segunda-feira, 5 de outubro de 2020

Tradução do conto "El misterio inicial de mi vida", de Miguel de Unamuno


O mistério inicial de minha vida

Miguel de Unamuno

Tradução de Diana Margarita Sorgato

Nunca conseguirei esquecer, nem se o quisesse, o que poderia chamar com toda propriedade o horizonte terrestre de minha história íntima, da biografia de minha alma. Tudo isso a esta lembrança, tudo o de além dele, é para mim como um remoto velame que além desse horizonte forma o fundo insondável, infinito, de minha vida passada. Dessa lembrança surge minha consciência e até me atrevo a dizer que toda a vida de meu espírito não foi mais do que um desenvolvimento dele. De meu pai não me lembro senão em relação a esse acontecimento inicial de minhas confissões; meu pai não é para mim mais que o ator desse acontecimento. Que foi, sem dúvida, o desfecho, o término de uma tragédia, mas que para mim nada mais é que o surgimento de outra. Nem posteriormente me atrevi nunca, pelo que direi, a inquirir de minha mãe o sentido daquela terrível cena. Era o cair da tarde, lembro-me como se fosse hoje, e eu estava com minha mãe, na sala de jantar, ela contemplando o pôr do sol, e eu rabiscando um quadro-negro. Meu pai fechado em seu escritório trabalhava como de costume. E seu trabalho era escrever, nunca pude saber o que nem para quê. Parece-me lembrar que, ao erguer os olhos de meus desenhos, vi como duas pérolas vermelhas nos olhos de minha mãe, que eram os arrebóis crepusculares; o sol se deitava dessangrando-se como em uma mortalha nas nuvens que cingiam a serra distante refletidos nas respectivas lágrimas vergonhosas e furtivas. De repente, minha mãe balançou a cabeça — ainda me parece ver a agitação de sua cabeleira loira sobre a celagem do ocaso — e exclamou com voz como de agonizante: “O quê? O que foi?” Um tiro ressoara no escritório. Minha mãe se levantou, foi até a porta do escritório e a encontrou trancada por dentro. Então começou a empurrá-la e a bater nela chamando com uma voz repleta de angústia: “Pedro! Pedro! Pedro!” Às suas vozes atendeu o velho criado e, embora aterrados, com suas vozes romperam o silêncio que nos chegava do escritório, minha mãe e ele começaram a empurrar a porta até que esta cedeu. Lançaram-se ao interior, e eu, atrás deles. Meu pai jazia em sua poltrona, branco e vermelho, branco de cera o rosto y avermelhado por um fio de sangue que escorria de sua têmpora. No chão, um revólver. Sobre a mesa de trabalho, a escrivaninha, um papel dobrado que minha mãe se apressou em apanhar e guardar. A qual ao ver aquilo depois de murmurar para si: “Era de temer-se!”, emboçou-se num terrível silêncio. A primeira coisa que fez foi procurar-me com os olhos, não já somente enxutos de lágrimas, mas secos e opacos, e tão logo me viu, segurou minha mão, levou-me até o que tinha sido meu pai e me disse: “Beije-o pela última vez” e me afastou do escritório. E lembro que, ao beijá-lo, meu maior cuidado foi não me sujar com aquele fio de sangue e que senti nos lábios uma frieza que nunca os deixou completamente. Não vi minha mãe durante todo o dia seguinte, pois me deixaram com as criadas. Mas no outro, mal levantei da cama, ela me segurou, abraçou-me, apertou-me tanto que quase me deixou sem fôlego, aproximou sua boca seca à minha testa, depois aos meus olhos, e assim me teve, não sei por quanto tempo —pareceu-me muito, tanto como toda minha vida até então —, sem fazer o menor barulho. Pois não somente não falava nem soluçava, senão que nem a ouvia respirar. Dir-se-ia que estava tão morta quanto meu pai. E não ousei perguntar-lhe nada. Aquela imorte estava, e continua estando desde então, entre minha mãe e eu como um segredo sagrado. Aquela morte voluntária, e principalmente a razão dela, por que se matou?, começou a ser, sem que a princípio eu o percebesse, o mistério inicial de minha vida. Em torno daquela visão se foram organizando todas as subsequentes visões de minha experiência. Nem minha mãe tinha para mim sentido íntimo senão ligada a aquele sucesso, a aquele tiro que rompe um silêncio de ocaso e aquele fio de sangue sobre um rosto marmóreo.

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