terça-feira, 28 de outubro de 2014

Como calcular o prazo de entrega de uma tradução?



Hoje vamos falar de um fator fundamental num projeto de tradução: o prazo de entrega.



Primeiro: Quem define o prazo de entrega?



Num mundo onírico em que serafins e unicórnios convivem amigavelmente, os tradutores estabelecem o prazo de entrega; no mundo real, não. Na maioria das vezes é o cliente ou a agência que definem o prazo.

Mas suponhamos que você tenha o privilégio de calcular o prazo, como o faria?

Deixe a calculadora científica de lado, o cálculo não é tão complexo…



Um ponto importantíssimo é que nunca, jamais, em hipótese alguma, deve dar-se um prazo sem antes olhar o documento ou sem ao menos saber de que se trata. Não faça isso, do contrário estará cavando a própria cova, ou dando tiro no pé, atitudes indesejadas por qualquer profissional em sã consciência.



Aspectos que devemos considerar ao calcular o prazo:



O número de palavras do projeto


Todo profissional deve conhecer seus limites. A produtividade de cada tradutor varia de acordo a uma série de fatores: o nível de domínio dos idiomas, a familiaridade com o assunto a traduzir, o uso ou não de ferramentas CAT, a destreza para digitar, etc. Mas acredito que independentemente desses fatores é possível estabelecer uma média saudável, algo entre 400 e 500 palavra por hora. Isto para evitar lesões por esforço repetitivo, estresse, taquicardia, sudorese, insônia, etc. Afinal, não somos Clark Kent para sair por aí desafiando as leis da física e do universo.



O formato do arquivo


Este ponto também é importante e faz toda a diferença. Você pode ter muita habilidade para lidar com o Word, mas ser um zero à esquerda com planilhas ou apresentações. Além disso, para os tradutores do par português<>espanhol, por exemplo, faz toda a diferença receber um texto editável que permita aproveitar as inúmeras palavras que se escrevem exatamente igual nas duas línguas, que receber uma imagem digitalizada, cujo texto terá de ser traduzido integralmente. Isso sem contar que a revisão neste caso levará muito mais tempo, já que será necessário cotejar os dois textos minuciosamente para verificar se não houve a supressão de algum trecho.



O grau de complexidade do projeto


Este ponto se refere à especificidade terminológica, à necessidade de pesquisa especializada e ao estilo do texto. Cada tradutor tem suas especialidades e habilidades, alguns traduzem mais rapidamente finanças que física, há os que preferem a linguagem informal, outros se sentem à vontade traduzindo textos acadêmicos. Cada um conhece seus pontos fortes e fracos e deve considerá-los na hora de calcular prazos.


Tendo em conta esses referenciais, é possível calcular um prazo plausível. Não se esqueça de deixar um prazo extra para revisão e nunca estabeleça um prazo sem ter certeza de que será capaz de cumpri-lo.

(Graças a Deus você está aqui - eu não consigo fazer nada sem ter um prazo)
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10 dicas importantes antes de aceitar um projeto de tradução

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Reflexão


Busquemos inspiração nas crianças, que, num passe de mágica, conseguem transformar um punhado de sementes de dente-de-leão num grupo de diminutos paraquedistas

Significado do termo "redada" em espanhol



A palavra de hoje, “redada”, substantivo feminino que deriva da palavra “red” e está ligado ao verbo “redar”, que significa lançar a rede de pesca. Esta é uma palavra que adquiriu um significado metafórico, já que hoje em dia não se restringe ao âmbito da pesca, pois costuma aparecer nas manchetes de jornais ligadas às notícias policiais.



O termo “redada” atualmente refere-se à operação policial que tem como objetivo prender um conjunto de pessoas. Ou seja, a rede é lançada para pegar vários infratores de uma vez. Nos dias atuais, esses infratores em grande parte das vezes são políticos que, em lugar de defender os direitos do povo, dedicam-se a encher os próprios bolsos.



Veja a manchete da versão on-line do jornal espanhol El País:






Polvos inescrupulosos que estendem seus tentáculos para roubar nossos bolsos, tubarões famintos, rêmoras parasitas... Redada neles!



Algumas correspondências do termo redada em português: “batida policial”, “operação policial”, “blitz”, etc.

 Ao procurar uma imagem na rede para ilustrar esta publicação, encontrei dois filmes que têm a palavra redada no título.

Como não assisti a nenhum dos dois, não posso recomendá-los, mas sem dúvida alguma eu daria uma chance ao filme francês, de 2010, baseado na invasão de Paris pelos nazistas e da redada que eles realizaram para capturar judeus. Sempre prefiro um drama, um filme que me emocione e que transmita alguma mensagem, a um desses filmes de ação que se resumem a tiroteios e explosões e que no final você se pergunta "de que se tratava mesmo este filme?". 

Desculpem meu preconceito, mas acho que esse é o caso do filme indonésio, em que um único agente da polícia lança sua rede para desbaratar sozinho toda uma quadrilha de gângsteres (e não gângsters, como se vê por aí) sem sofrer um arranhão (fuja!). 

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Como trabalhar poesia na aula de espanhol?



Ensinar uma língua estrangeira não consiste apenas em ensinar o idioma, envolve também o contato com a cultura dos países que falam esse idioma. É importante que o aluno saiba que, ao aprender uma língua estrangeira, ele não somente aprenderá a se comunicar em outro idioma, mas que também enriquecerá sua cultura e desenvolverá uma nova visão de mundo, pois cada cultura tem uma forma própria de compreender e expressar a realidade.



Neste artigo proponho o uso de um poema como recurso didático. O professor pode explorar este recurso de diversas formas, conforme a faixa etária e o nível de proficiência da turma.


Há muitas formas de trabalhar um poema: 

  • trabalhar a questão lexical: procurar o significado de palavras novas no dicionário, procurar a origem de algumas palavras, identificar palavras com sentido metafórico, etc.; 
  • trabalhar a compreensão e interpretação do poema; 
  • pesquisar sobre o autor e o contexto histórico em que se produziu a obra; 
  • discutir a intertextualidade da obra, isto é, o diálogo desta com outras obras, ou ainda, com a realidade; 
  • discutir temas relacionados como por exemplo a pirataria ou as personagens marginalizadas nos dias atuais; 
  • pesquisar as características da escola literária a que pertence o poema (neste, caso o romantismo);  
  • adaptar o poema a outros formatos (quadrinhos, peça teatral, conto, etc.);
  • trabalhar questões gramaticais; 
  • trabalhar a estilística: figuras de linguagem, função da linguagem, métrica, etc.
  • trabalhar com recursos tecnológicos: pedir aos alunos que elaborem uma apresentação, que gravem um vídeo, que elaborem uma página na internet, etc.
  • produção textual: pedir ao aluno escreva tendo como inspiração o poema estudado.
Enfim, há infinitas formas de abordar um poema.


Neste artigo, sugiro um dos poemas mais célebres do romantismo espanhol: Canción del pirata, poema escrito por José de Espronceda e publicado por primeira vez na revista El Artista em 1835, aparecendo novamente em Poesías (1840). Este poema exalta um pirata como exemplo de personalidade que vive às margens da sociedade, desprezando as convenções sociais e os bens materiais. O protagonista tem como ideal máximo a liberdade.



Canción del pirata
José de Espronceda


Con diez cañones por banda,
viento en popa, a toda vela,
no corta el mar, sino vuela
un velero bergantín.
Bajel pirata que llaman,
por su bravura, el Temido,
en todo mar conocido
del uno al otro confín.

La luna en el mar riela,
en la lona gime el viento,
y alza en blando movimiento
olas de plata y azul;
y ve el capitán pirata,
cantando alegre en la popa,
Asia a un lado, al otro Europa,
y allá a su frente Estambul:

«Navega, velero mío,
sin temor,
que ni enemigo navío
ni tormenta, ni bonanza
tu rumbo a torcer alcanza,
ni a sujetar tu valor.

Veinte presas
hemos hecho
a despecho
del inglés,
y han rendido
sus pendones
cien naciones
a mis pies.

Que es mi barco mi tesoro,
que es mi dios la libertad,
mi ley, la fuerza y el viento,
mi única patria, la mar.

Allá muevan feroz guerra
ciegos reyes
por un palmo más de tierra;
que yo aquí tengo por mío
cuanto abarca el mar bravío,
a quien nadie impuso leyes.

Y no hay playa,
sea cualquiera,
ni bandera
de esplendor,
que no sienta
mi derecho
y dé pecho
a mi valor.

Que es mi barco mi tesoro,
que es mi dios la libertad,
mi ley, la fuerza y el viento,
mi única patria, la mar.

A la voz de «¡barco viene!»
es de ver
cómo vira y se previene
a todo trapo a escapar;
que yo soy el rey del mar,
y mi furia es de temer.

En las presas
yo divido
lo cogido
por igual;
sólo quiero
por riqueza
la belleza
sin rival.

Que es mi barco mi tesoro,
que es mi dios la libertad,
mi ley, la fuerza y el viento,
mi única patria, la mar.

¡Sentenciado estoy a muerte!
Yo me río;
no me abandone la suerte,
y al mismo que me condena,
colgaré de alguna antena,
quizá en su propio navío.
Y si caigo,
¿qué es la vida?
Por perdida
ya la di,
cuando el yugo
del esclavo,
como un bravo,
sacudí.

Que es mi barco mi tesoro,
que es mi dios la libertad,
mi ley, la fuerza y el viento,
mi única patria, la mar.

Son mi música mejor
aquilones,
el estrépito y temblor
de los cables sacudidos,
del negro mar los bramidos
y el rugir de mis cañones.

Y del trueno
al son violento,
y del viento
al rebramar,
yo me duermo
sosegado,
arrullado
por el mar.

Que es mi barco mi tesoro,
que es mi dios la libertad,
mi ley, la fuerza y el viento,
mi única patria, la mar.»


É recomendável utilizar recursos audiovisuais ou Internet para que a aula seja mais envolvente e dinâmica. Seguem abaixo, algumas versões interessantes em áudio do poema Canción del Pirata:


domingo, 19 de outubro de 2014

II Encontro de Tradução de Espanhol do Rio de Janeiro



Clique aqui para acessar a página no Facebook

06/11/2014, das 8h30min às 17h, na 

Universidade Federal Fluminense, 

Campus Gragoatá, Blocos B e C, 

Niterói, RJ. 

Inscrições abertas! 

Envie seu nome completo e data de nascimento para 

o e-mail: 

encontrodetraducao.espanholrj@gmail


Destaque para a palestra de abertura com o 

professor e tradutor, Carlos Nougué.



Outras participações confirmadas:

Minicurso "Estratégias de tradução: estrangeirizar 

e/ou domesticar?" oferecido pela Carolina Paganine

Larissa Magalhães Costa também falará um pouco 

mais sobre a Audiodescrição.


Não percam!!!

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

O que fazer ao deparar com um texto "cabeludo"

Você já deve, em algum momento, ter deparado com um texto “cabeludo” ao estilo garoto-propaganda da Friboi… Quando digo “texto cabeludo”, refiro-me àquele tipo de texto intrincado, confuso e embaraçado, cujo significado é impossível “descriptografar”. E não venham me dizer que o bom tradutor tem a obrigação de desvendar as intenções do autor, porque há textos cabeludos que nem Nostradamus conseguiria decifrar. Tradutor tem bola de cristal?

Para começar, a interpretação é apenas um dos aspectos textuais, porque o texto é como nossa pele: composto de várias camadas. Seguindo a analogia da pele, a camada mais superficial, ou seja a "epiderme" do texto corresponderia à forma, à letra; isto é, aos elementos mais evidentes, tais como: ortografia, pontuação, concordância, regência, sintaxe, terminologia, etc. O tradutor deve cuidar bem da “epiderme” do texto, eliminando as “células mortas”, os indesejáveis “pelos” (que falta faz aqui o acento diacrítico!) e outras impurezas que comprometam a aparência textual.

A seguir, encontra-se a derme, que por sua vez, subdivide-se em duas camadas: a camada papilar e a camada reticular. A camada papilar, camada logo abaixo da epiderme, possui projeções que se encaixam na epiderme. Seguindo a analogia, a “camada papilar” do texto corresponderia à estruturação textual: a divisão dos parágrafos e a forma como eles se encadeiam, os mecanismos de coesão, as referências (dêixis), etc.

A camada reticular é a camada mais espessa da pele e é constituída por tecido conjuntivo mais denso; logo, mais difícil de penetrar. A “camada reticular” do texto corresponderia à significação e à intertextualidade. Não vou discorrer aqui sobre como se dá o processo de interpretação. Evidentemente, a tradução envolve interpretação. Entretanto, apesar de esta ser uma atividade subjetiva, há um limite. Há quem afirme inclusive que as possibilidades de interpretação são infinitas. Mas isso significa que qualquer interpretação é válida?

O tradutor não pode entrar na cabeça do autor para descobrir suas intenções, por isso ele deve ter como parâmetro a literalidade do texto. Estou falando aqui de textos informativos, em que predomina a linguagem denotativa. Nos textos literários, a questão é bem mais complexa devido à própria natureza do texto literário, onde a linguagem extrapola o sentido comum.

Quando digo que o tradutor deve ater-se à literalidade do texto, refiro-me a que ele deve traduzir, por exemplo, “paloma blanca” ou “white dove” ao português como “pomba branca” e não por “paz”, porque aí ele já estaria entrando no terreno arriscado e movediço da metáfora.  Uma sobreinterpretação é aquela que não respeita os princípios de economia textual. Um exemplo, fornecido por Umberto Eco, seria a tentativa de se atribuir ao termo “gay” na frase de Wordsworth, “A poet could not but be gay”, uma conotação sexual. Agir assim seria desrespeitar o mundo possível da obra e o sistema lexical de seu tempo.

Por último, abaixo da derme, encontramos o tecido subcutâneo, conhecido também como tecido adiposo. Em outras palavras, o “tecido adiposo”, ou seja, a gordura do texto, corresponderia a tudo aquilo que sobra no texto e obscurece seu significado. Devemos cuidar para que o texto final seja enxuto.

Mas voltando à questão inicial “O que fazer ao deparar com um texto cabeludo”? Eu diria que se os problemas se restringirem às camadas mais externas do texto, ainda será possível realizar a tradução, desde que se obtenha a autorização prévia do autor ou gerente do projeto para “depilar” o texto “cabeludo”, acordando antecipadamente o valor deste serviço, é claro. 
Porém se o problema se encontrar na camada da significação, aí o problema é mais grave: é “pelo encravado”. Eu recomendaria negar o trabalho, já que o texto final será atribuído ao tradutor. 
Afinal, é melhor rechaçar um texto cabeludo que correr o risco de, ao tentar traduzi-lo, perder os cabelos.