sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

¿Cuanto más o cuantas más horas?



Diante dos adjetivos más e menos, o adjetivo relativo cuanto introduz estruturas comparativas proporcionais que indicam o aumento ou a diminuição progressiva de duas magnitudes paralelas. 

Cuanto más lo conozco, menos me gusta
Cuanto más dinero se destine a la investigación, mayor será el prestigio de esta universidad.

Nestas estruturas, cuanto deve concordar em gênero e número com o substantivo núcleo da comparação.

Cuanto más tiempo livre, menos lo aprovechamos.
Cuantas más horas dediques a estudiar, mejores serán tus resultados. 



Se após a palavra más houver um adjetivo, então cuanto permanecerá invariável.

Cuanto más elevada sea la ratio en las aulas, peor será la educación.



"Cuanto más” também é uma expressão em espanhol usada para contrapor ao que foi dito o que se vai dizer, denotando no segundo membro da frase a ideia de enaltecimento ou de valorização. Ou seja, o que se diz na segunda frase reforça a ideia dita na primeira. Equivale a “com mayor motivo” ou “aún más”.

Ayuda a todo el mundo. Cuanto más a sus amigos.
Se rompen las amistades antiguas, cuanto más las recientes.
Yo te sacaré de las manos de los caldeos, cuanto más de las de la Hermandad.
Son capaces de matar a su padre. Cuanto más a un vecino.

O curioso é que em português a expressão “quanto mais” também é usada para transmitir ideia de algo ser menos provável, que outra coisa antes referida. Ou seja, com o sentido de “muito menos” ou “que dirá”.

Não era simpática, quando mais bonita.

Em espanhol, não poderíamos usar “cuanto más” com o sentido de “muito menos”, “nem”, “tampouco” ou “sequer”. 

Algumas traduções possíveis para a frase acima:

No era simpática ni bonita.
No era simpática ni mucho menos bonita.
No era simpática ni tampoco bonita.
No era simpática ni siquiera bonita.
No era simpática y menos aún bonita.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Omissão dos pronomes retos em espanhol

Ao traduzir um texto para outra língua, devemos cuidar para que não haja interferência de nossa língua materna, para que o resultado pareça natural e o leitor não sinta aquele gostinho estranho de “tradutorês”. Uma boa tradução deve dar ao leitor a sensação de o texto ter sido escrito na própria língua.

Hoje vamos ver um fenômeno que costuma causar bastante interferência, principalmente, nas traduções do português para o espanhol: a colocação dos pronomes retos (yo, tú, él, ella, nosotros, vosotros, ellos/ellas) onde eles normalmente deveriam ser omitidos.

Primeiramente, você sabe o que são línguas pro-drop?

Segundo Chomsky, línguas pro-drop são as que aceitam a omissão do pronome no papel de sujeito, isto é, a omissão dos pronomes retos. Tanto o espanhol peninsular quanto o português brasileiro são línguas pro-drop, ao contrário do inglês, por exemplo, em que a presença do pronome reto é obrigatória.

Tenho uma namorada.
Tengo uma novia.
I have a girlfriend.

No entanto, no espanhol peninsular a omissão dos pronomes é muito mais frequente que no português brasileiro. A explicação provável para isso é que enquanto no espanhol as desinências verbais normalmente são suficientes para evidenciar os agentes da ação verbal, em português, ocorrem ambiguidades com os pronomes você/ele/ela, que apresentam idêntica conjugação, do mesmo modo que as formas plurais vocês/eles/elas. Isso faz com que os brasileiros explicitem os pronomes retos de forma abusiva e redundante em contextos em que a normativa do espanhol determina sua omissão.



O espanhol é uma língua de sujeito não obrigatório (Vino y nos dijo que no saliéramos a la calle); no entanto, isso não significa que ele sempre possa ser omitido. A presença do pronome reto é obrigatória quando se pretende enfatizar o sujeito ou para contrastar opiniões.

Exemplos:
Ella es la chica de quien te hablé.
Yo creo que eso está mal.
Nosotras somos madrileñas; ellos, barceloneses.
¿Quién ha manchado mi libro? – Yo. Lo siento.
Mi novia es más alta que yo.

Também é obrigatório o uso do pronome reto diante de algumas palavras como a, hasta, mismo, también, tampoco.

Exemplos:
Yo mismo no puedo dejar de morderme las uñas.
Ellos también se sienten cansados de tanto caminar.
Tú tampoco tienes dinero, ¿no?

Outra observação importante:
Em espanhol, não se emprega pronome pessoal explícito para referir-se a coisas.
He leído tus últimos informes. Enhorabuena: ellos son claros y ofrecen numerosos datos.

No exemplo acima, o correto é omitir o pronome reto ou usar o pronome demostrativo “estos” em lugar do pronome reto “ellos”.

Entretanto, há ocasiões em que a coisa ou objeto é modificado por um adjetivo, um aposto ou oração que permitem que o pronome reto se torne explícito:
Compramos un sofá enorme: ocupaba él solito toda la habitación.

Também se torna explícito o pronome reto para desfazer ambiguidades provocadas pela indistinção das desinências verbais em alguns tempos: a 1ª e a 3ª pessoa do singular coincidem no pretérito imperfeito e no condicional, além de coincidir em todos os tempos do subjuntivo, o que propicia o aparecimento das formas yo y él (ou ella):
“Mal podía ella preconizar una huelga de hambre teniendo el estómago lleno” (Palou Carne [Esp. 1975]).

Em muitas ocasiões, os pronomes retos com variação de gênero aparecem para explicitar o sexo do referente:
“Un futuro esperanzado requiere cultivar el acuerdo, la reciprocidad, también entre nosotras y ellos” (Alborch Malas [Esp. 2002]).

O pronome usted, por sua vez, aparece com muita frequência para reforçar a cortesia ou desfazer a possível ambiguidade com uma terceira pessoa:
“Debe usted partir a París en seguida” (Mujica Escarabajo [Arg. 1982]).

Vejamos a seguir como traduzir ao espanhol algumas frases com pronome reto explícito:

A grande promessa da ciência para revolucionar a medicina são as células-tronco, já que elas podem se transformar em qualquer tipo de célula. Mas, apesar dos avanços, ainda há um longo caminho pela frente para confirmar se elas são mesmo o futuro da medicina.

La gran promesa de la ciencia para revolucionar la medicina son las células madre, ya que pueden convertirse en cualquier tipo de célula. Pero, a pesar de los avances, aún hay un largo camino que recorrer para confirmar si estas células son de hecho el futuro de la medicina.

O bebê não se resume a uma carga genética, ele é resultado da combinação da carga genética com os relacionamentos que ele tem com as pessoas à sua volta.

El bebé no se resume a una carga genética, es resultado de la combinación de la carga genética con las relaciones que tiene con las personas que lo rodean.

Ana estudou cinema em Nova York, posteriormente, trabalhou em um estúdio renomado. Em 2013, ela recebeu um convite para participar de uma produção internacional e, em 2015, ela ganhou um prêmio em um festival de cinema.

Ana estudió cine en Nueva York, más adelante, trabajó en un renombrado estudio. En 2013, recibió una invitación a participar en una producción internacional y, en 2015, fue premiada en un festival de cine.

Mas o estresse em si não é algo ruim, na verdade ele é uma importante resposta do organismo para a manutenção da vida. Temos de aprender, portando, como lidar com ele.

Pero el estrés en sí no es algo malo, en verdad, es una importante respuesta del organismo para el mantenimiento de la vida. Por lo tanto, debemos aprender a manejarlo.

Diccionario Panhispánico de Dudas

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Distinção entre os verbos “crear” e “criar” em espanhol

Diferentemente do português que têm somente o verbo criar, o espanhol tem dois verbos:  “crear” e “criar”, que apesar de compartilharem a mesma origem, ‘creare’ (engendrar, fazer, produzir, nascer). Por sua vez, esse verbo procede do grego ‘kepao’ (misturar, fazer um composto). Em sânscrito, temos ‘kre’ (fazer). Desse mesma origem, derivaram duas ações similares: ‘crear’ (inventar a partir do nada ou com uma grande transformação) e ‘criar’ (manter, nutrir, educar, cuidar um ser vivo).

Da mesma forma, também existem dois substantivos diferentes “creación” (obra de engenho, arte ou artesanato, produzida a partir do nada) e “cría/crianza” (ação e efeito de cuidar uma criança ou um animal). Para plantas, prefere-se o verbo “cultivar”.
O surgimento da forma “crear” se deu por eruditismo.

Vejamos alguns exemplos de uso dos dois verbos e os respectivos substantivos:

Crear / creación
Dios creó el mundo en siete días.
Investigadores crearon una tecnología para poder "hablar" por celular en silencio.
¿Has logrado crear una cuenta en Facebook?
Estoy haciendo un curso para crear páginas de Internet.
La creación literaria es un fenómeno que se produce en todas las culturas.

Criar / cría, crianza
Hoy en día se necesita mucha valentía para criar a los hijos.
La crianza de ganado caprino representa una actividad principal e importante fuente de alimentos.
La crianza de los hijos es la acción de promover y brindar soporte.
He comprado un libro sobre la cría de gallinas.

La crianza de los hijos es una de las tareas más difíciles y reconfortantes del mundo

Para encerrar, uma frase em que aparecem as duas formas verbais e um substantivo:


Estamos participando en un seminario para criar peces ornamentales, luego crearemos nuestro propio criadero.

Aprenda a utilizar o software de tradução Trados SDL Studio 2015

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

10 rumores na língua portuguesa



Fique atento a algumas invenções linguísticas espalhadas por aí, baseadas muitas vezes em argumentos supostamente lógicos que, por ingenuidade ou hipercorreção, taxam de erro formas corretas e consagradas.

1 - Não devemos usar “sobre”, mas “acerca de”

Alguns puristas afirmam que só devemos usar a preposição “sobre” no sentido de “em cima de”. Bobagem, não há problema algum em usar uma ou outra forma no sentido de “a respeito de” em frases como: “Falamos sobre/acerca de nossos planos”, “Ele realizou um estudo sobre a/acerca da situação das estradas brasileiras”, etc.

2 - Não devemos usar “através”, mas “por meio de”

Diz-se por aí que só se deve usar “através” no sentido de “cruzar de lado a lado” (Correu através dos campos). Podemos, sim, usar “através”, no sentido de “por meio de”, “mediante”, em frases como: “Através deste botão, abre-se o navegador”, “Conheci o mundo através dos livros”, etc.

3 - Não devemos dizer “entrega a domicílio”, mas “entrega em domicílio”

Podemos usar as duas formas — em domicílio / a domicílio — a expressão “a domicílio” é uma locução adverbial assim como “a cavalo”, “a pé”, “a pique” e indica o modo como se faz a entrega. Essa locução é usada, principalmente, para referir-se à prestação de serviços: entrega a domicílio, aulas a domicílio, atendimento a domicílio, serviço a domicílio. No entanto, no Brasil, preconizou-se que a expressão “a domicílio” só deve ser usada com verbos que indiquem movimento (levar, enviar, etc.), e “em domicílio” com os verbos que não indiquem movimento (entregar, atender, etc.).

4 - Não devemos dizer TV “a cores”, mas “em cores”

Semelhante ao caso anterior, “a cores” é uma locução, assim como “a gás”, “a vapor”, “a lápis”, e significa “colorida”. Alguns autores afirmam que a expressão “a cores” seria galicismo, o que não procede, porque em francês usa-se a preposição “em”: “en couleurs”. Tanto em Portugal como na Espanha, é unânime a expressão “a cores”. Ou seja, as duas formas são legítimas.

5 - Não devemos dizer “a longo, médio ou curto prazo”, mas “em longo, médio ou curto prazo”

Novamente a confusão com o uso das preposições em locuções. Nem ao menos é possível encontrar uma explicação convincente para rechaçar o uso da preposição “a” nessas locuções. Alega-se que para expressar um prazo, o correto é usar a preposição “em”: em duas horas, em dois dias, em duas semanas, etc. 
Na língua portuguesa, é comum comutar a preposição em com a:  A / Em qualquer momento. Vendemos a quilo / em quilo. Eles tocam a quatro mãos/ em (com) quatro mãos. A favor do vento / em seu favor. Parou à frente/ na frente/ em frente da escola. Àquela época/ naquela época... Àquela altura/ naquela altura...

6 - Não devemos dizer “educação ou ensino à distância”, mas “educação ou ensino a distância”, sem a crase

Outra confusão com o uso de preposição. A locução adverbial é “à distância”; mas, em algum momento convencionou-se que só se usa crase quando a distância é determinada (ex.: observei à distância de três metros). No entanto, o uso da locução sem crase provoca ambiguidade. Ao usar a expressão sem a crase, dá a impressão de que “a distância” é objeto de ensino “Ensino o quê? A distância”), quando se trata de uma modalidade de ensino. Da mesma forma, ao dizer “observo a distância” parece que “a distância” é o objeto observado; quando, na verdade, indica que o modo de observar: mantendo distância.

Por motivos de clareza, recomenda-se pôr sempre o acento diacrítico, isto é, a crase nas locuções adverbiais com palavras femininas: cortar à faca, escrever à mão, enxotar à pedrada, navegar à vela, conseguir à força, observar às escondidas, comprar à vista, etc.

7 - Não devemos dizer “perigo/risco de vida”, mas “perigo/risco de morte”

Esta é uma grande falácia difundida principalmente pelos meios de comunicação. Justifica-se o injustificável com o argumento de que quando a vida de alguém corre risco, o risco é de morrer e não de viver. Ora, isso é óbvio. Quando dizemos “perigo/risco de vida” a lógica está implícita, pois se subentende que o perigo/risco é o de perder a vida.

A língua tem sua lógica própria, e o sentido muitas vezes está implícito, principalmente na linguagem falada, em que o contexto completa o sentido da fala. Quando alguém diz, por exemplo, “Ele fez duas cirurgias”, subtende-se que ele “foi submetido” a duas cirurgias e não que ele é o cirurgião que realizou as cirurgias ou quando alguém diz “esse remédio é bom para gripe”, subentende-se que é bom para “acabar” com a gripe.

8 - Não devemos usar vírgula antes de etc.

Há cerca de meio século, alguns gramáticos, influenciados pelo logicismo, passaram a condenar o uso da vírgula antes de etc. Segundo eles, etc. (abreviatura da expressão latina et cetera, que significa “e outras coisas”) dispensa a vírgula porque contém a conjunção “e”. No entanto, a maioria das línguas usa a vírgula antes dessa abreviatura. Além disso, seu uso é abonado pelo Vocabulário Ortográfico da ABL e por gramáticos como Aurélio, Celso Cunha, Bechara, Gama Kury e Carlos Nougué.

9 - Não devemos usar dupla negativa

Esse rumor advém da tentativa de aplicar à língua a lógica matemática que afirma que em dupla negativa uma anula a outra. Aplicando essa lógica à língua, duas negativas resultariam numa sentença afirmativa. Assim, “não vejo ninguém = vejo alguém” e “Não tenho nada = tenho algo”. No entanto, a língua segue sua própria lógica, e a dupla negativa, e até tríplice, é um traço tradicional na língua portuguesa e sua função é a de reforçar a negação.

O gênio português, Fernando Pessoa, sabia recorrer sem culpa à negação dupla: “Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada.”.

10 - Não devemos dizer “espaço de tempo”

Este boato ingênuo deriva da crença de que não é possível misturar “tempo e espaço” porque são categorias diferentes, o que tornaria “espaço de tempo” um contrassenso.

A palavra “espaço” possui diversas acepções, entre elas: “período ou intervalo de tempo”. Nesse caso, em vez de um contrassenso, teríamos uma redundância? Nada disso. Se espaço é uma palavra com vários sentidos, estamos apenas deixando claro que nos referimos ao espaço “de tempo”, e não aos outros espaços possíveis. Por outro lado, constituem, sim, redundâncias as expressões “prazo de tempo” ou “período de tempo”, porque as palavras “prazo” e “período” já se referem a tempo.

Fontes:

www.certaspalavras.net
Dicionário de dificuldades da língua portuguesa, de Domingos Paschoal Cegalla.
Suma Gramatical da Língua Portuguesa, de Carlos Nougué.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Resenha da obra "Los pasos perdidos", de Alejo Carpentier

Acabei de ler o romance Los pasos perdidos do escritor cubano Alejo Carpentier, pois me propus a conhecer melhor os clássicos da literatura hispano-americana, antes de conhecer a produção contemporânea.  O fato de minha mãe ter nascido e vivido parte da infância em Cuba, também contribui para que eu me interessasse por este autor.

Carpentier escreveu esta obra, a partir de sua experiência de vida em Venezuela de 1945 a 1959, e a publicação se deu em 1953. A história é narrada em primeira pessoa por um músico de origem hispano-americana que vive em Nova York e que atravessa uma crise existencial: insatisfeito com o casamento com uma atriz de teatro que está sempre em turnê e frustrado com o trabalho como produtor musical de uma empresa publicitária.

" Había grandes lagunas de semanas y semanas en la crónica de mi propio existir; temporadas que no me dejaban un recuerdo válido, la huella de una sensación excepcional, una emoción duradera; días en que todo gesto me producía la obsesionante impresión de haberlo hecho antes en circunstancias idénticas —de haberme sentado en el mismo rincón, de haber contado la misma historia, mirando al velero preso en el cristal de un pisapapel. Cuando se festejaba mi cumpleaños en medio de las mismas caras, en los mismos lugares, con la misma canción repetida en coro, me asaltaba invariablemente la idea de que esto sólo difería del cumpleaños anterior en la aparición de una vela más sobre un pastel cuyo sabor era idéntico al de la vez pasada."

Quando ele entra de férias, entediado e deprimido, surge uma oportunidade de dar uma reviravolta em sua vida. Um ex-professor, curador de um museu, propõe-lhe uma viagem à América Latina em busca de instrumentos musicais primitivos. No início, o músico rejeita a ideia, mas acaba sendo convencido por sua “amiga”, uma jovem superficial e aspirante a intelectual, com quem tem uma estranha relação amorosa.  

Confesso que no início custei a me envolver com a história, porque achei as descrições, em especial as de lugares, fauna, flora, excessivamente minuciosas e entediantes. A citação de nomes de espécies lembra um pouco Macunaíma, dá uma impressão de artificialidade, parece que o autor abriu um livro de botânica ou de zoologia e extraiu uma coleção de nomes que pouco acrescentam à narrativa. A citação gratuita de espécies é chata, mas quando o autor acrescenta uma curiosidade, uma lenda, uma história mítica, aí sim, torna-se interessante para o leitor. A linguagem especializada e a descrição pormenorizada de instrumentos musicais e processos de criação e composição musical, tudo isso é muito maçante para quem desconhece o universo e a teoria musicais.

Esse excesso de descrições me aborreceu a tal ponto de eu quase abandonar a obra. O que me impediu de fazê-lo e o que me fez persistir foi a qualidade da narrativa, a escrita primorosa, o domínio da língua, da metáfora, das associações, o fluxo vigoroso e a beleza da prosa poética.

Los pasos perdidos é uma obra que pertence ao estilo real maravilhoso, inaugurado por Carpentier. Esse estilo exalta pessoas, paisagens, fauna e flora, histórias maravilhosas, mas sempre sujeitas às leis da física, diferentemente do realismo mágico, que transgride todas as leis a que está sujeita a realidade. Carpentier considera o maravilhoso dos surrealistas como algo falso, obtido através de artimanhas, da deformação da realidade; para ele, o maravilhoso se encontra na realidade do continente latino-americano, em sua natureza primitiva, num estado puro, livre de truques.  

A definição do maravilhoso segundo o próprio autor: “Lo extraordinario no es bello ni hermoso por fuerza. Ni es bello ni feo; es más que nada asombroso por lo insólito. Todo lo insólito, todo lo asombroso que sale de las normas establecidas es maravilloso” (CARPENTIER, 2007, p. 143).

Sobre a sensação de cansaço que o excesso de minúcias me causou, encontrei um ensaio de Vargas Llosa, ¿Lo real maravilloso o artimañas literárias?, que explica que a linguagem ornamentada e o artifício literário de Alejo Carpentier tornam o texto mais complexo e exigem do leitor uma atenção especial.

“El discurso del narrador, de palabras rebuscadas —muchas de ellas extraídas de diccionarios y vocabularios especializados— se halla en las antípodas del que finge lo espontáneo, la oralidad. Este estilo representa, más bien, la voz engolada del discurso escrito, de lo leído y premeditado, de lo corregido y repensado, de lo artificial. Pero, pese a su semblante fabricado, es de una gran precisión a la hora de designar el objeto y describirlo, y de un extraordinario poder de síntesis: describe a pinceladas rápidas, sin insistir ni repetir. Su característica mayor, además de la exactitud —nunca vacila ni yerra a la hora de adjetivar— es la sensorialidad lujosa, la manera como se las arregla para que la historia parezca entrarle al lector por todos los sentidos: la vista, el oído, el olfato, el sabor, el tacto. Un estilo en el que, curiosamente, lo amanerado no está reñido con la vida del cuerpo, donde el adorno realza lo vital”.

O próprio Carpentier costumava afirmar que sua falta de imaginação o levou a construir seus romances sobre bases históricas, com a surpresa de que a realidade americana era em si mesma mágica. Ou seja, o enredo aqui serve de pano de fundo para expor um panorama sociocultural do continente latino-americano e cotejá-lo com o europeu. O jovem músico entra em crise existencial quando percebe que sua vida é uma farsa, uma representação sem sentido. Ao iniciar a viagem através do rio Orinoco, ele começa a resgatar sua essência, as lembranças da infância, a língua materna, a simplicidade. Começa a tomar forma uma luta interior entre os valores urbanos e rurais, a civilização e a selva primitiva, a racionalidade e a emoção

Ainda não li Em busca do tempo perdido, de Proust, mas pelos comentários que ouvi sobre essa obra, acho que ambas tem alguns pontos em comum: o despertar da memória por meio de sons, cheiros, sabores e texturas, ou seja, por meio dos sentidos, bem como a extensa abordagem da música. Se, por um lado, Proust procura o tempo perdido; por outro, Carpentier procura o paraíso perdido na América primitiva.

Essa viagem labiríntica e anacrônica revela um universo mítico, primitivo, maravilhoso, que leva o músico a questionar os valores da sociedade moderna. O objetivo inicial da viagem — a busca de instrumentos primitivos — transforma-se na busca de um sentido para a vida.

A beleza poética é, sem dúvida, o ponto alto desta obra.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Modismos: livros para colorir


O cliente não pagou?

Sua licença expirou?

Caiu na armadilha de um falso amigo?

Perdeu seu glossário?

A conexão caiu?

O sistema operacional detectou um erro fatal?

Seu documento está corrompido?

Que bobagem, amiguinho, nada disso é motivo para se estressar! SORRIA! Seus problemas acabaram!

Pinte a Torre de Babel abaixo e você se sentirá muito melhor e ainda ficará com a consciência tranquila, pois nenhuma árvore precisará ser derrubada para aliviar seu estresse, além disso você não precisará gastar nem um centavo.

http://www.dibujosparapintar.com/dibujo/torre_babel.html#

Minha experiência. (Não é que ficou bonito?)

Chega de ioga, tai chi chuan, suco detox e bioprotein a moda agora é colorir! Posso até ouvir Apolo com sua lira de ouro, acompanhado por um coral de querubins cantando "Vou pintar um arco-íris de energia pra deixar o mundo cheio de alegria...".

Em aeroportos, escritórios, quartéis, conventos e até na estação espacial russa, as pessoas se renderam à magia das cores. Mandalas, flores encantadas, jardins secretos, matrioskas, corujas, basta dar uma olhada pelas bancas e livrarias para ter uma noção do sucesso. Tem livro de colorir para todos os gostos. A Globo Livros, por exemplo, acaba de lançar um título desses com a marca e o rosto do Padre Marcelo Rossi. Tem livros especiais para crianças, advogados, mães, gaúchos, celíacos... só não tem para tradutores. Este mundo é muito injusto mesmo! Qual é o tradutor que não sonha com um desenho de São Jerônimo para colorir?

Todos querem sua fatia do bolo, há inclusive psicólogos tentando explicar o sucesso dos livros de colorir e advertindo que eles não devem ser usados como a única forma de aliviar o estresse, o ideal é combinar os livros de colorir com ajuda profissional, ou seja, terapia (eles não são bobos nem nada, boba sou eu). Logo aparecerão estudos científicos e escavações arqueológicas provando que os egípcios já eram adeptos aos papiros para colorir.

Brincadeiras à parte, o fato é que a febre dos livros de colorir para adultos movimentou o mercado editorial brasileiro. Segundo uma publicação da revista Época Negócios, esse gênero chegou a alcançar, no auge do fenômeno, entre os meses de abril e maio, 17,34% de todas as obras vendidas no Brasil e 14,21% do faturamento.

A mesma pesquisa aponta, no entanto, que essa febre já passou (já?). O último período de vendas analisado pela Nielsen (18 de maio a 14 de junho) mostra que a participação de vendas deste nicho caiu para 10,58%. Já  a do faturamento foi para 8,23% do total.

Não tenho nada contra livros de colorir, muito pelo contrário, acho que é uma atividade saudável e relaxante, só fico com o pé atrás quanto ao fato de virar febre; afinal, a febre é um sinal de alerta. 

Acabo de ler uma notícia desconcertante sobre um livro infantil para colorir os ataques terroristas do 11/9. O livro teria sido publicado pela Really Big Coloring Books, editora que o apresentou como "uma ferramenta pedagógica para os pais explicarem aos filhos os fatos ocorridos". Entre os desenhos contidos no livro, destaca-se um que mostra Osama Bin Laden usando como escudo uma mulher vestida com burca para proteger-se de um militar que atira contra ele. Outro desenho mostra um homem que chora enquanto observa os retratos de vítimas do atentado.  O livro recebeu fortes críticas, principalmente da comunidade muçulmana, por estigmatizar a todos os praticantes dessa religião. 

Parece brincadeira de mau gosto, mas a notícia foi publicada pelo jornal britânico The Guardian (http://www.theguardian.com/books/2011/aug/31/9-11-children-colouring-book-muslims).

Deixando as bizarrices de lado, colorir também pode ser uma ferramenta lúdica para as aulas de língua estrangeira, por exemplo, para aprender o nome das cores. Se o aluno não aprender a língua, ao menos desenvolverá suas habilidades artísticas... (não necessariamente, diga-se de passagem). No pior dos casos, se ele não aprender a língua nem desenvolver suas habilidades artísticas, poderá relaxar... (ou não!).