segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

A literatura é para todos

Recentemente perdemos dois grandes nomes da literatura: Harper Lee e Umberto Eco, ambos já octogenários, deixaram um legado que os torna imortais, pois a literatura, como disse Artur Schlegel, é a imortalidade da fala. Assim, suas palavras atravessarão diferentes gerações e culturas e o mundo jamais os esquecerá.

Apesar do pouco contato que tive com as obras desses autores, duas delas marcaram diferentes etapas de minha vida.

Quando eu tinha uns doze anos, li O Sol é Para Todos (1960), obra de estreia da escritora americana Harper Lee. Peguei o livro emprestado na Biblioteca Pública porque o título me atraiu. Acho que foi um de meus primeiros livros “adultos” e lembro bem como me afetou, pois naquela época eu não tinha ideia de violência sexual nem de racismo, então foi um choque de realidade para mim, mas de uma forma delicada, já que a história é narrada através dos olhos de uma criança, que conta a história de seu pai, o advogado Atticus Finch, defensor de um inocente homem negro acusado de estupro.



Essa obra foi suficiente para colocar a escritora entre os grandes nomes da história literária dos Estados Unidos e rendeu-lhe o Prêmio Pulitzer, em 1961. O romance vendeu mais de 30 milhões de cópias e a escritora se retirou da vida pública e ficou até 2015 sem lançar um novo romance. No ano passado, foi lançado Vá, coloque um vigia, que continua a história do livro de estreia, mas com uma inesperada reviravolta na conduta do idolatrado advogado, que aparece como um sujeito racista e simpático ao nazismo. Fato que provocou revolta nos leitores, que após a mensagem esperançosa da primeira obra, levaram um choque de realidade, ao perceber que não existem heróis e que ninguém é perfeito ou bom o tempo todo.

Só fiquei sabendo dessa polêmica após a morte da autora e é claro que esse fato despertou minha curiosidade. Essa senhorinha era mesmo uma caixinha de surpresas! Pretendo ler esse livro em breve.

Quanto a Umberto Eco, tive contato com seus textos, muitos anos mais tarde, na primeira década deste século, entre 2008 e 2011, aos trinta e poucos anos, durante minha tardia, acidentada e extremamente almejada formação superior. Cursei Letras Língua e Literatura Espanholas, na UFSC, e nas aulas de Teoria da Tradução tive contato com alguns textos seus. Não conheci a face do autor de romances como O Nome da Rosa, mas sim sua face de semiólogo e pensador através de Quase a Mesma Coisa, obra de referência para os estudos tradutológicos.

Esse livro é baseado numa série de palestras ministradas por Eco em 1998, na Universidade de Toronto.  Num tom de confidencialidade, Eco reflete sobre as transformações que um texto sofre ao ser traduzido a outra língua, mas sem ver essas mudanças como uma perda, pois ele acredita que estas são necessárias, admite até mesmo que alguns de seus textos tenham melhorado ao ser traduzidos, afirmação que suscitou muito debate entre escritores.

Através de sua experiência pessoal como tradutor e da análise de traduções de obras de sua autoria, Eco discute questões pragmáticas relacionadas à tradução e à reescritura. Sua visão é otimista, porque ele aceita os limites da tradução e admite que esta nunca será mais do que quase a mesma coisa, e o problema não seria tanto a ideia do “quase”, mas da elasticidade que deve ter esse “quase”, estabelecer a flexibilidade, a extensão desse quase, os limites dessa transformação.  Dizer quase a mesma coisa, para Eco, é a noção de tradução como negociação: traduzir implica cortar ou acrescentar alguma coisa a partir de um original, e a negociação é a tentativa de compensar esses cortes, ainda que não totalmente.




Enfim, dois grandes autores que vale a pena conhecer!

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