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terça-feira, 29 de julho de 2025

IA: I-nimiga ou A-liada?

 


Hoje de manhã, eu estava lendo um texto de um tradutor espanhol que é muito irônico e perspicaz, e ele usou a imagem acima para dizer que é assim que ele imagina o ChatGPT por trás do autor de alguns artigos acadêmicos. Achei engraçada e curiosa a analogia, aliás, esse cara tem um dom para achar a imagem mais pitoresca que você possa imaginar sobre qualquer assunto, só acho que faltou ele referenciar a fonte. Observei que tinha uma inscrição em alemão antigo, em escrita gótica, o que atiçou minha curiosidade, já que sou uma eterna estudante de alemão, e sei que eles tem um humor e uma agudeza muito peculiares.

Fui perguntar ao ChatGPT sobre a origem e o significado dessa gravura. Ele me explicou que se tratava de uma gravura de Erhard Schön (c. 1530–1535), mais específicamente Teufels Dudelsack, conhecida em inglês como Devil playing the bagpipes, e que faz parte da coleção do The British Museum. Trata-se de uma obra satírica, uma peça de propaganda anticlerical que criticava o poder corrupto da Igreja Católica no contexto da Reforma Protestante.

Joguei o nome da gravura em inglês no Google para confirmar a veracidade da informação e, de fato, apareceu no site de The British Museum com o nome do autor indicado pelo ChatGPT. Não contente, pedi para o dito-cujo transcrever literalmente o texto da gravura e, a seguir, usei o “bom e velho” Google Tradutor para pesquisar a versão em português. Obviamente deve haver algumas imprecisões na tradução, já que se trata de texto poético e antigo, mas eu não queria a melhor tradução do mundo, só queria uma noção aproximada.

Ei-la:

O texto sugere que, antes dos reformadores, o diabo usava os clérigos como instrumentos para espalhar suas fábulas contos e fantasias e que, agora, isso acabou.

Sinceramente, logo que vi essa imagem, me veio à mente a metáfora “traduttore-traditore” (tradutor-traidor), que reflete uma visão cética sobre a tradução ao sugerir que inevitavelmente há uma perda de significado ou de fidelidade ao traduzir um texto. Dado que não existe correspondência exata entre idiomas e culturas, a tradução implica perdas, sim, mas isso não é traição. Traição é usar o texto alheio para promover as própria ideias ou o próprio estilo.

Num momento em que a inteligência artificial está no centro das discussões nos grupos de tradutores nas redes sociais, me incomoda a veemência com que se critica o uso de tecnologias na tradução, principalmente o uso de inteligência artificial —não como fim, mas como meio, diga-se de passagem —, mas se esquece que o ego do tradutor também é um bichinho perigoso que pode levá-lo a subverter o sentido do original em nome da própria ideologia, ou ainda, sob o pretexto de melhorar a fluidez ou o estilo. Ou seja, quando se trata de tradução, o mero uso da inteligência natural não é garantia de idoneidade. Ora intencionalmente, ora acidentalmente, o tradutor também falha.

Não é minha intenção aqui defender nem condenar o uso de IA, apenas lembrar que a tecnologia é uma ferramenta em nossa mão: nós a utilizamos para o bem ou para o mal. Parafraseando Paracelso, um famoso médico e alquimista alemão da época da Renascença: “A diferença entre o veneno e o remédio é a dose”.

Para terminar, resolvi brincar um pouco com a tecnologia da inteligência artificial para dar vida à gravura. Eis o resultado:






segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Ética na tradução

Recentemente deparei com duas situações que me fizeram refletir sobre a ética na prática tradutória e sobre os limites da interferência do tradutor no texto original. 

Sem entrar em detalhes, recebi uma solicitação de tradução acompanhada de uma sugestão por parte do gerente de projetos de substituir um termo por outro (por razões evidentemente políticas) alegando que o segundo lhe parecia mais honesto. Esse fato chamou minha atenção porque nunca tinha me acontecido algo assim. 

O que fiz? Respondi gentilmente dizendo que não podia agir dessa forma porque o autor do texto não havia escolhido o termo ao acaso e que, ainda que o tradutor discordasse das escolhas do autor, deveria respeitá-las, do contrário, estaria agindo de forma desonesta.
A outra situação que presenciei foi o uso de um termo politicamente correto, mas impreciso no texto em questão. Empregou-se o termo "gênero" — um conceito sociológico que se refere a papéis sociais —, num formulário que requeria uma distinção biológica: “sexo”. Essa confusão de conceitos é frequente devido ao medo de parecer preconceituoso, ou ainda, por acreditar que “gênero” seja mais elegante que "sexo". Neste caso, conversei com o cliente e, depois de explicar a diferença, ele consentiu a alteração.
Da mesma forma que em outras profissões, ocasionalmente os tradutores podem enfrentar dilemas éticos em seu dia a dia. Imagine um tradutor que receba uma solicitação de um partido político ao qual se opõe firmemente, ou um texto que critique sua religião, ou ainda, que promova práticas ilegais.
Além das questões morais ou legais descritas acima, pode ocorrer de o tradutor receber um texto perfeitamente legal, mas extremamente desagradável, que fira sua sensibilidade, como um texto que relate crimes bárbaros, tabus, etc. O que fazer nesses casos?
Antes de aceitar uma solicitação, é importante perguntar do que se trata. No entanto, uma vez que você tenha aceitado o pedido e se sinta desconfortável com o assunto abordado, seja por questões morais, ou por outros motivos, manifeste-se imediatamente, recusando o trabalho e expondo (ou não) suas razões.
Agora, se a discrepância não for tão grave a ponto de fazê-lo rechaçar o trabalho — como nos exemplos que relatei no início do texto —, seja objetivo, distancie-se do tema, e respeite as escolhas lexicais do autor. O bom tradutor deve ser capaz de traduzir fielmente textos que expressem opiniões contrárias à sua. Se você não for capaz de manter-se imparcial, recuse o trabalho.