sexta-feira, 29 de maio de 2015

Personagens célebres cujos nomes viraram adjetivos

Você já deve ter ouvido alguma vez expressões como: amor “platônico”, plano “maquiavélico”, aventura “homérica”,  situação “kafkiana”, ironia “machadiana”,  pessoa “cartesiana”, cena “dantesca”, etc. Mas, afinal, o que significam essas expressões?

Alguns pensadores, autores, escritores, filófosos e estudiosos tiveram uma obra tão influente para nossa civilização e com características tão peculiares que seus nomes tornaram-se adjetivos. Além do significado literal, isto é, "àquilo que é relativo ou que pertencente a...", esses adjetivos assumem um sentido figurativo quando aludem os traços característicos do autor, da obra ou, até mesmo, da personagem fictícia como é o caso do adjetivo "quixotesco".

Quando dizemos que um amor é platônico, remetemos ao filósofo grego Platão, para quem o amor deve ser sublime, elevado, espiritual, puro, não físico. Ou seja, um “amor platônico” é aquele amor idealizado, que fica apenas pelo plano espiritual, sem contato carnal ou sexual.

Ao dizer “plano maquiavélico”, remetemos a Maquiavel, historiador e poeta italiano que escreveu o livro O Príncipe e a quem se atribui a frase: "O fim justifica os meios". Inicialmente, chamava-se de maquiavélica a pessoa que era assertiva, firme em seus propósitos. Com o tempo, adquiriu um sentido negativo, e agora o adjetivo designa alguém ardiloso, astuto, que age de forma inescrupulosa. Assim, um plano maquiavélico é aquele engendrado com perfídia, com má intenção.

Quando dizemos “aventura homérica”, referimo-nos a Homero autor grego da Ilíada e da Odisseia, cânones e mananciais da cultura ocidental. No sentido figurado, o adjetivo “homérico” é uma expressão usada como referência a algum fato heroico, grandioso, épico. Quando queremos nos referir a grandes feitos usamos a expressão façanhas homéricas, fatos homéricos, acontecimentos homéricos.

O adjetivo kafkiano remete ao escritor tcheco Franz Kafka, um dos mais influentes na literatura mundial e autor da Metamorfose, obra em que o protagonista se encontra numa situação absurda ao ver-se, de uma hora para outra, transformado num inseto. Em suas obras geralmente o protagonista deve enfrentar situações absurdas, incompreensíveis e angustiantes, por isso o adjetivo "kafkiano" é utilizado justamente para descrever situações assim.

O escritor Machado de Assis, considerado o maior expoente da literatura brasileira, ao analisar psicologicamente as personagens, ele traz à tona todos os defeitos da conduta humana, revelando toda a hipocrisia humana. O humor machadiano é repleto de pessimismo e ironia. Daí, a expressão “ironia machadiana”.

Descartes foi um pensador, autor das obras Discurso do Método e Meditações Metafísicas, onde expressa sua preocupação com o problema do conhecimento. O ponto de partida é a busca de uma verdade primeira que não possa ser posta em dúvida. Por isso, transforma sua dúvida em método para se bem conduzir a Razão e procurar a verdade nas Ciências. Para ele, nada pode ser considerado “a priori” como certo, a não ser uma coisa: “Se duvido, penso, se penso, existo”: “Cogito, ergo sum”, “Penso, logo existo”, ponto de partida da Dúvida Metódica, de onde se constrói todo o seu pensamento. O termo “pessoa cartesiana” ganhou uma conotação pejorativa ao designar uma pessoa sistemática em excesso.

A expressão “dantesco ou dantesca” remete a Dante Alighieri, autor da obra-prima A Divina Comédia.
A primeira parte, “O Inferno”, tem descrições tão pavorosas dos castigos a que seriam submetidos os pecadores depois da morte que o adjetivo "dantesco" passou a ser aplicado a situações extremas e capazes de despertar emoções profundamente desagradáveis, suplícios infernais. Assim, um sonho dantesco ou uma cena dantesca, refere-se a algo horroroso, diabólico, medonho, pavoroso.

Os adjetivos derivados de nomes devem ser escritos sempre com minúsculas.

Os dicionários recolhem vários desses adjetivos e o dicionário da RAE recolhe alguns bastante curiosos, como "voltario" e "anabolena". O exemplo de uso dado pelo dicionário para anabolena é "¡No seas anabolena!", ou seja, não sejas louca como Ana Bolena, mulher de Henrique VIII, rei da Inglaterra.  Neste caso o adjetivo foi formado por aglutinação, ou seja, pela fusão de dois vocábulos para formar uma única expressão.

Quanto ao adjetivo "voltario", remete ao genial filósofo do iluminismo  e escritor francês, Voltaire, autor de Cândido ou O Otimismo. Segundo o dicionário da RAE, o adjetivo serve para designar alguém de caráter inconstante.  



Quanto a Dom Quixote de la Mancha, o célebre personagem de Cervantes, além dar origem ao adjetivo "quixotesco", originou, também, o substantivo "quijote", registrado pela RAE como:

quijote 
m. Hombre que antepone sus ideales a su conveniencia y obra desinteresada y comprometidamente en defensa de causas que considera justas, sin conseguirlo.

O dicionário Houaiss, registra o verbete quixotesco como:
 adjetivo
1 que diz respeito a D. Quixote; próprio de D. Quixote

2 relativo a quixote ou quixotada

3 Derivação: por extensão de sentido.
que é generosamente impulsivo, sonhador, romântico, nobre, mas um pouco desligado da realidade

Ex.: num gesto q., estendeu a capa sobre a poça para ela passar 

4 Derivação: sentido figurado.
característico ou próprio de fanfarrão

Ex.: lançava à turba, aos gritos, desafios q.

Em minha opinião, esta última acepção, não faz jus a nosso amado personagem, já que 'fanfarrão', nas palavras desse mesmo dicionário, é aquele que conta bravatas, que alardeia coragem sem ser corajoso. Ou seja, o oposto de D. Quixote, que enfrentava todos os percalços com paixão e coragem, sempre em busca da justiça.


Dom Quixote, o louco mais lúcido

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