terça-feira, 14 de outubro de 2014

Mais de um / Um dos que



Eis duas expressões que costumam dar muita dor de cabeça na hora de fazer a  concordância verbal.

Embora denote pluralidade, “mais de um” exige, de regra, o verbo no singular:
Mais de um político não se reelegeu.

Se, porém, a expressão vier repetida, usar-se-á o verbo no plural:
Mais de um deputado e mais de um senador não se reelegeram.

No plural também concordará o verbo que exprimir reciprocidade:
Mais de um dos circunstantes se entreolharam com espanto.
Mais de um sobrevivente se abraçaram chorando.

E se houver um numeral acompanhando a expressão mais de um?

Mais de um milhão assistiu ou assistiram ao show?

Na frase apresentada, o numeral que acompanha a expressão mais de é um, que, obviamente, é singular. O verbo deverá, portanto, ficar no singular:

Mais de um milhão assistiu ao show.

Observe:

Mais de um milhão e meio de votos rendeu ou renderam novo mandato ao candidato?

Primeiramente, qual é o sujeito da frase?
Mais de um milhão e meio de votos

Neste caso, há duas concordâncias possíveis:

  • Ou o verbo concorda com o núcleo do sujeito “um milhão e meio”, e nesse caso o verbo fica no singular por o numeral não chega a “dois milhões”. Mais de um milhão e meio de votos rendeu novo mandato ao candidato.
  • Ou o verbo concorda por atração com o adjunto adnominal “de votos”, e nesse caso o verbo vai para o plural. Mais de um milhão e meio de votos renderam novo mandato ao candidato


Cada construção atribui um diferente matiz de significação. Quando se utiliza o verbo no singular, salienta-se o conjunto, o coletivo, o todo (que é o sujeito “um milhão e meio”); quando no plural, evidenciam-se os elementos que constituem o todo (que é o adjunto adnominal “de votos”).

Agora, preste atenção à seguinte construção:

Mandato limpo e humor rendem mais de um milhão de votos para Tiririca.

Veja que no exemplo acima a expressão mais de um milhão não é sujeito da oração, mas objeto direto. O verbo está no plural porque concorda com o sujeito composto “Mandato limpo e humor”
Um dos que

A sequência um dos que pede concordância do verbo no plural:

O economista cidadão de Bangladesh foi um dos que ganharam o prêmio Nobel da Paz de 2006 com seu empenho em dar microcréditos aos necessitados.

Por que o verbo deve concordar no plural? Porque o sujeito é “os que”. Da mesma forma que dizemos “Os que ganharam o prêmio Nobel…”, devemos dizer “Um dos que ganharam o prêmio Nobel…”.

Deixa-se, contudo o verbo no singular quando este se aplica apenas ao ser de que se fala:
Santos Dumont foi um dos brasileiros que inventou o aeroplano.
O Amazonas é um dos rios de maior volume de água.

Entretanto, condenando o artificialismo de tal construção, Salomão Serebrenick, em seu livro 70 segredos da língua portuguesa, observa, com razão, que esses e outros exemplos similares devem ser redigidos de outra forma:
O brasileiro Santos Dumont inventou o aeroplano.
O Amazonas é o rio de maior volume de água.

O mais acertado é, portanto, usar no plural o verbo da oração adjetiva restritiva:
Aquele país é um dos que mais investem em educação.
Ronaldinho foi um dos jogadores que ficaram no banco de reservas.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Pérolas reflexivas



É isso aí, meus queridos leitores, estava faltando inspiração para a coluna pérolas reflexivas, mas basta uma sinapse, ou seja,  basta com que a atividade elétrica de um neurônio, distribuída por seu axônio, se espalhe diretamente a neurônios vizinhos para que uma lampadinha se acenda! Já dizia o velho poeta que a inspiração é como uma espinha que aparece nos momentos mais inesperados...


E nesse momento é preciso correr atrás de um papel e lápis, quer dizer, é preciso abrir um documento novo e teclar rapidinho tudo aquilo que os bichinhos elétricos estão produzindo antes que a lâmpada queime.


Pois então, não sei como nem por que, comecei a pensar em perspectivas, relatividade, e na diferença que uma simples letrinha pode fazer na comunicação. Você duvida?


Proponho o seguinte teste: envie um e-mail a todos seus contatos convidando-os para um “jantar requintado” em sua casa, e peça para eles confirmarem a presença. Aguarde alguns minutos e verifique sua caixa de entrada… A seguir envie o mesmo convite, mudando apenas uma letra e convide-os para um “jantar requentado”… espere alguns minutos e verifique sua caixa de entrada…

Percebeu a diferença que uma simples letra pode fazer?



Outra coisa, você é daqueles que não sente o mínimo remorso em comer os acentos das palavras? Observe o seguinte título de um respeitável estudo acadêmico “Evolução biológica dos cágados na Ilha dos Galápagos”. Agora experimente tirar o acento do quelônio para ver o que acontece… Onde iria parar a reputação desse distraído pesquisador?



E se você é daqueles que acha que tanto faz usar voz passiva ou voz ativa, saiba que não é a mesma coisa “possuir” que “ser possuído”, pergunte-o a um exorcista!


Por hoje é só, pois a luz já está ficando fraquinha…

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Particularidades do uso das porcentagens em espanhol



Enquanto que no português não se usa artigo diante de porcentagens, em espanhol, é correto usar artigo definido ou indefinido diante de porcentagens. Veja o exemplo abaixo, extraído de um artigo da publicação on-line do jornal El país. O texto fala do resultado da votação presidencial no Brasil:


“Rousseff, con el 93,5% de los votos contabilizados, obtiene un 41,08% de las papeletas. Neves, en una remontada inesperada y chocante, consigue un 34,2%. Silva, que se hunde paralelamente al ascenso de su rival, queda eliminada con un 21,14%. La abstención fue del 19%. A principios de septiembre, Aécio Neves, dado por descartado por casi todo el mundo, se arrastraba con un 14%.”

Segundo a Nueva gramática de la lengua española, das Academias da Língua, o emprego dos artigos el ou un é indiferente na maioria dos contextos, embora o primeiro seja o único possível quando se apresenta o resultado de um cálculo, como em: “El veinte por ciento de diez es dos” (e não “Un veinte por cierto de diez es dos”).

Portanto as duas formas: un 20% e el 20% são corretas e significam a mesma coisa, embora a primeira forma seja mais empregada em relação à economia “La inflación anual fue de un 4%”, e a segunda forma seja mais usada nos demais contextos “El 23 % de los alumnos há obtenido la nota máxima”.

Enquanto na Espanha costuma usar-se o artigo diante das porcentagens, na América Hispânica é comum o uso sem o artículo: “Quince por ciento de la población”.

Segundo o Diccionario Panhispánico de Dudas (o DPD), quando as porcentagens estão seguidas de um nome que designa uma pluralidade de seres, normalmente esse nome ficará no plural; “da el ejemplo el diez por ciento de los votantes”. Quando não indica pluralidade de seres, usa-se o nome no singular: “el 10% del agua embalsada”.

Se o substantivo estiver no plural, o verbo pode ficar no singular ou no plural, podendo concordar com a porcentagem ou com o substantivo, normalmente concorda com o plural: “El 7% de la población declaró/declararon estar de acuerdo con la medida”. Se o substantivo estiver no singular, o verbo ficará no singular: “En las últimas elecciones votó el 90% de la población”. Com verbos como ser, emprega-se o plural: “Aproximadamente un 78% de las palabras españolas son de origen latina”.

Para expressar porcentagens até dez é comum alternar o emprego de cifras ou palavras na indicação das porcentagens: “El 3% (ou tres por ciento) de los entrevistados estaba de acuerdo con la medida adoptada”. O símbolo % deve ser lido sempre como “por ciento”, salvo no caso de 100%, que pode expressar-se de três formas: cien por cien, cien por ciento ou ciento por ciento. As porcentagens superiores a dez devem expressar-se por cifras: “En las últimas elecciones votó el 84% de la población”. 

Não se deve deixar espaço entre o número e o símbolo % e não se deve usar o símbolo quando a porcentagem é expressa com palavras (el tres %).