quinta-feira, 23 de abril de 2026

Iguais, mas diferentes



Na Espanha, o verbo amenizar não se usa com o mesmo sentido que usamos no Brasil.

No Brasil, amenizar significa acalmar, suavizar, aliviar, reduzir.

Já na Espanha, amenizar é sinônimo de entreter, divertir, distrair.

Portanto, a frase "Este remédio ajuda a amenizar a dor" deve ser traduzida ao espanhol como "Este medicamento ayuda a aliviar el dolor".

E a frase "Los payasos amenizaron la fiesta" deve ser traduzida ao português como "Os palhaços animaram a festa".

É uma palavra que pode gerar muita confusão em contextos como este:

"O padre fez uma oração para amenizar a dor da família".

"El sacerdote hizo una oración para aliviar el dolor de la familia".

Se usarmos "amenizar" como no português não fará sentido, pois o padre não vai fazer uma oração para divertir ou entreter a família. Assim como o médico não vai fazer uma operação para animar ou distrair o paciente.

Você já conhecia essa diferença?

 

quarta-feira, 22 de abril de 2026

A importância de manter registros

Charge do cartunista Gervásio Castro, "Gerva"

Dizem que “um povo que não conhece sua história está condenado a repeti-la”. Essa frase destaca a importância do aprendizado histórico. Em nosso caso, o tradutor (leia-se qualquer profissional) que não registrar seus processos está condenado a perder tempo reinventado a roda.

Sempre mantive meus arquivos de tradução organizados por ano, cliente, mês, etc., criei tabelas de controle para os trabalhos realizados, tabelas para controlar minha produção, tabelas de prospecção, etc. Mas uma coisa que eu aprendi — depois de quebrar a cara várias vezes perdendo tempo para encontrar a mesma solução — foi registrar o passo a passo para resolver os mais diversos impasses que ocorrem no dia a dia “tradutoril”.

Vejamos alguns exemplos catados na minha pasta de “dicas”:

Como comunicar um aumento nas tarifas? (Sim, tenho uma mensagem padronizada justificando o aumento, para não perder tempo reescrevendo. Se bem que essa mensagem já está criando teia de aranha e poeira há muito tempo).

Como criar uma lista de arquivos de uma pasta para fazer um orçamento?

Como extrair texto de tabelas em .pdf com o OneNote?

Comunicado de férias (outro arquivo que está criando mofo).

Criar legenda de vídeo usando Gemini (nunca usei, mas tá lá).

Dicas sobre cobrança (não precisei usar, graças a Deus!).

Dicas para se dar bem no ProZ (não funcionou para mim, acho que o fato de eu não falar inglês atrapalha bastante a prospecção de clientes estrangeiros e a negociação).

Diferenças entre revisão e proofeding.

Extrair imagens de um arquivo em Word.

Melhores opções para receber do exterior.

Ferramentas de revisão de textos.

Ferramentas úteis para tradutores.

E assim por diante... Tem coisas mais específicas, configurações de programas, resolução de problemas com navegador, teclado, etc. Também tenho uma pasta de gramática com os principais pepinos do português e do espanhol, referências, etc. Também tenho pastas sobre coisas aleatórias como receitas, manuais de estilo, exames médicos, etc.

Como viram, os nomes dos arquivos não estão padronizados, não mantive o paralelismo (um verdadeiro desleixo!). Mas o importante é que quando eu tropeçar de novo com a mesma pedra, irei para minhas pastinhas com um sorrisinho de satisfação que não tem preço, ou melhor, tem sim: horas de retrabalho economizadas. ;-)

 

terça-feira, 14 de abril de 2026

Diferenças de uso: voz ativa e voz passiva no par português-espanhol



Quando traduzimos um texto, devemos buscar a naturalidade, para que o leitor não perceba que está lendo uma tradução.

A boa tradução é aquela que parece ter sido escrita originalmente na língua de chegada.

Para isso, devemos evitar aquela tradução dura, colada (literal), palavra por palavra. Em vez disso, devemos tentar reproduzir as mesmas ideias e o mesmo estilo do original, usando as estruturas e os usos da nossa língua, para não provocar estranhamento.

Cada idioma tem usos próprios, estruturas e tendências consolidadas que devemos dominar para conseguir uma tradução fluida e natural.

O português usa e abusa da voz passiva analítica — aquela que se constrói com o auxílio do verbo ser + particípio —, já o espanhol prefere o uso da voz passiva reflexa ou sintéticase + verbo.

 

Vejamos uns exemplos:

O texto foi lido em voz alta = El texto se leyó en voz alta

Foram entrevistados 200 moradores = Se entrevistó a 200 residentes

Foram identificadas irregularidades = Se identificaron irregularidades

 

Quando há agente da passiva em português, prefere-se o uso da voz ativa em espanhol.

O texto foi lido em voz alta pelo diretor = El diretor leyó el texto en voz alta

A televisão foi consertada pelo técnico = El técnico arregló la televisión

 

Para dar ênfase no objeto direto, basta inverter a construção:

El texto lo leyó el director

La televisión la arregló el técnico

 

O espanhol reserva o uso da voz passiva analítica mais para textos jornalísticos, jurídicos ou para o registro literário e histórico.

El sospechoso fue detenido por las autoridades tras una larga persecución.

La sentencia será dictada por el tribunal el próximo lunes.

América fue descubierta en 1492.

El estudio fue dirigido por un científico alemán.


No espanhol, assim como no português, muitas vezes a voz passiva é usada deliberadamente para ocultar o sujeito da ação.

Los manifestantes fueron dispersados con gases lacrimógenos.

Millones de euros fueron desviados a paraísos fiscales.

Las pruebas fueron destruidas antes del registro judicial.

Dos aldeas fueron bombardeadas durante la madrugada.

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Os bastidores da publicação de uma tradução


Quando você estiver desfrutando da leitura de autores como Oscar Wilde, Kafka, Tolstói, Agatha Christie, Victor Hugo, Cervantes, Vargas Llosa, Elena Ferrante, Dostoiévski, Haruki Murakami, Toni Morrison, Margaret Atwood, entre tantos outros (ou de obras de não ficção), não se esqueça de que alguém dedicou horas a fio à busca da palavra ou expressão exata — aquela capaz de transmitir, com precisão, sensibilidade e naturalidade, cada escolha feita por esses grandes autores.

Muitas vezes, esse processo envolve riscos: perder um pouco da expressividade aqui, encontrar soluções brilhantes ali; há momentos de dúvida, de esforço intenso, e outros de verdadeira satisfação. Tudo isso para que você possa ter a melhor experiência de leitura e afirmar, sem hesitação, que leu tal autor.

Por trás de toda tradução publicada, há um grande esforço coletivo, e o tradutor é uma peça fundamental dessa engrenagem. Para que uma obra traduzida chegue a suas mãos, o texto passa por várias etapas, descritas, de forma geral, a seguir, podendo haver variações de uma editora para outra:

1 – Aquisição de direitos
A editora negocia os direitos de publicação no Brasil com o agente literário do autor ou com a editora estrangeira responsável pelos direitos. Em alguns casos, quando há interesse de várias editoras, pode haver um leilão.

2 – Tradução
O editor escolhe um tradutor cuja experiência e estilo dialoguem com a obra. Cabe a esse profissional traduzir o texto para o português, buscando preservar o sentido, o estilo, o tom e o registro do original, ao mesmo tempo que confere naturalidade e fluidez ao texto. Isso envolve pesquisa de termos técnicos, referências históricas e culturais e, em última instância, a tentativa de reproduzir no leitor o mesmo efeito da obra original.

3 – Preparação (copidesque)
Nessa etapa, o texto é revisado com atenção não apenas à correção gramatical, mas também à consistência e à adequação aos critérios editoriais. O preparador padroniza o texto, faz o cotejo com o original para identificar eventuais falhas ou omissões e, quando necessário, verifica termos e informações. Também sugere ajustes quando a tradução soa pouco natural (tradutês).

* Obras de não ficção com conteúdo altamente especializado podem requerer um revisor técnico ou consultor especializado, que verifique a precisão terminológica e a correção conceitual. Essa revisão não substitui a preparação nem a revisão de provas.

4 – Diagramação
Após a preparação (e, em alguns casos, uma revisão prévia), o texto segue para a diagramação. O diagramador transforma o texto em um livro, aplicando o projeto gráfico — fontes, margens, espaçamentos e hierarquia visual — para garantir uma leitura confortável. Em seguida, é gerada a primeira prova, geralmente em PDF, embora em alguns casos também possa ser impressa.

5 – Primeira revisão
Realizada sobre a prova diagramada, essa etapa busca identificar erros que passaram despercebidos anteriormente, verificar se nada foi alterado ou perdido na diagramação e ajustar aspectos como hifenização e quebras de linha.

6 – Segunda revisão
Após a incorporação das correções, o texto passa por uma nova leitura. O objetivo é fazer um ajuste fino: conferir paginação, títulos, sumário, além de eliminar problemas como “viúvas” e “órfãs” (linhas isoladas) e eventuais deslizes de pontuação.

Concluída a revisão de provas, o arquivo é fechado e encaminhado à gráfica em formato PDF. Antes da impressão final, o editor pode receber uma prova impressa em tamanho real (plotter), destinada à verificação técnica da montagem do livro, e não mais do conteúdo textual. Uma vez aprovada essa etapa, o próximo contato será com o livro já impresso.

A satisfação do leitor é o que move toda essa engrenagem, e, por trás de cada página, há um trabalho cuidadoso para que a leitura aconteça da forma mais natural possível.


Veja mais sobre o processo editorial em:

https://revisaoparaque.com/blog/quer-ter-um-livro-de-qualidade-siga-estes-passos/
A construção do livro, de Emanuel Araújo