sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Tradução: Logocentrismo x Descontrutivismo

No âmbito da tradução há duas visões antagônicas conhecidas como o Logocentrismo e o Descontrutivismo, a primeira está associada a conceitos como tradução literal, fidelidade e objetividade, a segunda está associada a conceitos como tradução livre, infidelidade e subjetividade.

Basicamente, o logocentrismo afirma que o texto está centrado na palavra, que ela tem essência e vive no mundo das ideias, que a palavra é fixa, eterna, imutável e que encerra um significado único. Esta teoria vigorou até o fim do séc. XIX e está muito ligada ao racionalismo Platónico e ao empirismo Aristotélico, pensamentos universalistas, que acreditam que aquilo que é bom para um é bom para todos. Para essa corrente, a tradução consiste na reprodução, na transferência de significados de um código linguístico para outro, prevalecendo a preocupação com a forma.

O Descontrutivismo surgiu na década de 60, no período de pós-guerra em que as grandes verdades e convenções estabelecidas são questionadas. Após os horrores da Segunda Guerra, o pensamento positivista e racionalista entra em decadência. A desilusão, a frustração e a incerteza tomam conta da humanidade e manifestam-se na arte e no pensamento pós-moderno, materializado em Nietzsche e o niilismo que resumidamente é a negação do sentido da existência. Na literatura o niilismo está presente em obras como Crime e Castigo de Dostoievski, Metamorfose de Kafka e O Estrangeiro de Albert Camus.

Mas, voltando ao descontrutivismo, o texto não é mais visto como uma unidade estável, mas como uma teia de significados que se cruzam e dialogam com outros textos, o signo não é estático, e sim dinâmico, variando de acordo com o contexto sócio-histórico-cultural de determinado texto. O descontrutivismo introduz conceitos como interculturalidade, plurissignificação, dialogismo, intertextualidade. A tradução passa a ser vista como uma reescritura, uma recriação. Assim, surge o conceito de tradução como “palimpsesto” (papiro ou pergaminho usado na antiguidade cujo texto primitivo era raspado, para ser novamente utilizado). Segundo Aguiar (2000) “é perceptível na tradução, a noção de que nada existe por trás da linguagem, exceto seu próprio esquema de infinita regressão: o texto traduzido nada mais é do que uma tradução de uma tradução anterior e assim sucessivamente.”

Acredito que as duas teorias, apesar de antagônicas, são complementares entre si, pois o tradutor deve considerar ao mesmo tempo o significado e a forma do texto, e procurar preservar as ideias do original. Devemos ser cautelosos ao falar de fidelidade. Fidelidade a quem? Ao texto? Ao autor? Ao leitor? À língua de partida? À língua de chegada?...

Recomendo um texto muito interessante que propõe uma visão integrada das teorias da tradução: “Teorias da tradução, uma visão integrada” de José Pinheiro de Souza, disponível em: http://www.revistadeletras.ufc.br/rl20Art09.pdf.

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