segunda-feira, 4 de julho de 2016

Traduzir receitas e cardápios

Fonte: http://panypeter.blogspot.com.br/
Simpático blog com receitas ilustradas

Aparentemente traduzir receitas é fácil, afinal, é só traduzir o nome dos ingredientes a forma de preparo e pronto!

— Ah, é?

Apesar de não ser minha especialidade, já traduzi algumas receitas, cardápios e outros textos ligados à nutrição, e pude perceber o quão complexa é essa tarefa, que implica uma série de aspectos, como: a) escolher o estilo de abordagem; b) encontrar a tradução adequada para os nomes de ingredientes regionais; c) identificar e encontrar informação sobre tecnicismos; d) esquivar-se dos falsos amigos ou falsos cognatos; e) considerar as medidas e equivalências; f) usar a criatividade para suprir lacunas em nomes de pratos e receitas; g) considerar o público-alvo da tradução: Estados Unidos, Espanha, América Hispânica?; h) cuidado com as traduções literais; entre outros. Enfim, vamos por partes:

a) escolher o estilo de abordagem;

As receitas culinárias são textos instrucionais, ou seja, descrevem procedimentos para preparar uma iguaria, por isso é fundamental que o texto seja objetivo, claro, sucinto e que não permita ambiguidade. Ao traduzir uma receita para o espanhol, você pode escolher entre: uma abordagem impessoal, utilizando o pronome “se” e o verbo em terceira pessoa (se corta en rodajas, se añade la leche, se deja enfriar, etc.) ou usando o infinitivo (cortar en rodajas, añadir la leche, dejar enfriar, etc.); ou uma abordagem pessoal, com os verbos em primeira pessoa do plural (cortamos en rodajas, añadimos la leche, dejamos enfriar, etc.) ou conjugando os verbos na segunda pessoa do singular do modo imperativo, “” (córtalo en rodajas, añade la leche, deja que se enfríe, etc.), ou ainda, usando o pronome de tratamento “usted” (córtelo en rodajas, añada la leche, deje que se enfríe, etc.). Muitas vezes essa escolha não dependerá do tradutor, mas sim do cliente.

b) encontrar a tradução adequada para os nomes de ingredientes;

Como se diz em espanhol “açaí”, “paçoca de amendoim”, “tapioca”, ou então, como se diz em português "paella", "turrón", "gazpacho", etc.? Quando se trata de comidas típicas ou de ingredientes regionais, a melhor opção é manter o termo original, acompanhado de uma descrição. 

Exemplos: 
açaí”, fruto de una palmera silvestre brasileña del cual se extrae un concentrado de color morado
paçoca de amendoim”, golosina brasileña que se obtiene al amasar harina de cacahuete con azúcar y manteca y que se deshace en la boca; 
tapioca, es la fécula de la yuca, con la cual se suelen hacer unas tortillas planas que se sirven con rellenos dulces o salados
"paella", prato típico espanhol à base de arroz, açafrão e frutos do mar.
"turrón", doce tradicional espanhol em forma de tablete, feito de amêndoas, pinhões, avelãs ou nozes torradas e misturadas com mel e açúcar.
"gazpacho", sopa fria espanhola à base de tomate, pimentão, azeite, vinagre, alho e sal, típica de Andaluzia, região do Sul da Espanha.
Como deu para ver nem sempre é possível descrever uma comida regional com poucas palavras.

Outros ingredientes ou nomes de comidas já são mais conhecidos e até apresentam versões castelhanizadas, como por exemplo, a caipiriña e a picaña.

c) identificar e encontrar informação sobre tecnicismos;

Flambar (flambear, flamear), abafar (tapar), caramelizar (caramelizar, acaramelar), marinar (marinar), cozinhar em banho-maria (cocinar en baño maría), al dente (é uma expressão italiana, não precisa traduzir), ao ponto (al punto), besuntar (untar), branquear (blanquear), calda em ponto de fio (almíbar en punto de hilo), etc. Todos esses termos constituem tecnicismos, isto é, descrevem técnicas, procedimentos e aspectos especializados que fazem toda a diferença e cuja tradução errada pode levar ao fracasso da receita. Também é importante conhecer o nome dos instrumentos utilizados: coador (colador), ralador (rallador), funil (embudo), peneira (tamiz), processador (processador), espremedor (exprimidor), moedor (picadora), pilão (mortero), espátula (espátula), descaroçador (deshuesador), etc. As variedades de arroz, massas, pães, farinhas e temperos, as formas e os pontos de cozimento (jugoso, medio cocido o al punto, bien cocido, etc.). Para encontrar a tradução desse tipo de termos, devemos consultar literatura especializada: glossários e sites da área, livros de receitas, dicionários ilustrados, etc.

Devemos considerar ainda as especificidades da língua-alvo. Por exemplo, no Brasil o termo “fatia” se aplica tanto ao pão de forma quanto ao pepino ou ao rosbife, já na Espanha, temos termos mais específicos para cada um desses produtos, assim, diz-se “una rebanada de pan de molde”, “una rodaja de pepino” e “una loncha de rosbif”.
Também é importante pesquisar os nomes dos cortes das carnes, peixes, aves, etc. A picanha, por exemplo, é um corte de carne típico brasileiro, em espanhol, chama-se “tapa de cuadril”, mas também se usa a versão castelhanizada “picaña”. Na Argentina, aprecia-se muito o “bife de chorizo”, que é um corte tradicional retirado do miolo do contrafilé em fatias grossas de aproximadamente 400 gramas.

d) esquivar-se dos falsos amigos ou falsos cognatos;

Vejamos uma pequena amostra de alguns falsos amigos encontrados no âmbito gastronômico: aliñar (condimentar), bizcocho (bolo simples), tarta na Espanha ou torta na Argentina (bolo recheado ou torta, é complicado!* veja a seguir a explicação detalhada), empanada (pastel), pastel (bolo ou doces de confeiteiro mais elaborados), estofado (refogado), pasta (massa), postre (sobremesa), sobremesa (tempo dedicado à conversa após a refeição), salsa (molho), exquisito (saboroso), pelado (descascado), tapas (petisco), mala (ruim), copa (taça), taza (xícara), vaso (copo), salada (salgada), ensalada (salada), propina (gorjeta), berro (agrião), cacho (pedaço), cubierto (talher), grasa (gordura), remover (mexer), rico (delicioso), etc.

Observação: em espanhol se diz “olla a presión” e não “olla de presión”; observar também os gêneros dos substantivos (o sal, em espanhol, é uma palavra feminina: la sal). 
Gramas, em espanhol, são gramos; e quilos, geralmente se escreve com ‘k’, kilos. Embora, existam as duas formas, com k e com q, recomenda-se usar a forma com ‘k’.

*A discussão sobre “tarta”, “pastel” e “torta” é bastante complicada... basicamente na Espanha se chama “tarta” tanto nosso bolo recheado (ex.: bolo de morango com nata) quanto nossa torta de massa fina assada recheada com creme (ex.: torta de limão). Os bolos mais elaborados ou os doces de confeitaria (ex.: com massa folhada) também podem ser chamados de pasteles. Já na Argentina, Uruguai e Paraguai, a “tarta” chama-se “torta” ; e ospasteles”,masas finas”. No Uruguai e na Argentina também existe a ‘torta frita’ que é uma espécie de panqueca achatada frita polvilhada com açúcar servida para acompanhar o “mate” (chimarrão). Outra diferença é que em Uruguai, Argentina e Paraguai  chama-se “crema de leche” o que os espanhóis chamam “nata”. Assim, o nosso “bolo de morangos com nata” seria “tarta de fresas con nata” na Espanha, e “torta de frutillas con crema” em Argentina, Uruguai e Paraguai. Complicado, não?

e) considerar as medidas e equivalências;

Felizmente hispanófonos e lusófonos usam o mesmo sistema de medidas, mesmo assim, é importante observar a tradução dos utensílios e parâmetros utilizados como medidas: cucharita, cuchara sopera (cucharada), cucharón, taza, vaso, botella, una rama, una pizca, etc.

f) usar a criatividade para suprir lacunas em nomes de pratos e receitas;

Como traduzir, por exemplo, “pavê nevado” ao espanhol, sendo que não existe o substantivo “pavê” nem o adjetivo “nevado” para referir-se à cobertura de claras em ponto de neve? Use a criatividade e procure um nome que seja ao mesmo tempo descritivo e apetitoso. Uma vez que você leia a receita e conheça os ingredientes, poderá encontrar uma solução como “Torta helada/Postre de galletas de champaña cubierta con merengue”.

Ou para traduzir nomes de pratos: Ensalada de escarola con ventresca de bonito y romesco (salada de endívia com barriga de atum e romesco); Montadito con chorizo y tortilla española (aperitivo de linguiça defumada, servida sobre torrada e omelete de batatas fritas).

g) considerar o público-alvo da tradução: Estados Unidos, Espanha, América Hispânica?

Ao traduzir para o espanhol é fundamental ter em conta os destinatários do texto-alvo. Vejamos, por exemplo, alguns termos do âmbito culinário que possuem versões diferentes na Espanha e na Argentina. 

Como a culinária é parte inerente da cultura de uma comunidade, também vale a pena informar-se sobre as comidas típicas e os hábitos alimentares dos países em questão, por exemplo, na Espanha é comum o consumo de carne de coelho e frutos do mar, também tem forte influência da culinária árabe, os horários das refeições são diferentes (almoço entre 14 h e 15 h /jantar às 22 h), a culinária argentina tem forte influência italiana e também consome muita carne bovina e, assim como os brasileiros, apreciam o churrasco especialidade da gastronomia gaúcha. O churrasco é temperado com “chimichurri”, um molho bem temperado à base de salsinha, orégano, alho, vinagre, pimenta calabresa, azeite e sal. Esse molho também serve para temperar o “choripán”, linguiça assada servida no meio do pão, etc.

Espanha = Argentina (Brasil).
barbacoa = asado a la parrilla (churrasco);
plátano = banana (banana);
fresa = frutilla (morango);
guisantes = arvejas (ervilhas);
maíz = choclo (milho);
melocotón = durazno (pêssego);
nata = crema de lecha (creme de leite);
piña = ananá (abacaxi);
judías = frijoles, porotos (feijão);
cacahuete = maní (amendoim);
patatas = papas (batatas);
calabaza = zapallo (abóbora);
cruasán ou “croissant” = medialuna (croissant);
refresco = gaseosa (refrigerante);
zumo jugo (suco);
tarta = torta (bolo recheado);
lima = limón (limão); etc.

h) cuidado com as traduções literais.

Nunca é demais lembrar o perigo de traduzir literalmente, palavra por palavra. A “castanha do Pará”, por exemplo, não é “castaña del Pará”, mas “nuez del Brasil”; por outro lado, a “castanha de caju” não é “nuez del caju”, mas “anacardo”. Assim como "cheiro verde" não é "olor verde", mas "perejil". A tradução de "niños envueltos" também não é "crianças embrulhadas", mas "charuto de carne", que pode ser enrolado com folha de repolho, ou parreira, segundo a tradição árabe. "Cupim ao molho madeira", em espanhol, não é "Termita en salsa madera", apesar de a "termita" ter tudo a ver com madeira... O cupim é outro corte de carne tipicamente brasileiro — a corcova do gado zebu —, e poderia ser traduzido como "joroba" ou "giba", mas sugiro deixar "cupim" como referência e acrescentar a descrição.

Deu para ter uma ideia da dificuldade, não? 

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