terça-feira, 14 de junho de 2016

Como aprendi o português


Acho que o que mais me atrai na tradução é o intercâmbio cultural, a possibilidade de transportar para outra língua outro modo de pensar, de ver o mundo. Estou lendo o livro “Como aprendi português, e outras aventuras” do tradutor e intelectual húngaro-brasileiro  Paulo Rónai, o que me levou a refletir sobre minha própria experiência de aprendizagem do português.

Primeiro contato

Minha língua materna é o espanhol, nasci na Espanha em 1974, e aos 5 anos de idade fui morar no Paraguai. Três anos mais tarde, em 1983, vim com minha família para Foz do Iguaçu, no Brasil, e logo entrei na quinta série sem saber falar o português, aprendi "na marra"... observando, escutando, falando, errando, arriscando, e sentindo na pele o estranhamento e a desconfiança dos outros diante de alguém que é visto como um invasor, um estranho.

Por isso a importância da tradução: por permitir que pessoas que não compartilham as mesmas experiências culturais possam compreender umas às outras.

Lembro-me bem do encantamento do primeiro contato com a nova língua, da admiração diante de letras como o “cê-cedilha” e de sinais gráficos como o “acento circunflexo” (chapeuzinho) e a “crase”, que não existem no espanhol. Também me lembro do divertimento diante da nasalização do do ditongo "ão" e do sentimento de frustração por não conseguir reproduzir corretamente alguns fonemas como “z”, “j” e “g” (zero, jeito, sujeira, gincana). Meu pai, alemão, nunca conseguiu dominar o português, ele dizia que soava como um zumbido “zum, zum, zum”, provavelmente devido à abundância dos fonemas fricativos. Outra coisa que chamava a atenção dele era o uso abundante de diminutivos, uma característica marcante da afetividade do brasileiro.

Meu sentimento inicial diante do português foi de encantamento. Qual não foi minha surpresa ao saber que meu nome, Diana, pronunciava-se diferente no Brasil, com o 'd' africado e o 'a' nasalizado /Dziãna/. E a dificuldade ao distinguir a pronúncia das vogais “e” e “o” abertas e fechadas? Quantas vezes ouvi risadinhas quando eu pronunciava fechada a vogal que deveria ser aberta (“janêla”, “atlêta”, “canêla”,etc.), ou quando ao contrário, eu pronunciava aberta a vogal que deveria ser fechada (“clóro”, “ caróço”, “póvo”, etc.)? Que difícil!!! 

Também ocorreram muitas situações engraçadas e constrangedoras com os famosos "falsos amigos" e com o "aprendizado por dedução". Uma das primeiras palavras que aprendi ao chegar ao Brasil foi "prato"; e eu, com toda minha ingenuidade pueril, pensei "Que fácil, se "plato"é "prato", então "planta" é "pranta", é só trocar o 'l' pelo 'r'!" E assim, saí correndo toda contente para convidar minha vizinha para andar de "bicicreta"...

Do encantamento inicial, passei a sentir certa decepção por não compreender todas as palavras, apesar de meu vocabulário aumentar todos os dias, ainda havia tantas e tantas palavras totalmente desconhecidas e misteriosas para mim. Quantas vezes me faltou a palavra adequada para expressar meus sentimentos?

Demorei muito para ficar razoavelmente satisfeita com meu nível de proficiência, sempre fui muito exigente e curiosa e acho que essas duas características me ajudaram muito, pois não deixaram me acomodar.

Aprendizagem formal

Li muito, estudei bastante e fiz três anos completos de Letras Língua Portuguesa, mas não concluí o curso porque casei e, como meu marido é militar do exército, fomos transferidos para o interior do Amazonas, para uma cidade onde então não havia faculdade, Humaitá. Lá trabalhei como professora temporária de espanhol, português e literatura brasileira em dois colégios estaduais, com 11 turmas e cerca de 400 alunos. Uma experiência fascinante que contribuiu muito para meu aprendizado.

Com o crescimento de nossos dois filhos, e na ocasião de nossa terceira transferência, desta vez para Florianópolis, finalmente pude retomar meus estudos. Prestei vestibular novamente e me formei em Letras Língua e Literaturas Espanholas, na UFSC. No início da faculdade, fiz estágio como tradutora numa empresa de tecnologia, que me contratou e onde trabalho até hoje. Após a universidade, cursei uma pós-graduação em Tradução de Espanhol pela UGF. Também fiz o curso “Para Bem Escrever na Língua Portuguesa”, ministrado pelo professor e tradutor Carlos Nougué, um estudo avançado que abordou questões espinhosas da gramática da língua portuguesa, tais como infinitivo flexionado, crase, colocação pronominal, sintaxe de concordância e de regência, vozes verbais, pronomes integrantes e relativos, preposições e conjunções e outras tantas. Sem dúvida, devo muito a este grande mestre.

Aspectos culturais e simbiose

Não queria me estender tanto, o ponto onde eu queria chegar é que, para conhecer intimamente a língua e a cultura de um povo, são necessários muitos anos de convivência e de interação.

A língua é a expressão máxima da cultura de um povo e para mergulhar nesse universo, não basta aprender a gramática, dominar a fonética, a morfologia, a sintaxe, a semântica, os recursos de estilo. É preciso ir além, há que colocar-se na pele do outro e conhecer as características peculiares à sua cultura. 

Para conhecer intimamente o português brasileiro, é preciso conhecer as diversidades regionais, as manifestações artísticas populares, as diversas raças que formaram o povo brasileiro: o índio, o negro, o imigrante e as diversas figuras humanas nacionais e regionais como o sertanejo, o cangaceiro, o gaúcho, o bandeirante, etc. É preciso conhecer a história e a geografia, a literatura, os movimentos intelectuais e artísticos; as crenças, superstições, lendas; o sistema de governo, a legislação e as instituições; os costumes sociais e familiares; os meios de comunicação; os sotaques, as comidas, os esportes, a música, as vestimentas e indumentárias, as religiões, as danças, enfim: conhecer o real e o imaginário de um povo é tarefa para uma vida inteira. Algum dia eu chego lá...

Hoje em dia, acho que ocorreu uma espécie de simbiose entre minha língua materna e o português, as duas vivem juntas e se beneficiam; a segunda foi chegando de mansinho e ocupou o lugar da primeira em meus pensamentos, em meus sonhos e em minhas orações.

4 comentários:

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    1. Gracias, Marcela, me alegro de que te haya gustado ;-)

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  2. Ha sido una experiencia muy simpática. Voy a respasarla a mis hijos, que pasaron por los mismos conflictos.
    Gracias por compartir.

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    1. ¡Gracias a ti por leer el artículo, Izabel, y por el comentario tan amable! Un abrazo.

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