sábado, 26 de dezembro de 2015

Resenha do livro "La invención de Morel", de Adolfo Bioy Casares



Acabei de ler o livro La invención de Morel, do argentino Adolfo Bioy Casares, do qual ainda não havia lido nada e fiquei muito impressionada. 

É uma pena que a leitura não seja um hábito no Brasil, além do pouco valor dado à literatura nacional, também não estudamos a literatura hispano-americana, tão rica, com autores que conseguiram consagrar-se do outro lado do oceano, mas que não conseguem um espaço no vizinho lusófono. Não creio que o problema seja a barreira idiomática, pois temos ótimos tradutores. Acho que o problema é mesmo a falta de estímulo à leitura e a visão da literatura como frivolidade.

É lamentável, porque há sensações que só conseguimos experimentar através da leitura... Enfim, deixemos de lado as lamúrias e vamos direto ao ponto.

Para começar, quero dizer que li o livro em formato eletrônico, no Kindle. Em outra oportunidade pretendo falar da leitura eletrônica e de suas vantagens para aqueles que ainda torcem o nariz, assim como eu o torcia.

Logo ao ler o prefácio, já me chamou a atenção a qualidade do texto e da argumentação, não era um simples prefácio, era “o prefácio”. O prefácio começa registrando o desabafo do escritor Stevenson, autor de “O Médico e o Monstro” (1886), que afirma que o leitor inglês desdenha as peripécias e o romance de aventuras. A seguir, o autor do prefácio refuta o escritor e filósofo, Ortega y Gasset, autor de “La desumanización del arte” (1925); que defende a superioridade do romance psicológico sobre o romance de aventuras, ao afirmar que hoje é muito difícil inventar uma aventura capaz de despertar nossa sensibilidade superior e que o prazer das aventuras seria inexistente ou pueril.

Após defender romance de aventuras, o autor do prefácio conclui seu argumento com a seguinte afirmação “He discutido con su autor los pormenores de su trama, la he releido; no me parece una imprecisión o una hipérbole calificarla de perfecta.”, Jorge Luis Borges.

Um prefácio de Jorge Luis Borges dizendo que a obra é perfeita é mais do que suficiente para deixar qualquer leitor empolgado. De certa forma, o prefácio de Borges está para o gênero novela ciência-ficção, assim como o Prefácio de Cromwell (1827), de Vitor Hugo, está para o drama romântico. Comecei logo a leitura com muita expectativa.

A história é narrada em primeira pessoa por um foragido da justiça, condenado a prisão perpétua, que se diz inocente, vítima de um erro do sistema judicial. Para escapar da condenação, o narrador foge num bote rudimentar até uma ilha deserta, a qual teria sido infestada por uma estranha doença que mata de fora para dentro, o que tornaria o local um refúgio idôneo.

A parte alta da ilha possui umas construções abandonadas, imponentes e misteriosas: um museu com uma biblioteca e um aquário, uma piscina e uma capela. No sótão do museu há um sala misteriosa com paredes azuis e máquinas que ele não sabe para que servem, também há uma bomba d´água e um gerador de energia, há ainda uma construção subterrânea octogonal com câmaras simétricas que remetem a um abrigo antibombas. A rotina na ilha é muito árdua, o protagonista precisa enfrentar constantemente as marés, os animais, as doenças e cuidar da manutenção da bomba e do gerador.

De repente, sua rotina é quebrada pela presença inusitada de um grupo de veranistas que parecem estar ali a passeio. Eles se instalam na parte alta da ilha, no museu. Isso dificulta sobremaneira a vida do fugitivo, que acredita possa se tratar de uma conspiração para prendê-lo; assim, ele se vê obrigado a ficar na parte baixa da ilha frequentemente é inundada pelas marés e a alimentar-se de raízes e bulbos.

Desconfiado, o foragido faz incursões até o alto da ilha e descobre uma mulher misteriosa, de aparência cigana, cujo nome é Faustine. Todos os dias ela se senta no penhasco para observar o pôr do sol, enquanto ele a observa à distância. Esse ritual se repete dia após dia, e o foragido acaba apaixonando-se pela misteriosa mulher. Essa paixão lhe desperta a esperança, e ele passa a se arriscar tentando estabelecer contato, tentando declarar seu amor, mas todas as tentativas são frustradas, pois ela parece ignorá-lo deliberadamente, fingindo que não o vê.

Os misteriosos veranistas realizam atividades repetitivas e monótonas, ouvem as mesmas músicas, repetem os mesmos gestos. Na tentativa de aproximar-se de Faustine, o fugitivo tem alguns encontros abruptos com outros membros do grupo, mas ninguém esboça reação alguma, eles parecem não vê-lo. Assim, ele chega a duvidar da existência desses visitantes, desconfiando de que sejam alucinações provocadas pelas ingestão dos bulbos e raízes. O prófugo não consegue entender essa estranha situação e percebe que há um mistério a ser desvendado.

Até que chega o dia da grande revelação. Ele presencia às escondidas uma reunião convocada pelo líder dos visitantes — o inventor Morel —, este faz uma surpreendente confissão ao restante do grupo: ele teria criado um invento capaz de desafiar a morte.  O nome Morel é uma homenagem à obra de H. G. Wells, A Ilha do Doutour Moreau.

Narrado com maestria, num clima permanente de alucinação e mistério, este romance de ficção científica e policial é comparável a um dos melhores mestres do gênero: Edgar Allan Poe. Desde sua primeira publicação, em 1940, deu origem a diversas adaptações e recriações artísticas, entre elas, o célebre seriado televisivo Lost.

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