quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Resenha da Suma Gramatical da Língua Portuguesa, de Carlos Nougué

Queridos leitores:

Há alguns dias não publico nada, estive compenetrada na leitura da Suma Gramatical da Língua Portuguesa, de Carlos Nougué, e agora que terminei, aqui estou para registrar minhas impressões.

Primeiramente devo confessar que, aos 41 anos de idade, é a primeira vez que leio cabalmente uma gramática, e quando digo cabalmente, digo-o no sentido literal: sinopse na sobrecapa, informações editoriais, dedicatória, apresentação, prólogo, agradecimentos, dados do autor, notas de rodapé, tudo mesmo.

Vocês pensam que foi uma tarefa árdua?

Não mesmo! Li-a com o mesmo prazer com que li muitos clássicos da literatura, saboreando cada palavra, tentando apropriar-me de cada informação e de cada exemplo primorosamente escolhidos. O texto em si, já é uma lição de elegância e de clareza, dois aspectos importantíssimos a qualquer obra, sem esquecer o caráter didático. Quando digo didático, não me refiro a explicações reducionistas, a macetes tão fáceis de decorar quanto de esquecer, mas a explicações detalhadas, com sólida fundamentação teórica, a analogias usadas no intuito de facilitar a compreensão dos assuntos mais complexos.

Um dos diferenciais desta obra é seu cunho filosófico, guiado pela racionalidade, pela lógica, e não pela intuição ou pela preferência dos falantes, ou ainda, pelos cânones literários.  Outro diferencial é a defesa da norma sem qualquer melindre, pois este é o fim da gramática: o de normatizar a escrita e, consequentemente, a fala, a fim de que a comunicação possa dar-se de forma correta e eficiente. Para que o homem possa comunicar com exatidão aquilo que pensa e sente, e para que possa compreender o que lê e ouve.

Apesar de ser normativa e de defender a tradição, o autor discrepa em alguns pontos com outros gramáticos; porém, quando o faz, justifica-o com sólidos argumentos, como também reconhece que há controvérsias em que não é possível chegar a uma solução única e incontestável, quando se trata de uma “fronteira turva”, usando suas próprias palavras.

Como arte estritamente normativa, as normas são dadas na tentativa de estabelecer limites, tendo em vista o fechamento de paradigmas com a formulação de regras o mais abrangentes possível e evitando, quando possível, as exceções. A exposição do conteúdo segue uma ordem lógica e sequencial, assim, expõe-se primeiramente a definição, por exemplo, dos pronomes, a seguir, sua classificação e função sintática como complementos verbais e, finalmente, sua ordenação a um uso correto, por exemplo, na colocação pronominal. Alguns assuntos são abordados em diversas partes do livro, seguindo um modelo helicoidal ou espiral, que permite retomar um assunto sempre que for conveniente.

Em minha opinião, são pontos fortes da obra: na parte que trata da formação das palavras, a tentativa de distinção entre palavra composta por justaposição e locução; na parte que trata das classes gramaticais, a explicação sobre a relação entre substantivos e adjetivos, por exemplo, quando o substantivo se usa em lugar de adjetivo; ainda na parte das classes gramaticas, a explicação dos pronomes é riquíssima, sobretudo a dos pronomes relativos; também a dos verbos e a das vozes verbais, onde se faz uma distinção importantíssima entre figura e significado que permite uma visão mais ampla e profunda das funções das palavras. Toda a parte da sintaxe é muito elucidativa. Outro ponto altíssimo é a parte que trata da concordância verbal, bem como a que trata do uso da vírgula. Enfim, é difícil e injusto destacar somente alguns pontos.

Sem dúvida alguma, é uma obra que deve estar sempre à mão daquele que se preocupa em falar e escrever corretamente de modo a preservar nossa língua. E àqueles que acreditam que a língua é com um rio, puro fluxo, que deve fluir sem regras que a dirijam, e que ainda se perguntam: para que a gramática?, eis a resposta do autor:

“Para fazer que nossa língua seja rio, sim, mas rio que graças aos diques e ao curso que lhe demos ajude a atingir a foz da Sabedoria”.

Assim, ao contrário do que se diz, a gramática não está aí para oprimir ninguém, muito pelo contrário, é mediante o uso correto da língua que as pessoas podem ter acesso igualitário ao conhecimento e que podem fazer entender-se claramente, sem ruídos ou ambiguidades. Afinal, de que vale ter voz e não ser compreendido?

Um comentário:

  1. Interessante. Vou ler e depois me manifesto, porque sinceramente, não concordo com a reforma que foi feita.

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