Miguel de Unamuno
Tradução de
Diana Margarita Sorgato
Tradução de espanhol. Diana Margarita. Blog sobre tradução, tradução de espanhol, gramática, literatura, cultura e entretenimento.
Miguel de Unamuno
Tradução de
Diana Margarita Sorgato
Há poucos dias terminei de ler La rebelión de las masas (A rebelião das massas), do filósofo espanhol José Ortega y Gasset (1883-1955). Mesmo tendo sido escrita por volta de 1930, é uma obra muito atual, que descreve um fenômeno visível e predominante nos dias atuais: o homem-massa. Aproveito enquanto as impressões ainda estão frescas em minha mente para escrever esta resenha.
Primeiramente, o autor deixa bem claro que essa definição
não se refere a uma camada social, não se trata de uma classe específica, mas
sim de uma forma de ser, de agir, de encarar a vida. Uma postura diante da
realidade.
Para o autor, o homem-massa é resultado da combinação de
vários fatores: o salto populacional na Europa, que em doze séculos (do século
VI ao ano 1800) não conseguia superar os 180 milhões e que, em menos de um século, de
1800 a 1914, pula de 180 milhões a 460 milhões, isto é, mais do que duplica.
Esse extraordinário crescimento populacional dá lugar às aglomerações, as
cidades se enchem de pessoas. O que, aliado à democracia liberal, à
industrialização e à ciência resulta no surgimento do homem-massa.
Mas o que seria esse homem-massa? Como dissemos
anteriormente, não se trata de uma categoria social, mas sim de um modo de ser.
O homem-massa corresponde ao homem médio, que se contenta em seguir a corrente,
que despreza a tradição, não tem senso histórico, não tem grandes aspirações
além de ser como os outros. Comporta-se como uma criança mimada e ingrata que
só sabe exigir e choramingar, e que espera que o Estado resolva todos seu
problemas. Está sempre esperneando, berrando por direitos, mas não tem senso de
dever, de responsabilidade. Tende à violência, acredita que o progresso atual
caiu do céu, não o reconhece como fruto do sacrifício e trabalho das gerações
anteriores.
Sua responsabilidade se limita a exigir, preocupa-se em
resolver os problemas estruturais da sociedade, em perseguir utopias em lugar
de concentrar-se em resolver problemas pontuais. Age de forma superficial e
preguiçosa, não busca um conhecimento profundo de causas e consequências,
contenta-se com um conhecimento parcial e superficial daquilo que possa usar a
seu favor, ainda que de forma distorcida, o que deriva na desonestidade
intelectual, no relativismo moral e ético, em que o julgamento moral varia
conforme seus interesses. Age como um bárbaro porque recusa normas, hábitos e a
razão.
Como oposto ao homem-massa, o autor menciona o homem nobre.
Novamente não no sentido de classe social, de posses ou títulos, mas sim de
postura, de forma de ser. O homem nobre é o oposto do homem-massa porque ele
tem senso histórico, respeita a tradição, as conquistas de seus antepassados.
Ele tem senso de dever, de responsabilidade. Não espera que o Estado resolva
seus problemas, não entrega seu destino nas mãos do Estado. Ele é dono do seu
destino e busca o aperfeiçoamento mediante o esforço e o compromisso. Não
pretende resolver os problemas estruturais, mas sim os pontuais, não quer mudar
o mundo, mas melhorá-lo. Valorizam os valores e a moral civilizatórios, a
disciplina, a ordem e a lei.
Partindo dessa comparação entre homem-massa e homem nobre, o
autor analisa outras questões mais profundas, como o declínio da Europa. Por declínio,
se refere ao fato de a Europa ter perdido seu poder de mando. O autor enfatiza
que toda sociedade é hierárquica, há sempre uma minoria dominante e uma massa média
e, se assim não for, não há organização, não há sociedade. Esclareça-se que
essa minoria não é dominante ao acaso, mas sim devido a sua excelência e autenticidade,
ao seu senso de dever para com os outros. A sociedade sem mando é como uma
turma de alunos que, quando se fica sem professor, fica sem rumo e se entrega à
confusão e à balbúrdia. Voltando à Europa, Ortega y Gasset defende sua união e
sua diversidade, mas reconhece a falta de uma estrutura estatal comum para
isso. A falta de mando resulta no enfraquecimento da Europa, o que dá lugar a
nacionalismos e governos totalitários como o fascismo e o comunismo, que
repetem os erros do passado.
O homem-massa carece de projetos, aspirações, premissas, não
reconhece a autoridade da minoria dominante, pelo contrário, deseja mandar e tomar-lhe
o lugar em benefício próprio. Enquanto o homem humilde reconhece suas limitações,
mas aspira ao aperfeiçoamento, o homem-massa exalta sua vulgaridade, seu
direito a ignorar, vangloria-se de ser como todos, não cumpre sua vocação,
não é autêntico, o que supõe uma desmoralização.
Certamente deixei escapar muitos aspectos importantes da
obra, mas o que mais me marcou foi seu caráter atual, como o homem-massa
continua predominando em nossa sociedade, mesmo tendo passado quase um século da publicação desta obra. Acredito que este fenômeno é perceptível em todos os campos de
conhecimento. Na língua, por exemplo, observamos a desvalorização da norma, a
ojeriza ao estudo formal, ao mesmo tempo que se exalta a vulgaridade, quando pululam
nas vitrines das livrarias os livros de autoajuda com palavrões no título: é 'F*da' para todo lado.
Márcia Cavalcanti Ribas Vieira é graduada em Ciências Sociais, com mestrado em Letras pela PUC-RJ, com uma tese sobre o livro Lavoura Arcaica de Raduan Nassar. Morou durante algum tempo na Argentina e no Chile e traduziu cerca de 20 livros entre 1983 e 2008, entre os quais o fenômeno de vendas A Sombra do Vento — do escritor espanhol Carlos Ruiz Zafón, que conquistou fama internacional com esse livro — pela Editora Objetiva em 2004. Além disso, Márcia traduziu e fez versões de alguns filmes para a TV e publicou o livro de poesias Anos 70, pela Editora 7 Letras em 2002. Afastou-se da área de tradução em 2008.
Olá, Márcia, seja muito bem-vinda! Em primeiro lugar
gostaria de agradecer sua disposição em participar desta entrevista e dizer que
admiro muito seu trabalho. Como fã de A Sombra do Vento (livro que já li
três vezes), gostaria muito de saber mais sobre sua experiência como tradutora
dessa obra do espanhol europeu para o português do Brasil.
A tradução literária é por si mesma uma tarefa muito instigadora,
mas cada livro é um desafio à parte. Quais foram as principais dificuldades que
você encarou quando traduziu A Sombra do Vento?
As maiores dificuldades foram, sem dúvida, as expressões
idiomáticas, as expressões de um modo geral. Orientada pelo espanhol
“argentino”, algumas expressões eram totalmente desconhecidas para mim,
oriundas de épocas e locais precisos, em Espanha, na Barcelona, naquela época. Outras,
conhecidas, sim, no espanhol “argentino” mas não por mim.
Cada autor tem um estilo próprio que precisa ser
respeitado para que o leitor tenha a experiência mais próxima daquela que teria
se pudesse ler o original. No que diz respeito a Carlos Ruiz Zafón, que
dificuldades impõe seu estilo?
São as expressões, basicamente. O texto de um modo geral e
muito poético, muito sentimental, com muitas descrições que relatam sonhos e
impressões. É preciso seguir o que o autor quer dizer. E básico entender que o
texto é poético. No entanto, nos diálogos, quando há expressões que não
conhecemos, estas se tornam a maior dificuldade. Podemos trocar as palavras,
mas é essencial passar o que o autor quis dizer, o sentido daquilo que está
dizendo.
E a tradução dos diálogos? Quais foram suas diretrizes
para conseguir um bom resultado?
Ser o mais fiel possível ao que os personagens querem dizer.
A obra em questão está impregnada de marcas culturais,
referências a Barcelona, a pratos típicos, a personagens históricos, à Guerra
Civil espanhola. Como lidar com toda essa informação?
É indispensável fazer uma pesquisa inicial, buscar
dicionários especializados, dicionários de espanhol, outro de
espanhol/português, outro português/português, dicionários que explicam, outro
que dão sinônimos, antônimos, dicionários de gírias e expressões espanhol/espanhol, dicionário
espanhol/francês , de gírias em francês, e assim por diante. Quanto à época histórica, não vi tanta necessidade
de ir muito além do que estava no texto, e um pouco já conhecia; a culinária, foi
preciso pesquisar, e até passei lista de palavras a uma pessoa conhecida. E preciso
“desvendar” o livro, esclarecer o máximo possível tudo, para depois começar a
transportá-lo ao seu idioma. E bom
esclarecer que falo espanhol desde muito pequena, por questões familiares. E português, fui leitora assídua da literatura
nacional e estrangeira.
Nem sempre podemos nos servir das mesmas palavras que o autor
usa no outro idioma. Para isso, a leitura de um modo geral é importantíssima, ler os grandes autores, como se
servem da linguagem. E ainda temos a questão da sintaxe, da gramática em
português, que, se bem que o revisor vai ajudar, é uma área em que, quanto mais
domínio tivermos, mais fácil será a tradução.
A intraduzibilidade é uma pedra no sapato do tradutor, no entanto não temos como fugir dela. Qual é a sua atitude diante de um termo ou expressão intraduzível?
Colocando nota de rodapé,
explicando ao máximo.
Para terminar, uma curiosidade: Qual é o seu personagem
favorito de A Sombra do Vento e por quê?
Acho que é o Fermín Romero de Torres, mas todos são
interessantíssimos!
Agora sim, a "saideira": O que representa A
Sombra do Vento em sua vida?