terça-feira, 28 de março de 2017

Millôr tradutor

Por ocasião dos cinco anos sem Millôr Fernandes, vamos celebrar sua criatividade, autenticidade e bom humor, apreciando um pequeno fragmento seu sobre a arte de traduzir, de uma entrevista para a Revista Senhor, em 1962.

«Com a experiência que tenho, hoje, em vários ramos de atividade cultural, considero a tradução a mais difícil das empreitadas intelectuais. É mais difícil mesmo do que criar originais, embora, claro, não tão importante. E tanto isso é verdade que, no que me diz respeito, continuo a achar aceitáveis alguns contos e outros trabalhos meus de vinte anos atrás; mas não teria coragem de assinar nenhuma das minhas traduções da mesma época. Só hoje sou, do ponto de vista cultural e profissional, suficientemente amadurecido para traduzir. As traduções quase sem exceção (e não falo só do Brasil), têm tanto a ver com o original quanto uma filha tem a ver com o pai ou um filho a ver com a mãe. Lembram, no todo, de onde saíram, mas, pra começo de conversa, adquirem como que um outro sexo. No Brasil, especialmente (o problema econômico é básico), entre o ir e o vir da tradução perde-se o humor, a graça, o talento, a poesia, o pensamento, e, mais que tudo, o estilo do autor.

Fica dito – não se pode traduzir sem ter uma filosofia a respeito do assunto. Não se pode traduzir sem ter o mais absoluto respeito pelo original e, paradoxalmente, sem o atrevimento ocasional de desrespeitar a letra do original exatamente para lhe captar melhor o espírito. Não se pode traduzir sem o mais amplo conhecimento da língua traduzida mas, acima de tudo, sem o fácil domínio da língua para a qual se traduz. Não se pode traduzir sem cultura e, também, contraditoriamente, não se pode traduzir quando se é um erudito, profissional utilíssimo pelas informações que nos presta – o que seria de nós sem os eruditos em Shakespeare? – mas cuja tendência fatal é empalhar a borboleta. Não se pode traduzir sem intuição. Não se pode traduzir sem ser escritor, com estilo próprio, originalidade sua, senso profissional. Não se pode traduzir sem dignidade.»


Escritor, desenhista, dramaturgo, humorista, considerado um dos maiores frasistas brasileiros, colaborou em diversos veículos com suas observações críticas e irreverentes sobre a vida, relacionamentos, política e sociedade. Como não podia ser diferente, como tradutor, Millôr também defendia algumas convicções polêmicas “Ao traduzir, é preciso ter todo rigor e nenhum respeito pelo original”. Claro que não devemos interpretar essa declaração ao pé da letra, o que ele defendia era que traduzir bem é obter o melhor resultado possível na língua de chegada, o resultado mais inteligível e inteligente, encarando o idioma de partida como de fato é: idioma de partida.

Outra questão polêmica é que Millôr era autodidata e tinha a convicção de que, para realizar uma boa tradução, não era necessário dominar plenamente o idioma de partida nem conhecer com profundidade o contexto em que o autor havia escrito. Para ele, o essencial era conhecer bem o próprio idioma e elaborar em português uma versão pessoal e interpretativa do texto estrangeiro, negando, a existência de “expressões intraduzíveis”.

Confesso que me sinto “quadrada” diante de tanta ousadia. Em se tratando de tradução literária, sou bem mais “careta”, acho que o texto original e o idioma de partida são a baliza que não devemos perder de vista, e encaro nossa missão de uma forma mais “serviçal” no sentido de que nosso papel é permitir que o autor chegue até os leitores que não leem em sua língua. Esse é meu lado racional falando, mas como boa geminiana, meu lado emocional se encanta com imagem da borboleta voando livremente... εïз

Polêmicas à parte, não deixo de admirar e de me inspirar na coragem e perspicácia de Millôr, mas convenhamos que ele não era nenhum inconsequente, apesar de suas frases polêmicas, observamos no trecho da entrevista que ele acredita, sim, no respeito ao original, no amplo conhecimento da cultura e da língua traduzida e no domínio da língua para a qual se traduz, enfim, é um "rebelde ajuizado" ;-)

Para saber mais, leia “Millôr tradutor”, texto de Gabriel Perissê, publicado na 79ª edição da Revista Língua Portuguesa e disponível em Camaleó, plataforma colaborativa de publicação e disponibilização de conteúdos. 

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