para que possam recomendar-nos a outras pessoas.

Mas o que significa agregar valor neste caso? 

É dar um salto de qualidade que supere as expectativas do cliente de forma a impressioná-lo positivamente.

Vejamos alguns passos simples que fazem toda a diferença:

Converse com o cliente, mostre que você está preparado para realizar o trabalho

Parece óbvio, mas algumas pessoas se limitam a falar de prazo e preço. Suponhamos que o cliente o tenha procurado para traduzir sua dissertação de mestrado. Coloque-se no lugar dele, lembre que ele dedicou meses a esse trabalho e que agora está confiando a tradução a um estranho. Em primeiro lugar, pergunte sobre o tema de estudo, peça para ver o resumo ou uma parte do texto e avalie sua competência para realizar o trabalho. 

Seja sincero se não se sentir seguro para realizar o trabalho. Diga que você tem a competência linguística necessária, mas que não domina a área de conhecimento. A honestidade é fundamental para ganhar a confiança do cliente. Às vezes é melhor recusar um trabalho e ganhar uma amizade.

Faça perguntas relevantes 
      
a) Se você vai traduzir para o espanhol, por exemplo, é indispensável saber qual será o público-alvo. Pergunte se deverá usar o espanhol peninsular, da Espanha, ou o espanhol hispano-americano ou um espanhol “neutro”? Se possível, dê algum exemplo: “Veja, na Espanha, mestrado traduz-se como ‘máster ou maestría’, mas na Argentina, Colômbia e Venezuela, preferem ‘magíster’”.

b) Acerte todos os detalhes sobre preço, prazo e forma de pagamento, para que não haja divergências posteriores. Deixe bem claro em que consiste seu trabalho, embora pareça óbvio, convém advertir, por exemplo, que não inclui a formatação de títulos, referências bibliográficas, citações, etc. A não ser, é claro, que você esteja disposto a fazer esse serviço, cobrando à parte. 

Após o início do trabalho, surgirão dúvidas mais específicas, não tente resolver tudo sozinho, deixe que o cliente participe das decisões. Mas faça perguntas relevantes e procure reunir suas dúvidas e observações num documento, não fique incomodando o cliente cada vez que surgir uma dúvida, afinal ele o contratou para resolver seus problemas e não para trazer-lhe mais problemas.

Exemplos de dúvidas e observações pertinentes:
  • “Observei que esta definição é própria da legislação brasileira, o que acha de adicionarmos uma explicação?”
  • “Acho que esta expressão é muito coloquial para uma dissertação acadêmica, o que acha de substituirmos por esta outra”
  • “Traduzi o nome das instituições, mas mantive o original entre parêntesis”, etc.
  • “Para a tradução da expressão X usei Y conforme a Classificação Internacional de Doenças, ICD-10 (Z30)”. É importante citar fontes confiáveis e adicionar o link ou a referência.
  • “Encontrei três publicações acadêmicas que utilizaram o termo X. Seguem abaixo os links”.

O que fazer ao encontrar problemas no original

    Caso você encontre problemas no original, tais como erros ortográficos, redundâncias, incoerências, erros de concordância ou regência, etc., use o bom senso: se for muita coisa, sugira uma revisão ao cliente e estabeleça o custo desse serviço à parte; mas, se for pouca coisa, faça isso como uma cortesia. Sim, isto é trabalhoso, mas é um grande diferencial que ajudará você a ganhar a confiança do cliente. Não pense nisso como prejuízo, mas como investimento. Cliente satisfeito é a melhor propaganda.
    

Após a entrega do trabalho

Promova a retroalimentação, isto é, preocupe-se em saber se o cliente ficou satisfeito ou se tem alguma reclamação. Por sua vez, agradeça a confiança e diga que espera poder atendê-lo em breve novamente. 

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Dúvidas linguísticas relacionadas à grafia de zika, chikungunya, dengue e Aedes aegypti

Uma boa parte dos leitores do blog já deve ter recebido algum pedido para escrever, traduzir ou revisar um texto relacionado à doença zika e aos modos de prevenção. Eu mesma já recebi alguns pedidos de tradução ao espanhol e então surgiram várias dúvidas, é um vocábulo feminino ou masculino? Escreve-se com maiúscula ou minúscula?...

Então hoje veremos algumas questões linguísticas relacionadas a esse tema.

Para início de conversa, há uma polêmica sobre a pronúncia do nome do mosquito “Aedes aegypti”. Vocês devem ter percebido que alguns jornalistas pronunciam “édis” e outros “aédis”. Muitos acreditam, por influência das aulas de latim, que “ae” se pronuncia /e/, tal como ocorre em rosa, rosae /rose/. E alegam que por isso dizemos /egypti/ e não /aegypti/. Mas o caso de Aedes é muito particular. Na verdade, não se trata da velha palavra latina aedes, que significa casa, templo.

O vocábulo, na verdade, é formado com elementos gregos: o prefixo de negação ”a” e o adjetivo ”edús”, que significa agradável, doce. Assim “aedes” significa desagradável, odioso. A pronúncia que separa “a-edes” destaca os elementos formadores, tanto que é comum colocar-se um trema na letra e: Aëdes. Por sua vez, “aegypti”, significa “do Egito” e escreve-se com inicial minúscula porque, na nomenclatura científica, o primeiro elemento deve ser escrito com inicial maiúscula, e o segundo, com minúscula: Aedes aegypti.

Outra polêmica é quanto ao vírus da zika. Em primeiro lugar, não devemos dizer “Zika vírus” isso só faz sentido em inglês; em português, dizemos “vírus da dengue”, “vírus do ebola”, “vírus da zika”, “vírus zika” ou simplesmente o zika.

É também por influência do inglês que se têm escrito o nome da doença em letra maiúscula. Em português, as doenças se escrevem com inicial minúscula: a gripe, a dengue, o câncer, a malária… Assim, a doença é a zika, e o vírus é o zika. (Muita calma nessa hora, logo falaremos da polêmica do uso do “c” em lugar do “k”).

Quanto ao chikungunya, o nome tem origem africana e significa “aqueles que se dobram”. Esse nome foi dado em decorrência de um dos sintomas da doença, a dor nas articulações, que faz com que o paciente fique curvado em virtude da dor. Vale a mesma regra, escreve-se com minúscula, masculino quando se refere ao vírus e feminino quando se refere à doença.

Ai, agora a polêmica sobre as formas aportuguesadas... Alguns dicionários portugueses como o Priberam e o Dicionário da Língua Portuguesa da PortoEditora, estão adotando a forma aportuguesada "zica", mas somente o último adotou a forma "chicungunha". Ainda há muita vacilação quanto as formas aportuguesadas, o jornal brasilero o Correio Brasiliense — usou, na mesma notícia, a forma aportuguesada “zica”, mas manteve “chikungunya”. 

Nesse sentido, limito-me a usar as formas utilizadas pelo Ministério da Saúde e pela OMS, já que é questão de saúde pública; além disso, esses nomes têm origem africana (Zica é uma floresta da Uganda e chikungunya procede do idioma maconde, falado no sudeste da Tanzânia e no norte de Moçambique), ou seja, estamos usando a forma original. Nem sempre a opção aportuguesada tem preferência, experimente procurar a palavra “uísque” na carta de um restaurante, por exemplo.

Convém lembrar também que, em português, na gíria, utiliza-se a palavra "zica" relacionada a um problema, a uma situação ruim, de azar ou de confusão 

Bom, agora que já falamos dos usos em português, vejamos algumas particularidades  do espanhol:
A Fundação do Espanhol Urgente — FUNDEU — recomenda escrever zika com inicial minúscula para referir-se à doença, mas com maiúscula para aludir ao vírus, à febre que produz e ao nome completo da doença: virus/fiebre/enfermedad del Zika.

Além disso, desaconselha escrever virus Zika, sem a preposição, por influência do inglês.
A Ortografia acadêmica estabelece que nas denominações de doenças que incluam nome próprio se mantenha a maiúscula (enfermedad de Parkinson, mal de Alzheimer…); mas acrescente que quando o nome próprio passa por si só a designar a doença, torna-se um nome comum, que deve se escrever com minúscula inicial e submeter-se às regras ortográficas do espanhol: Su padre tenía párkinson; Trabaja en una fundación para la investigación del alzhéimer.

Por outro lado, recomenda manter a grafia original com k, já que a Ortografía acadêmica também aponta a existência de numerosos empréstimos de diversas origens (bikini, kiwi, ukelele, kamikaze…).
Assim, a FUNDÉU afirma que é preferível escrever “la fiebre del Zika”, “casos de zika” ou “el zika” para referir-se à doença. Por outro lado, afirma que é preferível a forma castelhanizada “chikunguña”, mas mantendo o k.

Vejamos a tradução de alguns termos relacionados (português = espanhol):

A zica (doença) = el zica
A chikungunya (doença) = el chikungunya/chikunguña (mas la fiebre chikungunya/chikunguña)
A dengue (doença) = el dengue
Vírus da zica = virus del Zika (virus, sem acento, porque as paroxítonas terminadas em ‘n’ e ‘s’ não se acentuam em espanhol)
Mosquiteiro = mosquitera
Picada = picadura
Roupa comprida = ropa larga
Vestuário = ropa
Pulverizar com inseticida = rociar/impregnar con insecticida
Grávidas = embarazadas
Criadouros = criaderos
Manchas vermelhas = manchas rojas
Coceira = picazón, prurito
Mal-estar = malestar
Microcefalia = microcefalia (é uma palavra heterotônica, isto é, tem pronúncia diferente, em português a sílaba tônica é "li", Microcefalia; em espanhol, a sílaba tônica é "fa", Microcefalia)
Pronto-socorro = hospital de urgencias

Fontes:
http://dicionarioegramatica.com.br/tag/zica-virus/