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quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Resenha do livro A rebelião das massas, de Ortega y Gasset


Há poucos dias terminei de ler La rebelión de las masas (A rebelião das massas), do filósofo espanhol José Ortega y Gasset (1883-1955). Mesmo tendo sido escrita por volta de 1930, é uma obra muito atual, que descreve um fenômeno visível e predominante nos dias atuais: o homem-massa. Aproveito enquanto as impressões ainda estão frescas em minha mente para escrever esta resenha.

Primeiramente, o autor deixa bem claro que essa definição não se refere a uma camada social, não se trata de uma classe específica, mas sim de uma forma de ser, de agir, de encarar a vida. Uma postura diante da realidade.

Para o autor, o homem-massa é resultado da combinação de vários fatores: o salto populacional na Europa, que em doze séculos (do século VI ao ano 1800) não conseguia superar os 180 milhões e que, em menos de um século, de 1800 a 1914, pula de 180 milhões a 460 milhões, isto é, mais do que duplica. Esse extraordinário crescimento populacional dá lugar às aglomerações, as cidades se enchem de pessoas. O que, aliado à democracia liberal, à industrialização e à ciência resulta no surgimento do homem-massa.

Mas o que seria esse homem-massa? Como dissemos anteriormente, não se trata de uma categoria social, mas sim de um modo de ser. O homem-massa corresponde ao homem médio, que se contenta em seguir a corrente, que despreza a tradição, não tem senso histórico, não tem grandes aspirações além de ser como os outros. Comporta-se como uma criança mimada e ingrata que só sabe exigir e choramingar, e que espera que o Estado resolva todos seu problemas. Está sempre esperneando, berrando por direitos, mas não tem senso de dever, de responsabilidade. Tende à violência, acredita que o progresso atual caiu do céu, não o reconhece como fruto do sacrifício e trabalho das gerações anteriores.

Sua responsabilidade se limita a exigir, preocupa-se em resolver os problemas estruturais da sociedade, em perseguir utopias em lugar de concentrar-se em resolver problemas pontuais. Age de forma superficial e preguiçosa, não busca um conhecimento profundo de causas e consequências, contenta-se com um conhecimento parcial e superficial daquilo que possa usar a seu favor, ainda que de forma distorcida, o que deriva na desonestidade intelectual, no relativismo moral e ético, em que o julgamento moral varia conforme seus interesses. Age como um bárbaro porque recusa normas, hábitos e a razão.

Como oposto ao homem-massa, o autor menciona o homem nobre. Novamente não no sentido de classe social, de posses ou títulos, mas sim de postura, de forma de ser. O homem nobre é o oposto do homem-massa porque ele tem senso histórico, respeita a tradição, as conquistas de seus antepassados. Ele tem senso de dever, de responsabilidade. Não espera que o Estado resolva seus problemas, não entrega seu destino nas mãos do Estado. Ele é dono do seu destino e busca o aperfeiçoamento mediante o esforço e o compromisso. Não pretende resolver os problemas estruturais, mas sim os pontuais, não quer mudar o mundo, mas melhorá-lo. Valorizam os valores e a moral civilizatórios, a disciplina, a ordem e a lei.

Partindo dessa comparação entre homem-massa e homem nobre, o autor analisa outras questões mais profundas, como o declínio da Europa. Por declínio, se refere ao fato de a Europa ter perdido seu poder de mando. O autor enfatiza que toda sociedade é hierárquica, há sempre uma minoria dominante e uma massa média e, se assim não for, não há organização, não há sociedade. Esclareça-se que essa minoria não é dominante ao acaso, mas sim devido a sua excelência e autenticidade, ao seu senso de dever para com os outros. A sociedade sem mando é como uma turma de alunos que, quando se fica sem professor, fica sem rumo e se entrega à confusão e à balbúrdia. Voltando à Europa, Ortega y Gasset defende sua união e sua diversidade, mas reconhece a falta de uma estrutura estatal comum para isso. A falta de mando resulta no enfraquecimento da Europa, o que dá lugar a nacionalismos e governos totalitários como o fascismo e o comunismo, que repetem os erros do passado.

O homem-massa carece de projetos, aspirações, premissas, não reconhece a autoridade da minoria dominante, pelo contrário, deseja mandar e tomar-lhe o lugar em benefício próprio. Enquanto o homem humilde reconhece suas limitações, mas aspira ao aperfeiçoamento, o homem-massa exalta sua vulgaridade, seu direito a ignorar, vangloria-se de ser como todos, não cumpre sua vocação, não é autêntico, o que supõe uma desmoralização.  

Certamente deixei escapar muitos aspectos importantes da obra, mas o que mais me marcou foi seu caráter atual, como o homem-massa continua predominando em nossa sociedade, mesmo tendo passado quase um século da publicação desta obra. Acredito que este fenômeno é perceptível em todos os campos de conhecimento. Na língua, por exemplo, observamos a desvalorização da norma, a ojeriza ao estudo formal, ao mesmo tempo que se exalta a vulgaridade, quando pululam nas vitrines das livrarias os livros de autoajuda com palavrões no título: é 'F*da' para todo lado.

O empobrecimento do vocabulário, a desvalorização da leitura, a tentativa de taxar a gramática, a norma-padrão e a língua culta como instrumentos de opressão. A busca pelo conhecimento fácil e supérfluo, através de macetes. O desdém pelos clássicos da literatura nacional e universal, a degradação da hierarquia na relação professor-aluno e o reflexo das reivindicações políticas na língua com a imposição da linguagem não sexista, e o discurso do politicamente correto. Atualmente, são esses, em minha opinião, alguns sinais da massificação e a manipulação da linguagem e do pensamento.

Para quem tiver interesse em saber mais sobre este livro, indico dois excelentes vídeos no YouTube:

Este é em espanhol, do canal POLIZONYNAUFRAGO


E este outro é em português, do canal Socran:


domingo, 11 de setembro de 2016

Entrevista a Paulo Henriques Britto, em Cadernos de Tradução da UFSC

Caros leitores,

Quando o assunto é tradução literária, o livro de que mais gostei e com cujas posições mais me identifiquei é A tradução literária, de Paulo Henriques Britto. Há tempo tinha vontade de entrevistá-lo, mas nesta semana chegou a minha caixa de e-mails a notícia da publicação da nova edição dos Cadernos de Tradução da UFSC, v. 36 n. 3 (2016), onde encontrei esta maravilhosa entrevista feita pelo professor Gilles Jean Abes ao renomado tradutor. Minha única interferência foi adicionar a foto do tradutor, retirada de um artigo da versão eletrônica do jornal Folha de S. Paulo, como se indica mais abaixo. O texto da entrevista foi reproduzido integralmente conforme publicado na revista.

Achei esta entrevista excelente, pois aborda de forma muito elucidativa assuntos polêmicos como original versus tradução, fidelidade, visibilidade, teoria da morte do autor, domesticação, adaptação, etc., temas que me inquietaram muito durante minha formação. Sem dúvida, eu não teria conseguido fazer uma entrevista tão reveladora, por isso, contentei-me em pedir a autorização do tradutor e a da Editora chefe da revista, a professora Andréia Guerini, para publicar a entrevista aqui no blog. Expresso a ambos meus sinceros agradecimentos.

Espero que desfrutem da leitura tanto quanto eu.

ENTREVISTA COM PAULO HENRIQUES BRITTO

 Paulo Henriques Britto é professor de tradução, de criação literária e de literatura na PUC-Rio, além de ser um tradutor e poeta premiado. É responsável por mais de cem publicações, dentre as quais muitas obras de ficção, mas também de poesia. Uma de suas traduções mais recentes é Grandes esperanças, de Charles Dickens (2º lugar no prêmio Jabuti em 2013), publicada pela Companhia das Letras. Já traduziu Elizabeth Bishop, Wallace Stevens, D. H. Lawrence, Henry James, William Faulkner e Lord Byron, dentre os autores mais famosos. Publicou seis livros de poesia, pelos quais recebeu importantes prêmios literários: Liturgia da matéria (1982); Mínima lírica (1989); Trovar claro (1997, Prêmio Alphonsus de Guimaraens); Macau (2003, Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira e Prêmio Alceu Amoroso Lima); Tarde
(2007, Prêmio Alphonsus de Guimaraens); e Formas do nada (2012, 8º Prêmio Bravo! Bradesco Prime de Literatura, Melhor Livro). Como tradutor, recebeu em 1995 o Prêmio Paulo Rónai da Fundação da Biblioteca Nacional pela sua tradução da obra A
mecânica das águas, de E. L. Doctorow. Publicou ainda o livro de contos Paraísos Artificiais, também pela Companhia das Letras, em 2004, além de numerosos artigos científicos. Sua obra A tradução literária recebeu, em 2013, o Prêmio Mário de Andrade de Ensaio Literário.

Gilles Jean Abes
Universidade Federal de Santa Catarina 

Cadernos de Tradução (CT): Em seu livro A tradução literária, cujas reflexões gostaria  de debater nas perguntas a seguir, você sustenta várias posições sobre tradução que podem gerar polêmica ou reações adversas, assim como estimulam uma reflexão sobre a tradução de literatura. Uma delas é a importância do original.
O que seria esse texto original, principalmente se pensarmos nos manuscritos de Shakespeare, frequentemente citados para desvalorizá-lo?

Paulo Henriques Britto (PHB): Há nessa argumentação uma falácia óbvia, muito comum nos que defendem posições radicais na área dos Estudos da Tradução. Vou começar com um exemplo. De vez em quando nasce um hermafrodita em algum lugar do mundo – uma criança com órgãos genitais masculinos e femininos. Uma pessoa assim é difícil de classificar como homem ou mulher, sem dúvida. Devemos concluir que a categorização dos seres humanos como masculino e feminino é uma criação cultural totalmente arbitrária, que deve ser desconstruída? Ora, basta pensar por alguns instantes para concluir que tal conclusão seria injustificada: é só lembrar que os homens não ovulam nem engravidam e as mulheres não produzem sêmen, que para a imensa maioria da humanidade faz sentido dizer que há pessoas que ovulam e potencialmente engravidam – mulheres – e outras que produzem sêmen – homens. A existência de alguns hermafroditas não altera este fato incontestável. De fato, existem vários textos diferentes que podem ser tomados como originais do Hamlet; por outro lado, há um único texto para os Sonnets de Shakespeare, e casos semelhantes ao dos Sonnets constituem a imensa maioria. Do mesmo modo, basta pensar por alguns instantes para vermos que a distinção entre original e tradução não é de todo arbitrária. Eis uma diferença: periodicamente tradutores brasileiros e portugueses realizam novas traduções dos Sonnets, ou de uma das versões do original do Hamlet; mas duvido que alguém possa citar um único caso de uma tradução brasileira ou portuguesa do Hamlet ou dos Sonnets que tenha sido usada para elaborar uma tradução para um terceiro idioma. As traduções só servem de base para outras traduções no caso muito específico em que, na cultura-fonte, não há traduções do idioma em questão.
Assim, por muito tempo as traduções brasileiras de Dostoiévski eram baseadas em versões francesas; mas tão logo surgiram bons tradutores do russo no Brasil passou-se a traduzir Dostoiévski diretamente do russo, e parece bem pouco provável que no futuro alguém no Brasil use versões francesas ou inglesas como ponto de partida para traduções de Dostoiévski. Assim, o argumento que supostamente reduz a distinção entre original e tradução a um preconceito logocêntrico é duplamente falho: primeiro, porque toma um caso excepcional para a partir dele fazer uma generalização; e segundo, porque ignora as diversas características que de fato distinguem original de tradução na cultura ocidental. Observe-se que a posição que defendo nada tem de essencialista: não estou dizendo que há diferenças essenciais entre textos ditos originais e textos resultantes de operações tradutórias. Afirmo apenas que, no atual momento da cultura ocidental, original e tradução têm características específicas que nos permitem definir essas duas categorias de modo que uma se oponha à outra. Nada impede que em outras culturas, ou que num outro momento da nossa, as coisas se deem de modo diferente.

CT: Esse apagamento do original não teria uma relação com a “morte do autor”? Seria a vereda correta a tomar, para dar visibilidade ao tradutor, a de aniquilar original e autor?

PHB: Quando, no cinema, se fala em dar visibilidade ao roteirista, o que se pretende é valorizar o trabalho do roteirista enquanto roteirista: isto é, dando-lhe crédito adequado. Se um roteirista exigir que lhe deem coautoria na direção do filme, ou que um close-up de seu rosto apareça no meio do filme, ou que seja criada uma cena musical em que ele cante e sapateie, certamente não será atendido.
Dar visibilidade para o tradutor significa estampar seu nome na página de rosto, ou na quarta capa, ou até mesmo na capa do livro, com uma fonte de tamanho razoável. Se o tradutor achar que isso é pouco, então que reivindique espaço no paratexto: introdução, prefácio, posfácio e notas. Mas o tradutor não tem o direito de alterar o enredo do livro por achá-lo pecaminoso, nem de colocar todas as ocorrências da palavra “Deus” no feminino para registrar seu repúdio da falocracia judeu-cristã, nem de incluir trechos em gíria contemporânea na tradução de uma obra do século XIX para lembrar o leitor desavisado de que o livro foi traduzido no século XXI. Os lugares para o tradutor aparecer são esses que citei acima: capas e paratexto. Apagar as fronteiras entre o autor e o tradutor é um tiro no pé, porque nega a especificidade do trabalho do tradutor.
Quanto à ideia de morte do autor, Barthes estava simplesmente criticando uma forma de crítica literária que ainda se fazia naquela época, a qual tentava explicar a obra do autor através de informações biográficas, ou tentando descobrir suas verdadeiras intenções por trás do texto. Que eu saiba, Barthes não estava dizendo que a linguagem atua espontaneamente, que os livros se escrevem sem intervenção do autor. Aos teóricos que afirmam que a linguagem escreve por conta própria, seria lícito pedir-lhes que não cobrasse direitos autorais de suas obras nem exigisse que lhe fosse dado crédito pelas ideias nelas expostas. E se aqueles que alegam que escrever e traduzir são exatamente a mesma coisa realmente acreditam no que dizem, deveriam dividir irmãmente os direitos autorais com seus tradutores.

CT: Um texto literário pode ter várias edições, com alterações feitas inclusive pelo próprio autor. Nesse sentido, o original é visto como um tipo de rascunho (Borges), ou seja, um texto passível de diferentes versões, nunca completamente finalizado. Essa atitude do autor, que busca aperfeiçoar ou alterar, sempre insatisfeito e retomando sua obra, não acaba dando espaço para que alguns teóricos da tradução desvalorizem o original, afirmando que é um simples rascunho, texto perfectível pelo tradutor que poderia corrigir erros e problemas, «melhorar a obra», para assim valorizar o seu ofício?

PHB: Na nossa cultura, considera-se que o autor tem o direito de retomar sua obra e mudá-la a seu bel-prazer. Assim, Henry James fez uma revisão minuciosa de seus principais escritos para incluí-los na New York Edition de sua obra completa. Também
Wordsworth reescreveu seus poemas de juventude na velhice. A maioria dos estudiosos aprova as versões finais de James e critica as reescritas de Wordsworth, mas o fato é que o autor tem esse direito. Por outro lado, como vou desenvolver mais adiante, o que se pede ao tradutor é que produza uma espécie de pastiche de uma obra em outro idioma cuja leitura de algum modo possa ser considerada um substituto válido para a leitura do original.
Portanto, de modo geral não se considera que caiba ao tradutor melhorar uma obra segundo seus próprios critérios de qualidade, que podem ser muito diversos dos do autor do original. Agora, tanto a primeira versão publicada de um romance de James quanto a versão incluída na New York Edition podem ser tomadas como originais pelo tradutor. O fato de haver mais de um original possível para o mesmo romance de James não abala de modo algum o conceito de original; decorre apenas do fato de o autor ter plenos direitos sobre sua própria obra. E, se o autor pode tentar melhorar sua própria obra, por que o tradutor não pode? Porque o leitor que compra um romance de James está interessado em se aproximar o máximo possível do texto de James, e não de uma versão que o tradutor considere uma versão melhorada de James.
De novo, não há nenhum essencialismo nisso: é apenas uma decorrência de como nossa cultura atualmente concebe autoria e tradução. No passado, era muito comum os tradutores se arrogarem o direito de melhorar os textos; hoje isso já não ocorre. É perfeitamente possível que no futuro isso mude, como é perfeitamente possível que em culturas muito diferentes da ocidental as coisas se deem de modo diverso. As regras do jogo da tradução, como as de qualquer outro jogo, estão sempre mudando, e não são as mesmas em todos os lugares. Mas o fato de essas regras não serem fixas e imutáveis não quer dizer que qualquer tradutor ou estudioso da tradução tem o direito de mudá-las a seu bel-prazer.
As regras do futebol são criações culturais que podem mudar, e de fato mudam, ao longo do tempo, mas nem por isso um jogador pode decidir pegar uma bola com a mão no meio de uma partida: ele levará cartão vermelho, com toda razão.

CT: Pensando aqui na dupla tradução de Maurício Cardozo da novela de Theodor Storm, Der Schimmelreiter (O centauro bronco e A assombrosa história do homem do cavalo branco), o que você entende por fidelidade?

PHB: Maurício produziu duas obras distintas: uma tradução de uma novela de Storm e uma narrativa de sua autoria, um pastiche muito criativo inspirado em Storm, Guimarães Rosa e outros autores.
O centauro não é tradução tal como o termo é entendido no mundo ocidental nos últimos cem anos, no mínimo.

CT: Você não acha que a (re)encenação dessa novela no quente e seco sertão, ao invés do cenário frio e úmido da Frísia (norte da Alemanha), problematiza o conceito de fidelidade já que, ao meu ver, elementos cruciais da novela são recriados na versão do sertão?

PHB: Sem dúvida, muita coisa da Odisseia está no Ulisses, mas não conheço ninguém que considere Joyce tradutor de Homero.
Isso em nada afeta as questões de fidelidade das traduções da Odisseia, que nada têm a ver com o romance de Joyce.

CT: Dando continuidade a esta problematização, não poderíamos distinguir uma leitura possível da obra, consciente, com um verdadeiro projeto de tradução, a exemplo do trabalho de Maurício Cardozo, de uma tradução etnocêntrica que desloca espaço, cultura e linguagem de forma inconsciente ou por causa de um leitor supostamente incapaz de acolher o Outro?

PHB: De novo, para mim, a questão é bem mais simples: A assombrosa história é uma tradução de Storm, e O centauro é uma obra original de Maurício. Não é apenas uma opinião minha: é assim que a imensa maioria dos leitores no mundo ocidental encara a questão.
Ninguém que leia um romance passado no Nordeste brasileiro acredita estar lendo a tradução de um romance passado na Frísia.
As regras que regulam o uso do conceito “tradução”, na nossa cultura e nosso tempo, não admitem que O centauro seja considerado uma tradução da obra de Storm. Já uma tradução de Storm que hoje em dia fosse considerada domesticadora continuaria sendo uma tradução, só que de uma espécie que hoje em dia a maioria dos leitores mais sofisticados rejeita. Para dar um exemplo trivial: quando me propus a traduzir as Viagens de Gulliver, consultei uma ou duas traduções mais antigas e verifiquei que numa delas a linguagem utilizada continha muitas marcas do português brasileiro contemporâneo. Além disso, nela as medidas haviam sido convertidas ao sistema métrico — assim, a altura dos liliputianos era dada em centímetros, muito embora Swift tenha escrito num tempo em que ainda não havia sido inventado o sistema métrico. Na minha tradução, não apenas mantive o sistema de pesos e medidas original como também evitei usar palavras e estruturas sintáticas que não fossem comuns no português setecentista. Fiz isso por saber que o meu público – os leitores mais sofisticados do Brasil do início do século XXI – tendem (como eu próprio, na condição de leitor) a preferir traduções mais estrangeirizantes, que levem mais a fundo o propósito de criar no leitor a ilusão de que ele está lendo uma obra redigida em outro país e em outro século.

CT: Se admitirmos que a recriação de Cardozo mantém uma postura ética da tradução (Berman), ao resgatar essa luta do homem com a natureza e o homem (os desertos do sertão e do mar da Frísia, o coronel), o conceito de adaptação seria adequado ao seu trabalho?

PHB: Eu não diria que O centauro é sequer uma adaptação. Prefiro reservar o termo para coisas como uma versão do Hamlet para mangá, ou a telenovela Grande sertão: veredas baseada em Guimarães Rosa, ou o libreto da ópera de Bizet que Meilhac e Halévy criaram com base na novela de Mérimée. Também chamaria de
“adaptação” as versões de romances de Hugo e Dickens resumidas e facilitadas para leitores infantojuvenis.

CT: Você emprega os conceitos centrífugo e centrípeto para distinguir os processos criativos do autor e do tradutor. Poderia explicar essa diferença?

PHB: Toda obra de arte de algum modo parte de obras anteriores. Para usar um conceito de Harold Bloom, por trás de cada poema há um ou mais poemas anteriores, de um ou mais poetas fortes. O poeta mais jovem, para ele próprio tentar se afirmar como um poeta forte, precisa “matar” seu pai literário, e para isso ele conscientemente se distancia de seu modelo sempre que sente que a voz do poeta anterior está excessivamente presente em seu trabalho: é o movimento centrífugo (que pode não ocorrer se o poeta se contentar em ser um epígono assumido, é claro).
Já o tradutor, ao elaborar sua tradução, por vezes se deixa levar por uma solução atraente e, ao cotejar seu texto com o original, percebe que esta solução levou sua tradução para longe demais do original; assim, ele a corrige: trata-se do movimento centrípeto (que pode não ocorrer se o tradutor, influenciado por alguma teoria que negue a ideia de fidelidade, resolver que seu poema pode e deve ser melhor do que o original).
CT: Como você entende a importância da literariedade de um texto literário?

PHB: É importante que o tradutor identifique as características que tornam o texto que ele está traduzindo uma obra literária, que lhe conferem valor estético, e se concentre na tentativa de recriar essas características na língua-meta. Caso contrário, ele corre o risco de – para usar um conceito de Benjamin – traduzir de modo equivocado algo que não é essencial no original.

CT: De que maneira poder-se-ia identificar os “elementos cruciais” de uma obra que devem ser recriados, com alguma alteração, na tradução?

PHB: Lendo o original com muita atenção com base num conhecimento aprofundado dos recursos literários do idioma do original e da tradição a que ele se filia; e elaborando com muito cuidado a tradução, com base num conhecimento aprofundado dos recursos do idioma-meta e da literatura desse idioma.

CT: Como definiria essa vivência de uma experiência de ler o texto traduzido como se estivesse lendo o original? O que seria essa experiência?

PHB: É o que a maioria esmagadora dos leitores quer: ter a experiência mais próxima possível de ler o original – que na verdade está escrito num idioma que ele não conhece – na língua que ele de fato conhece. É isso que se exige do tradutor: produzir essa ilusão (para usar o conceito de Jiří Levý) no leitor, para que ele possa, mesmo sabendo que o texto em português que ele tem na mão não foi escrito por Rilke, suspender sua descrença (como diria Coleridge) e fazer de conta que está lendo Rilke. Mas é até mais que um fazer de conta: quem lê uma boa tradução de Rilke está mesmo, num certo sentido, lendo Rilke. Podemos dizer que, dado um texto T0 no idioma α, o trabalho do tradutor é produzir um texto Tt no idioma β tal que o leitor de Tt possa afirmar, sem mentir, que leu T0. Para que ele possa fazer tal afirmação, como observa Lefevere, ele tem de se fiar no depoimento de pessoas que, dominando tanto α quanto β, se prontifiquem a ler Tt e atestem que, de fato, a experiência de ler Tt corresponde de modo significativo, ainda que não integral, à experiência de ler T0.

CT: Você concordaria com a afirmação de que o tradutor está sempre presente na sua tradução?

PHB: Sim, é inevitável. É o tradutor que se responsabiliza por suas escolhas, que fatalmente são diferentes das que seriam feitas por outro tradutor. A boa tradução é aquela que o leitor inteligente reconhece como um bom texto no seu idioma e, com base nos depoimentos de pessoas que conheçam o original e o idioma original,
conclui que tem características que lhe permitem afirmar que, ao lê-la, está num certo sentido lendo também um texto num idioma que lhe é desconhecido. Se, por outro lado, o tradutor faz questão de criar efeitos de sua própria lavra, que não correspondem a nada que se encontre no original, o texto resultante, por melhor que seja enquanto texto, pode não ser considerado uma tradução propriamente dita. É o que parece ser o caso do Rubaiyat de Edward FitzGerald e dos poemas “chineses” de Ezra Pound. Essas são as regras do jogo da tradução, tal como ele é jogado atualmente no mundo ocidental. É claro que um tradutor pode criar regras diversas,
e propor “traduções” em que o tradutor faça as mudanças que julgue necessárias para melhorar o texto original, tornando-o mais edificante, menos sexista ou menos racista; só que a maioria esmagadora dos leitores não vai considerá-las traduções. Para retomar uma analogia que emprego no meu livro: posso resolver jogar uma versão do futebol em que o jogador tenha o direito de pôr a mão na bola, ou em que haja duas bolas em campo; mas ninguém, nem os torcedores nem a FIFA, vai aceitar que isso constitua futebol.
Eventualmente, os seguidores podem ganhar força e impor seu próprio jogo: foi mais ou menos assim que surgiram o rugby e o futebol americano. Mas esses jogos modificados não são mais o futebol de associação tal como é aceito consensualmente. Você pode até preferir um desses outros jogos, mas se insistir em dizer que está jogando futebol você vai passar por excêntrico, no mínimo. No mundo do esporte, ao contrário do que ocorre no mundo dos Estudos da Tradução, as pessoas levam essas coisas mais a sério.

Recebido em: 12/03/2016
Aceito em: 18/05/2016
Publicado em setembro de 2016


quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Resenha da Suma Gramatical da Língua Portuguesa, de Carlos Nougué

Queridos leitores:

Há alguns dias não publico nada, estive compenetrada na leitura da Suma Gramatical da Língua Portuguesa, de Carlos Nougué, e agora que terminei, aqui estou para registrar minhas impressões.

Primeiramente devo confessar que, aos 41 anos de idade, é a primeira vez que leio cabalmente uma gramática, e quando digo cabalmente, digo-o no sentido literal: sinopse na sobrecapa, informações editoriais, dedicatória, apresentação, prólogo, agradecimentos, dados do autor, notas de rodapé, tudo mesmo.

Vocês pensam que foi uma tarefa árdua?

Não mesmo! Li-a com o mesmo prazer com que li muitos clássicos da literatura, saboreando cada palavra, tentando apropriar-me de cada informação e de cada exemplo primorosamente escolhidos. O texto em si, já é uma lição de elegância e de clareza, dois aspectos importantíssimos a qualquer obra, sem esquecer o caráter didático. Quando digo didático, não me refiro a explicações reducionistas, a macetes tão fáceis de decorar quanto de esquecer, mas a explicações detalhadas, com sólida fundamentação teórica, a analogias usadas no intuito de facilitar a compreensão dos assuntos mais complexos.

Um dos diferenciais desta obra é seu cunho filosófico, guiado pela racionalidade, pela lógica, e não pela intuição ou pela preferência dos falantes, ou ainda, pelos cânones literários.  Outro diferencial é a defesa da norma sem qualquer melindre, pois este é o fim da gramática: o de normatizar a escrita e, consequentemente, a fala, a fim de que a comunicação possa dar-se de forma correta e eficiente. Para que o homem possa comunicar com exatidão aquilo que pensa e sente, e para que possa compreender o que lê e ouve.

Apesar de ser normativa e de defender a tradição, o autor discrepa em alguns pontos com outros gramáticos; porém, quando o faz, justifica-o com sólidos argumentos, como também reconhece que há controvérsias em que não é possível chegar a uma solução única e incontestável, quando se trata de uma “fronteira turva”, usando suas próprias palavras.

Como arte estritamente normativa, as normas são dadas na tentativa de estabelecer limites, tendo em vista o fechamento de paradigmas com a formulação de regras o mais abrangentes possível e evitando, quando possível, as exceções. A exposição do conteúdo segue uma ordem lógica e sequencial, assim, expõe-se primeiramente a definição, por exemplo, dos pronomes, a seguir, sua classificação e função sintática como complementos verbais e, finalmente, sua ordenação a um uso correto, por exemplo, na colocação pronominal. Alguns assuntos são abordados em diversas partes do livro, seguindo um modelo helicoidal ou espiral, que permite retomar um assunto sempre que for conveniente.

Em minha opinião, são pontos fortes da obra: na parte que trata da formação das palavras, a tentativa de distinção entre palavra composta por justaposição e locução; na parte que trata das classes gramaticais, a explicação sobre a relação entre substantivos e adjetivos, por exemplo, quando o substantivo se usa em lugar de adjetivo; ainda na parte das classes gramaticas, a explicação dos pronomes é riquíssima, sobretudo a dos pronomes relativos; também a dos verbos e a das vozes verbais, onde se faz uma distinção importantíssima entre figura e significado que permite uma visão mais ampla e profunda das funções das palavras. Toda a parte da sintaxe é muito elucidativa. Outro ponto altíssimo é a parte que trata da concordância verbal, bem como a que trata do uso da vírgula. Enfim, é difícil e injusto destacar somente alguns pontos.

Sem dúvida alguma, é uma obra que deve estar sempre à mão daquele que se preocupa em falar e escrever corretamente de modo a preservar nossa língua. E àqueles que acreditam que a língua é com um rio, puro fluxo, que deve fluir sem regras que a dirijam, e que ainda se perguntam: para que a gramática?, eis a resposta do autor:

“Para fazer que nossa língua seja rio, sim, mas rio que graças aos diques e ao curso que lhe demos ajude a atingir a foz da Sabedoria”.

Assim, ao contrário do que se diz, a gramática não está aí para oprimir ninguém, muito pelo contrário, é mediante o uso correto da língua que as pessoas podem ter acesso igualitário ao conhecimento e que podem fazer entender-se claramente, sem ruídos ou ambiguidades. Afinal, de que vale ter voz e não ser compreendido?

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Entrevista com Carlos Nougué sobre sua Suma Gramatical

Por ocasião da pré-venda da Suma Gramatical da Língua Portuguesa pela editora É Realizações, Carlos Nougué fez a gentileza de conceder uma entrevista ao blog para contar-nos um pouco desse trabalho. Para ler a entrevista publicada sobre sua carreira como tradutor, clique aqui.

Professor, em primeiro lugar, muito obrigada por conceder esta entrevista e dar-nos a oportunidade de conhecer mais a fundo seu trabalho como especialista em gramática da língua portuguesa. Conte-nos como surgiu o projeto da gramática?
RESPOSTA. Quem tem de agradecer aqui sou eu, Diana. Pois bem, o projeto da Suma Gramatical da Língua Portuguesa – Gramática Geral e Avançada surgiu durante os dez anos em que dei aula de Língua Portuguesa e de Tradução Literária numa pós-graduação da extinta Universidade Gama Filho. Eram já mais de 30 anos de estudos gramaticais aprofundados, necessários para uma carreira de tradutor que já me fez verter à nossa língua mais de 300 livros, uns 100 deles de alguma importância. Com efeito, não é possível escrever tanto em nossa língua, vertendo tantos autores importantes e de quatro idiomas, sem conhecê-la radicalmente, ou seja, até a raiz. A Suma Gramatical, portanto, é a suma, a súmula de meus estudos gramaticais durante toda uma vida de tradução.

Para que tipo de leitor está voltada a Suma Gramatical da Língua Portuguesa?
RESPOSTA. Para um público culto ou que queira aprender efetivamente a arte da escrita em língua portuguesa – e não a um público que queira tão somente aprender macetes para aprovar-se em concursos, e que, depois destes, aprovando-se ou não, acaba por esquecer os mesmos macetes. E ensinar efetiva e profundamente a arte da escrita em nossa língua (como, aliás, em qualquer outra) implica não só oferecer regras e paradigmas de abrangência o mais ampla possível, evitando quanto possível as exceções, mas também mostrar as luzes teóricas por que se rege e ilumina esta mesma arte. Como dizia o gramático venezuelano Andrés Bello, “a prevenção mais desfavorável [...] é a daqueles que julgam que em gramática as definições inadequadas, as classificações malfeitas, os conceitos falsos carecem de inconveniente, desde que, por outro lado, se exponham com fidelidade as regras a que se conforma o bom uso. Eu creio, contudo, que essas duas coisas são inconciliáveis; que o uso não pode expor-se com exatidão e fidelidade senão analisando os princípios verdadeiros que o dirigem, porque uma lógica severa é indispensável requisito de todo e qualquer ensino”. E é justamente por todo o dito que esta Suma Gramatical se diz gramática avançada.

De que forma sua formação em filosofia e sua ampla experiência como tradutor, professor e lexicógrafo contribuíram para a elaboração da Suma?
RESPOSTA. A formação em filosofia permitiu-me, creio, justamente mostrar aquelas luzes pelas quais se rege a gramática, e fazê-lo com rigor lógico e conceptual. A experiência de tradutor de grandes autores permite-me, creio, escrever com clareza, ainda quando se trata das partes mais teóricas, e com estilo harmônico, rítmico, fluido. A de lexicógrafo propicia-me abundância, flexibilidade e precisão vocabulares, além de intimidade com a etimologia. E a de professor, quero crê-lo ainda, a facilidade didática geral.  

Qual é a abordagem teórica da obra?
RESPOSTA. Não é fácil resumi-la, mas tentarei. Sem a escrita, não há verdadeira civilização universal ou tendente à universalidade. Isso é assim porque a fala, por fatores múltiplos, tende à entropia, à desordem, à corrupção, e a escrita é como o cimento da linguagem, razão por que tende a falar bem aquele que escreve bem. Ora, a gramática é exatamente a arte da escrita. Mas, para atingir mais plenamente seu fim, a gramática deve, como dito, reger-se por sólidas luzes teóricas e fornecer paradigmas e regras o mais abrangentes possível, com o mínimo possível de exceções. 

Professor, para finalizar, qual seria a sua resposta àqueles que ainda se perguntam: Para que serve a gramática?
RESPOSTA. Em última instância, como antedito, para manter viva a civilização, a mesma civilização em cuja língua, como disse Bilac, “da voz materna ouvi: ‘meu filho’”.



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domingo, 19 de julho de 2015

Pré-venda da Suma Gramatical da Língua Portuguesa, de Carlos Nougué

Queridos leitores,

É uma grande satisfação retomar as publicações no blog com esta grande notícia!


Acaba de ser colocada à disposição, pela editora É Realizações, em pré-venda, a Suma Gramatical da Língua Portuguesa, obra de Carlos NouguéProfessor de Filosofia, de Tradução e de Língua Portuguesa. Tradutor de Filosofia, Teologia e Literatura (do francês, do latim, do espanhol e do inglês). Lexicógrafo. Ganhador do Prêmio Jabuti de Tradução/1993 e Finalista do Prêmio Jabuti/2005 pela tradução de D. Quixote da Mancha, de Miguel de Cervantes (edição oficial do Quarto Centenário da edição princeps). Já traduziu autores como Cícero, Santo Agostinho, Santo Tomás de Aquino, G. K. Chesterton, Louis Lavelle, Xavier Zubiri. Atualmente dá cursos on line de Gramática e de Filosofia Tomista.

Suma Gramatical da Língua Portuguesa é uma gramática com dois importantes diferenciais: tem amparo em escritores não literários e fundamento filosófico, dirigindo-se tanto ao interessado em conhecer melhor sua própria língua, quanto ao estudioso que pode beneficiar-se de uma abordagem teórica pouco comum. um gramático de sólida formação aristotélico-tomista, ou seja, um autor firmemente comprometido com o rigor lógico, com a precisão conceitual e com a clareza da linguagem.


É uma grande obra que, sem dúvida alguma, não deve faltar na biblioteca do tradutor e de todo aquele que se preocupa em conhecer melhor e preservar sua própria língua.

Não perca esta oportunidade de enriquecer sua biblioteca, aproveite o preço módico de pré-venda e faça já seu pedido!


Pré-venda da Suma Gramatical da Língua Portuguesa - Gramática Geral e Avançada