De bafo, do Latim BAFFA, “hálito, ar que
sai pela boca”, de uma onomatopeia BAF, com sentido de escárnio.
Des + abafar = S.M. Ação ou efeito de desabafar.
Desafogo, alívio, expansão. Exteriorização de sentimentos penosos e
reprimidos.
Hoje acordei com vontade de exteriorizar meus pensamentos
sobre um episódio do qual participei, ontem, num grupo de tradutores iniciantes.
Resumindo a história: Uma moça lançou uma pergunta para os
mais experientes “Como sair da CLT em pouco tempo dedicando-se à tradução?” Ela
disse que gostaria de fazer disto uma renda, ainda que não fosse altíssima, apenas
para poder trabalhar em home-office.
Como tradutora que conjuga há mais de 15 anos o trabalho CLT
com o freelance — e há quase 10 anos em home-office —, senti-me na
obrigação de orientá-la a não largar o emprego CLT, alegando que um contrato desse
tipo oferece muitos benefícios, entre os quais um salário fixo, férias
remuneradas, 13.º salário, vale-alimentação e, muitas vezes, plano de saúde. Aconselhei-a a
manter o emprego CLT até conseguir se estabelecer na carreira de tradutora.
Além disso, eu disse que o trabalho em home-office ou como
autônomo não é sinônimo de liberdade, falo por minha própria experiência. Antes
o contrário, o trabalho como autônomo é sinônimo de pressão, uma vez que você
assume a total responsabilidade por seu desempenho e rendimento financeiro.
Muitas vezes não pode se dar o luxo de recusar um trabalho e precisa acordar
cedo, trabalhar até tarde, nos fins de semana e feriados. Falo por mim, preciso
cumprir horários, não posso sair à hora que quero. Preciso manter a
disciplina e a produtividade. Já aconteceu de ter de interromper as férias com
a família e ficar no hotel para fazer um teste de tradução, aliás, foi assim
que consegui minha primeira oportunidade na tradução literária.
Até aí tudo bem. O que me deixou chateada ou surpresa, não
sei dizer bem ao certo... foi que um outro membro do grupo se manifestou
dizendo que, para quem está tentando começar na área, ver minhas mensagens foi
muito desanimador, que parece que há mais frustrações do que realizações, que
faz repensar se vale a pena começar nessa área ou tentar outra coisa, que
parece um alerta para a pessoa não arriscar em algo que pode ser pior...
Em nenhum momento foi minha intenção desalentar alguém,
tampouco fui rude ou irônica, só falei a verdade.
Após várias manifestações de outros membros do grupo
apoiando o amigo ou concordando com as dificuldades da profissão, o moderador
do grupo se manifestou e disse que é normal falar das dificuldades, pois é isso
que gera dúvidas e aflige os profissionais, que dificilmente alguém iria ao
grupo para dizer que a semana foi maravilhosa e que traduziu não sei quantos
milhares de palavras e faturou não sei quantos milhares de dinheiros (não exatamente
com essas palavras, é claro).
Nesse momento, sim, fui debochada e disse que se alguém
fizesse esse tipo de comentário seria cancelado por “ostentação”.
Depois apareceram comentários dizendo que essa precariedade
toda se deve à falta de regulamentação. Fiquei quieta, não disse mais nada.
Talvez esperassem que eu dissesse: “É isso aí, amiga! Larga
tudo e se joga de cabeça! Vai na fé! Tamo junto!”.
Acho que o grupo foi bloqueado para mensagens, pois há uma
nota que diz que não é possível fazer nenhum comentário.
Por isso venho aqui fazer meu desabafo:
Se trabalho não exigisse esforço e sacrifício, não se
chamaria “trabalho”.
Como diz Ortega y Gasset:
“É imoral pretender que uma coisa desejada se realize
magicamente, simplesmente porque a desejamos. Só é moral o desejo acompanhado
da severa vontade de prover os meios da sua execução.”
Muitos culpam a precarização da profissão ao fato de não ser
regulamentada, mas se esquecem de que regulamentação não serve apenas para
garantir direitos ou reconhecimento. O principal papel da regulamentação é
controlar e fiscalizar, estabelecer normas, exigir qualificação profissional, diplomas,
certificações, afiliações e contribuições sindicais, registro e emissão de notas
fiscais, normas ISO, códigos de ética, etc.
Na prática, é o mercado que dita as regras do jogo, e ele
feroz e competitivo, para profissões regulamentadas ou não. E quanto à
qualidade do trabalho, também, é o mercado que separa o joio do trigo, o
eficiente do ineficiente. Há espaço para todos, no entanto, para conquistar
tarifas mais altas, precisamos acrescentar valor ao nosso trabalho, investir em
formação e ferramentas, e fazer, sim, sacrifícios.
”Romantizar” ou “idealizar” não torna as coisas mais fáceis,
só aumenta a frustração ao depararmos com a realidade. Ser realista não significa
ser pessimista.
Para finalizar, quero deixar bem claro que não trocaria minha profissão por outra, sinto-me satisfeita e realizada traduzindo. E, para mostrar que não sou uma pessoa pessimista, falarei também dos aspectos positivos de trabalhar como tradutor autônomo (freelance) em home-office. Você tem mais liberdade, controle, flexibilidade e autonomia sobre sua rotina de trabalho; não precisa perder horas no trânsito; tem mais privacidade para trabalhar com sua roupa favorita, ouvindo sua música favorita; pode encaixar algumas tarefas domésticas nas horas vagas; estar perto dos filhos e pets, entre outras.
Acho que o que você disse nesse grupo foi o mais sensato. Continue assim.
ResponderExcluirObrigada pelo incentivo! ;-)
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