sexta-feira, 28 de março de 2014

Martinho Lutero e a tradução da Bíblia para o alemão




O alemão Martinho Lutero (1483 – 1546) foi a figura central da reforma protestante. De origem humilde, formou-se em filosofia. Um dia, o jovem estudante encontrou na biblioteca um exemplar da Bíblia, algo raro numa época em que os livros eram escassos e caros. Encheu-se de alegria com a descoberta e, depois de ler o livro sagrado, passou a se perguntar o que deveria fazer para ser salvo. 

Certa ocasião, durante uma tempestade, um raio caiu perto dele e o deixou profundamente impressionado. Ele interpretou o acontecimento como um sinal divino e procurou reclusão num mosteiro para acalmar seu espírito agitado e cheio de dúvidas a respeito da salvação de sua alma.



No mosteiro, ele orava fervorosamente, cumpria penitências, jejuns e se flagelava. Também mendigava por ordem dos freires que sentiam certo prazer em humilhá-lo e demonstrar-lhe que sua ciência e seu saber em nada o diferenciavam de seus irmãos. Ali foi afastado dos estudos e da leitura da bíblia. As orações, penitências e flagelos não lhe trouxeram a tão almejada paz de espírito. Somente conseguiu alcançá-la ao conhecer o vigário Staupitz, que, após ouvir suas lamentações, lhe disse: "eu acredito na remissão dos pecados através da fé. Para arrepender-se você deve amar a Deus e não temê-lo". Essas palavras penetraram fundo no coração de Lutero que voltou a ler a bíblia que lhe fora devolvida pelos freires.



Ao ler novamente a bíblia Lutero compreendeu que Cristo morreu para justificar nossos pecados e passou a crer que só a fé justifica e não as obras da lei, os rituais dos homens. Foi aí que começou a alimentar o desejo de traduzir a bíblia para que o povo alemão pudesse ter acesso direto à fonte, sem intermediários.



Em 1509, o príncipe-eleitor da Saxônia, Federico III, o sábio, fundou a universidade de Wittemberg e Staupitz o influenciou para que Lutero fosse nomeado catedrático. Nesse mesmo ano, Lutero obteve licenciatura em teologia e foi destinado a ministrar teologia bíblica. Começou a ensinar com tanta paixão e desembaraço que suas aulas recebiam cada vez mais estudantes. Por insistência de Staupitz, Lutero começou a predicar, primeiro no convento e depois na igreja da cidade até ser nomeado predicador da igreja matriz de Wittemberg. Em 1511, foi enviado pela ordem para ter uma audiência com o Papa. Encheu-se de júbilo pois esperava encontrar paz e consolo para sua consciência na cidade que considerava sagrada. Entretanto, o que viu o desagradou profundamente: poder, prazeres mundanos, cobiça e ignorância.



Ao voltar de Roma ficou doente e em seu leito as palavras que lhe deram consolo foram “o justo por sua fé viverá”. Após se recuperar, graduou-se doutor na Sagrada Escritura, dedicou-se mais do que nunca ao estudo da Bíblia e passou a predicar e ensinar com mais fervor ainda, fazendo o possível para fundar escolas. O solo estava sendo preparado para a semente da grande reforma.



Entre 1514 e 1515, o papa Leão X, amante do esplendor e das artes, com o pretexto de arrecadar dinheiro para a luta contra os turcos e para a conclusão da Basílica de São Pedro, autorizou a venda de indulgências para a salvação das almas. O comércio descarado de indulgências que prometiam a absolvição, o perdão dos pecados antes mesmo de serem cometidos e a salvação dos mortos em troca de alguns ducados, irritou profundamente Lutero, que acabou por desafiar a Igreja Católica Romana ao publicar suas 95 teses na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg, contra a venda de indulgências e contra o abuso de poder da igreja.



As 95 Teses de Lutero foram logo traduzidas para o alemão e amplamente copiadas e impressas. Ao cabo de duas semanas, haviam se espalhado por toda a Alemanha e, em dois meses, por toda a Europa. Este foi o primeiro episódio da História em que a imprensa teve papel fundamental, pois facilitou a distribuição simples e ampla do documento que deu início à reforma da igreja. Como consequência, Lutero, foi convocado pelo Papa para se retratar, coisa que não fez, pois afirmou que não poderia ir contra aquilo em que acreditava.



Lutero foi excomungado e, em 1521, o Imperador Carlos V inaugurou a Dieta de Worms. Lutero foi chamado a renunciar ou confirmar seus ditos e lhe foi outorgado um salvo-conduto para garantir-lhe o seguro deslocamento. Lutero manteve-se firme, não se retratou e antes que a decisão fosse proferida, ele abandonou Worms e desapareceu durante seu regresso a Wittemberg. O Imperador redigiu o Édito de Worms a 25 de maio de 1521, declarando Martinho Lutero fugitivo e herege, e proscrevendo suas obras.



O sumiço do reformante se deveu a que Frederico, o sábio, havia forjado o sequestro de Lutero para dar-lhe proteção no castelo de Wartburg, onde ele permaneceu por quase um ano e iniciou seu célebre trabalho de tradução da Bíblia.

Em 1525, casou-se com a monja Catalina de Bora, vinte anos mais jovem que ele, exercendo na prática sua tese de abolição do celibato. O casal teve 6 filhos.

Em 1529, Lutero publicou seu Pequeno Catecismo, onde explica, em linguagem simples, a teologia da Reforma Evangélica. Proibido de assistir à Dieta de Augsburg por ter sido excomungado, Lutero delegou a defesa dos reformadores, formulada na Confissão de Augsburg (1530), a seu colega e amigo, o humanista Felipe Melanchthon. Sua influência estendeu-se a norte e a leste da Europa e seu prestígio contribuiu para que Wittenberg se tornasse um centro intelectual.

Personagem fundamental da história moderna europeia, sua influência alcançou não somente a religião, mas a política, a economia, a educação, a filosofia, a linguagem, a música e outras áreas culturais.



Como ninguém é perfeito e toda paixão exacerbada corre o risco de despertar o ódio exacerbado, a história de Lutero também tem sua mancha, principalmente nos últimos anos de vida, quando publicou e externou sentimentos antissemitas. Seu ódio não tinha fundamentação racista, mas religiosa, ele não aceitava o fato de os judeus não reconhecerem Jesus Cristo. Mesmo assim, suas declarações e publicações serviram posteriormente para justificar a ideologia nazista.



O objetivo aqui não é julgar os preconceitos nem o posicionamento religioso de Lutero, mas destacar seu trabalho de tradução da Bíblia, sua contribuição para os estudos da tradução e para a língua alemã. É de se admirar a coragem que ele teve de de nadar remar contra a maré e manifestar seus sentimentos de forma tão obstinada numa época de terror em que a inquisição perseguia e condenava pessoas à morte de forma arbitrária e impiedosa.



A tradução da Bíblia 

Essa tarefa o absorveu até o final de sua vida. Com ajuda de amigos, começou a traduzir o Novo Testamento para o alemão a partir da segunda edição de Erasmo de Roterdão do Novo Testamento grego. Lutero andava pelas ruas e mercados para ouvir as pessoas falarem porque ele desejava que sua tradução fosse acessível ao povo, o mais próxima possível da linguagem contemporânea. A Bíblia Luther Foi publicada em setembro de 1522, seis meses após ele ter retornado a Wittenberg.



Esta tradução é considerada como sendo, em grande parte, responsável pela evolução da moderna língua alemã.



Os textos sobre a “teoria” da tradução de Lutero, não pretendem descrever o modo de traduzir, são mais uma justificativa de sua tradução do Novo Testamento. Sua concepção linguística e tradutológica estão subordinadas a sua concepção religiosa, a tradução da Bíblia só tem sentido dentro de uma perspectiva teológica, tendo como princípios básicos: a Bíblia como única regra; só a fé salva e  a universalidade do sacerdócio: todos podem e devem ler e interpretar a Bíblia.



Em seus escritos ‘tradutológicos’, Lutero defende uma tradução retórica e de estilo popular, não com fins estéticos, mas comunicativos. Ele concedia grande importância ao meio cultural dos destinatários, por isso traduzia adaptando o texto à mentalidade e ao espírito dos homens de seu tempo a fim de dar a compreender as realidades históricas, culturais e sociais relatadas na Bíblia e próprias de uma sociedade distanciada no tempo e no espaço. Na prática, privilegia o texto na língua de chegada, mas também admite estrangeirismos se a formulação do original expressa melhor o conteúdo da mensagem. Embora seus comentários sobre a tradução enfatizem a tradução do sentido, Lutero não afirma que esta seja melhor que a da palavra, ele declarou servir-se das duas.



Em sua “Carta aberta sobre tradução”, Lutero replicou as críticas que os papistas dirigiam a sua tradução, seus argumentos são claros e diretos e ele não tem papas na língua para expressar sua indignação:



Em resposta à fúria dos papistas que o acusavam de ter acrescentado a palavra sola (somente) à tradução do terceiro capítulo da Epístola aos Romanos, versículo 28, em que Lutero traduziu as palavras de Paulo: “Arbitramur hominem iustificari ex fide absque operibus”, como “Sustentamos que o homem é justificado somente pela fé, sem as obras da lei”, Lutero disse, entre outras coisas:



“Voltando novamente à questão. Se o seu papista quer incomodar-se bastante com a palavra sola-somente, diga-lhe logo: o doutor Martinho Lutero quer assim e diz que papista e asno é a mesma coisa. “Sic uolo, sic iubeo, sit pro ratione uoluntas”  [“assim quero, assim ordeno, tome-se a vontade por razão”]. Pois não queremos ser alunos nem discípulos dos papistas, mas seus mestres e juízes. Queremos por uma vez também gabar-nos e vangloriar-nos com essas cabeças de asno. E como São Paulo se gloria contrapondo-se aos santos insensatos , assim também eu quero gloriar-me contrapondo-me a esses meus asnos. Eles são doutores? Eu também. Eles são eruditos? Eu também. Eles são pregadores? Eu também. Eles são teólogos? Eu também. Eles são argumentadores? Eu também. Eles são filósofos? Eu também. Eles são dialéticos? Eu também. Eles são preletores? Eu também. Eles escrevem livros? Eu também.

E quero continuar gloriando-me: Eu sei interpretar os salmos e os profetas; eles não sabem. Eu sei traduzir; eles não sabem. Eu sei rezar; eles não sabem. E para falar de coisas menores: eu entendo sua própria dialética e filosofia melhor do que todos eles juntos. E além disso sei deveras que nenhum deles entende seu Aristóteles. E se há alguém entre todos eles que entenda corretamente um prefácio ou um capítulo de Aristóteles, deixarei que me açoitem.  Não estou agora exagerando, pois fui educado e adestrado desde a juventude em toda sua arte, e sei muito bem quão profunda e vasta ela é. Da mesma forma eles sabem muito bem que eu sei e posso tudo o que eles podem. Não obstante, essa gente insana se comporta comigo como se eu fosse um hóspede em sua arte, que tivesse chegado apenas hoje pela manhã e nunca tivesse visto nem ouvido o que eles estão aprendendo ou podem fazer; assim tão maravilhosamente ostentam sua arte e me ensinam o que eu há vinte anos gastei em solas de sapato; de forma que eu também, em resposta a todos seus berros e gritos, tenho que cantar com aquela rameira: ‘Faz sete anos que eu sei que os pregos das ferraduras são de ferro’”



E para sua escolha tradutológica, buscou justificativa, no texto sagrado:



“Isto é o que havia para ser dito quanto à tradução e à propriedade das línguas. Eu, porém, não confiei somente na propriedade das línguas e a observei ao acrescentar solum, “somente”, em Romanos 3, 28, mas também o texto e o pensamento de São Paulo o exigem e o reclamam com força; pois ele trata ali mesmo do elemento principal da doutrina cristã, ou seja, que nós somos salvos pela fé em Cristo, sem qualquer obra da lei; e exclui todas as obras tão claramente que chega a dizer que as obras da lei (que obviamente é a lei e a Palavra de Deus) não colaboram para a salvação; e dá como exemplo Abraão, que foi salvo tão isento das obras que, inclusive a maior delas, que então fora um novo mandamento de Deus acima de todas as outras leis e obras, a saber, a circuncisão, não lhe ajudou para a salvação, mas foi salvo pela fé, sem a circuncisão e sem qualquer obra, como ele fala no capítulo 4: “Se Abraão foi salvo pelas obras, ele pode se vangloriar, mas não diante de Deus”. Pois bem, onde se exclui tão completamente todas as obras – e esse deve ser o sentido de que somente a fé salva – e quer-se falar claramente e diretamente de uma tal exclusão das obras, tem-se que afirmar: Somente a fé e não as obras nos salvam. Isso é exigido pela própria questão além da propriedade da língua.

Sim, eles dizem que soa escandaloso e com isso as pessoas aprendem que não precisam fazer boas obras. Mas meu caro, o que se lhes pode responder? Muito mais escandaloso é o fato de que o próprio São Paulo não diga somente a fé, mas descarregue ainda mais duramente encerrando a questão: sem as obras da lei, e em Gálatas 2, 16: não pelas obras da lei, e semelhantes em outras passagens. A expressão somente a fé ainda admitiria um comentário, mas a expressão sem as obras da lei é tão dura, escandalosa e abominável, que não pode ser amenizada com nenhum comentário. Muito mais poderiam as pessoas aprender com isso a não fazerem boas obras, pois elas ouvem das próprias obras pregar com palavras tão duras e fortes: Nenhuma obra, sem obras, não pelas obras. Se não é escandaloso que se pregue: Sem obras, nenhuma obra, não pelas obras, por que seria escandaloso então pregar somente a fé?”

  

Tradução completa da “Carta aberta sobre a tradução” de Mauri Furlan.

A teoria de tradução de Lutero”, por Mauri Furlan.

3 comentários:

  1. Qual versão da bíblia Luther utilizou para a sua tradução para a lingua alemã?

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    1. Boa tarde, Eridam.
      Ele usou a segunda edição de Erasmo de Roterdão do Novo Testamento grego

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