terça-feira, 11 de novembro de 2014

Dificuldades no uso dos pronomes relativos I



Hoje quero falar sobre um problema que observo constantemente nos textos que reviso ou traduzo e que obscurece o significado do texto: o mau uso dos pronomes relativos. Como o assunto é muito espinhoso, vou dividi-lo em vários artigos.


A maioria dos problemas relacionados à escrita decorre da tendência atual de eliminar a gramática do ensino de línguas, privilegiando a comunicação em detrimento da norma culta. Essa abordagem tem origem na linguística, ciência que estuda a linguagem como fenômeno social e para a qual não existe o erro; o que existem são registros. 

Um registro, seja ele qual for, está ligado ao ambiente linguístico do falante, que evoca grupos sociais, regiões, situações específicas etc. O fato é que essa tendência vêm dificultando o ensino do registro formal, da chamada língua-padrão ou língua-culta. Assim a língua é abandonada cada vez mais ao deus-dará, à deriva, ao sabor dos ventos e das correntes… Mas isso é assunto que dá muitos panos para manga e não vou aprofundá-lo aqui.


O uso correto dos pronomes relativos é muito importante, já que eles constituem elementos de coesão, pois servem para representar nomes já mencionados anteriormente e com os quais se relacionam. Quando são usados de forma incorreta prejudicam o fim primordial da língua que é a comunicação clara e eficiente. 

De modo geral podemos dizer que a característica principal desses pronomes é sua função referencial: assim, o ponto de partida para a identificação do relativo que devemos usar é o antecendente, ou seja, o termo a que o relativo se refere e que desejamos recuperar.


Os pronomes relativos dividem-se em variáveis (o/a qual, os/as quais, quanto/a, quantos/as, cujo/a, cujos/as) e invariáveis (que, quem, onde).



A seguir, alguns problemas relacionados ao uso do pronome relativo CUJO, esse dito-cujo.



Muitas pessoas simplesmente fogem desse pronome por achá-lo complicado ou por não saber como usá-lo. Este pronome e suas variações: cuja, cujos e cujas, além de retomar o termo antecedente, estabelece com esse termo, grosso modo, uma relação de posse, como se contivesse a preposição “de”. 

Vejamos um exemplo:



O livro cujas páginas foram arrancadas relata um romance proibido.



Na frase acima a expressão “cujas páginas” equivale a “páginas do livro”. O pronome “cujo” deve concordar em gênero e número sempre com o termo posterior, ou melhor, com a coisa possuída. Para compreender melhor o uso desse pronome podemos desdobrar a frase em duas orações:

(1) As páginas do livro foram arrancadas. 
(2) O livro relata um romance proibido.


Podemos esquematizar a construção da seguinte forma:


Possuidor + pronome cujo/a (cujos/as) + coisa possuída

O livro + cujas +páginas…


Observe que o pronome “cujo” concorda em gênero e número com o termo posterior, a coisa possuída: “cujas páginas”.


Normalmente, o que encontraríamos por aí seria algo do tipo:


O livro que as páginas dele foram arrancadas relata um romance proibido. ERRADO

ou ainda:
O livro que as páginas foram arrancadas relata um romance proibido. ERRADO



Vejamos outros exemplos de usos incorretos e suas respectivas correções:



A casa que as janelas foram quebradas pertenceu a um criminoso. ERRADO

A casa cujas janelas foram quebradas pertenceu a um criminoso. CORRETO



O grande Machado, que sua obra é imortal, também foi um tradutor. ERRADO

O grande Machado, cuja obra é imortal, também foi um tradutor.
CORRETO
Os motoristas que as carteiras estavam vencidas foram multados.
ERRADO
Os motoristas cujas carteiras estavam vencidas foram multados. CORRETO


Outro problema no uso do cujo é quanto à regência verbal, ou seja, quanto ao uso das preposições que acompanham o verbo. Vejamos um exemplo:



O livro cujo autor me refiro é um sucesso de vendas.
ERRADO

O verbo referir exige o uso da preposição “a”, pois quem se refere, se refere “a” algo ou “a” alguém. Assim a frase correta seria:

O livro a cujo autor me refiro é um sucesso de vendas.
CORRETO



A moça cuja mãe conversei é estrangeira. ERRADO

O verbo conversar exige a preposição “com”, pois quem conversa, conversa “com” alguém. Assim, a construção correta é:

A moça com cuja mãe conversei é estrangeira.
CORRETO



O jornal cuja redação enviei uma carta não a publicou.
ERRADO

O verbo enviar pede preposição “a” ou “para”, pois quem envia, envia algo “a” ou “para” alguém. Assim, a construção correta é:

O jornal para cuja redação enviei uma carta não a publicou.
CORRETO

A padaria cujos bolos gosto fechou.

O verbo gostar pede preposição “de”, pois quem gosta, gosta "de" algo ou "de" alguém. Assim, a construção correta é:
A padaria de cujos bolos gosto fechou.
 

Agora veja o seguinte exemplo:

Américo Vespúcio, navegador italiano em cuja homenagem foi nomeado o continente americano.
CORRETO
Neste caso, quem nomeia algo o faz “em” homenagem a alguém.

 

Para finalizar:

O pronome relativo cujo exerce a função sintática de adjunto adnominal e nunca se deve usar artigo depois dele.


Quanto à expressão “dito-cujo”, ela serve para referir-se a alguém de quem já se falou, quando não se quer, não se sabe ou não se pode dizer seu nome, equivale a fulano, sujeito. Essa expressão varia em gênero e número: ditos-cujos, dita-cuja, ditas-cujas.

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