quinta-feira, 19 de novembro de 2015

"Ajó" ou "gugu dadá"?


Recentemente quando estive na Espanha para conhecer minha sobrinha de apenas quatro meses, durante uma conversa com minha irmã — agora já não me lembro se em meio a fraldas, banho ou passeio —, enquanto minha sobrinha dava seus primeiros balbucios e nós nos derretíamos, chegamos ao “papo-cabeça” sobre as onomatopeias que representam o som dos bebês e percebemos como variam de um idioma a outro. Na Espanha, para representar o balbucio dos bebês em balõezinhos de revistas e semelhantes, usa-se “ajó”, “ajo” ou “agú”; no Brasil, a onomatopeia mais frequente é o “gugu dadá”.

Eis a entrada no dicionário da RAE:
ajo3
Tb. ajó.
1. interj. U. para acariciar y estimular a los niños para que empiecen a hablar.

Ambas concordamos que a onomatopeia brasileira, gugu dadá, é bem mais fofa. O fato é que na hora eu pensei “isso dá um artigo para o blog” e cá estou, tentando desenvolver o assunto…
Afinal, quem resiste a essas coisinhas superfofas, rechonchudas e sorridentes quando começam a emitir seus primeiros sons? Mas, cá entre nós, alguém já viu alguma vez um bebezinho dizer “ajó” ou “gugu dadá”?

Acho que isso está mais para os adultos, afinal, quando falamos com os bebés, em meio a piruetas e caretas, ficamos como bobos: “aua” (água), “nham-nham” ou “papá” (comer), “uau-uau” (cachorro), “piu-piu” (passarinho), “brum-brum” (carro), “miau-miau”, etc. Isso quando os pais não viram verdadeiros abobados “neném qué totolate?”, chega a ser cômico, para não dizer patético. Pobres bebês!

Pesquisando na rede encontrei um vídeo divertido, da Agência Publicis Conseil para a Guigoz com o título “Let’s Talk Baby”, que brinca com a linguagem dos bebês. Os sons emitidos pelos pequenos viram frases bem-boladas que conseguem um efeito cômico. A mensagem da é: “Você precisa entender os bebês para entender suas necessidades”.

Fonte: youtube

Tradução dos diálogos do vídeo:
hands on the wheel please = Mãos ao volante, por favor

both hands = ambas as mãos

If we crash, it´s on your head = Se batermos, está sobre sua cabeça (sua responsabilidade)

Guys, you´re really freaking me out here = Pessoal, vocês realmente estão me deixando doido aqui.

Seriously, I´m gonna have nightmares = Sério, vou ter pesadelos

Somebody, help me, please = Alguém me ajude, por favor

It´s a duck, Dad = É um pato, pai

Pathetik = Patético

Mom this is funny… but I have to… To late, sorry = Mãe, isso é divertido… mas eu tenho… Tarde demais, desculpe.

You think she understand us? = Você acha que ela nos entende?

Doubt it! = Duvido!

Go on, say something = Vai, diz alguma coisa

I´m na airhead = Eu sou um cabeça oca

I could do this all day = Eu poderia fazer isso o dia todo

You have to understand babies to understand their needs = Você tem que entender os bebês para entender suas necessidades.

Ao navegar pela internet, descobri, também, o método Dunstan, ou Dunstan Baby Language, que ensina os pais a reconhecerem as necessidades básicas de seu bebê recém-nascido, graças a uma linguagem universal baseada em reflexos naturais que todos os seres humanos possuem, independentemente de raça ou de idioma. Pena que descobri isso um pouco tarde, pois meus filhinhos já cresceram e agora o que eu preciso é interpretar as gírias dos adolescentes.

Esse sistema foi descoberto por uma australiana chamada Priscilla Dunstan, que observou como seu bebê emitia determinados sons antes de começar a chorar. Segundo ela, os bebês emitem cinco sons concretos que revelam necessidades básicas como comer ou dormir, ou o desconforto da criança por algum motivo (calor ou frio, gases, fralda suja, etc.):

Fonte: http://www.webconsultas.com
Neh ou na = significa que está com fome. 
UO ou au = quando está com sono ou cansado. 
Je = (o jota é sempre muito suave) desconforto por algum motivo (postura, temperatura, fralda suja, etc.).
Eh o ej = quando precisa arrotar.
Eairh ou eairj (as últimas duas letras se prolongam) = significa que está com gases ou dores abdominais.

Eu já havia finalizado esta entrada quando minha irmã me enviou um link para o artigo "¿Por qué los bebés dicen 'ajo'?", publicado no site www.todopapas.com.

Segundo essa publicação, na fase pré-linguística, o arrulho, universal e comum a todas as línguas, o som predominante é vocálico. Embora seja diferente da pronunciação de um adulto, é possível reconhecer uma mistura de a e e que resulta num . Posteriormente, aprecia-se a primeira consoante, resultante da combinação dos fonemas /k/, /g/ e /x/, o que produz uma espécie de j. [Observação: em espanhol, o fonema jota é classificado como fricativa velar surda /X/, simplificando, semelhante ao erre carioca aspirado de porta /poXta/].

A próxima etapa é a do balbucio. Aparece aproximadamente aos 5 ou 6 meses. Ao longo desta fase, a criança começa a descobrir que pode emitir sons e não demora a unir os fonemas que é capaz de produzir. Assim, quando junta a vogal com a consoante, surge o característico "ajo" /aXo/ dos bebês. Ao tomar consciência de sua nova habilidade, o bebê tentará reproduzir tudo o que ouve, aperfeiçoando sua vocalização e formando as primeiras sílabas isoladas "aje", "ago", "agu"...

Para ver o artigo na íntegra, clique aqui.

Para ver as vozes e onomatopeias de animais em espanhol, clique aqui.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Resenha da Suma Gramatical da Língua Portuguesa, de Carlos Nougué

Queridos leitores:

Há alguns dias não publico nada, estive compenetrada na leitura da Suma Gramatical da Língua Portuguesa, de Carlos Nougué, e agora que terminei, aqui estou para registrar minhas impressões.

Primeiramente devo confessar que, aos 41 anos de idade, é a primeira vez que leio cabalmente uma gramática, e quando digo cabalmente, digo-o no sentido literal: sinopse na sobrecapa, informações editoriais, dedicatória, apresentação, prólogo, agradecimentos, dados do autor, notas de rodapé, tudo mesmo.

Vocês pensam que foi uma tarefa árdua?

Não mesmo! Li-a com o mesmo prazer com que li muitos clássicos da literatura, saboreando cada palavra, tentando apropriar-me de cada informação e de cada exemplo primorosamente escolhidos. O texto em si, já é uma lição de elegância e de clareza, dois aspectos importantíssimos a qualquer obra, sem esquecer o caráter didático. Quando digo didático, não me refiro a explicações reducionistas, a macetes tão fáceis de decorar quanto de esquecer, mas a explicações detalhadas, com sólida fundamentação teórica, a analogias usadas no intuito de facilitar a compreensão dos assuntos mais complexos.

Um dos diferenciais desta obra é seu cunho filosófico, guiado pela racionalidade, pela lógica, e não pela intuição ou pela preferência dos falantes, ou ainda, pelos cânones literários.  Outro diferencial é a defesa da norma sem qualquer melindre, pois este é o fim da gramática: o de normatizar a escrita e, consequentemente, a fala, a fim de que a comunicação possa dar-se de forma correta e eficiente. Para que o homem possa comunicar com exatidão aquilo que pensa e sente, e para que possa compreender o que lê e ouve.

Apesar de ser normativa e de defender a tradição, o autor discrepa em alguns pontos com outros gramáticos; porém, quando o faz, justifica-o com sólidos argumentos, como também reconhece que há controvérsias em que não é possível chegar a uma solução única e incontestável, quando se trata de uma “fronteira turva”, usando suas próprias palavras.

Como arte estritamente normativa, as normas são dadas na tentativa de estabelecer limites, tendo em vista o fechamento de paradigmas com a formulação de regras o mais abrangentes possível e evitando, quando possível, as exceções. A exposição do conteúdo segue uma ordem lógica e sequencial, assim, expõe-se primeiramente a definição, por exemplo, dos pronomes, a seguir, sua classificação e função sintática como complementos verbais e, finalmente, sua ordenação a um uso correto, por exemplo, na colocação pronominal. Alguns assuntos são abordados em diversas partes do livro, seguindo um modelo helicoidal ou espiral, que permite retomar um assunto sempre que for conveniente.

Em minha opinião, são pontos fortes da obra: na parte que trata da formação das palavras, a tentativa de distinção entre palavra composta por justaposição e locução; na parte que trata das classes gramaticais, a explicação sobre a relação entre substantivos e adjetivos, por exemplo, quando o substantivo se usa em lugar de adjetivo; ainda na parte das classes gramaticas, a explicação dos pronomes é riquíssima, sobretudo a dos pronomes relativos; também a dos verbos e a das vozes verbais, onde se faz uma distinção importantíssima entre figura e significado que permite uma visão mais ampla e profunda das funções das palavras. Toda a parte da sintaxe é muito elucidativa. Outro ponto altíssimo é a parte que trata da concordância verbal, bem como a que trata do uso da vírgula. Enfim, é difícil e injusto destacar somente alguns pontos.

Sem dúvida alguma, é uma obra que deve estar sempre à mão daquele que se preocupa em falar e escrever corretamente de modo a preservar nossa língua. E àqueles que acreditam que a língua é com um rio, puro fluxo, que deve fluir sem regras que a dirijam, e que ainda se perguntam: para que a gramática?, eis a resposta do autor:

“Para fazer que nossa língua seja rio, sim, mas rio que graças aos diques e ao curso que lhe demos ajude a atingir a foz da Sabedoria”.

Assim, ao contrário do que se diz, a gramática não está aí para oprimir ninguém, muito pelo contrário, é mediante o uso correto da língua que as pessoas podem ter acesso igualitário ao conhecimento e que podem fazer entender-se claramente, sem ruídos ou ambiguidades. Afinal, de que vale ter voz e não ser compreendido?

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Tradução bizarra resulta em "Festival do Clitóris"

Boa tarde, meus queridos leitores!

Estava eu, aqui, pensando no que escrever, fazendo uma retrospectiva sobre os últimos artigos publicados: história da língua espanhola; origem e significado da expressão “¡hala!”; 13 autores notáveis da literatura hispano-americana; palavras truncadas em espanhol; lenda urbana sobre tradução automática...

—Vocês pensam que é fácil ter ideias? — Não é, não.

Sempre procuro diversificar; intercalar artigos mais sérios com outros mais leves. Há dias em que as ideias fluem naturalmente; mas, na maioria das vezes, não é assim. Ontem, por exemplo, foi um dia em que eu não sabia sobre o que escrever. Como era o aniversário de minha sobrinha, procurei algum vídeo engraçadinho para mandar pelo “zapizapi” e encontrei um vídeo dos minions — os bonequinhos amarelos do desenho Meu Malvado Favorito — nesse vídeo, os bichinhos cantavam uma musiquinha chiclete supermegaultrairritante chamada banana, que ficou em minha cabeça pelo restante do dia. Posso até imaginar a alegria de minha cunhada ao atender os pedidos de minha sobrinha: “de novo, de novo”.



Bom, a questão é que, ao procurar pelo vídeo dos amarelinhos, acabei descobrindo algumas coisas interessantes e algumas bobagens também. Para começar, eles têm uma língua própria, o “minionês” ou idioma banana, criada pelo próprio animador e que mistura termos de inúmeros idiomas. Achei interessante o fato de que, ao dublar os filmes para outros países, tenha sido necessário substituir algumas palavras que soavam ofensivas nesses países (http://www.revistagq.com/actualidad/cine/articulos/diccionario-minion/22185.)

Quanto às bobagens relacionadas aos minions que circulam na Internet, a principal delas, e que provocou milhares de buscas e comentários nas redes, foi a teoria da conspiração que tentava criar uma relação macabra entre os amarelinhos e o nazismo, afirmando que o desenho estaria baseado nas crianças que foram vítimas de experiências nos campos de concentração. Uma associação muito macabra, mas que despertou a curiosidade de milhares de internautas.

Aonde quero chegar com tudo isso? A que ontem não publiquei nada disso, porque achei que não tinha nada que ver com tradução e que parecia apelação, etc. e tal; e hoje, meus princípios foram para as cucuias: primeiro, porque acabei falando disso do mesmo jeito e, segundo, porque vou apelar com uma notícia que tem todos os temperos para atrair internautas: bizarrice e palavras tabus.  O quê??? Vocês estão achando que sou inconstante, contraditória?? Eu tenho culpa de ser geminiana-uraniana com ascendente em leão? A culpa é das estrelas...

Agora é tarde, lá vai...

Depois veremos se a fórmula “bizarrice + palavras tabus = milhares de acessos” está correta. Mas que fique bem claro que não estou preocupada em obter milhares de acessos de meros curiosos, o que importa para mim é a assiduidade de meus fiéis e queridos leitores! (ganhei um like?).

Minha nossa, agora eu vi que geminiano é prosador... desculpem!

A notícia bizarra foi publicada em vários jornais. Desta vez não é lenda urbana nem teoria da conspiração, é “verdade verídica”!

O fato ocorreu na cidade As Pontes, localizada em Galiza, na Espanha. Para divulgar a “Feira do Grelo” — um tipo de folhas, rebentos ou brotos de nabos, típico da culinária galega — a prefeitura publicou a notícia em sua página, originalmente em galego, e esta foi traduzida automaticamente ao espanhol pelo Google Translate. O tradutor automático confundiu galego com português e, assim, o nome da hortaliça apreciada em Galiza e Portugal, foi trocado pelo vocábulo português atribuído a uma parte da genitália feminina e o resultado foi a divulgação do “Festival de Clítoris”.

Grelos de nabo
Fonte: Wikipedia

O texto, traduzido ao espanhol, era o seguinte: “El clítoris es uno de los productos típicos de la cocina gallega. En Puentes homenaxéaselle desde 1981, todos los domingos de Carnaval, con rapini, Feria que, con el patrocinio del Consejo de Puentes, de apoyo a los agricultores de la región, hace del clítoris uno de los productos estrella de la gastronomía local”. A notícia ficou on-line durante semanas até alguém reparar. A prefeitura analisa a possibilidade de processar a Google, no entanto, o festival nunca alcançou tamanha repercussão.

OBSERVAÇÃO: é claro que agora não adianta fazer o teste no tradutor automático, porque depois de tanto rebuliço o problema já foi ajustado. Agora, se você selecionar o par de idiomas português > espanhol e escrever "feira do grelo", vai aparecer "grelo Feria", convenhamos que ainda não é o resultado correto, mas melhorou, não?

E logo abaixo da caixa de pesquisa, aparecerá a seguinte definição:

Definições de grelo
substantivo
Brote tierno de los tallos del nabo que se consume como verdura u hortaliza.
el lacón con grelos es un plato típicamente gallego .

http://aspontes.org/productos-locales/

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

História da língua espanhola

Origem e evolução do Castelhano

O castelhano é uma língua românica cuja origem se encontra na evolução do latim vulgar, falado na península ibérica a partir do século III a.C. No entanto, conta com vestígios de línguas pré-romanas, faladas por povos que habitavam a península antes do processo de romanização: o chamado substrato ibero, celta, fenício, ligur. As línguas desses povos acabaram desaparecendo com sua incorporação à cultura latina, que se impôs como majoritária, com exceção do vasco, ou euskera, que manteve sua estrutura alheia ao processo de romanização. Algumas palavras que ficaram fossilizadas procedentes desses povos primitivos são: abedul, álamo, tarugo, barranco, braga, arroyo...



A maior parte da gramática, sintaxe e léxico da língua espanhola, procede do latim falado e, em menor medida, do latim culto. Poderíamos dizer que nossa língua é quase em sua totalidade uma evolução ou, melhor, uma progressiva corrupção da língua latina. Do mesmo modo que outras línguas românicas esta corrupção deu lugar a diferentes variantes em diferentes regiões mais ou menos distantes da capital, Roma, e segundo a classificação clássica das línguas românicas, é uma língua do subdomínio ocidental, e junto com o catalão, o galego, o português, e o ocitano, entre outras, pertence ao grupo das línguas ibero-românicas.

http://leerycrear.wikispaces.com/ORIGEN+DEL+CASTELLANO


Na alta Idade Média, as invasões de povos germânicos: vândalos, suevos, alanos e visigodos, deixaram certas palavras residuais na língua espanhola, embora sua influência não tenha sido muito notória na evolução geral do idioma. Os germanismos que permaneceram são: albergue, guerra, ganar, robar, rico, fresco, blanco, ropa, entre outros.

Do período árabe, conta-se com um importante corpus de palavras, além do dialeto mozárabe, que foi falado em uma grande quantidade de territórios, destes quase 8 séculos de convivência (711-1492). Assim ficaram palavras como: mazapán, albaricoque, alcachofa, alubia, aceite, algodón, taza, alcantarilla, albañil, azotea, azúcar, algodón, azul, almacén, cifra, alcohol, e muitos mais.

Dessa etapa medieval conservam-se obras de grande importância cultural, como as obras de Alfonso X, o Sábio, obras épicas como o Cantar de Mío Cid (1140), primeira obra conservada da literatura espanhola, e lírica castelhana e galaico-portuguesa. Cabe mencionar também um importante grupo de obras do Méster de Clerecía. Sabe-se que existiu uma grande tradição oral formada por poesia épica narrativa, canções de gesta e outras manifestações dos juglares (trovadores) hoje em dia perdidas ou parcialmente recopiladas.

Do período pré-renascentista conservam-se obras de autores como Juan de Mena, o Marquês de Santillana, de carácter latinizante, e outros autores de teatro, de característica mais popular. A obra mais importante dessa época é La Celestina, de Fernando de Rojas.

A formação do espanhol clássico

Em 1492, os reis católicos decidem expulsar da península ibérica todos aqueles que não se convertam ao cristianismo: árabes, judeus e demais minorias étnicas, acabando assim com um período de coexistência cultural de quase 8 séculos. Em seu afã de unificar o território de seus respectivos reinos, que será a maior parte da península, decidem tomar uma série de medidas, entre as quais se encontra a unificação linguística, além da religiosa.

Assim, encomendam a primeira Gramática de la lengua Castellana a Antonio de Nebrija, que é considera a primeira gramática da língua espanhola sistematizada e formal, em 1492. Nesta obra, tenta-se, pela primeira vez, unificar certos critérios linguísticos como as grafias, alguns aspectos gramaticais e fixar o significado das palavras.

Já no Século de Ouro, aparece a obra considerada o segundo marco na fixação normativa do castelhano: El Tesoro de la Lengua Castellana, de Sebastián Covarrubias.

O desenvolvimento da literatura espanhola do período do séculos de Ouro (períodos do Renascimento e Barroco) com autores tão importantes como San Juan de la Cruz, Fray Luis de León, Miguel de Cervantes, Lope de Vega, Luis de Góngora, Francisco de Quevedo e Calderón de la Barca, entre outros, contribui para a fixação das letras no chamado período clássico.

O espanhol moderno

A criação da RAE, Real Academia Espanhola da língua, em 1713, por Juan Manuel Fernández Pacheco, e posteriormente a publicação, por esta instituição, do Diccionario de Autoridades (1726-39), constitui o germe da gramática moderna da língua espanhola, sendo esta instituição, desde então, a mais importante na fixação das normas que devem reger a língua espanhola.

Atualmente a RAE é integrada por acadêmicos cuja nomeação tem um caráter honorífico, tratando-se das mais relevantes personalidades no mundo das letras hispânicas, por suas conquistas como literatos, pesquisadores, docentes, lexicógrafos e suas respectivas contribuições para a difusão cultural da língua espanhola.

Outra missão importante da RAE consiste em regular a incorporação de novos termos, como são os empréstimos de outras línguas, adaptando sua grafia e seu uso às regras do espanhol.

A RAE dispõe de uma página web, www.dle.rae.es, na qual podem realizar-se diversas consultas lexicais e gramaticais: o dicionário, o dicionario de dúvidas, o corpus CREA e outras.

Tradução de uma parte do texto de autoria de Paula Salgado Reig, publicado no Portal Interuniversitario del Español.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Origem e significado da expressão "¡hala!" em espanhol

Esta pequena palavrinha tem diversas funções, seu significado varia e pode até mesmo ser contraditório, dependendo do contexto e da intenção do autor ou do falante. No texto, seu significado se deduz do contexto; na fala, fica mais fácil deduzir seu significado, pois podemos observar a expressão do falante e seu tom de voz. 

Assim como o nosso "puxa" ou "poxa", pode expressar tanto um sentimento positivo de admiração ou surpresa quanto um sentimento negativo de reprovação ou aborrecimento.


1. A interjeição ¡hala! (com voz paroxítona), usada principalmente na Espanha, para incentivar alguém a realizar uma ação, é mais um legado da cultura árabe e originalmente era usada para excitar os cavalos. Com esse sentido, pode ser traduzida ao português como "vamos", "anda".

Hala, vete vistiendo que llegamos tarde.

O novo hino do time do Real Madrid, por exemplo, titula-se "Hala Madrid y nada más" é o grito da torcida para animar seu time: ¡Hala Madrid!

fonte: www.futbol.as.com

2. Também se usa para denotar surpresa ou admiração, com esse sentido pode ser traduzida ao português como uau, eita, eta (êta), poxa, puxa.

¡Hala, qué bonito es esto!



3. Para censurar algo que causa aborrecimento. Com esse sentido, pode ser traduzida ao português como puxa, poxa, ora bolas, etc.

Pues si no te disfrazas, no vienes a la fiesta, hala.

4. Para expressar o caráter precipitado ou persistente de un fato. Com esse sentido, pode ser traduzida ao português como pronto, logo.

Llegó y, hala, se puso a colocar los libros sin orden ni concierto.
Y él, hala, venga a criticar a todo el mundo. 

5. A locução "hala, hala" denota a continuidade de uma ação:

Empezó a comer y, hala, hala, acabó con todo. 

Normalmente, escreve-se com agá, embora também seja válida a forma ala: «Pues, ala, empieza» (Hidalgo Hijas [Esp. 1988]). É voz paroxítona: [ála]. Para expressar surpresa ou admiração também se emprega a voz oxítona alá, escrita sem agá: Alá, mira cómo llueve. A forma ala é empregada em algumas regiões da Colômbia e da Venezuela como interjeição vocativa, para dirigir-se a alguém ou reclamar sua atenção.



Existe, ainda, a variante hale, que puede escrever-se também sem agá: «Pues hale, no perdamos tiempo» (Sierra Palomas [Esp. 1990]); «Ale, ale, póngase a escribir» (Sastre Kant [Esp. 1989]).



Fontes:

Diccionario Panhispánico de Dudas
Fundéu

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

13 autores notáveis da literatura hispano-americana

Primeiramente, quero dizer que esta é uma lista incompleta, certamente há muitos outros autores notáveis, mas a escolha é baseada no prestígio dos autores no meio literário e em meu limitado conhecimento. A maioria dos escritores aqui citados consta nos currículos dos cursos de Letras Língua Espanhola, ou seja são autores representativos para o estudo da literatura hispano-americana. Seus textos são cânones, isto é, modelos de produção escrita em língua espanhola. 

A expressão literatura hispano-americana refere-se à literatura escrita em língua espanhola pelos povos de México, América Central, América do Sul e as Caraíbas, por isso, não se incluem aqui autores brasileiros. 

Sua história, que começou durante na época dos conquistadores, no século XVI, pode ser dividida, sem grandes pormenores, em quatro períodos: o colonial, que é um adendo das literaturas dos colonizadores; o patriótico, que reflete os movimentos de independência iniciados no século XIX; o de consolidação, a partir de 1830, quando as formas neoclássicas do século XVIII deram passo ao romantismo, que dominou o panorama por quase meio século e o auge, durante a etapa de consolidação nacional que seguiu ao período anterior até que atingiu sua maturidade a partir da década de 1910, com o modernismo, afastando-se de um cânone literário especificamente europeu e chegando a ocupar um significativo local dentro da literatura universal. 

É habitual considerar que o momento de maior auge da literatura hispano-americana surge com o denominado boom, fenômeno literário e editorial que surgiu entre 1960 e 1970, quando o trabalho de um grupo de escritores relativamente jovens da América Hispânica (o colombiano Gabriel García Márquez, o peruano Mario Vargas Llosa; o argentino Julio Cortázar e o mexicano Carlos Fuentes, entre outros) foi amplamente distribuído pelo mundo todo.

Esses escritores desafiaram e superaram os convencionalismos estabelecidos na literatura de seus países através de obras experimentais, de afã totalizador, além de um marcado caráter político, devido à situação geral da América Latina naqueles anos.

Espero que esta lista os instigue a conhecer os textos desses autores, afinal, a literatura é um excelente meio para mergulhar na cultura e na língua estrangeiras!

ARGENTINA

Jorge Luis Borges (1899-1986)
Nascido em Buenos Aires, é um dos escritores mais importantes da Argentina e uma das figuras de destaque da literatura contemporânea do século XX. Cultivou diversos gêneros literários, centrando-se no ensaio, a narrativa e a poesia, demonstrando um perfeito domínio da língua castelhana. Em toda sua subjaz uma mensagem existencialista, quase filosófica. Criou um mundo fantástico, metafísico e totalmente subjetivo. Sua obra, exigente com o leitor e de não fácil compreensão, despertou a admiração de numerosos escritores e críticos literários do mundo todo. Entre suas principais obras, encontram-se El Aleph, Ficciones, El libro de Arena, Fervor de Buenos Aires e El idioma de los Argentinos.  

Julio Cortázar (1914-1984)
Em sua narrativa, reúne tanto a herança de Borges, Marechal e Macedonio Fernández como a de uma tradição europeia na linha da literatura fantástica surrealista. Seus melhores contos se encontram nos volumes Bestiario, Final del juego e Las armas secretas. Viveu grande parte de sua vida em Paris, cidade que o inspirou a escrever aquele que seria seu principal romance, Rayuela (O jogo da amarelinha), considerada por muitos sua obra mestra, influenciou os jovens narradores hispano-americanos. Fiel a seu caráter inovador, inclui um breve capítulo no início da novela, no qual o autor ensina ao leitor as diferentes maneiras de ler a obra. Alguns afirmam que essa forma de leitura seria a criação do “link”, presente atualmente nos textos eletrônicos.

CHILE

Isabel Allende (1942)
Tornou-se um dos maiores nomes da literatura latino-americana a partir da década de 1980, quando estreou no campo da ficção. As novelas que misturam mitos com personagens inusitados, combinando realidade e sobrenatural, alcançaram grande sucesso entre o público e a crítica. Entre seus livros destacam-se: La Casa de los Espíritus, De amor y de Sombra, Eva Luna, El Plan Infinito, Paula, Afrodita, La Hija de la Fortuna e Retrato en Sepia.


Pablo Neruda (1904-1973)
É considerado um dos melhores poetas do século XX. Publicou mais de trinta obras de poesia em vida, de entre as quais, destaca-se Veinte poemas de amor y una canción desesperada. Trata-se de uma recopilação de poesias que cantam o amor e o desamor com um inconfundível toque de nostalgia. Sua poesia é profundamente humana e oscila entre o romantismo doce e simples. Vê na mulher amada uma transfiguração da paisagem de rios e colinas.





COLOMBIA
Gabriel García Márquez  (1927 - 2014)
Considerado o pai do movimento literário realismo mágico, é conhecido por sua técnica narrativa de misturar, de forma perfeita, fatos do cotidiano com elementos de fantasia. Conhecido mundialmente por sua obra Cien años de soledad, novela que narra a história da família Buendía e da fundação do povoado de "Macondo" e que contém temáticas como a fatalidade, o amor e a morte. Outras obras de destaque são Crónica de una muerte Anunciada, El amor en los tiempos del cólera, La Hojarasca e El general en su laberinto. Recebeu o prêmio Nobel de Literatura em 1982.



MÉXICO

Carlos Fuentes (1928-2012)
Escritor, intelectual e diplomata mexicano, um dos autores mais destacados de seu país y das letras hispano-americanas, autor de romances como La región más transparenteLa muerte de Artemio CruzAura e Terra Nostra e ensaios como La nueva novela hispanoamericana, Cervantes o la crítica de la lectura, El espejo enterrado, Geografía de la novela e La gran novela latinoamericana, entre outros.
Recebeu, entre outros, o Prêmio Rómulo Gallegos, em 1977; o Cervantes, em 1987; e o Príncipe de Asturias de las Letras, em 1994. E foi nomeado grande oficial da Legião de Honra, em 2003 e cavalheiro grande cruz da Ordem de Isabel a Católica, em 2009. Foi nomeado membro honorário da Academia Mexicana da Língua em agosto de 2001 e Doutor honoris causa por várias universidades, entre elas HarvardCambridge e Nacional de México.
Até o dia de seu falecimento, foi considerado candidato principal para obter o Prêmio Nobel de Literatura. O último latino-americano a receber este premio, o peruano Mario Vargas Llosa, expressou seu desejo de que o próximo autor da língua a recebê-lo fosse Carlos Fuentes. Este disse pouco tempo antes: "Cuando se lo dieron a García Márquez (1982) me lo dieron a mí, a mi generación, a la novela latinoamericana que nosotros representamos en un momento dado. De manera que yo me doy por premiado".


Juan Rulfo (1917-1986)
Com apenas duas obras, Juan Rulfo consagrou-se como mestre da literatura latino-americana contemporânea. Nos relatos de El llano en llamas, aparecem as áridas terras de Jalisco, onde "os mortos pesam mais que os vivos". Com uma língua prodigiosa, simples e concisa, e de um ponto de vista impessoal, Rulfo faz desfilar em uma sucessão de enquadramentos impressionistas, a ação é escassa, a realidade de umas gentes à beira do desespero. O clima dos relatos é de alucinação, pois não há roupagem alguma capaz de mascarar a miséria. Na novela Pedro Páramo, utiliza idênticos procedimentos para contar uma história que está presa pela fatalidade.


Octavio Paz  (1914-1998)
Deu-se a conhecer como poeta, em 1933, com Luna silvestre. Publicou mais tarde Entre la piedra y la flor, A la orilla del mundo, um livro de poemas em prosa, ¿Águila o sol?, Semillas para un himno e La estación violenta, livros que, em 1960, reúne em Libertad bajo palabra. A este primer ciclo poético seguem-se outros dois: Salamandra e Ladera este. Após apresentar dois textos de poesia óptica, Topoemas e Discos visuales, Paz compila em um quarto ciclo sua última produção poética, Pasado en claro (1975).
Em seus ensaios, Octavio Paz exerce um magistério que, sem dúvida, é o mais influente na atual literatura mexicana. Os temas de que trata são diversos: literários: Las peras del olmo, Cuadrivio; históricos: Conjunciones y disyunciones, La búsqueda del comienzo; de moral, política, arte, etc.: Puertas al campo, El mono gramático, Los hijos del limo; sem esquecer seu ensaio sobre a essência do mexicano: El laberinto de la soledad. O conjunto desta produção tornou-o um fecundo ensaísta da literatura latino-americana.

PARAGUAI

Augusto Roa Bastos (1917-2005)
Seus relatos breves El trueno entre las hojas, El baldío e Moriencia, descrevem magistralmente diversos aspectos da vida paraguaia. Como romancista, Roa torna-se intérprete, em Hijo de hombre, da opressão do povo paraguaio, enquanto em Yo el Supremo, reconstrói a figura do doutor Francia, “Perpétuo Ditador do Paraguai”, em uma meditação sobre o poder. Somente por esta novela, Roa já mereceria aparecer entre os grandes escritores latino-americanos do século XX.




PERU

Mario Vargas Llosa (1936)
É um especialista das técnicas narrativas e membro da literatura hispano-americana denominada "boom". Se no contexto peruano, sua obra que se inicia com La ciudad y los perros, representa uma reorientação da temática do indigenismo, ao mesmo tempo que representa uma abertura para novas formas de escrever romances, La Casa Verde, Conversación en La Catedral, no contexto continental suas novelas supõem mudança, no entanto seguindo Faulkner e Joyce. Além das obras citadas, Vargas Llosa é autor de um magnífico relato Los cachorros, bem como de outras novelas: Pantaleón y las visitadoras, La tía Julia y el escribidor e  La guerra del fin del mundo, recebeu o Prêmio Nobel de Literatura, em 2010.

URUGUAY

Felixberto Hernández (1902-1964)
Genial contista que dá expressão aos impulsos do inconsciente mediante uma estrutura ilógica em Fulano de tal, Libro sin tapa, La cara de Ana e  La envenenada e, posteriormente, em Nadie encendía las lámparas e La casa inundada.









Juan Carlos Onetti (1909-1994)
Onetti é considerado um dos poucos existencialistas em língua castelhana. Mario Vargas Llosa, quem preparou um ensaio sobre Onetti, disse em uma entrevista que “é um dos grandes escritores modernos, e não somente da América Latina”. “Não obteve o reconhecimento que merece como um dos autores más originais e pessoais, que introduziu principalmente a modernidade no mundo da literatura narrativa”. “Seu mundo é um mundo antes pessimista, carregado de negatividade, isso faz que não chegue a um público muito vasto”. Seu primeiro romance El pozo, foi considerada por Vargas Llosa como o início do romance moderno na América Latina. 
O romance Tierra de nadie obtém o segundo lugar no concurso Ricardo Güiraldes. Nesse mesmo ano, publica Un sueño realizado, considerado seu primeiro conto importante.
Nos anos seguintes, publicará o romance Para esta noche e uma série de contos, publicados no jornal La Nación, entre os quais se destaca La casa en la arena, por ser o que dá início ao mundo de sua cidade de Santa María, que desenvolverá no romance La vida breve. Precisamente nessa cidade mítica transcorrerá a ação da grande maioria de seus novos romances e contos.

Horacio Quiroga (1878-1937)
Contista, dramaturgo e poeta uruguaio. Seus relatos breves, que frequentemente retratam a natureza como inimiga do ser humano sob traços temíveis e horrorosos, valeram-lhe a comparação com o escritor norte-americano Edgar Allan Poe. Sentiu-se atraído por temas que abarcavam os aspectos mais estranhos da Natureza, frequentemente marcado pelo horror, doença e sofrimento para os seres humanos. Muitos de seus relatos pertencem a esta corrente, cuja obra mais emblemática é a coleção Cuentos de amor de locura y de muerte
A vida de Quiroga, marcada pela tragédia, os acidentes de caça e os suicídios, culminou, por decisão própria, quando bebeu um copo de cianureto no Hospital de Clínicas de Buenos Aires, ao saber que sofria de câncer gástrico.

No marcador Contos traduzidos, aqui no blog, vocês podem ler a tradução ao português de alguns textos desses autores.